É muito comum ouvirmos que o cérebro deve dominar o coração e que diante dos problemas que se oferecem à consideração dos homens, agirá melhor aquele que puser de lado o sentimento e deixar trabalhar exclusivamente o raciocínio.

Esquecem-se os que assim se pronunciam de que o sentimento tem raízes mais profundas no Ser, ao passo que o pensamento procede muitas vezes de operações mentais, que associam ideias recebidas de fora, ou elaboram, com estas, certas ideias aparentemente originais e naturais, porém, na realidade, estranhas às faculdades criadoras que residem no Homem.

É preciso ter perdido inteiramente o poder de intuição, ter se tornado um ente impermeável às misteriosas irradiações identificadoras dos outros seres e assinaladoras dos fatos humanos, dos fatos sociais produzidos pelo consórcio de um ou mais indivíduos, para se proclamar a inutilidade do sentimento como chave única e absoluta que se oferece à solução dos problemas de qualquer ordem na sociedade dos homens.

O pensamento pode originar-se, como dissemos acima, de simples operações mentais associando ideias recebidas de fora, através de leituras ou de audições presentes ou passadas; esse pensamento é morto, não possui capacidade irradiadora, não suscita estados de espírito novos, mediante os quais novos pensamentos vão sendo criados, com igual força expansiva e vivificante. Mas pode dar-se o fato do pensamento fluir de um sentimento e, nesse caso, traz consigo todo o potencial da energia criadora. Transmite-se, multiplica-se, cresce como floresta mágica onde a seiva vital se exprime em renovadas formas de magnificência esplendente.

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Porque o sentimento, bem analisado, é um pensamento vivo. É um pensamento que brotou das zonas insondáveis do Ser Humano, onde reside o conhecimento profundo do “eu” e por conseguinte a compreensão perfeita do “outro”. Pois sendo o Homem a medida do Homem, ninguém poderá avaliar quem é o “outro” sem que saiba quem é “ele próprio”; e a própria consciência de “si mesmo” depende da comparação que o “ego” estabelece entre o que é e o que são os outros, ou o “alter”.

O “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates jamais será possível se esse conhecimento não provir do sentimento. Mas o sentimento implica na posse que cada um tem sobre si e esta posse depende de uma definição, a qual será impossível sem que o “ego” conheça o “alter” e o defina.

Como poderei conhecer-me, se não conhecer os meus semelhantes? E como conhecerei os meus semelhantes, se não me conhecer a mim mesmo? Nem é possível conhecer-me sem conhecer os outros, nem é possível conhecer aos outros se não me conhecer a mim mesmo. Não me posso valer, para isso, da experiência alheia, se essa experiência não se harmonizar com a minha própria experiência. Nem posso fiar-me exclusivamente na minha experiência pessoal, se não aferi-la pela experiência dos outros.

O pensamento, portanto, se não passar de simples elaboração mental, de colcha de retalhos de ideias correntes, de manobras do raciocínio sobrepondo-se à realidade viva e profunda do íntimo conhecimento que temos do que se passa em relação a nós próprios e aos nossos semelhantes, será morto, frio, como os cristais, ainda quando, como estes, irradie as cores produzidas pela luz exterior.

Temos ouvido dizer que o pensamento precisa transformar-se em sentimento para poder viver. Mas os pensamentos que expostos por alguém, transformam-se em sentimento de outros, é porque não nasceram do arbítrio dos teorizadores, dos sistematizadores, que submetem ao capricho de um preconcebido artificialismo a conjugação das ideias de que se utilizam. Esses pensamentos que jorram da pena viva dos escritores vivos e da boca viva dos oradores vivos, em palavras vivas de ritmos vivos, antes de se tornarem proposições foram sentimentos.

Sim; porque da morte não se extrai a vida e só o que vive transmite a centelha vital.

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Por isso, esses períodos da História, como o que vivemos, em que uma civilização oscilante se esforça para se manter de pé, em face de um pensamento homicida, porém vibrante de vitalidade sentimental, evidenciam aos nossos olhos um espetáculo de defuntos morais, que outra coisa não são os homens que perderam o contato com a corrente imantadora do sentimento.

E, fato curioso: quanto mais um indivíduo, ou um povo proclama viver pela inteligência, pelo pensamento, fazendo tábua rasa do sentimento, que dizem estúpido ou incapaz de discernir os caminhos das soluções lógicas, mais esse indivíduo ou esse povo se afunda na brutalidade dos irracionais.

“O que temos de fazer” — dizem — “é pôr de lado o sentimentalismo e agir pela cabeça, pelo cérebro, pelo raciocínio, pela razão”. E, assim falando, agem pelos pés, pelos intestinos, pela ardilosidade vulgaríssima dos imbecis, pela irracionalidade.

E isso se deu e se dá em todos os tempos, desde quando o apóstolo São Paulo, na Epístola aos Romanos, diagnosticava os males de então com estas palavras: “dizendo-se sábios, tornaram-se estultos”.

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Quando uma civilização, como esta nossa chamada ocidental, ou rotulada de cristã, entra na visível fase da decadência e da decomposição, costumamos ouvir que ela se acha dominada pelos instintos. Nada mais injusto. Pois os “instintos”, bem examinados, não são maus; é a inteligência, desligada do sentimento, que violenta os instintos, exacerba-os, exaspera-os, deforma-os, fazendo deles, que são bons, um instrumento de depravação e de ruína.

Como poderemos condenar o instinto de conservação, que leva o homem a alimentar-se e a defender-se? Como poderemos execrar o instinto de reprodução, que aproxima os sexos, para os fins da continuidade da espécie? O grande criminoso é a inteligência no instante em que se separou do sentimento, para se ligar diretamente aos instintos e desviá-los dos seus justos caminhos.

“Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam”, ensinou Marco Aurélio baseado no sentimento de que ele era e do que eram os seus semelhantes. E a doutrina cristã vai mais longe, adotando, não essa forma passiva da bondade, mas a forma ativa, ao dizer-nos: “Faze aos outros aquilo que queres que te façam”. Ou na expressão estática do Imperador filósofo, ou na dinâmica do Cristianismo, encontramos uma só base: o conhecimento do “ego” e do “alter”, o fato de — como sugere Gonella — o homem ver-se a si mesmo no outro homem, o que o eleva da simples individuação (que significa isolamento na adesão ao todo), à plana mais alta da personalização (que revela a solidariedade na independência).

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Não foi sem motivo que o Papa, Pio XII, declarou certa vez pedir a Deus, não que o compreendessem, mas que ele compreendesse aos outros.

Que representa esse nobre pensamento, senão o apelo ao sentimento, à capacidade de perceber, avaliar, sentir e julgar os nossos semelhantes, identificados conosco, com as nossas próprias fraquezas, os nossos próprios anseios, aspirações, sonhos, necessidades materiais e espirituais?

Quando todos os homens vivessem pelo sentimento, viveriam mais inteligentemente. Porque a inteligência, sozinha, leva ao mais negro obscurantismo, ao passo que, inspirada pelo sentimento, conduz à mais alta luminosidade do poder criador.

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O estudo da História nos patenteia que todas as grandes criações humanas no campo sociológico ou político efetivaram-se pela força do sentimento. Foi o sentimento que manteve o povo hebreu unido, íntegro, forte, no cumprimento de sua alta missão; o sentimento de Deus e das Promessas, determinando o sentimento nacional incorruptível.

O Império Romano viveu pelo sentimento desde o instante em que as flâmulas vexilárias inscreveram como uma aspiração de domínio universal as quatro letras significativas de um pensamento vivo: SPQR. O Senado, os Quirites exprimindo o modo de sentir do povo romano.

As Cruzadas realizaram-se pelo sentimento, do mesmo modo como, pelo sentimento, fundaram-se as monarquias medievais, conforme tudo comprova nos velhos pergaminhos que ainda hoje podemos ler nos vetustíssimos museus.

Como consequência do próprio sentimento das Cruzadas, desenrolou-se o período das Navegações e das Descobertas; esse sentimento (dilatar a Fé e o Império), traduzia-se na expressão “serviço de Deus e de El Rey” e reproduzia nas atitudes e nos feitos gloriosos aquele espírito lídimo dos paladinos da velha Cavalaria, que desde o século sexto fez ressoar na Europa os grandes episódios cantados pelos trovadores a enaltecer a bravura dos cavaleiros da Távola Redonda e, mais tarde, dos pares de Carlos Magno.

E se foi um sentimento que predominou na Renascença criando a grande arte e abrindo as portas aos tempos modernos foi também um sentimento que determinou o aparecimento das Nações e o esplendor dos Estados, como, mais tarde, a revolução americana e a revolução francesa.

E terá tido outra origem a fase napoleônica, senão um sentimento de grandeza, que criou o fanatismo dos exércitos de Bonaparte até aos paroxismos extremos?

Que foi César, senão um sentimento que se fez História? Que foi Aníbal, senão um sentimento que atravessou os Alpes? E, mais remotamente Alexandre, senão um sentimento que invadiu a Ásia?

Não foi acaso um sentimento que dominou o Novo Mundo e se exprimiu em Bolívar, Washington, Tiradentes, como se exprimia na multidão anônima que marchava ao tropel dos cavalos dos seus infatigáveis heróis?

Que fez o pensamento, sozinho, no mundo? Que coisa realizou? Que acontecimentos importantes provieram dos eleatas ou dos sofistas, de Epicuro ou de Zenon, o estoico?

Valem porventura os filósofos gregos um cordão dos sapatos dos profetas de Israel? Podemos, sequer comparar, em grandeza, Anaxágoras a Isaías, Demócrito a Elias, Protágoras a Moisés, Diógenes a S. João Batista? Que fatos humanos de elevada altitude e misterioso esplendor fizeram gerar aquelas doutrinas nascidas do puro intelecto, em comparação com estes discursos, que retumbam nos séculos como o bramido do mar insondável do sentimento humano?

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Tudo isso vim aqui rememorando para dizer, afinal, que o que falta à nossa Pátria, ao nosso Brasil, neste instante, é a concretização histórica de um grande sentimento nacional e humano.

Sofremos o mal do mundo moderno, esse mal que proveio da dissociação do sentimento e da inteligência, como resultado de um utilitarismo rasteiro e de um intelectualismo racionalista, ambos filhos de pensamento mortos, isto é, de teorizadores, de pesquisadores, de analistas, que fizeram do Grande Sonho a mísera Mosca Azul de que nos fala a poesia melancólica de Machado de Assis.

Pretendemos resolver os nossos problemas humanos, nacionais, históricos, como quem resolve um problema de regra de três, ou de equação algébrica. Submetemos todo o mundo maravilhoso da alma nacional a fórmulas mesquinhas que vamos beber em meia dúzia de teóricos estrangeiros e de utopistas internacionais. Pretendemos, outras vezes, influir no curso da História, trazendo à tela das discussões os temas secundários que, muitas vezes, a nossa miopia denomina questões básicas. Damos mais importância aos corolários que é tudo o que concerne à administração pública, do que ao magno teorema, à suprema questão que reside em sabermos se um pensamento vivo, ou seja pensamento-sentimento, ainda tem possibilidade de existir arrancando das tumbas, redigidos, os defuntos deste vasto cemitério nacional.

E se, erguendo-nos nós ressurretos, podemos influir no sentido de operar a ressurreição dos mortos morais que começam a tresandar a sua putrefação no panorama internacional.

Fala-se em reformas de base. Que reformas serão essas, quando vivemos no meio de cadáveres? O que temos a fazer nesta hora é mobilizar quem está vivo, para desencadear pensamentos vivos. Procurar quem não tenha respeitos humanos, covardias morais, recrutar homens corajosos e portanto capazes de proclamar a revolução do Espírito, começando por dizer que aquilo justamente que afirmamos ser um defeito dos brasileiros, é a sua qualidade máxima, a sua essência vital. Refiro-me ao sentimentalismo do nosso povo, tão ridicularizado pelos que se dizem homens práticos e cuja prática só nos tem trazido desastres sobre desastres.

Urge propomo-nos mobilizar esse vasto sentimentalismo, que eu considero hoje a coisa mais prática, mais necessária, mais urgente, para salvarmos a Nação das garras dos intelectualizantes, de todas as marcas e feitios, que ou a imobilizam, ou a atiram nas garras dos dominadores estrangeiros.

A esse sentimentalismo que ainda acredita em honra, em dever, em altruísmo, em amor à Pátria, à Religião, à Família; a esse sentimentalismo que se comove diante da nossa Bandeira, que ainda cultua os nosso Heróis, que ainda se ajoelha comovido diante dos nossos Altares; a esse sentimentalismo que nos dá o sentido profundo dos destinos nacionais, urge apelar neste momento.

De utilitários, de homens práticos, de mestres de todos os ofícios, de devoradores de tratados, de dispépticos de filosofias indigestas, de reacionários e revolucionários que resolvem todas as questões com um lápis e uma folha de papel, estamos fartos.

Levantemos a legião dos vivos, dos que sentem, dos que se emocionam, dos que vibram, pois eles constituem os portadores dos pensamentos fecundos, que não nasceram das brochuras e das elucubrações das vadiagens intelectuais, mas nas profundezas do sentimento e das forças imortais da alma.