Está desfraldada a bandeira da Grande Revolução. A de 30 não satisfez a angústia brasileira. Ela não chegou mesmo a ser uma Revolução. Trouxe, no seu bojo, alguns idealistas, alguns políticos, em luta pelos interesses hegemônicos, e teve, na História, a projeção medíocre de um simples movimento armado.
Esse movimento não trouxe consigo uma ordem de ideias inspiradoras. Não o precedeu a enunciação de uma doutrina que dissesse algo de novo ao país. Se a Revolução, como afirmou Bonaparte, é uma ideia que encontra as pontas das baionetas, os desfiles marciais de outubro levaram na sua marcha a palidez cinzenta das lâminas de aço, sem o brilho de santelmo do pensamento renovador.
Não se pode negar, entretanto, que a chamada revolução de 30 fosse um episódio profundamente significativo na vida nacional. Sob a cerrada floresta dos fuzis palpitava o sofrimento de um povo. Sob o estrépito das marchas e os gritos das metralhadoras havia um surdo rumor, que não foi ouvido, que não foi compreendido, que até hoje não foi levado em consideração.
Secreto balbuciar de aflitivas dores, de velhas angústias, ele pedia às classes cultas, aos que estudam, aos que se interessam pela vida nacional, que o decifrasse. A Nação sabia, apenas, murmurar confusamente seus desejos, exprimir vagamente os seus anseios. Não tinha o dom da palavra.
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Revolução é o dom da Palavra das Nacionalidades. Quando uma Pátria aprende a falar, dá-se uma Revolução.
Foi o que aconteceu agora. A revolução de 30 era apenas uma voz desconexa. O Integralismo é uma palavra. Em 30 tínhamos a onomatopéia. Em 33, temos a proposição com sentido lógico.
O Brasil aprendeu a falar.
Já não precisa de caudilhos. Já não quer conspirações na treva. Já dispensa o jogo dos partidos. Já repele as tisanas do sufrágio. Já sabe que eleições de nada valem. Já rejeita os medalhões, os protetores, os “pais da Pátria”. Já não se utiliza de descontentes. Já não se serve de pergências entre províncias para armar um movimento de quartéis. Despede os procuradores em causa própria ou com mandatos especiais. Não lhe falem em cicerones ou intérpretes.
As dores da Pátria manifestaram-se em gemidos, em vozes esparsas, em movimentos reflexos. Depois, o subconsciente da Nação informou o seu consciente. As interjeições transformaram-se em vocábulos. A Revolução começou.
Só agora. Porque Revolução é transformação de consciências, é novo ritmo social, é mudança de mentalidade, é formação de mentalidade nova, é recomposição de energias, é palavra que fala com nexo firme, é gesto que se anima de harmonias e se exprime em eloqüência.
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Esta longa escravidão ao capitalismo internacional; este longo trabalho de cem anos na gleba, para opulentar os cofres de Wall Street e da City; esta situação deprimente em face do estrangeiro; este cosmopolitismo que nos amesquinha; estas lutas internas que nos ensangüentam; esta aviltante propaganda comunista, que desrespeita todos os dias a bandeira sagrada da Pátria; este tripudiar de regionalismos, em esgares separatistas, a enfraquecer a Grande Nação; este comodismo burguês; a mi- séria em que vivem as nossas populações sertanejas; a opressão em que se debate nosso proletariado, duas vezes explorado, pelo patrão e pelo agitador comunista e anarquista; a vergonha de sermos um país de oito milhões de quilômetros quadrados e quase cinqüenta milhões de habitantes, sem prestígio, sem crédito, corroídos de politicagem de partidos, — tudo isto nos ensinou, ao cabo de tantas atormentações e desespero, essa coisa que os povos adquirem com suor, com sangue, com tragédia: o dom da palavra.
Revolução não é masorca de soldados amotinados; não é rebelião de camponeses ou proletários; não é movimento armado de burguesias oligárquicas; não é movimento de tropas de governos provinciais; não é golpe de militares; não é a conspirata dos partidos; não é guerra civil generalizada. Revolução é movimento de cultura e de espírito. Transforma-se uma cultura, assume-se nova atitude espiritual, como conseqüência, abala-se até aos alicerces os velhos costumes, destruindo tudo, para construir de novo, porque destruir, apenas, não é Revolução.
Rompemos hoje, apoiados em milhares de camisas-verdes, que já possuem, disseminados por todo o território da Pátria, uma nova consciência, as baterias da nossa ofensiva contra um estado de coisas que repugna ao nosso espírito.
Não se trata de ofensiva contra um partido, contra um governo, contra uma classe; trata-se de uma ofensiva contra uma civilização.
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Pode ser petulante esta atitude, olhada com olhos que envelheceram em espírito e persistem em conviver com os fantasmas do século XIX. Pode ser ridícula, considerada por quantos já se habituaram, à força de ouvir os mestres de uma fase decadente, a considerar os brasileiros incapazes, mental e moralmente, de assumir atitudes autônomas no mundo. Para os blasés, para os refinados, para os eunucos e os decrépitos, seremos ridículos, pretendendo erguer a voz brasileira no meio dos outros povos.
Para nós, porém, esta revolução integralista tem as energias sagradas do próprio espírito da Pátria em rebeldia, em agressividade contra uma civilização que criou a luta de classe, desorganizou as bases morais das nacionalidades e que nos amarrou, durante cem anos, como escravos miseráveis, aos pés da mesa onde o capitalismo internacional se banqueteia, surdo ao gemido dos povos.
Plínio Salgado
Nota:
[1] Extraído de: Palavra Nova dos Tempos Novos, Obras Completas, vol. 7, pág. 219.
