Comemora-se a 7 de setembro a frase de D. Pedro: “Independência ou morte!”
Essa frase ganha, agora, uma oportunidade imperiosa.
O Brasil precisa libertar-se de numerosos preconceitos que o tolhem.
Pode-se dizer que todas as idéias predominantes em nossa política, durante a Monarquia, durante a República, e ainda nestes dias incertos, são idéias criadas pelos estrangeiros que nos exploram e que têm todo interesse em nos manter num estado de inconsciência, de timidez e incapacidade.
Essas idéias são como hipnóticos: imobilizam-nos.
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O Brasil está escravizado a uma série de preconceitos deprimentes. É doloroso ouvir-se um brasileiro culto: ele condena a nossa raça, os nossos costumes, atribuindo todos os nossos males à nossa inferioridade. Ele canta a superioridade étnica e moral dos anglo-saxônicos, aponta para os Estados Unidos, numa atitude de basbaque, procurando humilhar os seus patrícios pelo cotejo da nossa pobreza com a opulência do país dos milionários.
Esquece que a nossa raça apresenta índices históricos de superioridade sobre os norte-americanos, pelos seguintes motivos:
1.°) O desbravamento da terra:
a) — Enquanto os colonizadores, nos Estados Unidos, agiam numa zona temperada, nós enfrentávamos uma natureza tropi- cal, tendo contra nós o clima, as moléstias arrasadoras, como a maleita, o tifo americano e uma quantidade de insetos e répteis implacáveis.
b) — Enquanto os primeiros colonos dos Estados Unidos eram constituídos de gente banida da Inglaterra, por motivos religiosos e políticos, o que os obrigava a aportar à América, com o desígnio irrevogável de se fixar, os nossos primeiros colonos, que não sofriam perseguição alguma em Portugal, aqui vinham, não como intuito de morar em definitivo, mas de voltar à Metrópole, logo que tivessem conseguido ouro, e isso era humano e natural. Dessa maneira, só no século XVIII é que começa a haver no Brasil um sentimento nacional, que se revela na iniciação agrária.
2.°) Independência e organização econômica:
a) — A independência do Brasil verificou-se justamente quando foram inventados o vapor, as máquinas. Todas as nações, já organizadas, trataram de instalar a sua vida de acordo com o novo sentido da civilização. Pois bem: o Brasil não dispunha, e nunca dispôs dos elementos necessários ao desenvolvimento racional da agricultura e ao incremento das indústrias: o carvão-de-pedra. A extração desse combustível nos Estados Unidos era enorme, tendo só o Estado da Virgínia, nesse ano de 1822, uma produção de 500.000 toneladas de hulha, ao passo que nós, no país inteiro, não dispúnhamos de um grama de carvão. De sorte que os Estados Unidos puderam fazer estradas de ferro para os sertões, onde se abriam cidades, e nós éramos obrigados a nos servir de carros de boi e de tropas de burros.
b) — Em conseqüência dessa situação, e não dispondo de capitais, tivemos de nos sujeitar aos capitais estrangeiros. Começamos a fazer dívidas e nunca mais paramos de as fazer. O brasileiro começou a trabalhar ativamente. É uma calúnia dizer-se que o brasileiro é vadio. Nunca houve um povo mais trabalhador do que o brasileiro. Mas ele foi vendo que não adiantava o seu esforço, pois não tinha meios de comunicação, que só as estradas de ferro e os navios podem oferecer. Esses meios de comunicação dependem do carvão-de-pedra, e nós não tínhamos, nunca tivemos carvão-de-pedra.
As nossas lavouras eram tocadas com um sacrifício quinhentas vezes maior do que o das outras nações, pois não dispúnhamos de máquinas agrícolas, pelo fato mesmo de não termos indústrias, que se originavam todas da hulha. Mesmo assim, produzíamos. Com todas as dificuldades, fizemos do nosso comércio interno a base da nossa resistência e vitalidade econômicas, indestrutíveis apesar de todas as explorações do banqueirismo internacional.
c) — Justamente em razão do seu enriquecimento, os Estados Unidos puderam ter escolas e higiene. Essas coisas dependem de meios de comunicação e de desenvolvimento técnico. Uma coisa e outra dependem de dinheiro, e dinheiro dependia do carvão-de-pedra. Assim, enquanto as nossas populações ficavam desamparadas, as populações dos Estados Unidos elevaram seu índice de instrução e revigoravam sua saúde. Porque podiam, tinham o dinheiro que vinha dos combustíveis.
A saúde é uma coisa que se compra, como qualquer outra. Quem é pobre não pode tomar remédios, não pode se alimentar convenientemente. Quem é rico pode se tratar.
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Os estrangeiros que nos exploravam meteram na cabeça dos nossos políticos e literatos que éramos a nação mais rica do mundo, isso porque a terra aqui dá tudo, conforme dizia Pero Vaz Caminha, em sua carta ao rei D. Manuel.
É preciso distinguir: “riqueza” e “aproveitamento de riqueza”. De nada vale possuir terras fecundas, florestas opulentas, uma fauna e uma flora soberbas, se não podemos industrializá-las e comercializá-las. Só agora, com o advento da eletricidade e a descoberta de outros combustíveis além da hulha, podemos começar a pensar no “aproveitamento das nossas riquezas”. Infelizmente, embriagados pela megalomania da Natureza Portentosa, ouvimos o canto da sereia dos banqueiros internacionais e oneramos o nosso futuro. A nossa libertação agora vai ser mais difícil.
Cumpre ainda observar que os banqueiros internacionais, desde os primeiros dias da nossa independência, procuraram criar-nos, através da política da Inglaterra, toda sorte de dificuldades, no concernente à nossa organização econômica e ao nosso comércio interprovincial. A repressão ao tráfico africano teve por fim exclusivo privar-nos de braços para a lavoura. A pretexto de policiar os mares, os cruzadores britânicos opunham os maiores embaraços à nossa incipiente navegação mercante.
O “controle” da nossa vida financeira, sempre exercido pelos bancos estrangeiros, criou, por sua vez, as mais graves dificuldades internas à circulação dos nossos produtos, lutando sempre o nosso comércio com a exiguidade do agente intermediário, isto é, do dinheiro.
É inútil produzir, quando não se pode vender. No exterior, tínhamos os nossos produtos desvalorizados pela concorrência dos nossos próprios credores. No interior, a falta de capacidade aquisitiva de nossas populações tirava todo o ânimo do produtor. Encurralado por todas as dificuldades, o nosso caboclo tinha de subordinar-se às imposições de açambarcadores, que detinham dinheiro. Estes impunham preços ridículos ao produtor e preços exorbitantes ao consumidor.
Tivemos ainda de contar com dois fatores opressivos: as dificuldades de transporte e as altíssimas taxas de juros. Fretes e juros sugam todas as energias dos produtores.
Que fez o caboclo diante de tudo isso? Resolveu não plantar.
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Vem daí a acusação injusta de indolência aos nossos patrícios. Tais acusações procedem daqueles que pretendiam escravizar o caboclo na gleba. Esses vampiros encontraram no Brasil uma quantidade enorme de literatos que começaram a menosprezar o nosso bravo sertanejo.
Mas o caboclo é que era inteligente. Só ele era superior, com a sua filosofia e o seu sorriso cético.
Ele criou a maior frase de todos os tempos da História Brasileira, que é esta: “Plantando, dá!”
Sim. O caboclo tem razão. A terra é boa. Plantando dá. Mas, que adianta plantar, se não temos meios de transporte? Que adianta produzir, sem máquinas agrícolas? Como comprar as máquinas, senão fazendo dívidas com os agiotas internacionais, que chupam o nosso sangue? Como elevar o nível das safras, se o preço alcançado não compensa?
Só o caboclo é grande na nossa terra!
Só ele tem sabido, na sua pobreza extrema, na sua enfermidade, na segregação em que se encontra, sorrir com desdém para os sociólogos dos países capitalistas atirando-lhes esta frase genial, formidável, que define toda a história, todo o sacrifício, o epílogo de uma epopéia:
— Plantando, dá.
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Escravos dos preconceitos, os brasileiros do litoral acusam os governos de desonestos, o povo de indolente, de inculto, de analfabeto. E procuram aconselhar remédios ridículos, que estão indicados nos formulários dos nossos inimigos.
A situação do Brasil é devida exclusivamente à exploração dos povos que, tendo sido detentores da hulha, na fase de início da Época Industrial, e tendo ao seu dispor os capitais já acumulados anteriormente, empreitaram a nossa escravização.
Acusar o brasileiro de indolente é um crime de lesa-Pátria.
Todos os nossos males vieram da importação de capitais, da montagem caríssima do pouco que possuímos e dos emprés- timos onerosos que gravaram para sempre o homem da nossa terra. E vieram da educação a que nos submetemos de admiradores embasbacados da Europa e da América do Norte, onde nada temos que aprender, porque somos infinitamente superiores.
Independência ou morte! É chegado o momento de repetirmos a frase do nosso primeiro imperador. Independência contra os preconceitos. Afirmação bárbara da nossa personalidade. Repetição diária, nas nossas escolas primárias, nos nossos colégios secundários, nas nossas academias, nos nossos congressos, na imprensa, nos comícios, em toda a parte, desta grande verdade:
— No Brasil, terra pobre e desamparada de todos os recursos, só o brasileiro é grande e forte.
Plínio Salgado
Nota:
[1] Extraído de: Despertemos a Nação, Obras Completas, vol. 10, pág. 103.
