Se volvermos a nossa objetiva para focalizar o plano da mentalidade brasileira, vamos encontrar os aspectos mais variados e curiosos, que demonstram a ausência completa de diretrizes uniformes. Evidentemente, não nos referimos aos tipos mais representativos da nossa vida mental, pois em todos os países e em todos os tempos os valores intelectuais se distinguem pela sua fisionomia própria, bem destacada. Cada escritor, cada filósofo, ou artista, revela, exprime uma modalidade do pensamento e uma tendência de sensibilidade. Não é possível pretender que todos sejam iguais, que todos se afinem pelo mesmo temperamento.
Não nos referimos, portanto, aos homens índices, às organizações destacadas de animadores das massas. Ao pretendermos focalizar a mentalidade brasileira, abrangemos, de um modo geral, as grandes linhas médias nas quais podemos incluir desde o expoente mental ao cidadão menos culto, desde o erudito ao simples leitor dos jornais.
A mentalidade de um povo é a média das tendências gerais das classes versadas na leitura da imprensa e dos livros. E é esse conjunto, justamente, que serve de objeto a estes ligeiros comentários. Nele vamos encontrar, antes de tudo, um característico fundamental: a tendência irresistível para a discordância.
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Nunca um brasileiro leitor de jornais ou de livros deixa de objetar. Os pontos de vista pessoais multiplicam-se. Cada um tem o seu modo de ver, a sua filosofia, a sua opinião, os seus remédios. E ainda quando dois patrícios estejam de acordo numa determinada atitude, esse acordo exprime uma interinidade frágil, porque não passa de um “modus vivendi” eventualíssimo, dentro do qual cada um aguarda a ocasião para se libertar das ideias do outro.
No fundo de todas as alianças, há uma intenção de apostasia aguardando a oportunidade. Todas as atitudes “em conjunto” trazem o rótulo de um “por enquanto” em que se traduz a incidência de circunstâncias passageiras.
Dificilmente se podem estabelecer correntes de opinião, a não ser diante de fatores concretos e imediatos, que obriguem a decisão rápida e a escolha instantânea,que operam a pisão em dois termos, sem tempo para que a imaginação trabalhe criando objeções.
Pois é a imaginação, possivelmente, o grande fator de dissociação das massas brasileiras e do permanente fenômeno de desagregação da opinião pública, a que assistimos, dia a dia. Essa imaginação trabalha com tal intensidade que o pacto espiritual mais firme se abala e se transforma em poucas horas.
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Sem ser um povo de contemplativos, somos uma nação de imaginativos. E essa mesma imaginação que sabe criar tão poderosamente, sabe aniquilar e pulverizar com a presteza dos relâmpagos. De sorte que o brasileiro oscila continuamente entre arrebatamentos e depressões, períodos de exaltação heróica, seguidos de marmóreas apatias e céticos desânimos.
Os grandes estados de espírito nacionais, as paixões partidárias, os sentimentos de ódio e vingança, de amor e de entusiasmo, passam sobre nós como as ondas de frio ou calor, produzindo seus efeitos com rapidez assombrosa, mas desaparecendo tão rapidamente que não deixam vestígios.
É que esses estados de espírito coletivos são largos rebojos onde o indivíduo repousa e onde toda atividade da imaginação se anula. É preciso que se operem deslocamentos e se efetivem movimentos, porque o nosso espírito é irrequieto. Começando a apreciar os fatos sob uma multiplicidade estonteante de prismas, o brasileiro termina por se desinteressar deles com uma gelidez e indiferença apenas comparáveis ao calor da paixão inicial. É que o fato socializado na consciência coletiva deforma-se à consideração isolada de cada indivíduo e passa a constituir, não mais um único fato, mas tantos quantas imaginações o focalizam.
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Essa feição generalizada da mentalidade brasileira é a vaga por onde perpassam as correntes de ideias, sem que nenhuma exerça uma predominância absoluta. Em nenhum país do mundo é mais fácil a introdução de qualquer ordem de ideias. A novidade empolga nos primeiros instantes e parece que a vitória foi a mais completa possível. Basta, entretanto, esperar um pouco, para que a desilusão seja total.
As nossas próprias leis são recebidas sempre sem revoltas porque cada cidadão está convencido de que poderá burlá-la, segundo o seu modo de ver e de interpretar. A doutrina pode subsistir enquanto não se põe em contato direto com o fato. Então, começamos a presenciar até na jurisprudência dos nossos tribunais a fragilidade da ideia em face do objeto. Não se firmam no Brasil, ainda quando decorram de ideias substanciais pacíficas. Tudo, no Brasil, sofre a pressão de um ritmo intelectual sem constância, cedendo à mutação permanente do processo mental.
A tendência da mentalidade brasileira, pois, é para não assumir compromissos definitivos. Ora, os compromissos transitórios só se possibilitam nos domínios dos interesses mais materiais ou das razões sentimentais, motivo por que o brasileiro, no plano mental, apresenta-nos a paisagem curiosa de uma heterogeneidade inconciliável.
Constituirá isto um defeito ou uma qualidade? Seja lá como for, ao estudioso das questões brasileiras não pode passar sem registro muito especial a circunstância de fracassarem aqui todos os programas, todas as ideologias, tudo o que provenha dos planos da inteligência, do raciocínio, da razão. Queixam-se os comunistas e queixam-se os católicos, queixam-se os socialistas e queixam-se os liberais-democráticos, queixam-se todos os que desejariam sistematizar os movimentos sociais e políticos do Brasil.
Temos vivido num empirismo, numa improvisação diária, sem objetivo nem finalidade.
O Brasil é a instabilidade, a dúvida, a confusão, se o apreciamos sob o aspecto mental; como é a complexidade, a simultaneidade de movimentos, se o consideramos do ponto de vista econômico, étnico, e principalmente partidário.
É,sobretudo, o país das interinidades sucessivas.
E, entretanto, há, inegavelmente, uma unidade brasileira. Que cumpre pesquisar, cujos fatores cumpre revelar, cuja força é necessário captar, e dirigir. Não a procuremos nos domínios da inteligência, que não pôde, até hoje, ser disciplinada. Ela está antes no sentimento nacional.
Os homens de pensamento e de ação que desejarem realizar aqui qualquer sistema, não basta que conheçam as teorias, as leis desse sistema, ou que se conservem nas grandes ideias gerais; eles necessitam penetrar a fundo este povo para procurar, no terreno movediço da opinião e do próprio caráter brasileiros, os pontos de apoio sem os quais se torna impossível qualquer obra duradoura.
Falharão todos os que pretenderem formar a consciência nacional sobre uma base exclusiva de cultura, porque a “massa” lhes fugirá das mãos, fracassarão quantos pensem coordenar exclusivamente o sentimento, porque perderão o controle da “massa” na hora de realizar. Errarão os que surgirem apenas em nome de uma teoria, de um sistema, como serão inúteis os que encararem tão-só as realidades práticas e imediatas.
O problema brasileiro é muito mais difícil do que os da Rússia, da Itália e da Alemanha. Os modelos de Lênin, de Mussolini e de Hitler, suas estratégias, seus processos não valem nada no caso do Brasil.
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A geração nova precisa estar convencida de que o “homem” que ela deverá engendrar não poderá ser uma só coisa: um caudilho, um cabo eleitoral, um santo, um cientista, um filósofo, um agitador, mas um pouco de tudo isso.
Em 1923, escrevi: “Nós somos o Curupira das mil feições. Somos crentes e incrédulos, valentes e medrosos, inteligentes e bobos, perversos e bondosos — tal e qual o demônio das florestas… O Curupira ou Caapora é a própria alma nacional, na sua inquietude permanente, renovando-se cada noite”.
Se assim é a alma nacional, cumpre aos que pretenderem domá-la e conduzi-la para um grande destino possuir as intuições profundas capazes de inspirar a articulação segura dos múltiplos fatores que atuam no formidável complexo desses quarenta milhões de habitantes.
Nem tudo é “luta de classe”, como pensam unilateralmente os marxistas esquecidos de que nas próprias estratificações étnicas palpitam ignorados remanescentes de antagonismos raciais. Nem tudo é um problema de cultura e nem tudo é uma questão de sentimento.
Quando as forças numerosas dos íntimos recessos da nacionalidade brasileira se polarizarem numa consciência, então esta comandará a Pátria para um luminoso destino histórico.
Neste ponto o problema será de cultura, se tomarmos a cultura como síntese de conhecimentos, de finalidade espiritual, de compreensão de necessidades e de modalidade sentimental.
Criar essa cultura será formar uma “elite” de onde sairão os médiuns da Nação.
O movimento da nova geração terá de conter vários movimentos simultâneos: de coordenação dos sentimentos da “massa”; de relacionalização de necessidades materiais comuns a todos os pontos do país; de unificação do pensamento nacional segundo um sentido de finalidade; de disciplinação dos movimentos sociais; de libertação das forças tradicionais agora subjugadas a um cosmopolitismo opressivo.
Não será com um pragmatismo ridículo e com medidazinhas administrativas do empirismo governamental, nem com a mera consideração parcial dos fenômenos que poderemos plasmar na argila amorfa de quarenta milhões de habitantes o corpo harmonioso e forte de uma gloriosa Nação.
Plínio Salgado
Nota:
[1] Extraído de: Despertemos a Nação, Obras Completas, vol. 10, pág. 87.
