Já temos repetido muitas vezes, nunca julgamos pouco repetir: para a nossa visão totalitária da sociedade, do mundo e das nações, não existe nem “esquerda” nem “direita”, por conseguinte não consideramos também um “centro”, nem “meias-direitas” ou “meias-esquerdas”.
A política, para nós, não é jogo de futebol a que ficou reduzida a atividade social das nacionalidades, no transcurso do século XIX. A substituição das corporações medievais pelos partidos criou as equipes esportivas para os “matches” eleitorais e parlamentares. A organização sindical, a luta de classe, firmaram as regras fixando as posições dos “players”. As massas populares transformaram-se em multidões de aficionados entregues à superexcitação das “torcidas” frenéticas. Os parlamentos eram os grandes estádios onde os jogadores se colocavam: a III Internacional na extrema-esquerda, a II Internacional na meia-esquerda, os liberais democratas no centro, os conservadores na meia-direita, os reacionários na extrema-direita.
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Esse jogo correspondia a uma mentalidade, a uma civilização, a um século. Hoje, não pode significar cousa alguma para nós. Falamos uma linguagem diferente, porque somos homens diferentes. Os que ficaram convivendo com Gladstone ou Gambetta, os que adormeceram ouvindo os discursos e manifestos que encheram o século passado, esses não poderão compreender-nos, porque, para eles a vida nacional está enquadrada nos lineamentos dos partidos, o jogo parlamentar é um esporte onde as composições e recomposições ministeriais quebram a monotonia bocejante dos “half-times” exaustivos, e, nos regimes presidenciais, a intermitência dos grandes plebiscitos marca os “rounds” eliminatórios que se revezam na arena batida do sufrágio universal.
Toda a finalidade dos povos, para os aficionados da política do século XIX, reduz-se a esse jogo, a essa permanente competição que para nós, homens do século XX, já se tornou de uma puerilidade enfadonha.
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Puerilidade e anacronismo. Os filósofos, pensadores e políticos que vieram da tomada da Bastilha à ocupação do Ruhr, não foram capazes de abranger panoramas totais. Cada qual viu um aspecto do problema humano. Cada qual cingiu-se a um método restrito. Cada qual subordinou a questão a um princípio de ordem particular.
Esse século que produziu, separadamente, o fonógrafo, a luz elétrica, a fotografia animada, a telegrafia, não poderá compreender o século que sintoniza e sincroniza, realizando num só milagre de som, de luz, de transmissão e de cor, as prodigiosas sínteses universais.
Esse século XIX, que conheceu os teares incipientes, os aerostatos, os barcos de rodas de Fulton, as locomotivas rudimentares, e dessas conquistas deduziu toda a teoria política que veio até a lâmpada de Edson, ao aeroplano de Santos Dumont e aos aparelhos de televisão, já não pode ditar leis a esta nova época da humanidade, em que a máquina atingiu perfeições assombrosas.
Nos últimos cem anos, o problema era o aproveitamento da máquina, o lançamento da máquina, a máxima eficiência da máquina; agora, que temos chegado a esses objetivos, preocupa-nos a reconquista do poder do homem sobre a máquina, o império moral da criatura humana, a sua expressão nacional e a sua tradução governamental.
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Quando vemos os socialistas, como observa Durkheim, pretenderem reduzir tudo à “questão operária”; quando vemos os marxistas da extrema-esquerda, presos ainda ao manifesto de 1848 e animados pelas lições de Sorel, pretenderem tudo olhar sob o prisma da luta de classe; quando vemos os pragmatistas reduzirem tudo a uma questão de técnica administrativa; quando vemos os positivistas só falarem no problema da ordem, sem cogitar dos fundamentos espirituais de disciplina social; quando apreciamos os economistas subordinarem tudo à economia, os idealistas abstraírem das realidades econômicas, os místicos encararem apenas a face religiosa da sociedade, enquanto os simplistas do materialismo excluem a expressão espiritual dos indivíduos e dos povos; quando vemos todas essas orientações parciais, fragmentárias, unilaterais, é que nos apercebemos da existência de uma nova mentalidade, que é a nossa, integralista, totalizadora das forças materiais e das forças espirituais, assim como da dinâmica social em que atuam, completando-se a dialética dos fatos e o arbítrio da ideia criadora.
Somos uma mentalidade nova. Somos uma palavra nova. Somos um combate novo. Que traz um novo sentido, que só entendem os cérebros libertados dos preconceitos do século XIX.
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Não nos colocamos no ponto de vista nem da burguesia nem do proletariado. Não estamos nem com os nacionalistas cegos, sentimentais e ditirâmbicos, nem com os internacionalistas utópicos que pretendem unir os indivíduos por cima das Pátrias, proclamando a união dos trabalhadores de todo o mundo, como o fizeram os profetas falidos da II e da III Internacional. Não rompemos ofensiva contra a burguesia, mas contra o espirito do século do qual ela é um produto concreto; não contrariamos as justas aspirações do proletariado, mas queremos arrancar o proletariado da concepção unilateral da vida em que o lançaram, para explorá-lo, sem resolver a sua situação, que é apenas uma conseqüência da própria mentalidade do século XIX.
Negamos a lição de Marx, quando diz que a revolução do operário deve ser feita por ele próprio. Para Marx havia a revolução do operário como havia a reação da burguesia. Para nós, que viemos depois de Einstein, que viemos depois de declarada a falência evolucionista em que se estribou a política da burguesia, que viemos depois da hecatombe de 1914, depois do fracasso do plano quinquenal e depois da queda da libra e da crise do dólar, para nós só existe uma revolução: a revolução do século XX contra os preconceitos do século XIX.
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Essa revolução abrange todo o complexo panorama universal. Cria um novo sentido de nacionalismo e de internacionalismo. Engendra uma nova economia e um novo conceito de Estado. Contém todas as energias das lutas sociais.
Essa revolução não pode mesmo ser compreendida pelos anacrônicos socialistas, pelos mofados marxistas, pelos antediluvianos da extrema-direita. É um estado de espírito de civilização que nasce.
Eis por que acometemos toda a estrutura das velhas sociedades. Eis por que rompemos as nossas baterias, não contra os partidos, não contra a burguesia ou o demagogismo esquerdista, não contra os grupos regionais ou econômicos, mas contra tudo o que os produzir. A nossa avançada é contra uma civilização. Em nome de uma palavra nova dos tempos novos.
Plínio Salgado
Nota:
[1] Palavra Nova dos Tempos Novos, 1937, in Obras Completas, São Paulo. 1954, Vol. 7, pág. 249.
