O problema fundamental do Brasil ainda é e continuará a ser o da educação nacional. Todas as questões que se apresentam desafiando a solução por parte dos homens públicos tornam-se absolutamente irresolúveis pela ausência de um espírito nacional formado sob a inspiração de ideias claras e nítidas, capazes de orientar os intérpretes e os executores das leis e das normas administrativas preestabelecidas nos setores do governo ou das mesmas empresas de iniciativa privada. Essas ideias inspiradoras não precisam ser muitas, nem necessitam envolver complexidades de alta indagação filosófica. Uma Nação se conduz com três ou quatro conceitos de existência, de direito e de deveres.E é justamente o que falta ao povo brasileiro.
Ou seja pela influência das variadíssimas correntes imigratórias, trazendo cada qual o tom da nacionalidade própria e a soma dos prejuízos inerentes a velhas civilizações, e trazendo, principalmente, o objetivo imediato de “fazer a América”, sem nenhum liame histórico a prendê-las ao vigamento principal da tradicionalidade do nosso país; ou seja pela rápida transição de uma economia primitiva para o ritmo acelerado de novas condições técnicas; ou seja por força da crise econômico-financeira que aperta as suas tenazes comprimindo os orçamentos domésticos agravados, dia a dia, pela transformação do supérfluo em elemento de primeira necessidade, — o fato é que o brasileiro de hoje transformou-se num utilitário grosseiro, interpretando tudo e tudo resolvendo de acordo com seus interesses particulares e suas mesquinhas ambições.
No fundo, o nosso patrício é um homem sem fé, que somente se agita no sentido de ganhar dinheiro, ou conseguir empregos rendosos, ou prestígio político e social. Em tudo o mais é um abúlico, um fatalista, que se deixa levar pela corrente dos acontecimentos, procurando sempre colocar-se do lado daqueles que lhe podem oferecer maiores vantagens ou, pelo menos, a vantagem de se sustentarem o maior tempo possível nas posições de mando.
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Principiamos esfriando a nossa crença em Deus, porque não tínhamos tempo de pensar n’Ele, ou de dedicar-Lhe alguns minutos de meditação, no meio do tumulto da vida praticável; e, assim, acabamos frigorificados espiritualmente, com a consciência endurecida como o gelo, o que, de certa forma representa uma vantagem no mundo dos negócios, onde sempre é bom adotar-se o conceito, nietzscheano ou wildeano, de uma atitude acima do Bem e do Mal…
Depois, o enrijecimento glacial atingiu as zonas do sentimento patriótico, e ninguém mais pensou na Pátria senão como uma figura de retórica para os comícios eleitorais ou para os arrazoados das iniciativas industriais ou financeiras onde se prova sempre por a mais b que o negócio proposto é de primeiríssima ordem para os interesses nacionais…
Finalmente, petrificaram-se os corações pela pressão congelante do egoísmo, abrangendo essa hibernal atmosfera a consciência dos deveres para com a Família; e, então, os lares se tornaram instáveis, o destino dos filhos um assunto subalterno, o decoro conjugal um reles preconceito do passado, a própria honra individual uma ficção sem a menor importância…
A essa altura, já lavrava, em todos os setores das atividades humanas em nosso país, a mais desbragada irresponsabilidade, desde a dos homens da alta finança, mancomunados em grupos e a exercitar manobras sutilíssimas de ganhos astronômicos, até ao negociante que mistura ao leite e ao vinho a água das torneiras, por sua vez infecta como tudo o que se oferece ao consumo público. A indexação dominou os funcionários das repartições governamentais, sedentos de gorjetas e de propinas, cujas personalidades se modelaram ao espelho de seus chefes, de quem a prestidigitação aplicada à arte de desviar dinheiros do erário para o próprio bolso já se havia tornado popularmente conhecida. Por outro lado, a indecorosa manobra dos partidos políticos, transformados em máquinas de fabricar posições, empregos e negociatas, correu parelha com o despudor da compra e venda eleitoral, nessa bolsa dos desvaleres das urnas democráticas, onde palhaços e chantagistas logram fazer impudente cartaz e colher resultados espetaculares.
Nesse panorama de irresponsabilidade geral, não poderia ficar isento da infecção contagiante o próprio trabalho dos que ainda se tinham em conta de honestos; e, dessa forma, a olhar para o exemplo dos grandes, os pequenos perderam todo o estímulo da dignidade, clamando por maiores estipêndios, mas esquivando-se ao esforço produtivo. Consequentemente, com o encarecimento da vida, tivemos a onda de mal-estar em todas as classes dos degraus médio, submédio e proletário, com a agravação do estado de espírito do mais feroz utilitarismo.
De alto a baixo, o Brasil está infeccionado de materialismo e de imediatismo e, ainda mesmo quando nos boquiabrimos diante dos arranha-céus e do estridor das fábricas, das realizações materiais e dos prospectos de radioso futuro, não podemos deixar de inquietar-nos percebendo que, de ano para ano, somos mais inconscientes, mais fatalistas, mais autômatos, menos capazes de fé em quaisquer princípios desses que serviram de base, por exemplo, ao surto econômico e industrial dos Estados Unidos nos meados do século XIX.
O estágio econômico-financeiro do Brasil nesta metade do século XX é — guardadas as proporções do moderno aparelhamento industrial e da técnica dos nossos dias — o mesmo da grande Nação setentrional da América naquele tempo; mas no século XIX, os Estados Unidos, malgrado a formação dos grupos financeiros que então lá se esboçavam e do pragmatismo das avançadas no rumo do Far West, conservavam e alimentavam aquelas ideias que haviam servido à formação da sua consciência nacional. Principalmente as ideias da moral puritana, que fortaleciam a noção dos deveres perante Deus e perante a Pátria, eram bem vivas e ativas no pensamento e na palavra, na atitude e no exemplo dos estadistas, assim como no íntimo da alma do povo.
O problema, pois, do Brasil de hoje, é inegavelmente educacional. Sem se lançar uma larga campanha nesse sentido, para reativarmos as poucas energias ainda presentes em hora tão desfavorável, iremos ao léu dos acontecimentos internos e externos e não podemos prever se terminaremos uma colônia russa ou americana, ou qualquer coisa informe e indefinida como as Índias ou o mundo árabe.
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Essa campanha educacional deve penetrar o seio das famílias, deve agir nas escolas, deve alargar-se às massas populares, deve — acima de tudo — injetar nas elites intelectuais a noção dos deveres para que não se estiolem os escritores, os pensadores, os filósofos, os juristas e os economistas, nessa vil submissão de vassalagem aos poderosos, vicejando como cogumelos à sombra de aventureiros políticos ou de indivíduos ocos guindados a altas posições pelo dinheiro ou pelas circunstâncias fortuitas do jogo de azar dos partidos; mas para que assumam pela palavra e pelo exemplo a liderança de um povo em franca disponibilidade, tanto para o Bem como para o Mal.
Como sustentarmos o regímen democrático, se a permanência deste exige íntimas convicções doutrinárias e o conhecimento da técnica mediante a qual ele funciona?
Nada se ensina ao povo; só se desensina. Os jornais cretinizam as massas com grossas manchetes sobre crimes e futilidades. Os comentários políticos são superficiais e trazem a eiva dos corrilhos partidários. Nas escolas, nada se diz sobre os deveres dos cidadãos. E o exemplo geral dos responsáveis é o paradigma trágico determinando o mimetismo de uma multidão sem ideal, sem espírito, sem alma.
Plínio Salgado
Nota:
[1] Extraído de: Reconstrução do Homem, ed. cit., pág. 134).
