Ligada intimamente ao problema do comércio internacional é a questão da moeda. O seu valor oscila como índice das diferenciações econômico-financeiras das nacionalidades. E como a economia mundial está desorganizada, essas fatais oscilações, ao mesmo tempo que se apresentam como efeito, agem como causa de novos e crescentes distúrbios na vida dos povos. Existindo com o fim de unir os homens, pela troca das utilidades, a moeda age como fator de desunião pelas desigualdades que cria.
Hoje, além de desigualdade econômica oriunda de circunstâncias que a moeda geralmente exprime, concorre para agravar a situação de alguns povos, em benefício de outros, o conceito moderno da moeda comandada, ou da moeda dirigida. Os que querem importar ou exportar, ou que necessitam viajar de um país para outro, compreendem, diante das dificuldades do câmbio, que os povos cada vez mais se afastam uns dos outros, cada vez mais se isolam nos seus respectivos egoísmos.
Não censuramos as Nações, que a isso são obrigadas por motivos universais; lamentamos que numa época em que se fala tanto em solidariedade humana, não haja um entendimento qualquer, de caráter internacional, que possa, pelo menos, dar ao mundo a esperança de uma aproximada equivalência do poder aquisitivo das “pessoas humanas” que, sob os céus de todas as latitudes, despendem os mesmos esforços em benefício da civilização comum a todos os povos.
Podem os teoristas, os sabedores da complicada ciência das finanças expender todas as explicações possíveis, nada me convencerá de que as oito horas de trabalho de um chinês, de um brasileiro, de um francês ou de um americano não correspondam a um idêntico esforço criador, devendo, pois, o salário nas respectivas moedas ter um valor aquisitivo igual à face dos homens e de Deus. Nada me convencerá, por outro lado, de que a mesma mercadoria, produzida com os mesmos elementos do solo e com o mesmo trabalho do agricultor, possa, sem ferir os mais sagrados direitos naturais das pessoas humanas, ser vendida de modo a ocasionar prejuízos a uns e lucros a outros, tudo em consequência da oscilação do valor das moedas de uns países em relação a outros.
Se existe uma política monetária, de nítido caráter nacionalista e expansionista, por outro lado, como estratégia defensiva, surge uma política aduaneira, também de caráter nitidamente nacionalista, pugnando pela autossuficiência de cada povo. Dessa forma, as Nações tendem a isolar-se cada vez mais, numa atmosfera mundial de desconfianças recíprocas.
Deixo aqui esboçado o assunto, que exige exposição mais pormenorizada e estudo mais profundo, os quais não cabem num trabalho da natureza do que se empreendeu neste livro. A pormenorização do assunto, obedecendo a rigor técnico, deve constituir objeto de um trabalho concernente à competência de especialistas; além do mais, desvirtuaria o sentido geral deste ensaio que perderia a linha do equilíbrio temático e a harmonia estrutural. Mas é forçoso enunciar importantíssima tese, porque constitui matéria intimamente ligada aos Direitos e Deveres que se deseja proclamar numa Carta Internacional.
O projeto dessa Carta fala dos direitos de todo Homem à subsistência, a uma vida sã, a uma justa remuneração do trabalho, ao gozo dos benefícios decorrentes da adiantada técnica da nossa Civilização. Mas, como poderemos assegurar tais direitos, se se evidenciam tamanhas desigualdades entre os habitantes do planeta, segundo vivam neste ou naquele país?
Urge uma política de compreensão universal, que facilite o intercâmbio dos povos e assegure às pessoas humanas efetiva igualdade de direitos e deveres em todas as zonas da terra.
Plínio Salgado
Nota:
[1] Extraído de: Direitos e Deveres do Homem, Obras Completas, vol. 5, pág. 347.
