Alguma coisa está ausente do mundo. Sim: o mundo está separado de alguma coisa. Há na sua tormenta, na agitação dos dias presentes, essa vaga inquietação indefinível, esse mal-estar que não se compreende bem. Referve no complexo universal o limbo de todos os desejos e as tendências de todas as exaltações. Uma super-excitação nervosa passa como calafrio sobre a superfície da Terra.
E não se sabe ao certo se a Humanidade vive num crepúsculo, na indecisão das formas e das cores, na confusão de todos os aspectos, da hora melancólica do anoitecer; ou se já nestes anseios frementes vibra o anuncio de novas auroras.
No fundo de todas as angústias das Nacionalidades e das massas populares, o que é fora de dúvida é que se percebe um desequilíbrio, em tentativas supremas para uma recomposição de ritmos e de harmonias.
De que mal sofre o Mundo?
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Para se compreender as surdas revoltas das multidões: para se penetrar na psicologia agitada dos governos; para se surpreender o lineamento preponderante de uma literatura de confusão, de uma filosofia de perplexidade, de uma política de desconfiança, de uma atitude de recíprocos rancores; para se procurar a incógnita do mundo contemporâneo, – não temos mais do que examinar o caso particular de cada um de nós, ou dos que nos rodeiam.
Então, logramos descobrir algo que nos esclarece o entendimento, como que uma suave mão guia o nosso raciocínio através das sombras. E o mistério da hora presente revela-se no mistério de cada drama pessoal.
O mundo está morrendo pela ausência do “espírito”.
Ausência do “espírito”…
Como é fácil e, ao mesmo tempo, difícil compreender o que seja o “espírito”. É preciso ter uma noção integral da própria criatura humana. E a Humanidade de hoje perdeu completamente o senso da personalidade, o sentido das proporções e dos limites, a percepção da harmonia das formas, a intuição dos equilíbrios exactos, o sentimento das euforias perfeitas.
Como definir a alma, se todos se esqueceram dela, completamente, numa civilização em que só se cultivou a matéria? Como entendê-la, se ela fala uma linguagem tão diversa do idioma falado por criaturas que fizeram da vaidade, da exibição, dos egoísmos mais torpes e dos orgulhos mais imbecis, toda a razão da sua vida?
Por que sofrem os povos todos os terrores recíprocos, nos dias que correm? Por que se agitam as classes, na luta tremenda? Por que se miram desconfiadas, as autoridades nacionais? Por que se aumentam os efetivos das polícias secretas? Por que se multiplicam tantos crimes? Por que estampam os jornais tantos escândalos? Por que se odeia tanto, se agride tanto, se luta diariamente uma batalha soturna, trágica, sob as aparências das maneiras corteses?
O mal cresceu e assombrou as Nações. Multiplicam-se as perversidades. Os fracos são esmagados pelos fortes. A violência é a lei geral, como é a lei particular.
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Basta olhar para a sociedade atual, exibicionista, fútil e preocupada exclusivamente com as coisas materiais. Essa sociedade sem delicadeza moral, sem capacidade de renúncia, sem finura, sem altitude; essa sociedade estandardizada, joguete nas mãos dos exploradores e escravizadores internacionais; ela revela-nos todo um sentido deprimente de civilização desmoralizadora, em que decai, dia a dia, a dignidade da criatura humana.
Escrava de todos os instintos; faminta de todos os prazeres; submetida a todos os caprichos e exigências da moda, – a sociedade contemporânea vive a vida exclusiva dos impulsos, que são tão impetuosos ao ponto de desconhecerem todas as leis dos deveres, que são as eternas leis do Espírito.
Tal o que sucedeu nos fins do Império Romano, as preocupações do corpo dominam, hoje, completamente, as preocupações da Alma. E, como era lógico, em vez de lucrar com isso o corpo, ele deprime-se, deforma-se, perde a eurritmia sagrada que procede das geometrias maravilhosas do Espírito.
O corpo perdeu o prestigio; tornou-se a coisa vulgar, miserável, sem dignidade e sem beleza, artificioso nas suas expressões, incapaz de despertar o encanto das épocas de pudor e de recato. Livre do império da consciência, cata-vento de todas as irreflexões, entregou-se a todos os vícios, sob a capa de todas as liberdades.
E, quando se julgou livre, estava escravo. Essa escravização despertou em coro as vaidades sem freio. As vaidades açularam os egoísmos. Os egoísmos destruíram todas as estruturas dos deveres morais. E, destruídas as estruturas desses deveres, tivemos uma Humanidade rebaixada, cujos aspectos, na sociedade moderna, atingem os níveis inferiores das mais torpes animalidades.
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Uma luta sem tréguas desencadeou-se sobre a Terra. Luta da criança contra os pais e mestres. Luta da mulher a procura de uma ridícula emancipação que a torna mais escrava, mais miserável, mais deslocada do centro de interesses da Espécie e da própria Sociedade. Luta dos empregados e patrões. Luta na concorrência comercial desenfreada. Luta dos partidos políticos. Luta de interesses inconfessáveis, em todos os setores da atividade social. Luta dos orgulhos e susceptibilidades. Luta dos ódios implacáveis. Luta das desconfianças recíprocas. Luta das insubordinações e das rebeliões. Luta das insatisfações da matéria.
Essa tremenda batalha, que se surpreende no recesso dos lares, no recesso dos estabelecimentos comerciais, no interior dos quartéis, das repartições públicas, das escolas, e que se generaliza desde o armazém da esquina ao grande “trust”, e desde o drama passional dos arrebaldes, com suicídios e homicídios, até a tragédia dos conflitos monstros das mazorcas e levantes, – essa tremenda batalha vai refletir-se na vida internacional, e já não há possibilidade de se evitarem as guerras, as situações tensas entre os governos, a confusão universal e os terrores recíprocos das Nacionalidades.
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Alguma coisa está ausente do mundo.
Uma treva desceu sobre o gênero humano…
Que remédio poderemos dar para que estas trevas se transformem na rutila aurora dos tempos novos?
Como poderemos invocar a Luz Ausente?
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É preciso clamar pelo retorno do Espírito.
Que ele ilumine todas as coisas materiais. Que desça no desamparo da hora que passa. É a luz que desertou do mundo. Ou ela volta, ou nos lançamos na ruína e no apodrecimento.
Que Deus faça baixar sobre nós a Luz Ausente…
Plínio Salgado
Nota:
[1] Extraído de: Madrugada do Espírito, Obras Completas, Vol. 7, pág. 451.
