5) Racismo e Integralismo

Como decorrência natural dos pontos abordados anteriormente, no caso relativo ao Sr. Gustavo Barroso, sou naturalmente levado a esclarecer uma das questões mais exploradas pelos adversários do Integralismo. Refiro-me à questão racista. Dado o elevado nível cultural desta Casa, quase desnecessário seria fazê-lo uma vez que, expostas as bases eminentemente cristãs da doutrina integralista, óbvio será que essa doutrina não pode aceitar de modo algum princípios racistas incompatíveis com o Cristianismo e portanto, com a verdadeira democracia. [1] Limitar-me-ei, por isso mesmo, a aduzir algumas opiniões emitidas pelo Sr. Plínio Salgado, interpretando a questão sob o prisma do Integralismo, e isso no ano de 1934. O Sr. Lindolfo Collor, no seu livro Sinais dos Tempos, editado em 1942, à p. 218, cita a reprovação que o nazista Karl Heindrich Hunsche, teuto-brasileiro, faz ao Integralismo brasileiro, por não aceitar os princípios racistas. O nazista Hunsche, citado pelo Sr. Lindolfo Collor, afirma dogmaticamente: “os integralistas cometem o erro de se enquadrarem no velho espírito nativista do Brasil”. Mais adiante, lê-se na mesma página: “Para os nazistas, a concepção de um melting-pot de raças, tendendo à unidade da língua e do caráter nacional, é uma fraqueza liberaloide, da qual o integralismo não conseguiu desfazer-se ainda”. E o Dr. Hunsche dogmatiza: “É claro que o integralismo, que pretende ser um movimento de política prática, jamais poderá mostrar-se em público apoiado em argumentos usados pelo nativismo brasileiro antes da grande guerra e, em formas ainda piores, durante a conflagração”. E o Sr. Lindolfo Collor continua afirmando que se o Integralismo quisesse viver e prosperar, de acordo com o nazista Hunsche, teria que aceitar a ideia das minorias raciais. O Integralismo, porém, jamais aceitou a ideia de tais minorias, como é do conhecimento de todos os estudiosos do assunto.

Referências semelhantes vamos encontrar no livro Uma cultura ameaçada — a luso-brasileira, do insuspeitíssimo Sr. Gilberto Freyre, 2ª edição, 1942, p. 87. Refere-se o autor ao geógrafo nazista Reinhard Maack que, na revista de professores e estudantes da Universidade de Harward (Estados Unidos), já havia expendido suas ideias racistas — e sobre estas manifesta-se o Sr. Gilberto Freyre nos seguintes termos: “O geógrafo Maack atribui essas ideias universalistas, para ele absurdas, ao próprio movimento integralista, recordando, com indignação, que um dos chefes teuto-brasileiros do extinto partido teria exclamado, em discurso em Blumenau: ‘Na época de completa fraternização de toda a família brasileira num Estado Integral, não haverá diferenças de raça e de cor’. Para nós, um dos pontos simpáticos e essencialmente brasileiros do programa daquele movimento. Para o geógrafo Maack: heresia das heresias. Os homens de raça e de cultura germânica, sob a orientação nazista, não se submeteriam nunca a semelhante confraternização de raças e de costumes, dentro das tradições portuguesas que se tornaram estruturais para o desenvolvimento brasileiro”.

Essas palavras do Sr. Gilberto Freyre dispensam comentários.

Ouçamos, agora, a palavra autorizada do Sr. Plínio Salgado, definindo a atitude do Integralismo em face dessa questão, de transcendente importância.

Antes de fazê-lo, porém, devemos lembrar que contra o transformismo darwiniano se levantou a figura de Pasteur, e que a tese de raças superiores e raças inferiores foi levada no século passado pelo francês conde de Gobineau. No famoso congresso de 1901, em Berlim, que se decidiu pelo “monogenismo”, o professor Branco, diretor do museu de paleontologia, sustentou vitoriosamente que o homem é de uma raça especial: homo-novos. Mais tarde, em 1911, reuniu-se em Londres o congresso das raças. O Brasil foi representado por D. João Batista de Lacerda. Duas teses foram vitoriosas: 1) a raça humana tem uma única origem; 2) não há raças superiores nem raças inferiores, mas raças adiantadas e raças atrasadas. Inaceitáveis, portanto, os princípios racistas de Gobineau ou do Sr. Rosenberg.

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Respeitando a liberdade e a dignidade da pessoa humana, o Integralismo a nenhum dos seus adeptos cerceava o livre direito da manifestação do pensamento. Havia questões fechadas sobre princípios básicos, como a adoção da filosofia espiritualista e o conceito cristão de Democracia. Sobre qualquer assunto, manifestava-se o pensamento da organização, definindo os rumos adotados. Leiam-se livros e artigos do Sr. Plínio Salgado e jamais se encontrará nesses livros ou artigos, nem nos documentos básicos na antiga AIB, qualquer preconceito de raça. Leia-se, por exemplo, o artigo que já citei nesta Casa, sobre a morte do chanceler Dollfuss, publicada em A Offensiva, de 9 de agosto de 1934.

“Mas Dollfuss é uma advertência. Sua sorte é a dos homens que, embora esclarecidos de ideias, não matam em torno de si as serpentes que mais tarde os devoram. Dollfuss não soube aniquilar a tempo o Nacional-Socialismo do seu país. Esse partido, cuja insurreição está fracassada, mas que teve tempo de privar da vida o defensor da Áustria, não é o portador senão de uma ideia indiferente aos integralistas brasileiros: a união dos países germânicos ao centro europeu. Essas ideias que se apoiam em uma face da política racial, própria do hitlerismo, mas estranha ao Integralismo, não merecem nem mesmo de nossa parte qualquer simpatia”.

Meditem sobre estas palavras. Mas não é tudo. Plínio Salgado, sentindo as incompreensões e ataques dirigidos ao nascente Movimento Integralista, traçava a 24 de abril de 1934 a diretriz e esclarecia definitivamente a posição do Integralismo em face das questões raciais. Esse documento foi transcrito no número de abril e maio de 1936, na revista Panorama, de onde transcrevemos os trechos que transmitirei aos meus nobres colegas:

“Não sustentamos preconceitos de raça; pelo contrário, afirmamos ser o povo brasileiro tão superior como quaisquer outros. Em relação ao judeu, não nutrimos contra essa raça nenhuma prevenção. Tanto que desejamos vê-la em pé de igualdade com as demais raças, isto é, misturando-se, pelo casamento, com os cristãos. Como estes não são intransigentes nesse sentido, desejamos que tal inferioridade não subsista nos judeus porque uma raça inteligente não deve continuar a manter preconceitos bárbaros.”

“Nessas condições, não podemos querer hoje mal ao judeu, pelo fato de ser o principal detentor do ouro, portanto principal responsável pela balbúrdia econômico-financeira que atormenta os povos, especialmente os semicoloniais como nós, da América do Sul. O judeu capitalista é igual a um cristão capitalista; sinais de uma época de democracia liberal. Ambos não terão mais razão de ser porque a humanidade se libertará da escravidão dos juros e do latrocínio do jogo das Bolsas e das manobras banqueiristas. A animosidade contra os judeus é, além do mais, anticristã e, como tal, até condenada pelo próprio catolicismo. A guerra que se fez a essa raça na Alemanha, foi, nos seus exageros inspirada pelo paganismo e pelo preconceito de raça. O problema do mundo é ético e não étnico.”

Estas palavras foram escritas em abril de 1934!

Continuo, Senhor Presidente, respondendo a todos os quesito formulados nesta Casa por ilustres colegas, todos levantados contra o Movimento Integralista. As acusações feitas durante longos anos, repetidamente, só agora podem ser respondidas, no dealbar da nossa jovem e incipiente Democracia. Ocupar-me-ei, a seguir, de mais uma das indagações levantadas nesta Casa pelo Sr. Vereador Carlos Lacerda e que, na ordem que venho seguindo será por mim classificada como:

Nota da edição digital:

[1] Veja-se a nossa lista de citações Racismo, assim como Judaísmo e Antissemitismo, sobre declarações notáveis entre 1932 e 1937.