4) É ou não é verdade que o Sr. Gustavo Barroso entrou em entendimento com o Ministro da Propaganda da Alemanha, Sr. Joseph Goebbels?

Esta pergunta, entre outras a que também responderei, foi feita pelo Sr. Vereador Carlos Lacerda em aparte ao discurso por mim pronunciado nesta Casa, a 26 de março, como consta do Diário Oficial do dia 27 do mesmo mês.

Respondo a S. Exª, afirmando que, durante minha longa convivência no meio integralista e na intimidade das mais destacadas autoridades daquele movimento, jamais ouvi a mais leve referência sobre esses entendimentos a que se refere o Sr. Vereador Carlos Lacerda. Adianto mais. Nem em relação a Goebbels ou a qualquer autoridade nazista, nem em relação a qualquer outro governo estrangeiro, jamais soube de ligações do Sr. Gustavo Barroso ou de quem quer que seja dos arraiais integralistas.

É evidente que, tratando-se de uma citação nominal, que envolvia referências diretas ao Sr. Gustavo Barroso, membro proeminente da Academia Brasileira de Letras, diretor do Museu Histórico, escritor e historiador de consagrado renome, nada mais natural que me fornecesse S. Exª esclarecimentos relativos às interpelações em apreço, que encerram indiscutivelmente um caráter de libelo acusatório. Baseado, assim, nas informações que, por escrito, me emprestou o Sr. Gustavo Barroso, trato-as ao conhecimento da Casa, devidamente resumidas como cumpre, dada a exiguidade do tempo.

Devo responder, à luz desses informes: — não é verdade que o Sr. Gustavo Barroso tivesse entrado em ligações com o Sr. Goebbels. E para que o assunto fique definitivamente encerrado, passo a expor fatos que serviriam de pretexto para infamantes explorações contra o Integralismo, tais como me foram fornecidos pelo Sr. Gustavo Barroso.

1º) Em fevereiro de 1938, por ordem do Sr. Israel Souto, a polícia varejou de surpresa a residência do Sr. Barroso e nela deu uma busca que durou seis horas, levando para a Central todo o seu arquivo particular, no qual havia grande quantidade de cartas de escritores e homens eminentes, americanos e europeus, autógrafos preciosos que nunca mais lhe foram restituídos. Esse arquivo estava cheio de documentos que sobremodo honravam os fins e propósitos integralistas, bem como os meios honestos a que recorriam para sua propaganda. Entre estes, as mais minuciosas contas sobre as despesas com as chamadas “Bandeiras políticas”. A polícia só tinha um interesse que era destruir essas provas.

2º) Em 1945, os Aliados penetraram na Alemanha vencida e se apoderaram de todos os arquivos, ainda mesmo os particulares, como se sabe pelos jornais.

Pois bem, nem lá nem cá, até hoje, se encontrou essa correspondência de Sr. Gustavo Barroso. Se o Sr. Carlos Lacerda a possui que a exiba.

3º) O que houve foi o seguinte: a 28 de março de 1934, cinco anos antes da guerra, o conhecidíssimo homem de letras e estudioso de questões sociológicas, o alemão Conde de Reventlow, presidente de uma associação particular de estudos denominada Aliança Racista Europeia, com sede em Berlim, que se propunha o fim especial de combater a ação da Aliança Israelita Universal, fundada em Paris pelo Sr. Adolphe Crémieux, escreve uma carta ao Sr. Gustavo Barroso (então membro destacado da Ação Integralista Brasileira, como da Academia Brasileira de Letras, exercendo o elevado cargo de diretor do nosso Museu Histórico). Pedia-lhe as mesmas informações sobre um movimento político lançado no Brasil pelo Sr. J. Fabrino e sobre o recém nascido Integralismo, que legalmente funcionava no país, e era elogiado nas páginas do Correio da Manhã, em artigos de Custódio de Viveiros e Costa Rego. Depois de mostrar essa carta a várias pessoas, entre as quais o Sr. Plínio Salgado, o Sr. Gustavo Barroso respondeu-a, dando as informações pedidas, sem pormenores, o que absolutamente não constitui o menor crime, tanto assim que o Conde Reventlow a traduziu em alemão e estampou na revista do seu grupo, que ele próprio dirigia, “Reichswart”.

A 27 de maio de 1938, com grande estardalhaço e maior perversidade, o Correio da Manhã publicou, em coluna aberta, a página da revista “Reichswart” sob títulos venenosos e espetaculares: “Esperamos suas instruções! Assim se expressou o Sr. Gustavo Barroso, com ordem do Sr. Plínio Salgado, em carta a uma Associação estrangeira”. E acrescentava que a Aliança Racista Europeia era um departamento do Partido Nazista.

Os brasileiro visados por essa tendenciosa publicação estavam no momento impossibilitados de defender-se. O Sr. Plínio Salgado refugiou-se em São Paulo, evitando as perseguições policiais. O Sr. Gustavo Barroso encontrava-se injustamente preso e incomunicável nas masmorras da ditadura, a fim de pagar sua inimizade pessoal com o Sr. Francisco Campos, que nele se vingava da derrota que lhe impusera em suas pretensões à Academia Brasileira. A prova é que foi, pela própria polícia, após quase quatro meses de detenção e interrogatórios, excluído do processo, o que é mais do que ser absolvido. O Correio da Manhã devia se envergonhar de, num transe tão difícil, ter procurado enxovalhar o bom nome de um escritor brasileiro de vida pública limpa, seu antigo colaborador, cujo patriotismo está mais do que provado na sua ação política e social, como na sua vasta obra literária. Foi essa publicação infame que alguns elementos desclassificados covardemente aproveitaram para, quando da declaração de guerra do Brasil à Alemanha, pôr o nome do Sr. Gustavo Barroso no pelourinho, como se ele fosse um vil traidor da sua pátria. Contudo, nunca o Sr. Gustavo Barroso fez sequer uma campanha de imprensa ou uma propaganda a favor da Alemanha ou do Nazismo. Condecorado pelos governos da Tchecoslováquia, da Noruega, da Polônia, da Bélgica e da França, escolhido pela Inglaterra para a cadeira de membro efetivo da sua Academia de Letras, a Royal Society, o Sr. Gustavo Barroso não pertence a nenhuma associação ou instituição, mesmo cultural, da Alemanha, com exceção da Academia de Direito Internacional de Berlim, a que o levou há muitos anos sua atuação como Secretário da Junta de Jurisconsultos Americanos do Rio de Janeiro.

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O Correio da Manhã deu à publicidade o texto alemão do “Reichswart”, seguido de uma tradução horrível, feita naturalmente na própria redação.

Resumindo as informações a mim prestadas pelo Sr. Gustavo Barroso, devo concluir com os seguintes esclarecimentos: a carta do Sr. Gustavo Barroso foi escrita em francês; foi traduzida para o alemão pelo respectivo destinatário, que deu publicidade em sua revista do texto em questão; o Correio da Manhã traduziu do alemão para o português, vindo esta última tradução repleta de erros, propositados ou não. Entre esses erros destaca-se como principal a adulteração do texto, a frase “Esperamos suas instruções”, quando, em verdade, o Sr. Gustavo Barroso, no texto original, em francês, escrevera textualmente “nous attendons des explications”. Para comprovar ainda a intenção maliciosa dessa tradução, vale citar um dos trechos da carta em questão, no texto original em francês, que se lê: “Le mouvement dirigé por Mr. Fabrino ne peut plus être envisagé d’une base doctrinaire suffisante.” Pois bem, na publicação do Correio da Manhã, esse trecho foi “traduzido”: “O movimento do Sr. Fabrino não se deve tomar a sério. Faltava-lhe força e moral e ele não existe mais”. Além disso, não contando ainda os numerosos erros fáceis de notar por qualquer aluno de curso primário, essa tradução publicada suprime uma frase em que o Sr. Gustavo Barroso fala de “fascistas e nacionalistas do mundo”, suprime a palavra nacionalistas para generalizar o termo fascistas, numa flagrante e incontestável desonestidade.

Foi essa carta o motivo para as mais soezes explorações contra o Sr. Gustavo Barroso e ainda o Integralismo e os integralistas. O Sr. Gustavo Barroso autorizou-me declarar que assume absoluta responsabilidade do texto original em francês, da referida carta. Declara ainda mais que assume, como sempre assumiu, completa responsabilidade por suas ideias e atitudes pessoais, aceitando que seja esclarecido se estiver em erro, mas jamais tolerando que seja caluniado. Exerceu sempre altos cargos na administração pública e, no exercício dos mesmos, jamais teve uma nota desabonadora. Em seus livros somente tem cultuado e defendido as tradições brasileiras, procurando sempre honrar o seu país.

Autorizou-me, enfim, o Sr. Gustavo Barroso a reptar, em nome de sua honra pessoal, o ilustre colega, Sr. Carlos Lacerda, a provar a existência de qualquer correspondência sua com o chefe da propaganda nazista, no caso o finado Goebbels ou com qualquer outra personalidade oficial do nazismo.

Creio, porém, que o caso não é para repto. O Sr. Vereador Carlos Lacerda apenas perguntou: “É ou não verdade que o Sr. Gustavo Barroso entrou em entendimentos com o ministro da propaganda da Alemanha, Sr. Joseph Goebbels?”

Respondo a S. Exª declarando que não é verdade, que é uma requintada mentira afirmar-se a existência de tais ligações. Essa, como tantas outras insinuações levantadas com o fim de destruir e arrasar os alicerces morais do Movimento Integralista, tem sido inspiradas no ódio de adversários que não olham meios para atingir os fins desejados.

Passarei agora à resposta de outra interpelação, que também deve ser esclarecida devidamente.