Foi ou não foi uma “Intentona Integralista” o golpe de 11 de maio de 1938?

Devo repetir que quase todas as forças políticas preparavam uma revolução nacional para depor o regime vigente após o golpe de 10 de novembro de 1937. Entre os nomes citados e pronunciados pelo Tribunal de Segurança, figuravam, entre outros, os seguintes: General Castro Júnior, Cel. Euclides de Figueredo, Cel. Ayrton Daré, Bozzano e Júlio de Mesquita. Ninguém ignora que após o malogro do 11 de maio, os Srs. Armando Sales, Otávio Mangabeira, Lindolfo Color e outros foram mandados para o exílio, em Portugal ou na França, como no Uruguai ou na Argentina. Entretanto, as perseguições se generalizaram no Brasil contra os componentes da Ação Integralista, que suportaram o peso de um ódio feroz e sem quartel. As mais inomináveis injustiças se perpetraram, debaixo de uma propaganda organizada, sem que qualquer voz se levantasse para protestar contra tantos e tão numerosos crimes. Para conhecimento dos Srs. Vereadores, valho-me do nosso Regimento Interno, para fazer a leitura da entrevista que o General Castro Júnior dignamente deu ao Diário da Noite, como consta da edição de 30 de abril de 1945, como segue:

“Eu seria o presidente da junta militar” — Fala ao Diário da Noite o general Castro Júnior — É substancialmente verdadeira a afirmativa do Sr. Miguel Reale — Era um movimento destinado a restabelecer a Democracia — A “novembrada” teve como objetivo único a continuação do Sr. Getúlio Vargas no poder — É substancialmente verdadeira a afirmativa do Sr. Miguel Reale, de que o objetivo do movimento de maio seria a volta ao regime constitucional, sob a direção de uma junta militar, que seria, por desistência de camaradas certamente mais indicados, por mim presidida.”

Foram estas as primeiras palavras do general Castro Júnior ao receber, esta manhã, o redator do Diário da Noite. 

E prosseguiu, depois de ouvir a leitura de alguns tópicos da entrevista concedida à “Meridional”, em São Paulo, pelo professor Miguel Reale, antigo doutrinador do Integralismo:

— “Tratava-se de um movimento nacional, extreme de intuitos partidários, em que se aproveitava o concurso do Integralismo à época ferozmente perseguido, como de outras correntes de opinião, para levar a Nação ao campo neutro da democracia, onde todos se poderiam entender, conforme nossas tradições seculares. O que deu aspecto integralista ao ‘putsch’ de maio foi a precipitação da ala exaltada daquela corrente, no Rio, na suposição, provavelmente, de que já contava com forças suficientes para expulsar do Catete o intruso que ainda hoje ali se encontra. A ação foi tão inopinada, que nem os integralistas de S. Paulo e de outras circunscrições tiveram tempo de se manifestar. Mais tarde, soube pelo próprio Sr. Plínio Salgado, que enviara um emissário de absoluta confiança para impedir a deflagração do movimento sem ser de acordo comigo”.

Historiando — Antes de Novembro de 1937

— “Já antes da ‘novembrada’ de 37, eu e outros generais, apesar de não investidos de comando de tropa, trabalhávamos contra ela (a novembrada) conquanto não soubéssemos precisamente do caráter que iria ter. Sabia-se apenas que o Senhor Presidente da República se queria transformar em ditador para continuar no governo, e só a esse objetivo o golpe obedeceu. O mais, é lenda. Não era preciso grande argúcia para perceber essa intenção do atual ditador, porque já o deputado Barreto Pinto apresentara na Câmara uma indicação, no sentido de ser prorrogado o mandato do então presidente da República. Diziam os jornais da época que ela alcançara mais de cem assinaturas. Fosse ela constitucional e consubstanciada em lei, nem o Estado Novo teria existência, não haveria o estatuto político mais consentâneo com as nossas condições políticas, sociais, raciais etc., e grande parte da literatura do DIP se haveria perdido. Tão pouco teria surgido o famigerado documento Cohen: não haveria em que aproveitá-lo.”

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Avisado o General João Gomes 

— “De uma feita — continuou o general Castro Júnior — avisei o general João Gomes, então ainda ministro da Guerra, de que o Sr. Getúlio Vargas desejava continuar no governo extra constitucionalmente, respondendo-me ele que o próprio presidente da República lhe afirmara ter sido o Sr. Flores da Cunha (contra quem se estavam concentrando forças na fronteira do Rio Grande ou providenciando para isso) quem havia inventado essa balela, acrescentando que, se fosse desse Estado, o candidato — oficial, já se vê -, este poderia ser senão ele, Flores. Soube depois, por outra fonte, que o mesmo presidente dissera outro tanto ao Sr. Maurício Cardoso, aduzindo não saber porque essa restrição, que o impedia de indicar um nome “como… como o do senhor”. Um amigo de outro amigo do Sr. Truda me “informou”, ser este o candidato do Sr. Presidente da República à sua sucessão, ao menos passo que também ouvia que um ilustre político da Bahia era, àquela época, o candidato presidencial à referida sucessão… Pelas mistificações… Vê-se, que o conhecido fidalgo de La Mancha não foi o único cavaleiro engenhoso deste mundo”.

Uma retificação 

Depois, disse o General Castro Júnior:

— “Há uma retificação oportuna às declarações do Sr. Miguel Reale: quando entramos em entendimento com o integralismo, já tínhamos muitas adesões de militares e civis a um movimento reivindicador das liberdades públicas confiscadas, e eu não era mais diretor do Material Bélico, cargo de que não pedi demissão logo a 10 de novembro”.

Nada mais claro, Senhores Vereadores, do que os esclarecimentos prestados pelo Ilustre e honrado General Castro Júnior, cujas convicções democráticas e liberais, tantas vezes proclamadas, são por todos reconhecidas. É preciso, porém, não esquecer que aos integralistas coube o sacrifício do sangue, deixando uma dezena de mortos no Palácio Guanabara, onde se destaca a figura heroica do bravo Tenente Júlio do Nascimento, comandante da resistência, que só ordenou a retirada ao amanhecer, quando tudo estava perdido. Não podemos esquecer a figura de um comandante, Nuno Barbosa de Oliveira, com seus bravos oficiais e marujos do inesquecível cruzador Bahia, nem a figura esplêndida de um Tenente Arnoldo Hasselmann, que, desarmado e conduzido número de sargentos e praças, tomou o Ministério da Marinha, aprisionou a sua guarda e deteve o regimento naval em peso, durante longas horas. Não quero finalmente, Srs. Vereadores, terminar estas referências, sem focalizar a personalidade de Belmiro Valverde, de quem se poderá divergir em determinados pontos, mas a quem nenhum brasileiro que se preze de honesto poderá negar coragem, bravura e decisão. Sacrificados foram numerosos integralistas e a perseguição se estendeu, sem distinção, a todos os componentes da Ação Integralista Brasileira. O DIP taxou a revolução de 11 de maio de “Intentona Integralista”. Repetir essa expressão, e procurar excluir pessoas de responsabilidade da participação que tiveram na preparação da revolução nacional contra a ditadura do Estado Novo é fazer-se continuador do DIP, repetindo inverdades em desacordo com os acontecimentos históricos.