O que é uma nação? Enquanto os separatistas acreditavam que as tragédias do Rio Grande do Sul, e o descaso do Governo, serviriam para inflamar os ânimos de secessão entre os gaúchos, aconteceu o contrário. Embora o Governo do país “Brasil” tenha se tornado o inimigo dos gaúchos, a união destes aos outros brasileiros se eletrizou mais do que nunca. Na verdade, as palavras enganam. Os gaúchos não “fortaleceram” sua união com o resto do Brasil. O que aconteceu foi muito mais singelo. Os gaúchos, na verdade, “perceberam”, com força imensa, que a “nação Brasil”, à qual eles pertencem, não é um despacho administrativo, um organismo burocrático ou um tratado jurídico. É uma família com título pleno – e todos pertencemos a ela, mesmo sem o Estado.

O autor mora em Ipatinga, um núcleo não muito grande, cercado por montanhas em todos os seus lados, no interior de Minas Gerais, a caminho do litoral. Nos mercados, carrinhos são montados para receber doações. Elas podem ser compradas de qualquer loja, e, depositadas, serão enviadas em helicópteros dos bombeiros. Todos os carrinhos estão cheios. Quase caindo, transborda, em um deles, uma caixa retangular, em papel de presente. É um brinquedo infantil.

Em um supermercado, paro na fila. Ao meu lado, são casais de idosos, carregando dois carrinhos cheios de arroz e água. A agência dos Correios está lotada dessas pessoas, congestionando os envios normais, para abastecer o povo gaúcho. A poucos bairros de distância, um posto de coleta, abastecido por todas as empresas, mobiliza centenas de pessoas, de todas as idades. Tive ali a ajuda de jovens de 13… e até de 8 anos — e de tantos idosos quanto adolescentes. No apartamento que possuo, a vários quilômetros daqui, uma vizinha começou a organizar doações. Sua família, repleta de caminhoneiros, coordenados com o posto, está levando remessas a Porto Alegre. O prédio, que não tem muitos moradores, corresponde: ela encheu um quarto.

Indo ajudá-la, peço doações aos vizinhos daqui. Aperto o interfone. Aguardo. Sorridente, a vizinha me recebe. Começo a falar, e desfio sílaba por sílaba, com cuidado: “Rio Gran-de do Sul…”. Paro por um segundo. Notei, então, como em um raio, qual era o nosso assunto. Por mais distante que ele fosse da nossa realidade, não estávamos falando de nada “diferente” de nós mesmos. Parecia que, por um segundo, éramos parentes. Aliás, não converso com muitas idosas da vizinhança. Vivemos vidas diferentes — e temos famílias e objetivos distantes. Nosso tempo é gasto de um jeito muito distinto. Em nossa visão de nossas próprias vidas, não pensamos um nos outros. Somos mútuos “estrangeiros” à biografia de cada um. Mas não falávamos, naquela hora, de um “estrangeiro”. O Rio Grande do Sul não era um “estrangeiro”. Nós também, naquela hora, não o éramos, um ao outro. Nós assumimos uma intimidade sanguínea, carnal, entre nós mesmos e entre pessoas que nunca veremos nessa vida — e que têm sotaques e climas muito diferentes dos nossos.

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Na verdade, ficamos, subitamente, “em família”. Uma doação para vítimas argentinas a poucos quilômetros da nossa fronteira seria bem-vista, e é certo que seria honrosamente atendida. Seria como doar para alguém necessitado, que vemos nas ruas. Mas doar para o Rio Grande do Sul não pareceu assim. Estávamos doando, na verdade, para um primo ou irmão. Estávamos doando para algo “dentro” de nós mesmos. O afetado não estava “fora” de nossa própria carne, de nossa própria biografia, de nossa própria família — ou de nossa própria vida. Ele era parte. Não seguíamos um impulso “humanitário”. O impulso era pessoal.

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Essa foi a experiência que todos os gaúchos, e todos os brasileiros, tiveram recentemente. Em todos os estados, o povo censurou a reação do Governo. Mas todas as pessoas têm participado de um trabalho maior do que o do Governo: o da nação. Os postos na Bahia e em Pernambuco estão cheios de doadores como no Paraná e em São Paulo. Não é o Rio Grande do Sul que está lutando. Contudo, não é, também, o Governo. É o Brasil.

A Nação, como se pode ver, não é o Estado. Ela existe antes e além do Estado. Sim, o Governo do Uruguai ofereceu algumas lanchas e aviões. Mas o povo do Uruguai, a bem poucas milhas da região afetada, não se sente atingido. Ao lado do Rio Grande do Sul, bem perto, o povo da Argentina vive a sua própria vida. Mas a vários milhares de quilômetros, no Pará, o povo sofre pelos gaúchos como por sua própria família.

Esse é o verdadeiro conceito de nação. Ele nos mostra que o Brasil não é uma ilusão de ótica, nem uma criação legal de textos em um papel. Ele é uma realidade viva, carnal, que existe dentro de nós. Ele está ao nosso redor. É a nossa vida e a nossa família. Ele continuará, apesar de todos os Governos. Porque ele é real.

Matheus Batista
Ipatinga Σ MG

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