O movimento integralista é profundamente humano e, por isso mesmo, nacional. É um movimento de sentido totalitário [1] e, por isso mesmo, abrange todos os campos de atividade. É um movimento que procura recompor equilíbrios sociais, por isso compreende o Estado como uma expressão do idealismo superior capaz de influir na sociedade, estabelecendo harmonias onde hajam antagonismos.

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Sendo um movimento totalitário, interessa-se por todas as manifestações da inteligência, do sentido e da vontade de um povo. Entre essas manifestações estão as artísticas. A própria criação do Estado Integral, sendo uma inspiração de harmonia, ela própria é uma obra de arte. O sentido de ritmo perfeito é fundamental, pois, tanto no Direito como na Economia, tanto na Ordem Social como no padrão de vida familiar e individual, tanto na pesquisa da ciência como na intuição da arte.

Um Estado assim tem um lugar de alto destaque para as manifestações artísticas. E, na apreciação destes, o Integralismo considera como índice de humanidade os índices de nacionalidade.

Por ser justamente humano e universal, o Integralismo é nacionalista. Sabemos que o mundo contemporâneo atravessa uma fase de recomposições nacionais indispensáveis a uma época que virá até ao fim deste século, de internacionalismo ético e de paz para todos os povos, de justiça social, de equilíbrio, de concórdia.

O primeiro passo para se atingir a essa fase de civilização é a restauração das autoridades nacionais.

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A autoridade nacional não é, não pode ser afirmada pelo arbítrio ou pela tirania, mas pela sua própria essência, oriunda da essência nacional, da fisionomia da Pátria.

Um Estado, para ter autoridade, precisa ser identificado à Nação, precisa manifestar-se segundo a índole e os caracteres inerentes à nacionalidade.

O Estado Nacional é, pois, a síntese de todas as atividades de um povo, de suas tendências, aspirações, fisionomia íntima, capacidade criadora, sensibilidade emocional, inspiração estética, sentido espiritual.

Quando o Estado se alheia de todos esses componentes da personalidade nacional, deixa de ser amado pelo povo porque este não se mira nele. E o Estado deve ser o espelho da Pátria.

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Eis porque o Estado Integralista, que é o Estado Nacional por excelência, abrange todas as expressões nacionais e, entre estas, as artísticas.

A Arte ocupa um lugar altíssimo no Estado Integral.

Ela é a cúpula do grande monumento que tem bases filosóficas, colunas econômicas, estrutura jurídica, e que deve ter a grandeza e a poesia que só a arte pode lhe assegurar.

O Estado Liberal-Democrata é um Estado alheio completamente à vida real da Nação. É materialista e as coisas estéticas são nele relegadas a uma plana ínfima. Os artistas nada valem num Estado onde só valem os políticos eminentes e os grandes argentários. Por sua vez, o Estado Comunista, tomando a si a tarefa da gerência econômica, é uma verdadeira casa de negócios preocupado exclusivamente com os assuntos econômicos e comerciais. Os artistas no Estado Comunista são um “meio” e não um “fim”.

São um instrumento político e não uma finalidade em si mesmo. É por isso que, no Comunismo, não há liberdade para a arte, sujeitando-se ela aos cânones de uma estandardização necessária a fins econômicos e políticos.

No Integralismo a arte é livre e o artista, não somente garantido com base econômica, porém elevado à plana que merece, como um índice que representa as mais superiores virtudes de um povo.

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A arte é nacional para poder ser humana e universal. Porque se não for nacional, perderá em intensidade o que ganhará em superfície e acabará tão desacreditada como os produtos de carregação, como uma roupa que serve a todo mundo.

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Compreendendo assim a arte, na música, na pintura, na arquitetura, na escultura, na literatura, temos de compreendê-la do mesmo modo na esfera de teatro, que é um dos mais importantes aspectos da literatura nacional.

Criar o Teatro Brasileiro é preocupação importantíssima do Integralismo. Principalmente neste instante do mundo em que o teatro passa por uma crise da qual sairá vitorioso ou morto. O teatro morrerá se não encontrar em si mesmo a capacidade de renovação, de revitalização; o teatro vencerá se apreender o sentido do novo ritmo da vida contemporânea.

No Brasil, a tentativa para a criação do Teatro Nacional é um drama permanente. Sem a intervenção forte do Estado, não será possível fazer-se nada.

Esse problema se desdobra em numerosos aspectos, uns de caráter universal, outros de caráter nacional; uns de caráter de “motivos” e técnica de construção, outros de caráter cênico e de interpretação; outros de caráter material, econômico, outros de caráter educacional das massas e de propaganda. Tudo isso exige um grande plano que deverá ser executado pelo Estado Integral. A colaboração direta dos interessados, dos escritores, dos artistas, é fundamental. O Estado Integral não será mais aquele Estado que manda os leigos resolverem os problemas nos quais eles não podem intervir por mais paixão que o conhecimento do assunto e o amor da causa lhe despertem. Os próprios artistas colaborarão diretamente.

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O teatro é a grande arte relacionada com inúmeras outras. No ritmo da música, da pintura, da escultura, da poesia, no sentido da indumentária, na harmonia coreográfica, no espírito da lenda, na análise sociológica, e, principalmente, na emoção oriunda das psicologias específicas dos tipos humanos, o teatro encontra os subsídios para a sua criação.

O Integralismo pretende criar uma época na História. De sorte que pelo sentido de um estilo se possa reconhecer uma fase de renovação filosófica, política, sociológica, educacional, artística, criadora.

Dentro desse grande plano, o Teatro ocupa um lugar de tal relevância, que concitamos a todos os que nele trabalham, a todos os que sofreram esterilmente, a todos os que se desiludiram, a todos os que ainda, apesar de tudo, anseiam, por um supremo esforço, a virem cerrar fileiras conosco, trabalhando com todas as suas forças para o advento do Estado Integral, do Estado Ético, do Estado Nacional, do Estado que se inspire num grande rumo de harmonia, de beleza, de força e de glória.

Plínio Salgado
Manifesto do Grupo Nacional do Teatro, movimento integralista cujos líderes incluíam Luiz Iglezias, Olavo de Barros, Carlos Machado, Teixeira Pinto, Sílvio Silva, Álvaro Assunção e Luís Arouca. Publicado em “A Offensiva”, 27 de julho de 1935, e “Anauê” nº 3, agosto de 1935.

Nota do Site

[1] “Totalitário” era uma palavra muito usada nos anos 30 para significar algo que abrange tudo, não se descuida dos vários lados de um mesmo problema, etc. (veja-se, por exemplo, o texto Estado Totalitário e Estado Integral, de Plínio Salgado).