Sessão de 10 de maio de 1972

O SR. PLÍNIO SALGADO — Sr. Presidente, Srs. Deputados, este ano de 1972 é um ano de comemorações. Comemoramos o sesquicentenário da nossa Independência; comemoramos, no mundo lusíada, o quarto centenário da obra de Luís de Camões, na sua primeira edição de Coimbra, e comemoramos a Semana de Arte Moderna, que ocorreu em São Paulo há 50 anos. A minha oração de hoje não será uma fala patética do tipo da que pronunciei no centenário da Batalha de Riachuelo, nem será um discurso de argumentação e de debates sobre temas políticos. Vai ser, antes, uma exposição, uma narrativa do que foram os movimentos de renovação artística e literária através dos séculos, para inserir no seu lugar verdadeiro a Semana de Arte Moderna.

A Arte Grega

As transformações artísticas e literárias, no mundo civilizado, vêm de muito longe, desde o tempo em que a arte egípcia, assíria e babilônica se transformaram para se exprimir na arte grega. As grandes colunas que terminavam por cabeças de animais são substituídas no mundo helênico pelos fustes e capitéis das ordens Jônica, Dórica e Coríntia, de grande elegância e pureza de linhas. Foi, portanto, uma revolução artística, uma arte moderna que se introduziu na Grécia, depois das influências por aquele povo recebidas dos Cretenses, que são a fonte primacial da cultura helênica. A arte grega esplende, mas sempre se transformando.

Temos, inicialmente, as grandes pinturas de Zeuxis e Apeles, e as esculturas de Fídias e Praxíteles. Há ainda outros artistas menores, todos produzindo uma arte em que se exprimia a harmonia da natureza.

Reconstrução do mosaico da Batalha de Isso, de Apeles

Na literatura, o velho teatro de Ésquilo e de Sófocles é substituído pelo teatro de Eurípides e de Aristófanes, numa revolução literária. A poesia que vinha de Homero e transitou por Hesíodo adquiriu finalmente uma nova expressão com Píndaro, posteriormente com Anacreonte e Safo.

Todos esses movimentos artísticos renovaram, inovaram, trouxeram novas formas do Belo e de tradução das impressões do homem em face da natureza. O esplendor da cultura grega vem, finalmente, expandir-se por toda Ásia e pelo Império Romano. É o período do helenismo, em que te formam as expressões literárias e artísticas.

No fim do Império Romano

Correm os séculos e assistimos, no fim do Império Romano, a um fenômeno artístico impressionante: perderam-se as noções da forma de volumes, das perspectivas e das cores. Julgava eu — e sempre tive como certo — que esta decadência foi resultado da invasão dos bárbaros. Modifiquei, porém meu modo de pensar, depois de ler um livro de Louis Dimier, intitulado L’Église et l’Art, onde o autor mostra que, num período apenas de 100 anos antes da invasão de Alarico, já se havia dado esse fenômeno de decadência, de decomposição das formas artísticas. Então, de mim para comigo, concluí que foi exatamente este estado de espírito que facilitou a invasão dos povos que vinham das estepes da Ásia ou das florestas germânicas para destruir o Império Romano porque, considerei, a beleza, o bem e a verdade são três faces da mesma coisa, isto é, da harmonia universal. E quando uma geração perde a noção da beleza, perde igualmente a noção do bem e perde também, em elucubrações, em inquietações constantes, o domínio da verdade. E um povo que perde a noção do bem, da verdade e da beleza, é um povo que já não se defende, porque não tem nenhuma bandeira pela qual lutar.

A Idade Média

Esse período prolongou-se nos primeiros tempos da Idade Média, quando se prepara nova revolução literária e artística. Nas abadias, nos conventos, os beneditinos e basilianos trabalhavam sobre antigos pergaminhos chamados palimpsestos, nos quais eram escritas contas de armazéns, cartas particulares por sobre textos do maior valor científico e literário. Com infinita paciência, esses monges foram decifrando o que ali havia e revelaram ao mundo a filosofia de Aristóteles e de Platão, as narrativas históricas de Heródoto e Tucídides, a poesia de Píndaro e Hesíodo, a ciência de Eratóstenes e Tales de Mileto, o teatro de Ésquilo. As pesquisas literárias estimulavam a curiosidade dos arqueólogos, que principiaram a desenterrar velhas estátuas. Teve-se outra vez noção do que tinha sido a arte grega na estatuária e na arquitetura. A arquitetura romana, assim como a sua escultura, eram gregas. Perdeu-se tradição, mas foi recuperada no correr dos últimos tempos da Idade Média preparando nova revolução literária e artística que foi a Renascença ou Renascimento.

Renascença

A Renascença principiou tomando por base os modelos helênicos; numa segunda fase, operou-se verdadeira revolução, porquanto os artistas tornaram-se realistas ou naturalistas, pela compreensão e penetração da natureza. E a época em que surge a estatuária de Michelangelo, as pinturas de Leonardo da Vinci e Rafael, a criatividade arquitetural desses gênios.

Cristo a caminho do Calvário, por Ticiano

Seria longuíssimo, num pequeno discurso, lembrar todos os grandes nomes da Itália, como Ticiano, Ghirlandaio, Fra Angelico, Tintoretto; na Espanha, onde brilham Velázquez, El Greco, Ribera, Zurbarán, ou lembrar a arte flamenga, com Rembrandt, Rubens, Van Eyck, Van Dyck, ou evocar a arte alemã com Dürer, Holbein. Seria longo, porque há ainda outros artistas daquela época esplendentes de humanidade. Em resumo, a Renascença foi uma revolução.

O Gótico, o Romântico e o Barroco

Passa-se ao Século XVII, e já neste século há uma nova revolução na arquitetura e na literatura. Na arquitetura tinha predominado o estilo românico, o qual foi substituído pelo gótico. É interessante interpretar o espírito das duas arquiteturas. A românica, de formas arredondadas, é como alguém em prece e em atitude de humildade. A gótica, de janelas ogivais e torres pontiagudas, é o estilo de contemplação do infinito. Mas no Século XVII deturpa-se a arte chamada clássica, aparecendo o barroco. O barroco, em relação ao clássico, é um fenômeno semelhante ao gótico flamejante em relação ao gótico puro. O gótico flamejante de que temos exemplo no Mosteiro de Batalha, em Portugal, em algumas catedrais da França e da Alemanha, foi a tentativa de enriquecimento das colunas e abóbadas com que se tirou a pura espiritualidade do gótico antigo ou primitivo. O barroco em relação ao clássico foi a mesma coisa. Também quiseram enriquecer colunas, abóbadas, capitéis e frontarias, de sorte que se deturpou inteiramente o lineamento clássico da arquitetura. Foi uma revolução concomitantemente à que se dava nas letras, quando surgiu o gongorismo, que é também uma espécie de barroco na literatura do tempo. 

Aparece o Brasil

Passamos para o Século XVIII. Agora aparece o Brasil. O Brasil apenas balbuciara literariamente com as cartas de Anchieta e de Nóbrega, os escritos de Gandavo, Fernão Cardim e Simão de Vasconcelos, mais tarde com a poesia de Bento Teixeira e as sátiras de Gregório de Matos. Mas no Século XVIII o Brasil aparece literariamente.

Surgem Basílio da Gama e Santa Rita Durão, que nos apresentam nova forma de poesia épica, trazendo pronunciado instinto de brasilidade, o qual tem sido observado pelos críticos, tanto do Brasil quanto de Portugal.

Mas, na mesma ocasião, já se opera novo movimento modernista — é a Escola Mineira, constituída por Cláudio Manoel da Costa, Alvarenga Peixoto, Silva Alvarenga, Tomás Antônio Gonzaga. Esta Escola procurou copiar os modelos da chamada Arcadia, gênero literário que surgira na Itália e que teve grande influência em toda a Europa. Seus poetas não eram genuinamente brasileiros. Eram mais gregos do que nacionais. Foi uma Escola notável, entretanto, pela doçura do seu lirismo e, principalmente, pela feição campestre e procurava, no bucolismo de Teócrito de Siracusa, e de Anacreonte, ou no ruralismo de Virgílio, o ritmo de sua poesia.

O Romantismo

Finalmente, nos princípios do Século XIX operou-se grande revolução literária — o Romantismo. O Romantismo tem muita semelhança com a Semana de Arte Moderna, que estamos celebrando.

Exatamente como se deu conosco há cinquenta anos, deu-se com os românticos, principalmente os da primeira fase, porquanto o Romantismo, no Brasil, pode ser dividido em dois períodos distintos. Era o sentido nacional brasileiro, enquanto na Europa o Romantismo exprimia um desbordamento do mundo interior, às escâncaras, a revelação forte e livre do sentimento individual. Atravessando o Atlântico, perdeu, porém, o caráter individualista para adquirir o caráter nacionalista.

Os primeiros sinais desse movimento encontramos nos poemas de Gonçalves de Magalhães e de Porto Alegre. Mas vem, em seguida, a grande, máxima figura da poesia brasileira — Gonçalves Dias. É o nacionalismo que adquire a forma indianista, procurando as raízes remotas da nossa formação étnica. Surge depois José de Alencar, que com o Guarani, Iracema, Ubirajara, segue a mesma trilha do I-Juca Pirama, do poeta maranhense.

O Romantismo brasileiro, mesmo nos que não trataram de temas da nossa indianidade, é genuinamente nacional.

Romances de costumes tivemos; o primeiro deles, Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, que, entretanto, tem um caráter de precursor do Realismo, entre nós. Mas quem tiver lido as obras de Bernardo Guimarães e de Joaquim Manuel de Macedo, os da primeira fase de Machado de Assis, como laiá Garcia, Esaú e Jacó, Helena e outros, as do extraordinário Coelho Neto, verifica o caráter de brasilidade na descrição dos tipos masculinos e femininos e da nossa natureza.

Renovadores do início do século XIX

De sorte que essa fase do Romantismo foi um segundo movimento revolucionário na literatura. Mas, na arte em geral, tivemos, também, antes da nossa Semana, outros movimentos. O espírito barroco produzira o gênio do Aleijadinho, cujas obras admiramos hoje em Congonhas do Campo cheios de emoção.

No Rio de Janeiro, surgiu novo movimento de escultores, arquitetos, pintores, sendo a figura maior Mestre Valentim. Durante algum tempo, eles predominaram em nosso País, até vir a missão francesa chefiada por Le Breton, trazendo pintores como Taunay e esse nunca suficientemente louvado, Debret. Aí houve, por influência da Escola Francesa, novo movimento artístico e literário. Na música, o sentimento da raça e da terra transparece nas composições clássicas de José Maurício e se exprimem mais largamente em Francisco Manuel, o autor do Hino Nacional Brasileiro.

Casamento de D. Pedro e D. Amélia, por Debret

Realismo e Parnasianismo

Vamos, depois pelo Século XIX em diante, presenciar uma revolução modernista contra o Romantismo. Foram o Realismo e o Parnasianismo, ambos sob influência francesa. Os escritores realistas, no Brasil, podem ser divididos em duas categorias: os realistas propriamente ditos e os naturalistas. É realista Machado de Assis, na segunda parte de sua obra. São naturalistas Júlio Ribeiro, com A Carne, e Aluísio de Azevedo com seus romances. 

Mas no campo da poesia, fatigados do lirismo que inundou o século, surgiram aqueles que, também por influência francesa, lançaram aqui o Parnasianismo. O Parnasianismo surgiu na França como uma reação contra o Romantismo, contra a liberdade de forma e estilo dos românticos. Teve como mestres Leconte de Lisle, Theophile Gauthier, Sully Prudhomme, Heredia. Logo esta corrente influiu no Brasil e surgiram aqui grandes valores na arte poética chamada parnasiana. Entre eles Luiz Delfino, Raimundo Correia, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Guimarães Passos, Emílio de Menezes e Vicente de Carvalho. Foi uma revolução literária, não há a menor dúvida, e predominou em nosso país até os princípios do presente século.

O Simbolismo

No fim do Século XIX dá-se outro movimento modernista contra o Parnasianismo. Era o Simbolismo. O Simbolismo é da maior importância na literatura brasileira. Teve como principais figuras Cruz e Souza, o catarinense negro, Alphonsus de Guimaraens, Mário Pederneiras, Emiliano Perneta, B. Lopes, Augusto dos Anjos, Marcelo Gama, Gonzaga Duque, Rocha Pombo Pereira da Silva; posteriormente, Homero Prates, Eduardo Guimarães, Mansueto Bernardi, Felipe de Oliveira.

O Simbolismo influenciado por Baudelaire, Mallarmé, Verlaine, insurgia-se contra a rigidez hierática da forma parnasiana e trazia um novo conteúdo de poesia mais delicada, mais transcendente, mais espiritual. Alcançou grande sucesso, principalmente no Paraná, onde, em torno da figura quase lendária de Dario Veloso, reuniu-se toda uma geração que se manifestou em páginas poéticas da maior categoria. O Simbolismo é o precursor do Modernismo brasileiro, porque nos libertou das prisões da forma do Parnasianismo, porque nos deu maior amplitude de visão.

Depois da I Grande Guerra

Por ocasião da I Grande Guerra, houve um novo estado de espírito, uma nova revolução artística e literária. Inicialmente na Europa, porque através de toda a nossa literatura e de nossa arte nós nos vinculamos à Europa, embora como no caso do Romantismo, tivéssemos dado àquela corrente literária um caráter tipicamente nacionalista brasileiro. Da mesma forma aconteceu aqui com o Modernismo. O estado de espírito posterior à Primeira Grande Guerra determinou a criação de novas formas de arte, entre elas o “futurismo” italiano de Marinetti, o dadaísmo, o expressionismo, o cubismo, o abstracionismo, correntes cada qual procurando novas expressões de arte. E elas influíram decididamente no Brasil. Em 1922 a minha geração estava inquieta. Queríamos algo novo, algo que representasse a nossa Pátria, a nossa própria alma, queríamos ser o que éramos, como disse Mário de Andrade: “Deixarmo-nos ser”. Esta a principal preocupação em 1922.

A Semana de Arte Moderna

Estávamos todos preparados para o grande movimento. Faltava aglutinar. E isto foi feito em fevereiro de 1922.

Lembro-me bem daquela Semana, da qual tomei parte. Para não esquecer os nomes, anotei-os e mesmo assim, creio, haverá alguma lacuna. Lembrei-me de Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Graça Aranha, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Villa-Lobos, Ronald de Carvalho, René Thiollier, Brecheret, Paulina d’Ambrosio, Renato Almeida, Agenor Barbosa, Sérgio Milliet, Di Cavalcanti, Luiz Aranha, Mota Filho, Lasar Segal, Paulo Prado, Ribeiro Couto. A Semana realizou-se por iniciativa de Paulo Prado, tornando-se possível pela grande atividade de aliciamento de René Thiollier e Pamplona, estimulados pelo entusiasmo de Menotti Del Picchia, que se revelou verdadeiro líder. Os paulistas trouxeram do Rio um grupo de cariocas, tendo à frente Graça Aranha, que se notabilizou com um discurso pronunciado na Academia Brasileira de Letras. O autor de Canaã repudiava inteiramente as velhas formas. Pregava uma renovação estética e abandonou a Academia, por julgá-la demasiadamente acadêmica. Graça Aranha foi por assim dizer o patrono da Semana de Arte Moderna, mas ele próprio não realizou modernismo nos livros que depois escreveu. Autor famoso de Canaã, julgávamos que ele traria uma renovação de estilo e de forma nas obras que viessem depois da Semana de Arte Moderna. Publicou, entretanto, um livro intitulado Viagem Maravilhosa, onde nada se vê de modernismo quanto à técnica de estilo.

Como nasceu “O Estrangeiro

Discutia-se muito, naquela ocasião. Debatiam-se os temas artísticos, mas nada havia ainda como realização concreta de forma e de estilo, do novo Movimento. Foi quando escrevi meu romance O Estrangeiro. Este livro inspirou-se numa viagem que fiz, com Alarico Silveira, pelo sertão araraquarense, não havendo ainda ali as cidades grandiosas que hoje lá existem. Estive num lugarejo de duas dezenas de casas, onde funcionava a escola dirigida por um professor chamado Serapião. Esse professor reuniu os alunos, filhos de italianos, espanhóis, japoneses, pretos, caboclos, gente de todas as origens. E ali, na haste de um coqueiro decepado, desfraldada a bandeira verde-amarela, estas crianças cantaram o Hino Nacional. Emocionei-me profundamente, e esta emoção consolidou em meu espírito a ideia de escrever um livro que tratasse do caldeamento racial, fenômeno extraordinário que se dá no Brasil e que fez o sociólogo mexicano José de Vasconcelos dizer que todas as grandes civilizações nasceram nos trópicos e que, portanto, daqui do Brasil iria sair a raça cósmica, resultado da fusão de todas as raças. Este pensamento foi ainda fortalecido por um discurso que ouvi ali de um farmacêutico chamado Sócrates, falando de Humboldt, de Martins, dos viajantes estrangeiros, da flora brasileira, tudo isso despertando em mim o mais vivo nacionalismo. Fomos depois à Cachoeira do Avanhandava. Junto à catadupa imensa que atroava naqueles sertões, senti-me verdadeiramente empolgado porque ela representava toda a força do nacionalismo ainda não aproveitada. Essa cachoeira, pensei, poderá fornecer — como está fornecendo agora — força e luz para muitas cidades. Entretanto, estronda aqui inutilmente.

Voltei para São Paulo. Propus-me ali vários problemas. Primeiro, o da arquitetura do livro, a sua composição de conjunto. Segundo, a forma; finalmente, o estilo. Como estilo modernista, tínhamos tido apenas poesia: A Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, e pequenas crônicas de Oswald de Andrade, tais como Memórias Sentimentais de João Miramar. Mas um livro mesmo que trouxesse definitivamente o modelo, a forma do modernismo na prosa e principalmente no romance, não tínhamos tido ainda, merecendo apenas especial referência O Homem e a Morte, de Menotti Del Picchia.

Capa da 3ª edição de O Estrangeiro, de 1936

Levei algum tempo meditando para resolver esses três problemas da arquitetura, da forma e do estilo, até que um dia, tendo ido a um bairro longínquo de São Paulo, ao aproximar-se da linha férrea o bonde teve de parar para deixar passar o trem. E em minha frente havia um Departamento Estadual do Trabalho, local onde se recolhiam os imigrantes que vinham para o Brasil desde os tempos do Visconde de Parnaíba. A fachada escura do prédio, o dístico encimando o portão, aquilo me trouxe o instante preciso, porque o escritor pode pensar uma obra, mas chega um momento em que é fustigado, empurrado para escrever. Saltei do bonde, peguei um táxi e escrevi o primeiro capítulo do O Estrangeiro, cuja frase inicial diz: “Na noite espessa os gritos das locomotivas cruzavam-se repentinos como meteoros de sons”. Na sua apreciação crítica Monteiro Lobato disse que eu escrevia a coriscos, acrescentando: “O estilo é inédito e sem igual entre nós”. Impressionaram-no os períodos sincopados, as frases sintéticas e as imagens simbólicas do romance. Quanto a Tristão de Athayde, dizia que o livro era mais escrito à ponta de faca e de machado do que com a pena. Realmente, tenho para mim que cumpri minha obrigação dando este primeiro livro e tive o prazer de receber, naquele ano, a carta de um homem de bem, o grande escritor José Américo de Almeida, que me revelava: “Depois de ler seu livro vou refundir o que estou preparando”. Era A Bagaceira, saída dois anos depois, assinalando-se como o mais notável livro da literatura nordestina e glória das letras brasileiras.

Grupos derivados da “Semana”

Naquela ocasião já começávamos a divergir. Influenciado por Cocteau e principalmente por Max Jacob, Oswald de Andrade veio de Paris trazendo a antropofagia e a Poesia Pau-Brasil. As intenções eram puras, de verdadeiro nacionalismo, de forte brasilidade. Mas a arte de Oswald dava-me a impressão de Montaigne, de Jean de Léry e até mesmo de Jean-Jacques Rousseau, que fala do “bom selvagem” como modelo de organização social e política.

Mário de Andrade era franco-atirador, homem de raro valor cultural e corajoso em suas atitudes literárias. Mas havia ainda no Rio um grupo chamado de Festa, nome de uma revista. Pertenciam a esse grupo Andrade Muricy, Adelino Magalhães, Tasso da Silveira, Murilo Araújo e outros.

Falando do movimento no Norte, quero destacar de maneira particular o grande poeta modernista de Pernambuco Ascenso Ferreira. Sua poesia é notabilíssima, pela forma, pelo estilo, pelo ritmo e pelo caráter de nativismo que ela contém.

Surgiram os modernistas de Belo Horizonte, entre cujos chefes se encontravam Emílio Moura e Pedro Nava. No Sul, eram Manuelito de Ornellas, Augusto Meyer, Mansueto Bernardi; em Santa Catarina, Gama D’Eça, um dos maiores escritores que o Brasil tem tido e hoje injustamente olvidado.

O Verde-Amarelismo

E nós, em São Paulo, que fazíamos? Numa noite em que os modernistas me ofereciam uma estatueta de bronze, comemorando a saída do meu romance O Estrangeiro, pronunciei um discurso intitulado A Anta e o Curupira, em que mostrei que o verdadeiro caminho do modernismo brasileiro era o nacionalismo, a brasilidade, a procura do Brasil em nós e a procura de nós mesmos no Brasil. Dias após, no salão do Correio Paulistano, reunido com Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo e Mota Filho, redigimos o manifesto Verde-Amarelo e começamos logo a produzir. Havia uma pequena editora, chamada Helios, que pertencia a Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo e a Arnaldo Cerdeira.

Foi ali que se imprimiu a primeira edição de O Estrangeiro, seguido logo pelos Borrões de Verde-Amarelo, de Cassiano Ricardo, e de outros livros dele, como Deixa Estar Jacaré e Martim Cererê. Cassiano não pertencera à Semana de Arte Moderna, até pelo contrário, com um grupo organizado num dos jornais de São Paulo, ele nos combatera. Mas, homem inteligentíssimo, de grande sensibilidade, foi pouco a pouco se entusiasmando pelo nosso movimento e veio a nós. Então, com ele, Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia, Alfredo Ellis, Mota Filho fundou-se o Grupo Verde-Amarelo. Publicou Menotti Del Picchia seu livro Chuva de Pedra, seguido pelo República dos Estados Unidos do Brasil. O grande líder modernista vinha de longe, com um sentido de brasilidade profunda, desde Juca Mulato, um dos poemas mais belos que tenho conhecido na literatura brasileira. O verde-amarelismo, pois, lhe era agradável. Vinha casar-se com seu espírito. Mota Filho escreveu Introdução ao Estudo do Pensamento Nacional e Alfredo Ellis, Raça de Gigantes. Aí começamos a pensar que deveríamos ler os grandes autores, que nos ensinaram a ser brasileiros. O primeiro deles era Alberto Torres, cuja obra perlustramos: A Organização Nacional, O Problema Nacional Brasileiro.

O Mestiço, por Cândido Portinari

Era também preciso conhecer mais profundamente o índio brasileiro, não o índio lamartiniano que aparece com José de Alencar e Gonçalves Dias, mas o índio genuinamente nacional, denominador comum de nosso caldeamento étnico. Líamos então Couto de Magalhães, Barbosa Rodrigues, com suas maravilhosas lendas do Poranduba amazonense; líamos Batista Caetano, estudávamos a língua tupi. Mas era preciso conhecer mais. E um dos nossos grandes mestres de sociologia brasileira foi Oliveira Vianna, então nosso contemporâneo, com o qual tive contato em Niterói certa vez. Era realmente grande professor de brasilidade. Mas havia ainda, na monarquia, Tavares Bastos. Cumpria-nos ainda reler a obra de Joaquim Nabuco; era preciso reler e tresler Os Sertões, de Euclides da Cunha, o homem que nos revelou o desequilíbrio entre o litoral e o sertão e que penetrou na psicologia do nosso sertanejo nordestino, apresentando-o com o dizer: “O sertanejo é antes de tudo um forte; não tem o raquitismo exaustivo do mestiço neurastênico do litoral”.

Movimento da Anta

Mergulhamo-nos, então, profundamente no Brasil. Nessa ocasião chega a São Paulo, vindo do Amazonas, o poeta Raul Bopp, que tinha viajado todo o Oeste e Norte brasileiros. Trouxera lendas, fábulas, o linguajar daquelas regiões, poesias como Cobra Norato, que depois se tornou famosa. Descrevia a natureza amazônica e o tipo racial que ali existe. Entusiasmados fomos ele e eu procurar Alarico Silveira, mestre ilustre, um dos grandes homens que o Brasil tem produzido, autor de uma enciclopédia brasileira que até hoje não foi publicada, tendo ele recolhido mais de 400 mil verbetes em viagens que fez pelo interior. 

Todas as nações têm sua enciclopédia, e nós traduzimos enciclopédias estrangeiras. A Inglaterra possui a Britânica; a França, o Larousse; a Espanha, o Escasa-Calpe. Nós não a temos e isso porque até hoje não houve ninguém de prestígio ou de dinheiro que tomasse a iniciativa patriótica de publicá-la.

Em contato com Alarico Silveira começávamos a frequentá-lo muitas noites. Sua filha, a grande escritora Dinah, era uma menina. Ali conheci um dos maiores homens do Brasil, que de há muito admirava: Teodoro Sampaio, geógrafo ilustre, etnógrafo, filólogo, historiador. Era um manancial. Estava com 84 anos, numa saúde belíssima. E lecionava sobre assuntos brasileiros. Daí saiu o movimento da Anta, genuinamente nacional, que era uma diversificação do verde-amarelismo, tomando como símbolo o animal totêmico da raça tupi, que a si própria se designava pela expressão “ce tapria“, eu sou a anta.

O Modernismo em ação

Outros movimentos surgiram no País, como o do Grupo de Cataguases, na Revista Verde. Esparsamente, numerosos intelectuais vinham contribuir para o movimento modernista. No campo das artes tivemos a precursora Anita Malfatti; a engenhosa Tarsila do Amaral, intérprete inspirada e eloquente da paisagem, das casas brasileiras e de nossos tipos humanos; Di Cavalcanti, de quem não precisarei falar mais do que já disse Henrique Turner; Brecheret, produzindo as estátuas de estilo moderno, de novas formas; e Villa-Lobos, que ainda não era o grande nome internacional. Lembro-me quando, em casa de Menotti Del Picchia, junto da grande pianista Antonieta Rudge, Heitor Villa-Lobos sentava-se ao piano e improvisava a temática de suas futuras e universalmente consagradas composições.

O Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret

A poesia continuava a revelar-se através de Cassiano, Menotti, Manuel Bandeira e Guilherme de Almeida, o altíssimo cantor de Raça.

Estes são, entre outros, os que compuseram o “Movimento Modernista Brasileiro”, de cuja semana famosa comemora-se o cinquentenário e de cujas fontes iriam se originar grandes poetas, como Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Afonso Schmidt, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes, e uma plêiade de prosadores, entre os quais destaco, pela técnica de estilo, Antônio de Alcântara Machado.

Irei realizar uma conferência na Academia Paulista de Letras, iniciativa do Governo de São Paulo, e outra na União Brasileira de Escritores sobre esses assuntos. Pretendo ali, com tempo maior, do que me cabe aqui regimentalmente, narrar, expor, interpretar melhor o que disse agora, sobre o que foi a Semana de Arte Moderna.

“No princípio era o Verbo”

Não poderei, entretanto, terminar esta minha conversa entre amigos sem dizer uma coisa da maior significação. Está escrito no Evangelho de São João, no 1° capítulo e primeiros versículos, o seguinte:

“No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. E todas as coisas foram feitas com Ele. E nada do que se fez foi feito sem Ele.” 

Pergunto: por que Verbo? Por que motivo o Verbo estava com Deus e fez todas as coisas? Senhores Deputados, o Verbo traduz a necessidade de expressão, de revelação. O universo é uma representação teatral maravilhosa com suas constelações, estrelas e planetas girando constantemente no mais perfeito equilíbrio e na mais divina harmonia. A história humana é também um teatro, uma representação.

Nós surgimos no palco da História, desempenhamos o nosso papel e, assim como entramos pelos bastidores do nascimento, saímos pelos bastidores da morte; mas desempenhamos o papel que nos coube. Os povos desempenham também o seu papel.

Ao estudarmos as civilizações, desde as mais antigas, verificamos que cada povo teve necessidade de revelar-se. Então, a arte, a pintura, a escultura, a arquitetura, a música, a poesia, o romance, a oratória, tudo isso é obra de criação do Verbo, do Verbo que está em Deus e fez todas as coisas e nós na centelha do nosso pensamento, na vibração do nosso sentimento. É preciso revelarmo-nos.

Uma estátua é um discurso. Olhando para o Moisés ou para a Pietà de Michelangelo, ou olhando para a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, ou telas de Rafael ou, mais remotamente, para as pinturas de Zêuxis ou para a estatuária de Fídias, percebemos que eles quiseram dizer isto: eu vi, senti, exprimi assim.

Vitória de Samotrácia

O verbo, portanto, é vontade e forma de expressão. Vontade de falar, falar pelas estátuas, falar pela pintura, falar pela música, falar pelos romances, falar pelas poesias. Necessidade de falar. Os povos que assim não procederam desapareceram misteriosamente na História. Assim aconteceu com os hititas; assim aconteceu com os urartianos. Não deixaram poesias; não deixaram estátuas; nada deixaram. Somente o trabalho dos arqueólogos, a partir do Século XIX, vem encontrar em inscrições cuneiformes de assírios ou nos hieróglifos egípcios a história dessas gentes que desapareceram. Entretanto, o Egito está presente conosco. A Grécia está presente na Vênus de Milo, na Vitória de Samotrácia, no Apolo do Belvedere, no delineamento de Partenon, nas tragédias de Sófocles e de Ésquilo, na poesia de Píndaro, na história de Tucídides e de Heródoto. Vivem porque falaram. E a fala dos homens se renova como a natureza. Se a natureza se transforma constantemente é imperativo que, na ânsia de se exprimir, o homem busque novas maneiras de manifestar seu pensamento, suas impressões, seus sentimentos.

Eis por que, ao celebrarmos o cinquentenário da Semana de Arte Moderna, que foi um instante de inquietação e de procura de novos caminhos para novas expressões, quero concitar nossa Pátria para que fale, para que se exprima, para que, através dos seus artistas, pensadores, oradores, poetas, escritores de todos os gêneros, diga: eu sou, eu existo, eu sou assim. Essa é particularmente a missão do artista. Benditas as gerações que se preocuparam e se inquietaram e se desesperaram em busca de novas expressões. Benditos os povos que possuem Parlamentos como o nosso, que interrompe sua preocupação legislativa ou seus debates políticos para cultuar aquilo que é mais nobre, mais belo no espírito humano: o Verbo. O Verbo que estava com Deus e era Deus, com o qual foram feitas todas as coisas e sem o qual nada feito. Sejamos assim, sintamos em nós e nossa Pátria sinta a vibração permanente do Verbo ou a necessidade perene da expressão. (Muito bem; muito bem. Palmas. O orador é cumprimentado.)