Na madrugada do dia 31 de dezembro do ano passado, faleceu, na cidade de Fortaleza, aos 76 anos de idade, o querido companheiro e meu pai, Sr. Francisco Carlos de Lima. Era ele e continua a ser um dos camisas-verdes mais estimados nas hostes da Frente Integralista Brasileira no Ceará.

Francisco Carlos de Lima nasceu em Fortaleza no dia 12 de março de 1947, sendo filho de Maria do Carmo Lima e Francisco Filgueiras Filho. De família humilde, residente na Rua Justiniano de Serpa, no antigo bairro Otávio Bonfim, atual Farias Brito, começou a trabalhar com 8 anos de idade vendendo água (na época ainda não havia água encanada em muitas das casas da periferia fortalezense) pelo bairro e algumas frutas na praça da Igreja de Nossa Senhora das Dores. Entre estudar e trabalhar, preferia trabalhar para conseguir um meio a mais a fim de ajudar no sustento de casa e apoiar minha avó nas despesas. Era um aluno faltoso e dava muita dor de cabeça aos pais e tios. Seus divertimento eram fazer arapucas para pegar bichos; jogar futebol de botão; ir ao cinema; subir em árvores; entrar em algumas brigas com os amigos. Era uma infância simples, difícil e saudável em alguns pontos.

Com o passar dos anos, o jovem Francisco Carlos criou gosto pela profissão de mecânico, mas, logo após o falecimento de sua avó materna, interessou-se pela enfermagem, à qual dedicou-se incondicionalmente, iniciando, aos 14 anos incompletos, seu estágio no então HPS (Hospital de Pronto Socorro), atual Instituto José Frota. Após um tempo começou a ganhar por semana e, logo em seguida, por quinzena. Estava conseguindo fazer aquilo que mais desejava: ajudar a família com o sustento do lar e evitar as grandes necessidades que havia passado durante a infância, como a falta de roupas e, muitas vezes, até de comida. Nessa nobre profissão trabalhou por décadas no IJF; no Hospital Antônio de Pádua; em alto mar pela Montreal LTDA, como enfermeiro de bordo; na Esmaltec e em ambulatórios de inúmeras farmácias de Fortaleza, tendo, aliás, possuído duas farmácias.

Por seu profissionalismo e carisma, ganhou a admiração e o respeito de muitos pacientes pelo Centro de Fortaleza, no bairro de Farias Brito e, principalmente, no bairro Álvaro Wayne, onde morou por muito tempo. Era reconhecido como um grande enfermeiro até nos rincões de Iguatu e Icó, por onde tinha familiares e amigos, que muitas vezes necessitavam de seus serviços. Francisco Carlos, meu pai, não era só respeitado por ser um grande profissional, mas, também, por sua caridade com os mais necessitados, prestando muitas vezes os seus serviços e medicamentos sem cobrar nada, nem aceitar favores em troca. Após um tempo, decidiu se aprofundar em um hobby: a culinária. Fez cursos de culinária francesa e regional, e dedicou-se autodidaticamente aos estudos de panificação, confeitaria, e outras variedades. De enfermeiro, virou um verdadeiro “mestre cuca”. Realmente, seus pratos eram deliciosos. Todos os apreciavam.

Sua adesão ao Integralismo foi já em sua velhice, aos 71 anos. Meu pai acompanhava o desenrolar histórico e político do Brasil desde o tempo do General Eurico Gaspar Dutra. Era muito insatisfeito com a situação do Brasil. Insatisfeito e inconformado. Da sua inconformação vinha o desejo de trabalhar por um Brasil melhor e a esperança por dias melhores ao nosso povo. Quando comecei a falar de Integralismo dentro de casa, meus pais ficaram curiosos, e meu pai perguntou: “Essas ideias são ótimas mesmo, mas quem fez esse movimento de que você quer fazer parte?” Eu disse: “Plínio Salgado”. Ele se surpreendeu e disse com entusiasmo: “Minha mãe, sua avó Maria, foi integralista, então. Eu me lembro que na campanha presidencial de 1955, quando eu tinha oito anos, mamãe me fez andar por várias ruas da cidade ajudando na panfletagem e na colagem de cartazes. Muita gente gostava do Plínio Salgado nessa época”. Após essa explanação sobre o primeiro contato dele com o Integralismo e a militância de minha avó, fiquei cada vez mais entusiasmado em participar cada vez mais do movimento integralista. A partir disso meus pais começaram a me pedir manuais e manifestos integralistas para conhecerem mais. A princípio tiveram medo, por causa das perseguições; em seguida, optaram por querer ser perseguidos por afirmar os ideias sadios do nosso nacionalismo e pelo bem do Brasil. Desde o princípio meu pai detestava o Comunismo, e dizia muito que era uma “ideia de gente desmiolada e herege que não tem Deus no coração”.

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Em 2021 e 2022 participou da Iª Conferência Integralista do Nordeste e da Iª Conferência Integralista do Ceará, sendo sempre muito bem abraçado e benquisto por seus companheiros de ideal. Quando os nossos companheiros integralistas ficavam hospedados na casa de minha mãe, meu pai fazia questão de fazer a merenda, o almoço e a janta para todos. E todos amavam. Gostava muito de contar histórias e anedotas, e todos o escutavam atenciosamente.

No início da tarde de 27 de dezembro do ano passado, em Fortaleza, um incêndio repentino em seu fogão se tornou a causa de sua fatalidade. Uma explosão com uma forte labareda de fogo foi cuspida para todos os lados e atingiu em cheio o meu pai. Imediatamente fui ao seu socorro, conseguindo apagar as chamas rapidamente, graças a Deus. Quando as chamas cessaram em seu corpo, o fogo já se espalhava por todo o apartamento. Sem reclamar dos graves ferimentos que as chamas provocaram em 42% do seu corpo e quase sem enxergar, começou a jogar baldes de água, iniciando, assim, um combate contra as chamas, para salvar nossas vidas. De imediato fui ajudá-lo. O ambiente pequeno e a rápida propagação das chamas tornavam o ambiente sufocante e insuportavelmente quente. Quando apagamos o fogo na porta, fiz com que ele saísse primeiro, mesmo ele insistindo em continuar no combate às chamas. Ao distanciá-lo do incêndio e da fumaça, retornei para resgatar o pouco que podia ser resgatado e continuar no combate às chamas até a chegada dos bombeiros. Temia que o fogo atingisse os apartamentos vizinhos e a tragédia fosse ainda maior.

Quando os bombeiros chegaram, fui tranquilizar meu pai até a ambulância chegar. Ele estava inquieto, e não se queixava em nenhum momento das queimaduras. Quando finalmente foi atendido e levado à ambulância, sucumbi de cansaço e falta de ar. Ele foi retirado do local andando com as próprias pernas, falando e consciente. Fomos para o hospital na mesma ambulância, e eu o acompanhei até ele entrar na Ala Vermelha e me levarem ao Centro de Tratamento de Queimados. Fiquei internado durante 30 horas, tratando minhas queimaduras e em observação devido à inalação de fumaça e fuligem. Meu pai ficou lutando pela vida até as 02h46 da madrugada do dia 31 de dezembro último, quando veio a óbito. Não faleceu em decorrência das queimaduras, mas pela hemodiálise. Uma grave complicação nos rins agravou seu quadro clínico até não suportar mais.

Por fim, foi velado e sepultado de camisa-verde.

Meu pai, Francisco Carlos de Lima, viveu e partiu dessa vida terrena heroicamente. Nunca esquecerei do meu querido pai, que através de sua bravura e determinação, me inspirou coragem para poder agir contra o fogo, e nos tirar dali com vida. Meu pai foi meu professor, meu médico, meu grande amigo, meu herói, meu companheiro de ideal, e sempre será meu pai.

Anauê, meu pai! Nós nos veremos na Milícia do Além. Sempre te amarei!

Carlos Ribeiro
Fortaleza Σ CE