Engenheiro civil e ferroviário, advogado, agricultor, economista e professor. Polímata e erudito. Criou a cidade de Presidente Prudente, sendo também um dos fundadores de Santo Anastácio.

Participou da elaboração do Código de Processo Civil e Comercial do Estado de São Paulo, de 1930. Foi o responsável original pela Lei de Usura de 1933. Era um dos principais líderes sindicais dos lavradores, lutando por sua união e organização. Em 1949, foi responsável pela entronização do Cristo Crucificado na Câmara Municipal de São Paulo.

Um dos fundadores do Patrianovismo, João Carlos Fairbanks tornou-se seguidor de Plínio Salgado em 1931. No ano seguinte, participou da Sociedade de Estudos Políticos, filiando-se à Ação Integralista Brasileira logo que fundada. Dentro da AIB, foi Chefe Municipal do núcleo de Presidente Prudente e, até o Estado Novo, Secretário de Estudos da seção provincial paulista. A partir de 1935, foi deputado estadual de São Paulo pela Ação Integralista Brasileira, e, entre 1948 e 1951, vereador de São Paulo pelo Partido de Representação Popular.

Idealizou uma reestruturação das bases da Economia Política, inclusive fundando uma nova ciência, a juseconometria. A partir das lições de Joaquim Huet de Bacellar, e usando o exemplo da Estrada de Ferro Sorocabana, de cuja construção participou ativamente, João Carlos Fairbanks foi responsável por ordenar e sistematizar uma nova Escola Ferroviária, baseada em uma concepção própria e mais racional das ferrovias, para melhor articulá-las em uma planificação nacional dos meios de transporte. É um dos maiores sociólogos do Centro-Sul, sendo autor de importantes estudos sobre o meio rural do Brasil. Seu livro Refutação Científica ao Comunismo, de 1947, foi aclamado pelos maiores intelectuais brasileiros e tido como um dos principais marcos da bibliografia anticomunista no Brasil. Um dos pólos de sua vida intelectual foi a insistente sugestão de um plano nacional de povoamento do interior, que expôs e analisou minuciosamente.

Sobre Fairbanks, Plínio Salgado escreveu: “É uma das mais altas expressões de inteligência, de cultura, de caráter e de patriotismo deste país onde os grandes valores andam sempre desaproveitados”. Era um homem prático, preocupado com fatos concretos e soluções reais, dentro de uma visão completa dos problemas. Simples e bondoso, católico muito devoto, era lembrado por sua profunda humildade.

João Carlos Fairbanks em 1955

Mais informações

João Carlos Fairbanks nasceu em 16 de agosto de 1891, no estado de São Paulo, em São Simão, filho de João Cezimbra Fairbanks e Melania Nunes Fairbanks e, portanto, neto de norte-americanos. Ainda criança, seu pai foi prefeito de sua cidade natal, lutando então pela defesa da autonomia, como um dos principais líderes do movimento municipalista de Domingos Jaguaribe Filho. Durante toda a vida, foi um caipira, o que repetia com muito orgulho. Teve uma sólida formação católica e tomista. Deslumbrado na adolescência com a Geometria de Euclides, optou pelas ciências exatas.

Casou-se em 10 de março de 1913, com Maria das Graças Lopes. Em 1914, formou-se Engenheiro Civil pela Universidade de São Paulo. Alguns anos depois, lendo os Elementos de Direito Romano, de Ferdinand Mackeldey, foi tomado de encanto pelo Direito, formando-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1929. A base do seu futuro pensamento político seria encontrada no estudo dos historicistas, como Burke e Savigny, e nas obras de João Mendes Júnior, aos quais se somariam, mais tarde, Friedrich List e Mihail Manoilesco.

Sempre esteve presente nos principais acontecimentos da implantação da Sorocabana Railway na Alta Sorocabana, assim como nos seus prolongamentos, contribuindo para a formação de várias cidades e os levantamentos topográficos locais. Engajou-se nos trabalhos por nove anos, desde 1911, quando, ainda estudante, tornou-se auxiliar (e depois engenheiro-de-campo) do engenheiro-chefe Joaquim Huet de Bacellar, a cujas lições se filiaria pelo resto da vida. Foi o criador da cidade de Presidente Prudente, em que sugeriu o melhor lugar, demarcou e projetou, plantando as primeiras casas. Encarregado do prolongamento até as barrancas do rio Paraná, elaborou o desenho urbano de Santo Anastácio, onde tornou-se um dos primeiros plantadores de café, deu o nome que batizou a cidade e apadrinhou a primeira criança aí nascida. Em 1920, organizou a primeira missa de Santo Anastácio, na qual foi acólito. Foi perito judicial em inúmeras questões de terras nas frentes pioneiras da região. Seu estudo antropogeográfico sobre a Alta Sorocabana, escrito em 1925, foi traduzido na Alemanha e publicado pela Berliner Liustrierto Zeitung. Em 1929, plantou em Presidente Prudente o marco inicial do Ramal de Parapanema da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, de cuja concessão local era detentor, assim como do Ramal da Alta Paulista.

Na primeira audiência em juízo de Presidente Prudente após a Revolução de 1930, requereu e conseguiu que constasse nos protocolos o voto para que a futura Constituição fosse promulgada em nome de Cristo Rei. Desde então, capitaneou uma campanha entre os cristãos brasileiros para que a Constituição tivesse a inaugural “em nome de Cristo Rei”.

Em 1927, foi um dos fundadores da Associação Comercial e Industrial de Presidente Prudente. Em 1930, fundou a Associação dos Lavradores de Santo Anastácio, da qual tornou-se Diretor-Presidente. De forma inédita no país, a Associação, com o lema ex-rure, patria, unia harmonicamente todas as classes do campo, congregando, ao lado dos fazendeiros, os colonos e meeiros, tendo organizado ensino profissional rural para os filhos dos associados. Uma das preocupações que conduziam Fairbanks era, através da Associação, assimilar as várias procedências étnicas da região, a mais nova e, portanto, mais heterogênea do país. À sua frente, Fairbanks dedicou-se à causa da união dos agricultores do Estado acima de todos os partidos, propondo a criação de um Sindicato Central dos Cafeicultores de São Paulo, tendo se tornado um líder da classe e publicado dezenas de artigos na Folha da Manhã.

Em 24 de fevereiro de 1932, foi um dos primeiros a se filiar à Sociedade de Estudos Políticos. Após fundada a Ação Integralista Brasileira, foi um dos oradores de sua primeira sessão pública, no Teatro Municipal de São Paulo, em 7 de novembro de 1932, e passou a compor seu Grupo Centralizador Estadual de São Paulo. Foi um dos 40 participantes da primeira marcha da AIB, em 23 de abril de 1933.

Tomou posse como Deputado Estadual em 23 de abril de 1935, envergando o uniforme integralista. Na ocasião, falou como juramento: “Prometo trabalhar pelo bem de São Paulo e, por conseguinte, fazer todo o mal à liberal-democracia”. A sessão precisou ser reaberta, após um intenso tumulto da oposição. Em seguida à reabertura, Fairbanks fez “anauês” ao Chefe Nacional Plínio Salgado e aos integralistas presentes. Tendo sido a sessão suspensa de novo, e Fairbanks obrigado a realizar o juramento correto, caso quisesse ser tratado como membro da Assembleia, jurou, logo após a nova reabertura, em voz baixa, acrescentando, de forma imperceptível (como o E pur si muove de Galileu): “o primeiro juramento foi o que valeu”.

João Carlos Fairbanks assinando contra a promulgação da Constituição de São Paulo

Seus anos como Deputado Estadual foram agitados e polêmicos. Isolado e ridicularizado, tornou-se uma das figuras centrais da vida parlamentar. Entre dezenas de assuntos, propôs medidas de industrialização do café, navegação fluvial, circulação monetária, expansão do crédito, redução dos preços dos gêneros de primeira necessidade e dos medicamentos populares, intensificação do ensino profissional nos graus primários e secundários, fomento da imigração, assimilação dos imigrantes, autonomia municipal, casa própria do operário, promoção da iniciativa particular no ensino, ensino religioso, direcionamento escolar dos maus alunos, defesa da comunidade artística, criação do Instituto de Química e Biologia Vegetal, reforma dos cursos universitários, solução da crise cafeeira, extensão dos trilhos ferroviários etc. Só em 1935, apresentou mais de 30 projetos. Lutou contra o confisco da propriedade privada, o ataque legal às ferrovias, a rigidez constitucional, a “queima do café” e a esterilização, então defendida por Pacheco e Silva e Alfredo Ellis, e defendeu o descanso dominical, a limitação dos empréstimos e a repressão do aborto. Foi, durante o seu mandato, o porta-voz da honra e dos direitos do movimento integralista. Durante o Estado Novo, com o banimento da AIB, foi preso no Rio de Janeiro, dedicando-se desde então ao aprofundamento no estudo das realidades nacionais.

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Inscreveu-se em 1939 como candidato único ao concurso para a cátedra n° 19 de Economia Política, Estatística Aplicada, Organizações Administrativas da Escola Politécnica da USP, da qual era Livre Docente, tendo sido unanimemente habilitado nas provas, inclusive na reabertura, motivada por anulação ilegal do primeiro concurso, apresentando as teses Geopolítica Povoadora e A Economia Dinâmico-Conjuntural (Relatividade e Finalidade). Apesar disso, foi preterido ilegalmente pelo candidato Carlos Alberto Vanzolini, inscrito quase quatro anos após escoamento do prazo edital e sem formação jurídica. Atribuía o fato ao apadrinhamento do escolhido pelos diretores da universidade, tendo lutado na Justiça por décadas, sem sucesso. Com o desdobramento da Escola Politécnica em Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, apesar das disposições legais para Fairbanks assumir a 12ª cadeira, idêntica à 19ª, esta também foi entregue a Vanzolini.

Em 1944, foi premiado em 1º lugar em competição do Committee on Cultural Relations with Latin America, entre 459 concorrentes de 20 países da América Latina, com um resumo da sua Geopolítica Povoadora.

Em 1945, assinou a Carta Aberta à Nação Brasileira, apresentada pelos ex-líderes integralistas. No mesmo ano, participou da fundação do Partido de Representação Popular.

Como vereador, teve uma atuação intensa. Destacou-se como o vereador mais ativo da legislatura, debatendo ativamente todas as propostas, com numerosas emendas. Em apenas 3 anos, apresentou 92 projetos, como os de criação do Cinturão Alimentar (em quatro projetos diversos), do Ensino de Complementação da Instrução Primária e Seleção Vocacional, do Banco de Operações Municipais, do Entreposto Central no Tietê, de combate à especulação comercial, das estações rodoviárias, dos gabinetes sanitários públicos, da Casa da Cidadania, da Hospedaria dos Imigrantes, do Instituto de Conjuntura e Barômetro Econômico e da Renovação Urbana Semissecular da capital, a terminar em 2004, caso aprovado. Foi responsável pelo primeiro projeto de resolução e segundo projeto de lei da Câmara, versando, respectivamente, sobre a entronização do Crucifixo e a criação de uma comissão para o cinturão alimentar da cidade. Seu projeto de entronização do Crucifixo foi o primeiro a ser apresentado nas câmaras do Estado de São Paulo. Capitaneou os preparativos na Câmara do IV Centenário de São Paulo, que seria realizado em 1954.

Sobre Fairbanks, Rubem Nogueira escreveu, em 1948: “Aquele mesmo João Carlos Fairbanks — o Saci-pererê da Câmara paulista de 1934-1937, cujos discursos desconcertavam os seus pares e nos deixavam, a nós, adolescentes integralistas da Província, absolutamente deslumbrados. Íamos à Biblioteca Pública da Bahia, pelo menos uma vez por semana, devorar os discursos com que o único deputado estadual integralista em S. Paulo dominava substancialmente o plenário — discursos que eram revelações sensacionais de cultura científica e política, coisa em geral muito rara na história parlamentar do Brasil — e saíamos dessas leituras imaginando o que não seria pessoalmente aquele invencível Fairbanks. Na verdade, o velho Fairbanks é um homem por quem à primeira vista ninguém dá nada. Porque ele não liga a menor importância às coisas pelas quais a maioria comumente se preocupa: roupas e elogios. E não é só. As coisas mais agudas e penetrantes, no curso de um debate ou de uma simples palestra, o velho Fairbanks diz com uma naturalidade tão grande, que o interlocutor fica sob a impressão de que toda a gente já sabia aquilo tudo… […] Mestre Fairbanks é uma novidade inesgotável. Um sujeito que faz falta a todos os partidos. Qualquer deles trocá-lo-ia por uma legião. De fato, ele pensa e age por uma equipe”.

Candidatou-se a deputado federal pelo PRP em 1950, mas não foi eleito. Em 1953, passou a compor o Grande Conselho do movimento Águia Branca. Concorreu a vice-prefeito de São Paulo em 1955. No ano seguinte, foi acusado de desvio de verbas da Associação Nacional contra a Tuberculose. O episódio serviu para medir seu prestígio: na Câmara Municipal, foi aprovado por unanimidade o silêncio sobre o caso, entre discursos de que Fairbanks era uma figura a quem se deveria curvar-se antes de qualquer coisa. O Tribunal de Justiça de São Paulo absolveu-o por absoluta falta de qualquer evidência. A partir de 1957, ano em que morreu sua segunda esposa, Virginia Vedovatto, foi professor na Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Instituição Toledo de Ensino em Bauru e, depois, na Faculdade de Ciências Econômicas de Tupã. Em 1962, foi eleito suplente de deputado federal pelo PRP em São Paulo, sob o lema eleitoral “amigo da produção, inimigo da demagogia”.

Em 1968, na Conferência Águia Branca de Jaú, declarou à imprensa: “Nasci integralista, desde a hora em que a parteira me extraiu do ventre materno. Foi quando bradei meu primeiro Anauê”. Afirmou que a diferença dos jovens integralistas e esquerdistas é a mesma que a de Deus, “donde procede o Integralismo”, e o diabo, e que “os liberais-democratas não se cansam de fazer propaganda comunista”.

Faleceu em 16 de outubro de 1978. Está enterrado no Cemitério do Araçá, em São Paulo.

João Carlos Fairbanks ao lado de outros representantes integralistas, visitando a Câmara dos Deputados, em abril de 1937

Livros publicados

  • Geopolítica Povoadora, 1939
  • A Economia Dinâmico-Conjuntural (Relatividade e Finalidade), 1943
  • Refutação Científica ao Comunismo, 1947
  • Normas de Administrotécnica Municipal, 1951

Não publicados:

  • Geopolítica Povoadora, 2ª edição
  • Preenchimento dos vazios demográficos (comentários à Geopolítica Povoadora, publicados em artigos)
  • Coordenação dos meios de transporte e outros temas
  • Tentativa de Síntese em Ciência Social (Relatividade e Finalidade), 2ª edição de A Economia Dinâmico-Conjuntural
  • Crítica ao Das Kapital e a seu principal crítico, Pareto
  • Providencialismo versus a chamada Dialética
  • Refutação Científica ao Comunismo, edição castelhana amplamente revisada e com novo prefácio

Artigos disponíveis

Referências biográficas

  • CÂMARA MUNICIPAL DE PRESIDENTE PRUDENTE. Hoje Prudente, Vila Goulart era fundada há 104 anos. 14 de setembro de 2021.
  • CORREIO PAULISTANO. Tumultuosa, a sessão de ontem na Constituinte. 24 de abril de 1935.
  • DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO, nº 262, ano 61, 24 de novembro de 1951, p. 29.
  • ENCICLOPÉDIA MUNICIPAL BRASILEIRA. Santo AnastácioMemorial dos Municípios, s. d.
  • FAIRBANKS, João Carlos. Ensaio de política científica. A Marcha (Rio de Janeiro), 10 de agosto de 1956.
  • FAIRBANKS, João Carlos. Os fundamentos da Juseconometria. Idade Nova (Rio de Janeiro), 4 de março de 1948.
  • FAIRBANKS, João Carlos. Por que ingressei no Integralismo. In: Enciclopédia do Integralismo: III. Rio de Janeiro: GRD, 1958.
  • FIGUEIRA, Jorge. A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e o Integralista João Carlos Fairbanks. História do Partido de Representação Popular, 13 de dezembro de 2019.
  • HOLANDA, Antônio Guedes. Um pouco de tudo. A Cruz (Rio de Janeiro), 11 de outubro de 1970.
  • NOGUEIRA, Rubem. Imagens da Convenção. Idade Nova (Rio de Janeiro), 18 de agosto de 1948.
  • PARÓQUIA SANTO ANASTÁCIO. História – Primeira Missa. s. d.
  • SALGADO, Plínio. O Ritmo da História. In: Obras Completas: 16. São Paulo: Editora das Américas, 1956.
  • SOUZA, João Márcio Dias. Tipologias arquitetônicas nas estações da Estrada de Ferro Sorocabana. São Paulo, 2015.