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Diário Nacional

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Resenha do livro Da Direita Moderna à Direita Tradicional

Resenha do livro Da Direita Moderna à Direita Tradicional: Análise de Uma Categoria Metapolítica, de Cesar Ranquetat Júnior.

 

Daniel Branco

 

O mundo moderno reclama tolerância e compreensão, mas intolerância e preconceito têm sido as respostas que ele dá àqueles que ousam pular os muros da modernidade. Seja nas ruas, nos partidos políticos ou nas universidades, os gritos de “fascistas” formam um coro contra a “direita” e os “reacionários”. Até anos recentes, o Brasil presenciou a reprodução quase que mântrica da comparação entre o conservadorismo e a “tortura militar”. Associado a isso está o ad hitlerum, usado contra quem vai além da dicotomia “tucano-petista” ou” coxinha-esquerdopata” e se posiciona, dentro da política, sobre temas maiores que economia liberal ou economia socialista, como metafísica, etnicidade, família tradicional etc. O fato é que, por esses e por outros fatores, a opção não socialista no Brasil, de meados dos1980 aos 2000, foi timidamente traçada. A maior parte desses antiesquerdistas, falando-se daqueles com grande repercussão, constitui-se de “liberais-conservadores” ou de somente “liberais”. Uma exceção foi Eneias Carneiro. Somente nos últimos anos uma resposta mais vigorosa ao socialismo-comunismo realcançou considerável impacto na nação. Pensadores como Olavo de Carvalho e Luiz Felipe Pondé conseguiram ultrapassar os limites do gueto e adentrar “o centro” do país, com uma popularidade notável! Outros nomes populares nesse campo são o de Rodrigo Constantino, de Bruno Garshagen e de Francisco Razzo. Institutos, partidos e movimentos cresceram também. Pode-se destacar, ainda nessa área, o Instituto Mises (IM), o Movimento Brasil Livre (MBL), o Partido Patriota e o Partido Social Liberal (Livres). Olavo de Carvalho, principalmente, conquistou uma grande soma de leitores que, inspirados pela sua forte personalidade, combatem o socialismo com uma ferocidade pouco antes vista. Ferocidade esta agora simbolizada na pessoa do muito popular pré-candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro.

Mas tudo isso, toda essa mudança dos últimos poucos anos, ainda não satisfaz aos muitos desconhecidos por este país que pensam como o  professor Cesar Ranquetat. É que Ranquetat, como eles, sabe que, para estar à direita, é preciso estar mais longe, não apenas à “direita da esquerda”. E, por isso, no recém-lançado livro Da Direita Moderna à Direita Tradicional: Análise de Uma Categoria Metapolítica, o autor, que é professor da Universidade Federal do Pampa e que, portanto, está longe de ser um ideólogo saudosista de algum grupo subcultural, apresenta um sério e acadêmico tratado sobre as bases teóricas da direita em comparação com a direita moderna. Ele escreveu um livro corajoso. Sim, corajoso porque feito não somente por um acadêmico, mas por um professor acadêmico. Também é corajoso porque, não pegando carona na nova efervescência de uma suposta direita (também chamada de neodireita), resolveu criticá-la e contrapô-la à direita tradicional. Volta-se ao ponto inicial: a direita tradicional ainda não tem um público expressivo e organizado e está à espera de missionários e de discípulos para adentrar o coração do Brasil. Ranquetat saiu na frente!

O primeiro capítulo do livro, intitulado A Caricatura da Direita Pela Sinistra, expõe como o establishment e a intelligentsia, através do rádio, da televisão, dos livros, dos jornais, entre outros instrumentos de poder exercidos sobreas grandes massas, militam para demonizar diante do povo a imagem da direita. Ademais, enfraquecer o opositor até torná-lo irrelevante, débil e vil desvia o foco do encadeamento lógico da sua doutrina para o fato de que ele é “mau” e de que as suas intenções são “destrutivas”. O famoso ad hominem, no qual o adversário - e não as suas ideias - é atacado, é exposto por Ranquetat como uma ferramenta fundamental com a qual a esquerda caricatura a direita. O autor também estuda as raízes espirituais e intelectuais da esquerda, investigando o seu impacto sobre o mundo, posto que “os valores culturais centrais da modernidade são os valores da esquerda, como, por exemplo: o progressismo, o igualitarismo, o multiculturalismo, o feminismo enragé, o democratismo, o cosmopolitismo, o materialismo prático, o secularismo, o ativismo, o pragmatismo, o relativismo e o permissivismo” (RANQUETAT, 2017, p. 57).

O segundo e o terceiro capítulos, respectivamente, Direita: Origens Históricas, Tipológicas e Definições e O Simbolismo Universal da Direita e da Esquerda,analisam a composição de elementos históricos, tipológicos, etimológicos e simbólicos que fundamentam o conceito de direita e de esquerda, no intuito de traçar com precisão os limites que as separam, isto é, separam a direita da esquerda. Segundo Ranquetat, “direita e esquerda são noções que apresentam um poderoso caráter cognitivo e simbólico” (IBIDEM, 2017, p. 60). No Brasil,

Historicamente, a direita radical e revolucionária foi representada pela Ação Integralista Brasileira, criada em outubro de 1932, pelo político Plínio Salgado. O integralismo era uma doutrina política de cunho cristão, que fundia elementos de Farias Brito, do nacionalismo de Alberto Torres e do catolicismo social [...][1] A direita contrarrevolucionária e tradicionalista encontra-se representada pelo movimento católico  Tradição, Família e Propriedade (TFP), fundado em julho de 1960, pelo intelectual paulista Plínio Correia de Oliveira [...] É provável que o único movimento brasileiro de orientação genuinamente tradicionalista tenha sido a pouquíssima conhecida Ação Imperial Patrionovista, criada em 1932,  pelo intelectual e professor universitário Arlindo Veiga dos Santos. Este movimento cultural e político defendia ardentemente a monarquia, o catolicismo, o patriotismo e era fortemente antimarxista e antiliberal (IBIDEM, 2017, pp. 64-65)

O terceiro capítulo, em especial, dedica-se ao aspecto simbólico - e etimológico- do conceito de direita e de esquerda. Considerando não somente o uso dos termos, mas também os seus significados em diversas línguas e culturas, o autor mostra que, ao contrário do se tem convencionado - isto é, ao contrário da ideia de que a direita é desumana, egoísta, injusta, opressora, preconceituosa e sexista e de que a esquerda é igualitária, humana, justa, compreensiva, altruísta e libertadora -, a natureza da ideia de direita a põe no patamar da correção, da ordem e da verdade, enquanto naturalmente a “esquerda” sempre foi associada à desordem, ao erro e ao falso. Ora, “em várias línguas europeias, mas não apenas nessas, os vocábulos que designam direita-direito têm conotações positivas [...] já a esquerda e o esquerdo explicitam noções negativas” (IBIDEM, 2017, p. 94). Ranquetat ainda descreve como até em questões que ao homem moderno são tidas como supérfluas a influência da dicotomia entre a direita-ordem e a esquerda-desordem se estabelece, como nos casos de certas culturas em que os canhotos foram vistos com maus olhos. Sim, até na fisiologia a natural distinção entre direita e esquerda esteve presente – o autor também mostra como certos estudiosos viram na parte direita do cérebro uma ordenação distinta do lado, se assim se pode dizer, “transgressor”, o esquerdo. Na verdade, o livro demonstra que a normalidade e a normatividade das ideias de direita e de esquerda foram construídas sob a base da metafísica. O mundo antigo construiu essas palavras de modo a poder expressar, por meio delas, verdades eternas. Tendo isso em vista, a saber, o fato de que a direita foi considerada naturalmente superior à esquerda, o autor abre caminho para as investigações dos próximos capítulos, que giram em torno da análise da direita moderna e da busca pela verdadeira direita, a direita tradicional.

O capítulo quatro, A Grande Tentação da Direita Moderna: o Liberalismo, o autor trata do uso do liberalismo no combate ao socialismo. Os liberais defendem o laissez faire, a economia de mercado, a propriedade privada, os juros etc.      Eles são a base intelectual da burguesia e do iluminismo. Os fisiocratas já defendiam a não intervenção estatal na economia. Não somente os iluministas franceses, mas também pensadores como John Locke, Adam Smith e David Ricardo estiveram imbuídos de ideais iluministas sobre o conceito de liberdade. No século XX, o neoliberalismo ganhou força como reação ao new deal e à teoria keynesiana. Tratando de economistas, filósofos políticos e demais pesquisadores do século XX, como os representantes da Escola Austríaca, Ranquetat destaca a figura de Ludwig Von Mises, que “foi um ardente defensor daquilo que, que em ciências sociais, é chamado de individualismo metodológico” (IBIDEM, 2017, p.121), e mostra como os neoliberais defendem o primado do indivíduo e da liberdade individual contra o que consideram ser a opressão estatal. No pensamento neoliberal há como que uma luta mitológica entre o homem e o leviatã, entre o indivíduo e o monstro estatal. O individualismo dessa escola, portanto, como que se camufla pela retórica do ataque ao inimigo estatista e opressor. Não se trata somente de uma apreciação do indivíduo, mas da sua defesa contra o monstro que quer privá-lo da sua liberdade. Partindo para a análise de Hayek, cujo “liberalismo moderado [...] contrasta com o liberalismo progressista e racionalista” (IBIDEM, 2017, P. 137), Ranquetat explicita a crítica liberal-conservadora do pensador austríaco à apologia puramente egoísta e materialista do mercado, dos juros, do indivíduo, da propriedade privada etc. Hayek reconhece que isso não é o bastante para a vida humana, que não soluciona as suas mazelas. Desenvolvendo esse teor crítico, Ranquetat prepara o fim do quarto capítulo, trazendo à tona a conclusão de que o liberalismo tem erros e fraquezas de um modo tal que o seu materialismo o põe à esquerda do mundo tradicional e distante de uma crítica sensata e eficaz ao socialismo.

No capítulo cinco, A Direita Conservadora: os Guardiões da Civilização, Edmund Burke, Roger Scruton, João Pereira Coutinho, Russell Kirk, Richard Weaver, John Gray, Berdiaeff, Nisbet, entre outros, formam, em maior ou menor grau, um conjunto de autores que escrevem sobre o conservadorismo. Ranquetat separa este conservadorismo tanto do liberalismo como do liberal-conservadorismo:

O conservador acredita que todo costume, toda tradição e instituição servem a alguma necessidade básica da vida humana, cumprem uma função social, contribuindo com alguns serviços e atividades indispensáveis para a existência de outras instituições e costumes [...] Descortina-se no conservadorismo uma perspectiva funcionalista da vida social (IBIDEM, 2017, p. 203).

 O conservadorismo, ao contrário do liberalismo e do liberal-conservadorismo , preza pela sabedoria dos ancestrais, prática que lega à eternidade a supremacia sobre o esquecimento histórico, sabe que a sociedade não pode ser atomizada, no sentido de que o bem social é sacrificado para dar lugar à vontade egoísta de uma pluralidade desordenada de indivíduos, se opõe à “ideologia”, vista sob a ótica materialista – que quer reconstruir um mundo metafisicamente estabelecido sob a égide de ideias forjadas na fábrica do racionalismo, do evolucionismo e do progressismo barato-, dá à religião um lugar central na vida social e ao ensino das verdades eternas um status de primazia sobre a educação e a cultura. O capítulo ainda revela que o conservadorismo, conquanto seja mais apto que o liberalismo e o liberal-conservadorismo no combate ao socialismo-comunismo, pela sua característica antirrevolucionária e de “conservação”, não conduz o homem a uma luta heroica contra a esquerda. É próprio dele, do conservadorismo, propor freios à revolução esquerdista, mas não lhe é próprio fazer uma revolução própria, antiesquerdista.

O penúltimo capítulo, Os Limites do Conservadorismo e a Direita Tradicional, Ranquetat apresenta a direita tradicional como a única que pode restaurar a ordem em meio ao caos. Enquanto o conservadorismo encontra o seu limite em uma retórica que saúda o parlamentarismo, a república e outros eventos modernos, a direita tradicional impõe-se de forma autoritativa, como que a mando divino. Ela apresenta a verdadeira reação, contrarrevolução e restauração. Isto se dá porque é na direita tradicional que a metafísica ganha a sua real dimensão na política e é aí, lidando com os fundamentos últimos da existência, que as esferas econômica, política, cultural, educacional etc. perdem a sua finalidade puramente material e recebem um sentido absoluto pelo qual se vale a pena viver ou morrer. É nela, na direita tradicional, que a sociedade, estando no reino da quantidade, é redirecionada ao reino da qualidade:

É o combate metapolítico pela restauração da ordem interna da alma e pela ordem e a hierarquia da sociedade, com o estabelecimento da primazia dos valores espirituais sobre aqueles materiais, que distingue a direita tradicional da direita moderna [...] Sem uma profunda reforma moral, sem a busca pela elevação espiritual e a santidade interior, a batalha ideológica e cultural contra a revolução antitradicional estará fadada ao fracasso (IBIDEM, 2017 p. 281).

 Autores como René Guénon e Julius Evola, referências no tradicionalismo, são citados no capítulo. No entanto, estando em um contexto sobretudo cristão e católico romano, Ranquetat não deixa de fazer importantes referências a autores que defenderam e defendem os valores tradicionais presentes no Brasil e na América Latina, como Nicolas Gomes Dávila e Miguel Ayuso – quando, no capítulo seguinte,  falará do tradicionalismo hispânico, Ranquetat cita vários autores, entre eles, Rafael Gambra, Antônio Sardinha e José Pedro Galvão de Sousa.

No sétimo e último capítulo, de título A Nova Direita Brasileira: Um Falso Despertar?, o autor expõe os erros e a ilusões da nova direita brasileira. Grupos já citados no início desta resenha, como o IM, o MBL, o PSL, entre outros, bem como os autores admirados ou associados a esses grupos, erram por combater a esquerda com o liberalismo. Ora, sendo o próprio liberalismo uma direita da esquerda, ainda está à esquerda da direita tradicional, de modo que, à sua maneira, contribui para que o espírito da revolução antitradicional, que é a “negação radical da tradição metafísica e revelada” (IBIDEM, 2017, p. 265), prossiga causando os seus estragos. A falsidade da ideia de que no Brasil uma verdadeira direita está surgindo também se evidencia pelo fato de que esse liberalismo é importado de uma cultura contrária à herança ibérica ou hispânica da América Latina e do Brasil, a saber, a cultura anglo-americana. É preciso, portanto, como antídoto a esse falso despertar, haver uma rejeição não somente do socialismo-comunismo, mas também do liberalismo, e um retorno às fontes hispânicas e católicas da tradição brasileira e latino-americana, se há o desejo de um dia ver nascer no Brasil uma verdadeira direita, a direita tradicional. Em suas próprias palavras, “o desenvolvimento de uma cultura de direita de orientação tradicional no Brasil passa, necessariamente, por uma recuperação da herança espiritual ibérica e católica” (IBIDEM, 2017, 301).

Ranquetat conclui o livro com essa verdade, a de que há muito mais a ser feito - enganam-se os que pensam que há no Brasil um verdadeiro despertar antiesquerdista - para que a alternativa ao socialismo-comunismo, ideologia moderna, não seja também moderna, como é a direita moderna, mas, sim, tradicional, como a direita tradicional, finalizando, assim, um belo e ousado tratado que, sem sombra de dúvidas, deve ser lido e valorizado pela academia brasileira.

Referência bibliográfica

RANQUETAT, Cesar. Da Direita Moderna à Direita Tradicional: Análise de Uma Categoria Metapolítica. Editora Prismas, Cultura, 2017.

 

 

 

 


[1] Nota de Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira: Movimento tradicionalista e nacionalista, o Integralismo é revolucionário na medida em que defende a necessidade de uma revolução que, de acordo com o significado etimológico e astronômico do termo, se constitua numa verdadeira restauração, numa volta às origens, num retorno ao ponto de partida. A propósito, assim observou Plínio Salgado, em discurso proferido na Câmara dos Deputados, em Brasília, a 29 de abril de 1963: “A doutrina que professo é revolucionária. A palavra revolução, conforme indica sua etimologia, significa sua etimologia, significa retorno, O prefixo re quer dizer volver a alguma coisa. Isto representa o seguinte: quando se dá um desequilíbrio econômico, social ou político numa nação, urge uma revolução para retornar ao equilíbrio perdido” (Exposição em torno do projeto de lei agrária, o problema da terra e a valorização do homem in Discursos parlamentares (Volume 18 – Plínio Salgado), Seleção e introdução de Gumercindo Rocha Dorea, Brasília, Câmara dos Deputados, 1982, p. 613.). Por fim, cumpre ressaltar que o Integralismo rejeita as modernas concepções de “direita” e “esquerda”, surgidas com a chamada Revolução Francesa, mas é, sem sombra de dúvida, um movimento de direita, caso se entenda os vocábulos “direita” e “esquerda” em seu sentido tradicional, religioso e simbólico, muito anterior à denominada Revolução Francesa.

 

 

 


08/01/2018, 23:46:59



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