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Pedro Baptista de Carvalho

Escritor e articulista. Bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e advogado. Mestre em Direito Civil, na área História do Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Presidente da Frente Integralista Brasileira e 1º Vice-Presidente da Casa de Plínio Salgado.


Miguel Reale, o poeta

Muito mais conhecido e evocado como o magno poeta em prosa de Iracema (1865), o exuberante romancista de O guarani (1857), As minas de prata (1865-1866[1]), O tronco do ipê (1871), Ubirajara (1874) Senhora (1875) e tantas outras verdadeiras obras-primas, que insculpem em letras de ouro seu nome na Literatura Pátria, em cujo universo se constitui em astro de primeira grandeza, assim como o notável cronista social de Ao correr da pena (1854-1855[2]) e dramaturgo de O demônio familiar (1857)e de Mãe (1860), o inspirado poeta de Os filhos de Tupã (1910), ou mesmo como o rigoroso e vigoroso panfletário das Cartas de Erasmo (1865-1868) e o político que se fez um dos mais brilhantes oradores de seu tempo, do mesmo modo que um dos mais eminentes vultos do Partido Conservador, foi José de Alencar (1829-1877) também um renomado advogado e assinalado jurisconsulto.[3] Daí ocorrer que, como salienta Josué Montello (1917-2006), ao falarmos de José de Alencar, o jurista, acabamos por dar “a impressão de aludir a outro José de Alencar, que não se confundiria com o romancista de O Guarani”, não sabendo muitos que, “em verdade, a pena que escreveu Iracema, cantando os verdes mares bravios de sua terra natal, escreveu também A Propriedade e os Esboços Jurídicos, que lhe confirmaram a grandeza”,[4] assim como, acrescentamos nós, O systema representativo (1868), obra que dele faz o mais original dos doutrinadores do Direito Político do Império do Brasil, embora não o maior, honra esta que seguramente cabe ao paulista Pimenta Bueno, Marquês de São Vicente (1803-1878).[5]

Ao contrário de José de Alencar, milhares de vezes mais conhecido como literato do que como jurista, conforme acabamos de assinalar, Miguel Reale (1910-2006), que foi não apenas um grande advogado, jurisconsulto, jusfilósofo, pensador, filósofo, ensaísta e professor universitário, mas também um grado memorialista e poeta, muito pouco é lembrado por estas suas duas últimas facetas, isto é, como literato, sendo, contudo, sempre rememorado pelas primeiras, assim como pelo fato de haver sido, na década de 1930, um dos principais líderes e doutrinadores da Ação Integralista Brasileira (AIB), instituição que, reunindo, no dizer do próprio Reale, “o que havia de mais fino na intelectualidade da época”,[6] se configurou, no dizer de Gerardo Mello Mourão (1917-2007), no “mais fascinante grupo da inteligência do País”,[7] e na qual chegou a ocupar o posto de Secretário Nacional de Doutrina e Estudos. Daí podermos dizer, parafraseando o autor de Os tambores de São Luís (1975), que, ao falarmos de Miguel Reale, o poeta, ou o memorialista, acabamos dando a impressão de estar nos referindo a um outro Miguel Reale, que não se confundiria com o jurisconsulto e filósofo que desenvolveu a teoria tridimensional, ou integral, do Direito, ou com o político que, na mocidade, viveu o que mais tarde denominou “o sonho nacionalista e espiritualista do Integralismo”,[8] não sabendo muitos que a mesma pena que escreveu obras como Teoria do Direito e do Estado (1940), Filosofia do Direito (1953) e O Direito como experiência (1968), ou então O Estado Moderno (1934), Formação da política burguesa (1934), O capitalismo internacional (1935) e ABC do Integralismo (1935), foi a mesma que escreveu Poemas do amor e do tempo (1965) e Vida oculta (1990), assim como a mesma que escreveu Destinos cruzados (1986).
 
Com efeito, pode Miguel Reale ser considerado, pelos dois volumes de suas Memórias, Destinos cruzados (1986) e A balança e a espada (1987), um dos maiores memorialistas do País, representando tais obras um significativo contributo à História de São Paulo e do Brasil do século 20, assim como à História das Ideias. Sobre ambos os volumes de tais Memórias podemos fazer nossas as palavras de Austregésilo de Athayde (1898-1993) quando do aparecimento de Destinos cruzados no sentido de ser tal obra o “monumento de uma grande vida”,[9] assim como as palavras de Frederico Branco (1927-2000), também por ocasião do lançamento do primeiro volume da obra memorialística em apreço, no sentido de que esta se constitui em “uma magnífica viagem no tempo, por nossa história recente”,[10] e, por fim, as palavras de Gerardo Mello Mourão quando este afirma que aquele livro bem merecia ser comparado às memórias de Goethe (1749-1823), intituladas Aus Meinen Leben – Dichtung und Warheit.[11]
 
Do mesmo modo, a obra poética de Miguel Reale, autor de Poemas do amor e do tempo (1965), Poemas da noite (1980), Sonetos da verdade (1984) e Vida oculta (1990), nos revela um poeta robusto, que, se não pode ser contado entre os primeiros poetas da Pátria e da língua, não está, contudo, nos seus momentos de maior inspiração, muito aquém deles. Ao ler todos ou qualquer um desses quatro volumes de poemas qualquer pessoa honesta que entenda de poesia só pode ficar surpresa ao descobrir no autor de Horizontes do Direito e da História (1956) e de Teoria Tridimensional do Direito (1968) um autêntico poeta, ou então, levando em conta o que disse o escritor, crítico literário e historiador português Fidelino de Figueiredo (1889-1967) após ler os Poemas do amor e do tempo, não se surpreender com tal fato, posto que “poesia e filosofia são irmãs”, distinguindo-se, apenas, “pela fisionomia”, mas se alimentando “do mesmo sangue”.[12] Entre os primeiros, podemos citar Cassiano Ricardo (1895-1974), que, também a respeito da primeira obra poética do autor de O Estado Moderno (1934) e de Pluralismo e liberdade (1963), ressaltou que os poemas de tal livro constituíram, para ele, “uma bela surpresa, com o seu lirismo lúcido e compenetrado”;[13] Austregésilo de Athayde, para quem foi uma grande “surpresa” ver o jurisconsulto e filósofo patrício “lidando com as musas e de uma maneira genuína, como se não fosse outra, em toda a vida, a sua preocupação maior”,[14] e Antonio Olinto, que, havendo lido os Sonetos da verdade, escreveu que aquilo “que espanta, na poesia de Miguel Reale, é o chegar ele - sem ter sido um poeta de produção permanente - a uma poesia de excelente nível”.[15] Já entre os segundos, podemos arrolar, além do supracitado Fidelino de Figueiredo, Jorge Amado (1912-2001), que, ao elogiar a obra poética de Reale, sublinhou que tinha “razão mestre Fidelino” ao afirmar que a filosofia e a poesia são irmãs.[16]
 
Inicialmente era nossa intenção cuidar aqui tanto das Memórias quanto da obra poética do autor de Atualidades de um mundo antigo (1936), mas, por uma questão de tempo e de espaço, reputamos mais oportuno tratar por ora tão somente de Miguel Reale, o poeta, deixando para discorrer noutra ocasião sobre Miguel Reale, o memorialista.
 
No ano de 1965, lançou Miguel Reale o seu primeiro livro de poesias, intitulado, como vimos, Poemas do amor e do tempo e dedicado à esposa Nuce, às filhas Ebe e Lívia Maria e ao filho Miguel. Em tal obra, que reúne poemas escritos desde a mocidade, nas décadas de 1920 e 1930, até a época da publicação, há, como, aliás, em toda a obra poética do autor de Vida oculta, tanto poemas de estilo clássico, a exemplo do soneto Harmonia, “modernizado”, como faz ver Antônio Soares Amora (1917-1999), ao gosto dos poetas parnasianos Olavo Bilac (1865-1918), Vicente de Carvalho (1866-1924) e Raymundo Corrêa (1859-1911), muito lidos no Brasil dos anos 20,[17] quando teria sido escrita a poesia, quanto poemas de versos livres como Já é tempo de acabar a choradeira, provavelmente do início da década de 1930, que é, sem sombra de dúvida, não apenas “uma das profissões de fé modernista de Miguel Reale”, como quer Soares Amora, mas a sua profissão de fé modernista por excelência, na qual o então jovem bardo, até tal momento autor de sonetos e decassílabos à moda parnasiana, promete uma nova poesia, ao estilo dos ideais estéticos da Semana de Arte Moderna de 1922.
 
Isto posto, leiamos os supracitados poemas:
 
Harmonia
Os seres foram feitos sabiamente
como germens para o amor predestinados
e há talvez um sorriso diferente
para unir cada par de namorados.
 
Essa harmonia escapa a muita gente
nem se revela aos olhos descuidados:
nota-se apenas quando entrelaçados
há dois amantes, ou uma cruz e um crente.
    
Em verdade, o que existe no universo,
tem um Poeta: mesmo as coisas frias
unem-se como sílabas de um verso.
    
Se te valerem tais conceitos sábios
não haverá mistério nas poesias
que brotam como preces pelos lábios.[18]
 
Já é tempo de acabar a choradeira
    
Já é tempo de acabar a choradeira:”
disse numa hora grave de bom-senso
e, passando na rua a noite inteira,
ouvi o vento que zumbia
debatendo-se entre os galhos como uma ave:
“Quem descobriu o Brasil
não foi Cabral!
Foi o Modernismo!
e viverão juntos,
eternas crianças!”
    
As rajadas sopravam um canto de guerra,
canto de galo no jequitibá:
“Estamos mais alto
que no clássico loureiro
ou no romântico salgueiro
que trouxeram por engano
do Mediterrâneo!”
 
Foi assim que me vi cantando,
Diferente,
nem sei se havia lua:
“Meu amor morreu de frio,
quando eu era bem chorão,
agora vou fazer outro
bonito como um balão!”[19]
 
Faz-se mister salientar, porém, que, a despeito de tal profissão de fé modernista, a poesia de Reale, embora tenha sofrido certa influência do modernismo, sempre esteve muito longe de se prender ao estilo e aos valores desta corrente literária. É ela, consoante sublinha Soares Amora, uma poesia que tudo tem de moderna, mas sem modismos modernistas, e que “concilia o sentido poético como conhecimento à busca do transcendente, com um imanente neste conhecimento, que é o sentimento lírico”, nela cumprindo ao poema e, por conseguinte, ao poeta, “transmitir uma verdade”.[20] Tal poesia, transmissora de nobres valores, é marcada, antes e acima de tudo, por um caráter de nobreza, nobreza esta que, como nota Fidelino de Figueiredo, se faz sentir “pelos temas”, pela “discrição das confissões”, pela “forma de expressão” e por um “elegante simbolismo evocador”, nela havendo reminiscências não apenas de “linguagem filosófica”, como diz o autor português,[21] mas de filosofia em si. Encontramos claro exemplo desta nobre poesia, chamada “poesia de idéias” por Wilson Martins (1921-2010),[22] no poema Na esfera cristalina dos valores:
 
Na esfera cristalina dos valores
 
Na esfera cristalina dos valores,
aprimora a virtude soberana
de descobrir o bem onde êle exista.
 
Ama a verdade mesmo contra todos.
A verdade será tanto mais tua
quanto mais a espalhares pelo mundo.
 
Na medida do humano põe tua alma
e sentirás a mão da caridade
em cada ato de amor e de justiça.
 
Nos momentos mais duros ou banais,
ou quando entregue às fórmulas do exato,
de um sôpro de beleza não prescindas.
 
Faze da tolerância o teu Virgílio,
para cruzar o inferno e o purgatório
dos vícios e maldades deste mundo.
 
Seja o teu pensamento alto e sereno
como a águia que domina os horizontes,
como a cruz que se eleva na montanha.
 
Só assim, no atropelo da existência,
viverás a humildade de teus gestos
ocultando a grandeza de teus sonhos.[23]
 
Salientando que concordamos com todos os valores defendidos por Miguel Reale no supracitado poema, ressaltando que o termo “tolerar” aí parece no sentido próprio e tradicional de “suportar”, reputamos oportuno transcrever, ainda dos Poemas do amor e do tempo, outro belo e nobre poema do autor de Sonetos da verdade, que se intitula A perspectiva da rosa e contém, dentre outras, a ideia de integralidade, ou, na expressão de Tristão de Athayde (1893-1983), “a tentação da integralidade”, que foi, como observa este, “uma nota dominante na personalidade de Miguel Reale, desde 1934,” ano em que, nas fileiras da Ação Integralista Brasileira, “iniciou sua monumental obra filosófica”, que o autor de No limiar da Idade Nova (1934) reputava, com certo exagero, ser, no País, “a mais importante sem dúvida do movimento filosófico contemporâneo”.[24] 
 
A perspectiva da rosa
 
No vaso azul uma rosa,
uma só rosa vermelha
com o seu séquito de perfume,
rosa altiva e soberana,
unidade-símbolo
presente nela todo o jardim.
 
Não há valor isolado
pois todos nêle se implicam,
não  há homem solitário
que os outros nêle palpitam,
nem amor que feneça no olvido
que a amada sempre acalenta.
 
Mas esta, não te iludas, amigo,
é a perspectiva da rosa.[25]
 
Um nobre valor que não poderia deixar de se fazer presente em Poemas do amor e do tempo é aquele do nacionalismo, de um sadio, ponderado e edificador nacionalismo, alicerçado na Tradição e tendente ao universalismo, sendo, pois, muito diverso tanto do falso nacionalismo xenófobo e agressivo quanto do igualmente falso nacionalismo superficial, e correspondendo, em uma palavra, ao nacionalismo “equilibrado e profundo, justo e lúcido” de que nos fala Plínio Salgado (1895-1975) em Mensagem às pedras do deserto,[26] e ao “justo nacionalismo”, que, na frase do Papa Pio XI, nascido Ambrogio Damiano Achille Ratti (1857-1939), “a reta ordem da caridade cristã não somente não desaprova, mas com regras próprias santifica e vivifica”.[27] Claro exemplo deste nacionalismo pode ser apreciado no poema Nossa Terra, nossa História, que ora passamos a transcrever.
             
Nossa Terra, nossa História
 
Cada terra tem seu mito,
Tivemos o mito da terra.
Chegou com as caravelas lusitanas
recebendo na praia o desafio da cordilheira,
negra muralha ao longe provocando
homens mal saídos de sonhos medievais
de castelos encantados e gestas de armas.
 
Sancho Pança quedou-se burguesmente na praia                                                     ensolarada
Don Quixote de arcabuz e de batina
furou mato varou rios cruzou charcos
e, no alto,
bem no alto,
plantou São Paulo,
com bandeira a tremular no mastro.
 
A bandeira esvoaçou e foi penetrando
terra a dentro,
a gente se desdobrando
no dorso pressago dos rios.
 
Terra e mais terra a perder de vista,
um nunca acabar de terras
enquanto o homem ia crescendo,
improvisando soluções,
não raro acertando a êsmo,
intuitivo tateando veredas
desconfiado espreitando tocaias
impulsivo no pronto revide
e um desejo infinito de conversa
na saudade cordial da solidão.
 
Terra que sangue e suor vão regando
empapada de tempo vivido,
quanto mais se descobre mais se concentra
na densidade da conquista,
o trabalho virando canto,
a terra virando história.
 
Tôrre de Babel convertida
em comunhão nacional,
mil línguas se compreendendo
no mesmo espaço vital.
 
Minha terra tem estórias
como outras iguais não há,
com músicas e cantigas
que não se ouvem acolá.[28]
 
Paulista de primeira geração pelo ramo paterno e tendo de paulista-velho apenas o sangue da avó cabocla, Ana Vieira da Rosa Goes, filha de um fazendeiro e natural, como o neto, de São Bento do Sapucaí, foi Miguel Reale, porém, um dos “porta-estandartes do bandeirismo”,[29] ou do “espírito bandeirante”[30] de que nos fala Gilberto Freyre (1900-1987) e que, segundo este sociólogo, têm sido encontrados justamente não entre os chamados paulistas-velhos, ou quatrocentões pela lei do sangue, mas sim entre os “adventícios ou paulistas-novos, cujos característicos dinamicamente bandeirantes são antes adquiridos do que herdados pelo sangue”. Entre tais porta-estandartes das autênticas tradições da antiga São Paulo do Campo de Piratininga, “bandeirantes mais por direito de conquista do que por herança de quatro costados”, enumera o autor de Casa-grande e senzala (1933) e de Ordem e progresso (1959), por exemplo, Washington Luís (1869-1957), Cassiano Ricardo (1895-1974), Menotti Del Picchia (1892-1988), Ribeiro Couto (1898-1963), Alfredo Ellis Junior (1896-1974) e Plínio Salgado (1895-1975). Este último, que inegavelmente influenciou bastante o pensamento de Miguel Reale até o fim de sua vida, era, aliás, na opinião de Freyre, ao lado do próprio Miguel Reale, de Cândido Motta Filho (1897-1977), Cassiano Ricardo, Mário de Andrade (1893-1945) e alguns outros, um dos mais proeminentes vultos de toda uma grande “geração de paulistas interessados nos seus valores tradicionais mais característicos” e que, se entregando “a estudos sérios e profundos de História ou Sociologia regional”, desenvolveu “esforço inteligente e útil de conservação, restauração e interpretação dos mesmos valores ou do seu aproveitamento como motivos original ou particularmente paulistas de arte, de literatura, de sátira social”, evitando que São Paulo, “por excesso de ‘modernismo’ desdenhoso do passado ou dos valores regionais, se tornasse, sob os arrojos da industrialização”, que o diferenciavam do restante do Brasil, um simples “arremedo de ‘progresso americano’ ou de ‘progresso norte-europeu’”.[31] E o autor de O estrangeiro (1926), Vida de Jesus (1942) e Espírito da burguesia (1951), que, embora também descendente de paulistas-velhos, incluindo Pero Dias, guardião das chaves da Vila de São Paulo do Campo de Piratininga quando de sua fundação, e o bandeirante Manuel Preto, era, pelo sangue, predominantemente, um paulista-novo, se contava, no sentir de Freyre, entre os bandeirantes em espírito que se revelaram expressões não somente intelectuais como também políticas de “bandeirismo ortodoxo”.[32] Cumpre assinalar, com efeito, que o próprio Plínio Salgado, este “descobridor bandeirante das essências de sua pátria”, na expressão do jusfilósofo, professor, historiador do Direito e doutrinador político tradicionalista espanhol Francisco Elías de Tejada (1917-1978),[33] já em 1933 proclamava que o Integralismo era a “última expressão do espírito bandeirante”.[34]
 
Bandeirante em espírito e, como tal, cultor das tradições bandeirantes, Miguel Reale canta o bandeirismo em sua primeira obra poética não apenas no supracitado poema Nossa Terra, nossa História, mas também no soneto Fernão Dias, provavelmente um dos primeiros saídos de sua pena:
 
Fernão Dias
 
Ao Rio das Velhas pálido e sereno
por fim volvera o ousado bandeirante,
requeimando-lhe o peito o amor terreno
que o lançara ao sertão sete anos antes.
    
Ia morrer, mas sem saber da sorte
de nos legar, morrendo, uma esmeralda:
a esperança sutil de ter a morte
na pureza de um sonho que rescalda.
 
O vento, a sacudir tôda a ramada,
repetiu, em estrídulo fragor,
de Anhangá a pérfida gargalhada.
 
Escarnecia da morte do paulista
deus obscuro insensível ao valor
da morte assim no engano da conquista. [35]
 
A saudade da cidade em que nascera e de que saíra ainda muito pequeno, ali tendo vivido apenas os primeiros anos da primeira infância, está presente em Poemas do amor e do tempo, sobretudo, nos poemas À minha ama e São Bento do Sapucaí. No primeiro de tais poemas, descreve ele sua ama, a quem se dirige, como sendo, em sua calma, “imóvel como a pedra gigantesca/ que vigia a cidade onde nasci”, isto é, a Pedra do Baú, e “irmã das ruas mortas de São Bento/ onde mora a quietude,/ das várzeas e dos arrozais/ em que a lua tece/ com fios de prata/ entremeios de bruma e sereno”, dizendo, em seguida, que “as coisas ternas” que ela encerrava na alma, “as estórias e cantigas” que contava e cantava, fugiram, quando da morte desta, “para as serras que a neblina acaricia/ com meneios de fada”.[36] E assim fecha seu poema:
 
(Há um tesouro na pedra escondido
lá no alto da pedra há um tesouro
bem de noite se escuta um gemido,
é o Jordão procurando o seu ouro!
 
Oh, Pedra do Baú da minha terra,
estribilho cantando na lembrança:
Que haverá, meu Deus, além da serra,
o lôbo mau que só come criança,
o lôbo azul escondido na névoa
da minha infância.
 
A Pedra do Baú era o horizonte,
perfilado como um gigante,
horizonte vertical
escondendo a cabeça na neblina.
Dorme que a pedra desce
Desce para te pegar...)
 
Sabes?  O mato cresceu, tomou conta
do jardim da casa de meus pais,
onde ressoavam, ao pôr do sol,
hino da terra em cadência africana,
as cantigas de adormecer.
 
Tudo, tudo adormeceu.”[37]
 
Isto posto, segue o poema juvenil, como, aliás, a quase totalidade dos Poemas do amor e do tempo,[38] em que o vate patrício canta a cidade-natal, cidade-morta em cujo renascimento acreditava:
 
São Bento do Sapucaí
 
Quis ser paulista além da Mantiqueira,
mas São Paulo esqueceu,
Minas não liga,
oh, minha São Marinho ancorada no tempo!
 
Mais antiga que Ouro Prêto
em têrmos de esquecimento,
foi pouso de bandeirantes
no roteiro das Gerais.
 
Já teve o seu esplendor
com sentido de futuro
quando imigrantes caboclos
plantaram o pão e o vinho,
se enquadrando nas quadrilhas
saudosos das tarantelas.
 
De repente parou.
Sentiu um calafrio
consumindo-a fibra a fibra,
o mesmo mal das irmãs
do Vale do Paraíba,
e à espera se quedou
do diagnóstico exato
de Monteiro Lobato...
 
Sob as cinzas do borralho
só continuaram a arder
antigos ódios em brasa,
chimangos e cascudos
jagunços e botões,
sobre cujas façanhas
os arquivos são mudos,
tão rápido o tempo rói
a fama desses heróis.
 
Meu São Bento brasileiro
com seu tenente interventor
precursor de outros tenentes,
mandando surrar desordeiros,
para que ficassem cientes
de que o Príncipe já nos dera
uma constituição...
 
Como foi? Como foi? Ninguém explica.
Tudo foi arte do tempo.
Ficaste brincando à beira da vida:
Cadê o teu território? O govêrno cortou.
E os teus arrozais? A enchente levou.
E os teus pomares? A broca comeu.
E as tuas videiras? O vento bebeu.
E os teus trigais? A máquina matou.
Brincando, ficaste brincando
e o tempo matreiro passou!...
 
Não adianta sociologia
estatística ou geografia
para penetrar na tristeza
de tanta dor, tanta pobreza!
Não há mistério no jequitibá gigante
que abre a ramagem para o sol;
as árvores contorcidas raquíticas na sombra
são pontos de interrogação
na morada obscura do ser.
 
Mas na história das cidades
e das nacionalidades
há sempre ressurreição.[39]
 
No ano de 1980, Miguel Reale publicou, como dissemos há pouco, sua segunda obra poética, intitulada Poemas da noite e dedicada a Menotti Del Picchia. Tal obra foi escrita, como observa Soares Amora e o próprio título indica, sob o domínio de um sentimento de finitude e angústia, provavelmente motivado pelo fato de o autor estar diante do fim de sua carreira universitária, que se deu naquele ano ao completar setenta anos de idade,[40] e de a trajetória de sua existência, como afirma em seu poema A memória, que a seguir transcreveremos, haver atingido então “uma curva que nada nos aponta no caminho”.
 
A memória
 
Quando a existência chega a uma curva
que nada nos aponta no caminho,
a glória conquistada fica turva,
a coroa ferindo mais que espinho.
 
Ter saudade de erros e perigos
e até da injúria em horas desiguais,
é como repisar filmes antigos
sem gosto de viver tempos atuais.
 
O surpreendente em nossa trajetória
é percebermos, ao galgar o cume,
que só nos resta o espelho da memória.
 
Como é sombria essa luz do ocaso,
quando a esperança toda se resume
no fruto amargo que nos der o Acaso![41]
 
Também encontramos claro exemplo do sentimento de finitude e de angústia que impera em Poemas da noite nos versos de Colunas do tempo:
 
Colunas do tempo
 
Ardem meus pés na turfa da existência,
pés doridos de avanços e recuos,
nem há como atenuar a dor intensa
que é látego de nervos e perguntas.

Sinto-me planta um plátano partido
pés fincados no chão,
estaca lavrada e fria
relegada à beira do caminho.
 
É o que resta da vida em labirinto
esgalhada em mil aspirações,
vida barroca incerta e retorcida
à sombra de arabescos e ouropéis.

Como as colunas dóricas perduram!
Esguias retilíneas intocáveis
em sua heráldica forma para o alto,
sem frisos ou volutas perturbando
a serena ascensão vertical.
 
Quem já se lembra dos antigos ritos
à luz do tempo-templo eleusínio
na secreta unidade da semente
donde brotam vitórias e derrotas
que são vaidade e cruz da espécie humana?
 
É tarde, é muito tarde!
Nem há mais púlpito ou monge que o proclame
para que as horas voltem à sua fonte
na comunhão dos homens e dos deuses.
[42]
 
Mas, ainda como salienta Antônio Soares Amora, o Miguel Reale que chegou aos setenta anos não era tão somente uma “consciência dramática da caducidade da vida”, sendo espiritualmente, “uma sensibilidade tornada pelos anos mais sensível e uma intuição potencializada pela experiência”. Foi com tal sensibilidade e tal intuição que criou Reale, na frase do supracitado escritor, professor e educador paulista, “belos e emocionantes poemas sobre motivos de sua angústia ante a precariedade do mundo aparente e os não menos belos e emocionantes poemas decorrentes de seu sentimento do transcendente”.[43] Exemplo desta bela poesia sobre o aparente e o efêmero das manifestações deste encontramos neste pequeno poema:
 
Espumas
 
Quando a onda se espraia
e sôfrega recua
deixa oásis de espumas
trêmulas de luz.
 
São mensagens saudosas
do pélago profundo
ao verde-azul-violeta da paisagem,
gotas de amor
nas lágrimas de sal. [44]
 
Outro belo poema, por Reale classificado entre os poemas pertencentes àquilo que chama de “círculo da incerteza”, é Luz interior:
 
Luz interior
 
Não de luz, mas de sombra são meus versos,
humildes desajustados,
como quem vem de longe e se arreceia
de inesperado encontro.
 
A sombra é luz filtrada esmaecida
homóloga à luz interior reflexa
manso fluir de águas profundas
numa réstea de musgo e pedras brancas.
 
Não é à plena luz do sol a pino
Mas quando ele se quebra no horizonte
que o espírito perplexo se inclina
e vê na sombra o que a luz lhe esconde. [45]
 
Ainda como observa Soares Amora, “a angústia diante do incompreensível da realidade”, somada à busca “de uma causa, um sentido e um fim da mesma realidade”, levaram Reale, em determinados momentos, a sentir o transcendente.[46] Em nenhum dos Poemas da noite tal sentimento se encontra tão presente quanto em Assis:
 
Assis
 
À clara luz do plenilúnio,
envolta no seu manto franciscano,
surgiu Assis ante meu olhos,
fonte de amor e de consolo humano.
 
Senti a mansidão do lobo
e a frescura da água em minha testa,
homens e coisas na unidade
espiritual da natureza em festa.
 
A muito custo reprimi o impulso
de me ajoelhar ao diálogo dos sinos
e me quedei, pálido de espanto,
não me ajoelhando com os peregrinos.
 
Não quis me ajoelhar naquela hora
que era a hora do amor e da piedade,
mas desde então vive de joelhos
minha alma insone em busca da Verdade.
 
No ano de 1984, foi publicado o livro Sonetos da verdade, obra que foi dedicada à amada esposa Nuce e contém diversas manifestações do melhor daquilo a que Wilson Martins, como vimos, se referiu como sendo a “poesia de idéias” de Miguel Reale e daquilo a que Cassiano Ricardo denominou o “lirismo lúcido e compenetrado” do autor de Poemas do amor e do tempo.[47] Como sublinha Soares Amora, o soneto Verdade e poesia é um significativo exemplo, em tal obra, desta poesia, que “se realiza como uma forma superior de conhecimento”[48]:
 
Verdade e Poesia
 
Por que estes meus versos tão tardios
como sombra amorável do real,
ou resposta aos tremendos desafios
nesta hora da hiena e do chacal?
 
A inspiração não chega de repente
mas se infiltra sem rumo nos refolhos
do ser, e dele emerge lentamente
e é lágrima boiando à flor dos olhos.

Pode ser testemunho ou ser mensagem
mas nunca é a voz perdida no deserto
mesmo que verse sobre o vago e o incerto.

Poesia é verdade e é miragem
surgindo como forma de beleza
alheia à conjetura ou à certeza. [49]
 
Infelizmente não mais dispondo de muito tempo e espaço e necessitando passar logo à obra Vida oculta, pequeno grande livro que é, em nosso entender, o mais belo dentre todos aqueles saídos da pena do tão robusto quanto desconhecido poeta paulista, transcreveremos, aqui, tão somente mais um dos poemas de Sonetos da verdade. Tal poema é o soneto As bandeiras, em que o autor trata dos novos bandeirantes, que conquistam os sertões “não em busca do índio ou de esmeraldas”, mas sim “de soja, de arroz e de rebanhos”, sendo, porém, herdeiros, “não pelo sangue, mas pela cultura”, ou, diríamos nós, pelo espírito, daqueles “argonautas” que, na expressão de Paulo Bomfim (nascido em 1926), no poema Armorial (1956), navegavam “serras”, sendo filhos do “planalto” nascido “sobre as espumas/ Salgadas de bonança e tempestade”, plantadores de “caminhos e sementes” e continuadores da epopeia das Grandes Navegações,[50] e a quem Gerardo Mello Mourão, em A invenção do mar (1997), inspirado nestes versos do poeta de Sonetos da vida e da morte (1963)e de Transfiguração (1951), se referiu como sendo “argonautas” que navegavam “serras e sertões/ mesopotâmias perdidas e buscadas/ no oceano da selva”, sendo as suas bandeiras “caravelas sem âncoras e sem velas”,[51] “caravelas de botas sobre os mapas”, que “pisavam duro o chão das cordilheiras/ e pisavam as covas dos cartógrafos/ dos papas e dos reis com seus tratados/”, enquanto “Buscavam horizontes e sonhavam ouros, pratas, rubis e diamantes/ e uma esmeralda – o Príncipe Esperado [D. Sebastião]/ Marchavam na miragem de uma aurora/ (...) Navegavam o chão e seus perigos”, não sabendo “de porto ou enseada”, mas tão somente “da esperança no horizonte”.[52] Eis o soneto de Reale, em que este se lamenta de não ter o estro, o engenho poético de um Virgílio para cantar a epopeia de uma estirpe, que, como vimos, reputava herdeira espiritual da formidável e heroica estirpe bandeirante, da “raça de gigantes” de que nos fala Saint-Hilaire (1779-1853)[53] e sobre a qual tratou Alfredo Ellis Junior no ensaio que leva tal nome:[54]
 
As bandeiras
 
Se me inspirasse o estro virgiliano
não seria em bucólicos hexâmetros
mas num misto de Geórgia e de Eneida
que cantaria ao mundo a epopéia
 
daqueles que descobrem nos sertões
o destino da gente brasileira,
não em busca do índio ou de esmeraldas
mas de soja, de arroz e de rebanhos.
 
Enquanto o pessimismo agarra a gente
jungida à praia como caranguejos
o futuro se abre aos sertanejos.
 
Não pelo sangue mas pela cultura
herdeiros são dos fogos bandeirantes
completando uma história de gigantes.[55] 
 
Foi, como faz ver Antonio Soares Amora, com sua “lucidez lírica” ou seu “lirismo lúcido” que, às vésperas de seu octogésimo aniversário, escreveu o poeta ítalo-caboclo natural de São Bento do Sapucaí sua derradeira obra poética, Vida oculta, que, na expressão do mesmo Soares Amora, é, a despeito de seu reduzido tamanho, “o maior livro [poético] de Miguel Reale, porque nele se concentra o melhor da sua poesia”. Nesta obra, que reúne “o melhor da inspiração lírica do Autor”, melhor este que é resultante, em nossa opinião, daquilo a que Soares Amora denomina “seu sentido agônico de luta”, de um lado por desejar o poeta compreender o complexo mistério de sua vida interior, “o mistério do sentido último do mundo e o mistério dos mistérios”, e, de outro lado, daquilo a que o crítico denomina o “sentido agônico” resultante do “insaciável idealismo” de Reale e de sua compreensão da precariedade da existência humana. É esta agonia que leva o autor de O homem e seus horizontes (1980) a escrever, neste derradeiro livro de poesias, determinados “auto-retratos” poéticos que não são tão somente momentos de avultada formosura lírica, mas também momentos que nos permitem vê-lo em toda sua verdade humana.[56]
 
Em alguns dos poemas de Vida oculta, particularmente em Sertões: Veredas e Consciência, está claramente presente a ideia de guerra interior, que vem a ser o combate do homem contra si mesmo, a luta perene contra o próprio eu, que se inicia ao nascer e só termina, com o triunfo ou a derrota final, no momento em que a alma, o espírito imortal se desprende do corpo já inerte, se libertando desta espécie de cárcere que é a vida do homem neste Mundo, segundo os antigos mistérios evocados por Sócrates (c. 469-399 a.C.) no Fédon de Platão (428 ou 427-347 a.C).[57] Esta guerra interior, sobre a qual trataram diversos pensadores, de Platão, Xenofonte (c. 430-355 a.C.), Aristóteles (384-322 a.C.) e Plutarco (c.46-120 d.C.) a Sidharta Gautama (datas de nascimento e morte incertas, entre o final da primeira metade do primeiro milênio a.C. e o início da segunda metade), de Demócrito (c. 460-370 a.C.) a Santo Inácio de Loyola (1491-1556), de Epicteto (55-135) e Marco Aurélio (121-180) a Tomás de Kempis (1379 ou 1380-1471), foi bem resumida por Clínias de Cnossos, no diálogo platônico As leis, no qual, havendo observado que “cada um de nós é seu próprio inimigo”,[58] salienta que “a vitória sobre o eu é de todas as vitórias a mais gloriosa e a melhor, e a auto-derrota é de todas as derrotas de pronto a pior e a mais vergonhosa, frases que demonstram que uma guerra contra nós mesmos existe em cada um de nós”.[59] A tal guerra interior está intimamente ligada a ideia de “revolução interior” preconizada por Plínio Salgado, revolução esta que se configura numa mudança de atitude do espírito em face dos problemas que lhe são apresentados, numa transmutação integral de valores que, de acordo com o sentido astronômico e tradicional do termo “revolução”, implica no retorno do ente humano ao seu ponto de partida, aos princípios da Fé e da Tradição, se traduzindo, antes de mais nada, na autoimposição de “normas de nobreza tanto na vida particular como na vida pública”.[60]
 
Isto posto, leiamos alguns dos belos e profundos poemas de Vida oculta:
 
Vida oculta
 
A carta mais bela que recebi não foi escrita
e o mais suave beijo o recusado.
só há esperança se o caminha finda;
sem pétalas a rosa é mais amada.
 
Sei que este dia será melhor que ontem
mas o de ontem será melhor um dia.
 
A vida é um saber nunca sabido
fora do tempo em formação ainda,
como a onda que ao longe nos atrai
e nunca é a mesma que nos chega à praia.
 
Fecho os olhos e enxergo,
enxergo de olhos fechados
mundos ocultos que à luz não via,
e minhas são as sombras desses mundos
que dançam como duendes desgarrados
 
Oscilam como tochas em caverna
permitindo descubra até o fundo
a beleza entrevista à luz do dia
apenas com sons, cores e linhas.
 
Nessa vida de empenho cotidiano
parece que o que importa é a nossa luta,
mas, a final, não é senão o pano
de boca aberta sobre a vida oculta.[61] 
 
A consciência
 
Sou duas pessoas numa só
 e talvez seja assim também contigo.
Um caso que devia causar dó
nem sequer dar-lhe atenção consigo,
mas às vezes me comove
uma folha que se move.
 
Nossa consciência é um mistério
o mais acabrunhante dos enigmas,
ora fonte de amor e refrigério,
ora raiz de desespero e estigma,
muitas vezes sentindo que o contrário
é que devia ser nosso fadário.
 
Nossa consciência brilha como estrela
ou pesa como fardo que oprime,
sem sabermos ao certo se com ela
a verdade de nosso ser se exprime.
 
Amanheci hoje como um ser culpado
indagando em vão de minha culpa,
quando ontem vivia no pecado
envolto numa franja de desculpa.
 
Vivemos duas vidas a um só tempo
sem ciência da real ou da aparente,
perplexo ao saber se, por exemplo,
digo a verdade ou a verdade mente.[62]
 
Sertões: Veredas
 
As veredas sem fim destes caminhos
são minhas
irremediavelmente minhas,
mas o que sou me tira liberdade:
o apego às coisas conquistadas
vai-me secando a fonte de aventura,
o bem supremo da juventude.
 
A mocidade é amor de coisas novas
aceitação da vida sem quietude
arremesso do dardo sem cuidado
de seu acerto ou sua longitude.
 
A vida é sempre assim,
quanto mais sertões mais as veredas,
e quando nos cuidamos realizados,
somos só prisioneiros de nós mesmos.[63]
 
Por fim, transcreveremos a primeira metade do poema Confissão, em que Reale confessa, em uma palavra, a sua “tentação da integralidade”, apontada, como vimos, por Tristão de Athayde, e que está intimamente ligada àquilo a que podemos denominar “tentação da pluralidade” deste pensador e poeta que, como salienta Celso Lafer, seguiu, por toda a vida, a mesma diretriz proposta por Fernando Pessoa (1888-1935) em sua máxima “Sê plural como o universo”.[64]
 
Confissão
 
Nunca fui homem de uma nota só
embrenhado num único problema
esmiuçando-o com minúcia e teima
até chegar a reduzi-lo a pó.
 
Disperso como o povo brasileiro
amo a integralidade dos assuntos,
o horizonte tomado em seu conjunto
e não um caso em si ou corriqueiro.
 
Quando é voga perder-se em pormenores
parecerá um mal essa tendência
a realçar os máximos valores,
 
mas me prefiro assim, enamorado
do sentido mais alto da existência,

iludido de ser um ser alado.[65]



Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira
 

Notas:
[1] Data da primeira edição completa da referida obra, em seis volumes, pelo livreiro-editor Garnier.Em 1862 fora dado à estampa apenas o primeiro volume da obra, pela Typographia do Diario do Rio de Janeiro, na coleção intitulada Bibliotheca Brasileira e fundada por Quintino Bocaiúva.
[2] Data da publicação das crônicas da coluna Ao correr da pena, inicialmente no jornal Correio Mercantil e depois no Diario do Rio de Janeiro. Tais crônicas foram reunidas em volume pela primeira vez no ano de 1874, em São Paulo, por José Maria Vaz Pinto Coelho.
[3] No presente artigo tomamos o termo jurisconsulto como sinônimo de jurista, compreendendo ambos como significando o homem versado na Ciência do Direito e das Leis. Nesse sentido: Francisco Júlio de Caldas AULETE, Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa Caldas Aulete, 2ª ed. brasileira em 5 volumes, 5ª ed., volume III, Lisboa, Editôra Delta S. A., 1970, p. 2068.
[4]  Alencar e o primeiro  HC preventivo. Disponível em: http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI114789,51045-Jose+de+Alencar+e+o+primeiro+HC+preventivo.   Acesso em 20/06/ 2013.   Trabalho originariamente publicado na Revista Cultura, do Rio de Janeiro, na edição de outubro de 1967.
[5] Sobre Pimenta Bueno: Miguel REALE, Pimenta Bueno, o consolidador constitucional do Império, in Idem, Figuras da inteligência brasileira, 2ª ed., São Paulo, Editora Siciliano, 1994, pp. 45-50.
[6] Entrevista concedida ao Jornal da USP. Disponível em: http://espacoculturalmiguelreale.blogspot.com/2007/08/entrevista-concedida-pelo-prof-reale-ao.html. Acesso em 20/06/2013.
[7] Entrevista concedida ao Diário do Nordeste. Disponível em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=414001. Acesso em 20/06/ 2013.
[8] Variações a partir de si mesmo. Disponível em: http://www.miguelreale.com.br/. Acesso em 20/06/2013. Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo, da Capital Paulista, a 17/12/2005.
[9] Monumento de uma grande vida, in Revista Brasileira de Filosofia, volume XXXVI, fasc. 145, São Paulo, Instituto Brasileiro de Filosofia, janeiro-fevereiro-março de 1987, p. 72. Artigo originalmente publicado no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, a 18/12/1986.
[10] As “Memórias” de Miguel Reale, magnífica viagem pelo tempo, in Revista Brasileira de Filosofia, volume XXXVI, fasc. 145, São Paulo, Instituto Brasileiro de Filosofia, janeiro-fevereiro-março de 1987, p. 64. Artigo originalmente publicado no Jornal da Tarde, de São Paulo, a 29/11/1986.
[11] As memórias de Reale, in Revista Brasileira de Filosofia, volume XXXVI, fasc. 145, São Paulo, Instituto Brasileiro de Filosofia, janeiro-fevereiro-março de 1987, p. 75. Artigo originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo, da Capital Paulista, a 23/12/1986.
[12] Trecho de texto citado na primeira “orelha” do livro Sonetos da verdade, de Miguel Reale (Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1984).
[13] Trecho de texto citado na primeira “orelha” do livro Sonetos da verdade, de Miguel Reale (Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1984).
[14] Trecho de texto citado na primeira “orelha” do livro Sonetos da verdade, de Miguel Reale (Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1984).
[15] Miguel Reale, poeta. Disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1077&sid=371. Acesso em 20/06/2013. Artigo originalmente publicado no jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, a 25/04/2006.
[16] Trecho de texto citado na segunda “orelha” do livro Sonetos da verdade, de Miguel Reale (Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1984).
[17] Itinerário de um poeta, in Celso LAFER e Tércio Sampaio FERRAZ JR. (coordenadores), Direito, política, filosofia, política: Estudos em homenagem ao Professor Miguel Reale no seu octogésimo aniversário, São Paulo: Saraiva, 1992, p. 4.
[18] Poemas do amor e do tempo, São Paulo, Edição Saraiva, 1965, pp. 29-30.
[19] Poemas do amor e do tempo, São Paulo, Edição Saraiva, 1965, pp. 51-52.
[20] Itinerário de um poeta, in Celso LAFER e Tércio Sampaio FERRAZ JR. (coordenadores), Direito, política, filosofia, política: Estudos em homenagem ao Professor Miguel Reale no seu octogésimo aniversário, São Paulo: Saraiva, 1992, p. 6.
[21] Trecho de texto citado na primeira “orelha” do livro Sonetos da verdade, de Miguel Reale (Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1984).
[22] Apud Miguel REALE, Variações sobre a poesia. Disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2658&sid=416. Acesso em 20/07/2013. Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo a 03/08/2002.
[23] Poemas do amor e do tempo, São Paulo, Edição Saraiva, 1965, pp. 61-62.
[24] Modernismo filosófico, in Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo, Instituto Brasileiro de Filosofia, vol. XXXI, fasc. 121, janeiro-fevereiro-março de 1981, p. 59.
[25] Poemas do amor e do tempo, São Paulo, Edição Saraiva, 1965, pp. 83-84.
[26] Mensagem às pedras do deserto, 3ª ed, in Idem, Obras Completas, 2ª ed., vol. 15, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 341.
[27] Encíclica Caritate Christi Compulsi. Disponível (em italiano) em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19320503_caritate-christi-compulsi_it.html. Acesso em 20/06/2013.
[28] Poemas do amor e do tempo, São Paulo, Edição Saraiva, 1965, pp. 109-111.
[29] Gilberto FREYRE, Problemas brasileiros de Antropologia, 3ª ed., Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1962, p. 41.
[30] Idem, p. 46.
[31] Idem, p. 72.
[32] Idem, p. 42.
[33] Francisco ELÍAS DE TEJADA, Plínio Salgado na Tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado, “in memoriam”, Vol. II, São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985/1986, p. 70.
[34] O que é o Integralismo, 4ª ed., in Idem. Obras Completas, 2ª ed., vol. 9., São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 42, nota.
[35] Poemas do amor e do tempo, São Paulo, Edição Saraiva, 1965, pp. 09-10.
[36] Poemas do amor e do tempo, São Paulo, Edição Saraiva, 1965, pp. 89-90.
[37] Poemas do amor e do tempo, São Paulo, Edição Saraiva, 1965, pp. 90-91.
[38] Cf. Miguel REALE, Memórias, vol. 1, Destinos cruzados, 2ª ed., São Paulo, Saraiva, 1987, p. 8.
[39] Poemas do amor e do tempo, São Paulo, Edição Saraiva, 1965, pp. 95-97.
[40] Itinerário de um poeta, in Celso LAFER e Tércio Sampaio FERRAZ JR. (coordenadores), Direito, política, filosofia, política: Estudos em homenagem ao Professor Miguel Reale no seu octogésimo aniversário, São Paulo: Saraiva, 1992, p. 6.
[41] Poemas da noite, São Paulo, Editora Soma, 1980, p. 62.
[42] Poemas da noite, São Paulo, Editora Soma, 1980, p. 52.
[43] Itinerário de um poeta, in Celso LAFER e Tércio Sampaio FERRAZ JR. (coordenadores), Direito, política, filosofia, política: Estudos em homenagem ao Professor Miguel Reale no seu octogésimo aniversário, São Paulo: Saraiva, 1992, p. 7.
[44] Poemas da noite, São Paulo, Editora Soma, 1980, p. 24.
[45] Poemas da noite, São Paulo, Editora Soma, 1980, p. 44.
[46] Itinerário de um poeta, in Celso LAFER e Tércio Sampaio FERRAZ JR. (coordenadores), Direito, política, filosofia, política: Estudos em homenagem ao Professor Miguel Reale no seu octogésimo aniversário, São Paulo: Saraiva, 1992, p. 8.
[47] Trecho de texto citado na primeira “orelha” do livro Sonetos da verdade, de Miguel Reale (Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1984).
[48] Itinerário de um poeta, in Celso LAFER e Tércio Sampaio FERRAZ JR. (coordenadores), Direito, política, filosofia, política: Estudos em homenagem ao Professor Miguel Reale no seu octogésimo aniversário, São Paulo: Saraiva, 1992, p. 9.
[49] Sonetos da verdade, Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1984, p. 15.
[50] Paulo BOMFIM, 50 anos de poesia, São Paulo, Editora Green Forest do Brasil, 1998, pp. 81-82.
[51] Gerardo Mello MOURÃO, Invenção do Mar: Carmen Saeculare, 2ª ed., Lisboa, Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 1998, p. 57.
[52] Idem, p. 74.
[53] Auguste de SAINT-HILAIRE, Viagem à Província de São Paulo e Resumo das viagens ao Brasil, Provincia Cisplatina e Missões do Paraguai, Tradução e prefácio de Rubens Borba de Moraes, 1ª ed., São Paulo, Livraria Martins, 1940, p. 33. A primeira edição da Viagem à Província de São Paulo, juntamente com a Viagem à Província de Santa Catarina, se deu, sob o título de Voyage dans les provinces de Saint-Paul et de Sainte-Catherine, em dois tomos, por Arthus Bertrand, Libraire-Éditeur, de Paris, em 1851.
[54] Alfredo ELLIS JUNIOR, Raça de Gigantes: A Civilização no Planalto Paulista, 1ª ed., São Paulo, Editora Hélios Limitada, 1926.
[55] Sonetos da verdade, Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1984, p. 91.
[56] Itinerário de um poeta, in Celso LAFER e Tércio Sampaio FERRAZ JR. (coordenadores), Direito, política, filosofia, política: Estudos em homenagem ao Professor Miguel Reale no seu octogésimo aniversário, São Paulo: Saraiva, 1992, p. 10.
[57] PLATÃO, Fédon, 62 B, Tradução de Carlos Alberto Nunes, 3ª ed. Belém, ed.ufpa, 2011, p. 61.
[58] Idem, As Leis, Livro I, “d”, in Idem, As Leis (incluindo Epinonis), 2ª ed. revista, Tradução, notas e introdução de Edson Bini, Prefácio de Dalmo de Abreu Dallari.,Bauru, SP, Edipro, 2010, p. 69.
[59] Idem, As Leis, Livro I, “e”, in Idem, As Leis (incluindo Epinonis), cit., pp. 69-70.
[60] Plínio SALGADO, Espírito da burguesia, 3ª ed., in Idem, Obras completas, 2ª ed., vol. 15, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 47.
[61] Vida oculta, São Paulo, Massao Ohno/Stefanowski Editores, 1990, pp. 17-18.
[62] Vida oculta, São Paulo, Massao Ohno/Stefanowski Editores, 1990, pp. 26-27.
[63] Vida oculta, São Paulo, Massao Ohno/Stefanowski Editores, 1990, p. 31.
[64] Miguel Reale 1910-2006, uma homenagem, in Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo, Instituto Brasileiro de Filosofia, vol. LV, fasc. 222, abril-maio-junho de 2006, p. 257.
[65] Vida oculta, São Paulo, Massao Ohno/Stefanowski Editores, 1990, p. 44.


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