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Gumercindo Rocha Dórea

Editor, escritor e jornalista, Gumercindo Rocha Dorea nasceu em Ilhéus, Bahia, a 04 de agosto de 1924, sendo filho do cacauicultor e sindicalista Alcino da Costa Dorea e de D. Emérita da Rocha Dorea, compositora de sonetos e colaboradora esporádica em periódicos de Sergipe, sua terra-natal. Em 1956, fundou as Edições GRD, que teriam seu apogeu na década de 1960 e que renovariam toda a Literatura brasileira.

 


Recado

Recado a um ex-presidente da República, ex-ministro, ex-senador, ex-professor universitário e que, hoje, amplia e revitaliza os “quadros” dos remanescentes caluniadores do Integralismo:


 Sr. Fernando Henrique Cardoso:


 Foi com incontida revolta interior que tive o desprazer de adquirir os dois últimos volumes de sua autoria,[1] um com Brian Winter, onde estão repetidas velhas e surradas calúnias contra o Integralismo e seus seguidores. Mais lamentável ainda por ter sido forjado o livro para “deleite” de Bill Clinton e de alguns possíveis leitores da grande república norte-americana. Estes, porém, se dotados de mente aberta e decidirem conhecer realmente o verdadeiro pensamento e a obra da “poderosa geração integralista”, terão satisfeita a sua curiosidade lendo a obra de seu conterrâneo, Thomas Skidmore,[2] um dos mais respeitados “brazilianists” que tentaram interpretar o Brasil e o Integralismo. A sua conclusão é simples e verdadeira: “A visão integralista era de um Brasil cristão baseado numa sociedade disciplinada com pouca tolerância para a ação revolucionária da esquerda”.


E não destoaria esta constatação com a de Bartolomé Bennassar e Richard Marin,[3] ao afirmarem com conhecimento de causa: “...a AIB distingue-se do fascismo pela sua forte identidade católica, afirmada na própria divisa: Deus, Pátria, Família. Segundo uma concepção providencial da História, o Integralismo deseja ser a matriz de uma revolução continental que tem em vista a edificação de um império cristão”.


E Ronaldo Poletti,[4] um dos mais prestigiados mestres do Direito contemporâneo brasileiros, em páginas de extraordinária vitalidade, sintetiza: “As ideias de Plínio Salgado sobre o Império, ao qual ele adere de maneira clara, estão associadas ao Direito Romano influenciado pelo Cristianismo, à dignidade da pessoa humana como fundamento de todos os direitos. Daí também sua identificação com o sonho de Bolívar para a América e sua percepção, provavelmente o primeiro no Brasil, da obra do mexicano José de Vasconcelos, autor de A raça cósmica!



Que mal há em proceder eticamente como Flávio Aguiar – prefaciado por Antônio Cândido – em sua ímpar antologia Com palmos medida, inventaria um texto de Plínio Salgado, ao lado de Oswald e Mário de Andrade, José Américo, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e José Lins do Rego – no tocante ao Modernismo e década de 1930? Poderia Flávio Aguiar deixar de anotar a presença de Plínio Salgado “como líder de movimentos nacionalistas de extrema direita”, ao tempo em que  reconhece nele um “romancista e ensaísta de peso”? Não seria mais honesto em Fernando Henrique Cardoso assim proceder, do que qualificar o verde-amarelismo de “desvio fascistizante, que chegou a ser ridículo e falso”? Não procede Flávio Aguiar, porém, com os autores reconhecidamente comunistas, de acentuá-los como tais. Não teria sido melhor reconhecer Plínio Salgado apenas como integralista?...


Todos sabemos que a calúnia – e sobretudo a mentira aceita e repetida – cria raízes de difícil erradicação. Mas que, também, forja combatentes para repudiá-las. Este simples volume é uma prova de que a verdade encontrará, sempre, defensores atentos, uma constatação aqui se evidenciando: a luta continua.


 Gumercindo Rocha Dorea


 *Texto originalmente publicado na obra “Existe um pensamento político brasileiro?”, Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!: Uma nova geração analisa e interpreta o Manifesto de Outubro de 1932 de Plínio Salgado (São Paulo, Edições GRD, 2015), pp. XI-XIII.


 





[1] O improvável presidente do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2ª ed., 2013, pp. 11-18; Pensadores que inventaram o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1ª reimpressão, 2013, p. 75.


 [2] Uma História do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2ª ed., 1998, p. 159.



 [3] História do Brasil, 1500-2000. Trad. De Serafim Ferreira. Lisboa: Teorema, 2000, p. 343. Edição apoiada pelo Ministério francês da Cultura e da Comunicação. Esta obra não foi traduzida no Brasil.



 [4] Conceito jurídico de Império. Brasília: Consulex, 2009, pp. 284-290.



 






18/11/2016, 12:29:19



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