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O conflito entre Rússia e Ucrânia

A invasão russa em solo ucraniano é um assunto relevante para todo e qualquer brasileiro, pois nossa formação cultural passa pela mistura de todos os povos que formam nossa grandiosa pátria. Somos todos índios, negros e brancos e temos orgulho do que somos, por isso não esquecemos nosso passado, mesmo sempre olhando para o futuro, ou como diz  Carl Schmitt, “O novo não pode vir se não do mais antigo?”

Segundo o RCUB (Representação Central Ucraniano-Brasileira), hoje no Brasil temos mais de 500 mil descendentes de ucranianos, provenientes da diáspora ocorrida entre os anos de 1895 e 1920. Embora concentrados em grande parte (80%) no Paraná, há filhos e netos de ucranianos em diversos estados, principalmente Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Rondônia, Brasília e Mina Gerais.
 
A relação entre a Rússia e a Ucrânia já era complexa e repleta de percalços durante o período czarista. Com a Revolução de 1917 e a formação da União Soviética, a situação ficou ainda mais difícil. Após o fim da URSS a Ucrânia foi reconhecida - em 25 de dezembro de 1991 - como nação independente. Logo, toda e qualquer ação em território ucraniano fere a dignidade de uma nação que sempre sofreu com guerras e invasões.
 
A história local - distante da realidade ocidental - pode ser de difícil compreensão para os brasileiros, mas nos ajuda a entender a atual crise. Segundo Taras Kuzio, intelectual e analista internacional canadense, as escolas historiográficas do oriente eslavo se dividem em quatros linhas de pensamentos: a escola russófila - que trata a Ucrânia como um território russo - e para a qual não existe povo, língua ou história ucraniana. Para esta corrente de pensamento, o curso natural seria a integração da Ucrânia à Rússia. Outra tendência é a escola sovietófila, que trata ucranianos e bielorrussos como povos com características próprias mas que devem fazer parte de uma Rússia renovada - ou seja, de uma URSS renascida. Em seguida, temos a corrente ucraniófila, que considera os ucranianos como um povo com identidade própria e detentor do legado do Kiev Rus. Finalmente, há a escola Eslava Oriental, que trata o assunto de forma mais acadêmica e menos política e defende a tese de que cada um dos três povos - russos, ucranianos e bielorrussos - tem suas próprias culturas, mesmo havendo um núcleo comum.

Outro tema controverso é o Holodomor, genocídio contra o povo ucraniano, que matou em torno de 10 milhões de pessoas de fome na Ucrânia e foi causado pelos comunistas da União Soviética. A história do genocídio foi contada pelo jornalista inglês Thomas Malcolm Muggeridge, jornalista agnóstico que se converteu à Igreja Católica aos 66 anos, após denunciar os terrores da repressão soviética na Ucrânia. Ele foi perseguido e demitido pela sua matéria a respeito do Holodomor,   enquanto uma matéria fortemente tendenciosa negando os acontecimentos, que havia sido escrita por Walter Duranty, recebia o prêmio Pulitzer em 1932. Acredita-se hoje que Duranty divulgava a linha oficial do Partido Comunista Soviético e não os fatos. Em um livro de 1990 intitulado “Stalin's Apologist: Walter Duranty – The New York Times's Man in Moscow”, Sally Taylor, escritor americano radicado no Reino Unido, afirma que Duranty acobertou as atrocidades cometidas na Ucrânia para preservar seu acesso pessoal ao ditador. Até os dias de hoje o Holodomor não é reconhecido pela Rússia, embora a sua existência já tenha sido comprovada pela historiografia como um dos maiores genocídios da História. No Brasil foi reconhecido como um crime contra a humanidade em 2007.

Epicentro das manifestações, a Praça da Independência, em Kiev, foi o local em que milhares de ucranianos acamparam e lutaram durantes meses sob um frio que chegou a -40º em um levante que depôs o então presidente Víktor Yanukóvych.

O problema atual é ainda mais complexo. Guiado por uma linha de pensamento totalitarista, o presidente Putin tem fortes interesses políticos. O governo russo parece estar sendo influenciado pelo intelectual russo Aleksander Dugin, ex-arquivista da KGB, que defende a anexação de vastos territórios ucranianos pela Rússia. Em parte, isso já ocorreu com a recente incorporação da Criméia pela Rússia, uma ação sem precedentes neste século. Recentemente, em uma conferência, sobre a atual situação, Dugin teria dito: "Eu, enquanto professor, vos digo - Matar, matar, matar!". Também postou em russo no seu facebook: "Depois do massacre de Odessa no dia 2 de Maio de 2014, as pessoas devem envergonhar-se de serem ucranianos. Eles precisam se tornar eslavos, russos, novo-russos, rutênos... mas não mais ucranianos. Tal povo não existe mais. É uma falsa nação. Um povo fracassado." e sobre a bandeira da Ucrânia postou em inglês “ I hate this flag” (Eu odeio essa bandeira).
 
Dugin é um polêmico filósofo e geopolítico cuja obra parece estar adquirindo maior influência na cúpula do governo russo. Um dos fundadores do Partido Nacional-Bolchevista Russo, posteriormente afastou-se e fundou o Movimento Eurasiano. Nacionalista radical, Dugin defende a originalidade da identidade russa frente ao Ocidente. Em sua obra "A Quarta Teoria Política", ele afirma que a linha divisória entre a Rússia e o Ocidente passa pelo interior da Ucrânia. O seu objetivo principal seria a formulação de uma aliança entre todas as formas de tradicionalismo e nacionalismo contra o globalismo ocidental. Um ponto particularmente polêmico do seu pensamento é a mudança de posição em relação ao comunismo. Se nas suas primeiras obras, como "O Mistério da Eurásia", ele condena o comunismo sem delongas, atualmente ele tem adotado um posicionamento dúbio em relação aos regimes de "socialismo real" do século XX. Embora critique a opção pelo ateísmo feita pelos governos comunistas, afirma que esses regimes não foram marxistas ortodoxos, e sim uma forma de "comunismo nacional".
 
O mundo pôde acompanhar pela internet e pela televisão a verdadeira revolução popular ucraniana. Milhares de ucranianos acamparam e lutaram durantes meses sob um frio que chegou a -40º em uma levante que depós o presidente da época, exatamente pela sua proximidade com a Rússia de Putin. Essa proximidade desagradou à população, seja pelo passado recente que trouxe tanta desgraça para Ucrânia sob o regime soviético ou pelos demais motivos elencados neste texto. No próximo dia 25 de maio, teremos eleições presidenciais da Ucrânia, eleições que poderão mudar o futuro de um povo que traz as lágrimas das guerras e desgraças como sua marca cultural, eleições que poderão mudar o futuro do mundo, pois as ações da Rússia são sempre uma incógnita para o resto da humanidade.
 
O integralismo sempre foi e sempre será contra governos opressores e autoritários e países que subjugam seus iguais, será contra aqueles que atentam contra a liberdade religiosa e intelectual e jamais irá apoiar um sistema baseado na força e na imposição cultural. Esse sistema que a Rússia tenta impor já teria sido previsto pelo Chefe Nacional Plínio Salgado, que escreveu “Temos, assim, uma nova forma de totalitarismo, — o totalitarismo das democracias agnósticas, totalitarismo despótico das massas, cujo peso quantitativo manobrado por hábeis técnicos da formação da opinião pública e pelo poder do dinheiro, conforme salientou o Santo Padre Pio XII, atenta contra os direitos do Espírito e contra todo o princípio moral, nada impedindo que pela força das massas majoritárias sejam os fundamentos da Religião e os próprios princípios da liberdade postergados e suprimidos. ”
 
Deus, pátria e Familía
Бог, країна і сім'я (Borr, Craína i Simiá)
 

Ouphir Pesch
Representante do Núcleo Municipal de Curitiba (FIB-PR)


22/05/2014, 14:27:25


Eduardo Campos, in memoriam
Ariano Suassuna, in memoriam

Foi com profundo pesar que recebemos, no último dia 23 de julho, a notícia do falecimento do escritor Ariano Suassuna, ocorrido na mesma data, na Cidade do Recife, em decorrência de um acidente vascular cerebral. Romancista, dramaturgo, poeta, ensaísta e idealizador do Movimento Armorial, que tem por meta fundamental a elaboração de uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste do Brasil, se fez o autor do Auto da Compadecida e do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta um dos mais fulgurantes astros do firmamento literário nacional, assim como um dos mais notáveis cultores e divulgadores das tradições pátrias em geral e nordestinas em particular. Daí ser sua partida deste Mundo uma perda irreparável para este vasto Império por nome de Brasil, que o tem, aliás, não apenas entre seus primeiros homens de letras, mas também entre seus primeiros patriotas.

Ariano Villar Suassuna nasceu na Cidade de Nossa Senhora das Neves da Paraíba, atualmente chamada João Pessoa, a 16 de junho de 1927, sendo filho do Dr. João Urbano Pessoa de Vasconcellos Suassuna, então Presidente da Paraíba, e de D. Rita de Cássia Dantas Villar. No ano seguinte, havendo o Dr. João Suassuna deixado a Presidência da Paraíba, retornou, com toda a família, para o Sertão, lugar de origem desta, que passou a residir na Fazenda Acauã, no Município de Aparecida da Paraíba. Dois anos mais tarde, durante a chamada Revolução de 1930, o Dr. João Suassuna, então Deputado Federal, foi assassinado, no Rio de Janeiro, por partidários de seu falecido rival, João Pessoa, que o acusavam de estar envolvido no assassínio deste, fato que, aliás, desencadeara o aludido levante político-militar.

Em 1933, a família Suassuna, agora liderada por D. Rita e bastante empobrecida depois da grave seca do ano anterior, que dizimara praticamente todo o seu gado, mudou-se para Taperoá, no alto Sertão dos Cariris Velhos da Paraíba do Norte, onde Ariano estudou as primeiras letras e se ambienta, aliás, boa parte de sua rica obra literária, incluindo o auto e o romance que mencionamos no início deste artigo.

No ano de 1942, mudou-se a família Suassuna para o Recife, onde Ariano estudou no Ginásio Pernambucano, no Colégio Americano Batista e no Colégio Oswaldo Cruz, no qual concluiu o ensino secundário, ingressando, em 1946, na tradicional Faculdade de Direito do Recife.

Entre os anos de 1946 e 1948, publicou, na revista Estudantes, da Faculdade de Direito, no jornal do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina e em suplementos de jornais recifenses, seus primeiros poemas ligados ao romanceiro popular do Sertão Nordestino. Em 1947, escreveu a primeira peça teatral, Uma mulher vestida de sol, com a qual ganhou, no mesmo ano, o Prêmio Nicolau Carlos Magno, do Teatro do Estudante de Pernambuco.  

Em 1948, inspirado no trabalho do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca, principiou a fazer teatro ambulante, sendo sua peça O desertor de Princesa, que tinha então o título de Cantam as harpas de Sião, montada, pelo Teatro do Estudante de Pernambuco, no Parque 13 de Maio, no Recife. No ano seguinte, escreveu a peça Os homens de barro e, em 1950, o Auto de João da Cruz, peça inspirada em folhetos da literatura de cordel, pela qual recebeu o Prêmio Martins Pena, conferido pela Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco. Ainda em 1950, formou-se em Direito e, em virtude de doença pulmonar, se mudou para Taperoá, onde residiu até 1952 e escreveu, em 1951, a peça para mamulengos Torturas de um coração ou em boca fechada não entra mosquito.

Em 1952, após retornar ao Recife, começou a trabalhar, como advogado, no escritório do Dr. Murilo Guimarães e escreveu a peça O arco desolado, que mereceria, dois anos mais tarde, menção honrosa no Concurso do IV Centenário da Cidade de São Paulo, e que foi inspirada na peça A vida é sonho, de Calderón de la Barca.

Entre os anos de 1952 e 1956, dedicou-se, sobretudo, à advocacia, não deixando, porém, de escrever. São desta época, além da aludida peça O arco desolado, as peças O castigo da soberba, de 1953, O rico avarento, de 1954, e Auto da Compadecida, escrita em 1955, e também o romance A história do amor de Fernando e Isaura, que, inspirado na lenda celta de Tristão e Isolda, foi concluído em 1956 e publicado apenas em 1994.

No ano de 1956, deixou a advocacia e se tornou professor de Estética da Universidade Federal de Pernambuco, escrevendo, para seus alunos, um Manual de Estética, publicado, em edição mimeografada, pelo Diretório da Faculdade de Filosofia. Lecionaria, ainda, na mesma universidade, Literatura Brasileira e Teoria do Teatro, além de História da Cultura, esta última disciplina no curso de mestrado em História da referida instituição de ensino. Ainda no referido ano, passou a dirigir o setor cultural do Serviço Social da Indústria-Departamento Regional de Pernambuco, permanecendo em tal cargo até 1960.

Em 1957, desposou D. Zélia de Andrade Lima, que lhe daria seis filhos. No mesmo ano, com a peça O casamento suspeitoso, montada em São Paulo pela Companhia Sérgio Cardoso, recebeu o Prêmio Vânia Souto de Carvalho, da Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco, e, com a peça O santo e a porca, ganhou a medalha de ouro da Associação Paulista dos Críticos Teatrais. Ainda em tal ano, foi publicada, no Rio de Janeiro, pela Editora AGIR, a primeira edição do Auto da Compadecida.

No ano de 1958, escreveu a peça O homem da vaca e o poder da fortuna, e recebeu, com o Auto da Compadecida, a medalha de ouro da Associação Paulista de Críticos Teatrais. Foi considerado o “Melhor Autor Nacional de Comédia” pela Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro, então ainda Distrito Federal, e recebeu, ainda, o Prêmio Vânia Souto de Carvalho e o Prêmio Samuel Campelo, ambos conferidos pela Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco.

Em 1959, já nacionalmente consagrado e reconhecido como um dos principais dramaturgos brasileiros, escreveu a peça A pena e a lei, feita a partir de seu entremês para mamulengos Torturas de um coração; recebeu novamente os prêmios Vânia Souto de Carvalho e Samuel Campelo, da Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco, e, por fim, teve o Auto da Compadecida publicado, em tradução polonesa, pela revista Dialog, de Varsóvia. No ano seguinte, formou-se em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco e escreveu, a partir de seu entremês O homem da vaca e o poder da fortuna, a Farsa da boa preguiça, que seria montada, um ano mais tarde, pelo Teatro Popular do Nordeste, que também encenaria, em 1962, sua peça A caseira e a Catarina, escrita neste último ano.

No ano de 1963, foi publicada, pela University of California Press, a tradução do Auto da Compadecida para o idioma de Shakespeare e de Ezra Pound. No ano imediato, publicou, pela editora Imprensa Universitária, da Universidade Federal de Pernambuco, as peças Uma mulher vestida de sol e O santo e a porca. A primeira versão desta última obra para a língua de Cervantes, de Calderón de la Barca e de Lope de Vega seria publicada dois anos mais tarde, na Argentina. Ainda em 1964, veio à luz a tradução holandesa do Auto da Compadecida, cuja versão castelhana seria dada à estampa no ano seguinte, na Espanha.

Em 1967, foi o autor de A História do amor de Fernando e Isaura um dos membros fundadores do Conselho Federal de Cultura, ao qual pertenceu até o ano de 1973, nele convivendo com intelectuais como Hélio Vianna, Adonias Filho, Octavio de Faria, Cassiano Ricardo, Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Josué Montello, Djacir Menezes, Pedro Calmon, Afonso Arinos de Mello Franco, Peregrino Júnior, Gladstone Chaves de Mello, Vianna Moog, Sílvio Meira, Gustavo Corção e Andrade Muricy [1]. Em 1968, tornou-se também um dos membros fundadores do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, de que igualmente fez parte até 1973.

Nomeado, pelo Reitor Murilo Guimarães, Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco em 1969, ocupou tal cargo até 1974. Ainda em 1969, a peça A pena e a lei foi premiada no Festival Latino-Americano de Teatro, em Santiago, no Chile, e foi gravada, no Brasil, a primeira versão cinematográfica do Auto da Compadecida, sob a direção de George Jonas.

No ano de 1970, foi lançado, no Recife, o Movimento Armorial, por ele idealizado, e foi publicada, em Paris, edição do Auto da Compadecida traduzida para a língua de Victor Hugo, Balzac, Baudelaire e Mallarmé.

Em 1971, publicou, pela José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que, por ele classificado como “romance armorial brasileiro”, é, em nosso sentir, não apenas sua obra-prima, como também um dos grandes clássicos da Literatura Sertaneja, Nordestina e Brasileira. No mesmo ano, também deu à estampa, pela Editora AGIR, a peça A pena e a lei, enquanto na então Alemanha Ocidental, foi publicada versão do Auto da Compadecida no idioma de Goethe, Hölderlin, Rilke e Stefan George.

Rachel de Queiroz escreveu, com razão, no prefácio que fez ao Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que, em Ariano Suassuna, assim como, em seu entender, em Villa-Lobos e Portinari, “a força do artista obra o milagre da integração do material popular com o material erudito, juntando lembrança, tradição e vivência, com o toque pessoal de originalidade e improvisação” [2]. Como ponderou a romancista de O Quinze, o autor paraibano sempre olhou para o Mundo Sertanejo “com a visão do exilado, ainda na adolescência arrancado ao seu sertão natal”, por isso sempre o descrevendo “muito belo e mágico” e tendo “recuo suficiente para descobrir o mistério onde os da terra naturalmente só veem o cotidiano” [3].

Carlos Drummond de Andrade se referiu ao Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, por ocasião de seu lançamento, como o “extraordinário romance-memorial-poema-folhetim que Ariano Suassuna acaba de explodir”, ressaltando o caráter “febril” do livro e a “fantasmagoria de suas desaventuras, que trazem a Idade Média para o fundo Brasil do Novecentos” [4]. Carlos Lacerda, por seu turno, também por ocasião do lançamento do aludido romance, afirmou que, “entremeado, todo o tempo, de símbolos e alusões, de recordações e fantasmas”, é tal livro um “poço inesgotável de estudos analíticos, livro de cabeceira para psicólogos e sociólogos”, assim como uma verdadeira “explosão de maravilha”, que ousou comparar mesmo ao Dom Quixote de Cervantes [5].

Maximiano Campos, por seu turno, aduziu, no posfácio escrito ao Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que, com aquela obra, o Brasil encontrava um “grande romancista” em Ariano Suassuna, que já era, em sua opinião, “seu maior dramaturgo”. Este “livro, mágico, violento e belo” é, em seu sentir, um romance superior, como Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, pertencendo, assim como esta obra, ao número dos “livros que transcendem ao mero enredo e fabulação e nos fazem ficar tentados a chamá-los de epopeias” [6]. Em tal romance vemos, ainda nas palavras de Maximiano Campos, Ariano Suassuna “construindo, com o auxílio do sonho e a força do seu poder criador, o seu castelo rude e poético, sertanejo e barroco, áspero e iluminado como as terras do seu Sertão” [7].

Em 1973, com o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, recebeu Ariano Suassuna o Prêmio de Ficção conferido pelo Ministério da Educação. No ano seguinte, publicou, pela José Olympio Editora, a Farsa da boa preguiça e uma Seleta em prosa e verso; pela editora Guariba, do Recife, a obra Ferros do Cariri, e, pela Editora Universitária, da Universidade Federal de Pernambuco, O Movimento Armorial.

Em 1975, foi nomeado Secretário de Educação e Cultura da Cidade do Recife, cargo que ocupou até o ano de 1978, e deu à estampa, pela Editora Universitária, a sua Iniciação à Estética. Entre 1976 e 1977, publicou, na forma de folhetins, no Diário de Pernambuco, As infâncias de Quaderna, memórias da meninice do personagem-narrador do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que tem, aliás, muito do próprio autor. Ainda em 1977, foram publicados, num só volume, o “romance armorial” História do rei degolado nas caatingas do Sertão e a “novela romançal brasileira” Ao sol da onça Caetana, e, em 1979, foi editada, em Stuttgart, tradução alemã do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta.

Em 1981, com o falecimento do Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, herdeiro do trono brasileiro, Ariano Suassuna, que era, desde a juventude, um militante da causa monárquica, se autointitulando um “monarquista de esquerda”, abandonou o movimento monárquico, desgostoso por saber que os dois filhos mais velhos de Dom Pedro Henrique, Dom Luiz e Dom Bertrand, que passaram a encabeçar o referido movimento, eram membros da organização “direitista” denominada Tradição, Família e Propriedade (TFP). Segundo suas próprias palavras, tal desgosto não foi senão “desgosto de que aquele meu sonho, que eu achava tão bonito, tivesse acabado”, sendo tal sonho, por seu turno, o sonho de ver “um príncipe que tomasse não o lado do Brasil oficial, mas do Brasil real, do povo de Canudos” [8], do Império do Belo Monte, ou “Império do Belo-Monte de Canudos”, como dizia [9].

Jamais, porém, deixou Suassuna de acreditar e proclamar que a forma de governo mais adequada à Tradição Nacional e ao chamado Brasil real é a Monarquia, que é, ademais, em seu entender, esteticamente “mais bonita do que a república” [10].  

Os mesmos motivos que levaram o autor da História do rei degolado nas caatingas do Sertão a deixar a militância monárquica o levaram a anunciar, na mesma ocasião, que se afastava definitivamente da Literatura. Poucos anos mais tarde, contudo, voltou a escrever, iniciando a confecção de um novo romance, espécie de continuação do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta e que seria, segundo ele, sua obra máxima, mas que, infelizmente, não foi concluído, tendo sido apenas terminado o primeiro volume de tal obra, ainda inédito.

Em 1987, Suassuna deixou, depois de trinta anos, de ensinar História da Cultura no curso de mestrado em História da Universidade Federal de Pernambuco e, em 1989, deixou de lecionar Teoria do Teatro, Estética e Literatura Brasileira na mesma universidade, se aposentando. No mesmo ano, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, tomando, no ano seguinte, posse da cadeira número 32 da chamada Casa de Machado de Assis, cujo patrono é Manuel de Araújo Porto-Alegre, Barão de Santo Ângelo, e cujo primeiro ocupante foi Carlos de Laet.

Em 1993, foi eleito membro da Academia Pernambucana de Letras, na qual ocupou a cadeira número 18, cujo patrono é Afonso Olindense Ribeiro de Souza. No mesmo ano, foi realizada, em São José do Belmonte, nos Sertões de Pernambuco, a primeira Festa da Pedra do Reino, cavalgada inspirada no romance de Suassuna.

No ano de 1994, foi exibida, na Rede Globo de Televisão, uma adaptação da peça Uma mulher vestida de sol, e foi publicado, pelas Edições Bagaço, do Recife, o romance A história do amor de Fernando e Isaura, escrito, como vimos anteriormente, em 1956. No ano seguinte, foi nomeado, pelo Governador Miguel Arraes, Secretário de Cultura de Pernambuco, cargo que ocupou até 1998, e foi exibida, na Rede Globo de Televisão, uma adaptação da Farsa da boa preguiça.

Em 1998, foi publicado, no Recife, pela editora Ancestral, o CD Poesia viva de Ariano Suassuna e, no ano seguinte, pela Editora Universitária, o livro Poemas. Embora poucos sejam aqueles que dão importância à poesia de Suassuna, é este, inegavelmente, um inspirado poeta, sendo mister assinalar, ademais, que, como afirmou ele, a poesia era a “fonte profunda” de tudo quanto escrevia, incluindo o teatro e o romance [11], o que fica bem claro, aliás, para quem lê seus escritos em prosa, notadamente o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, que é, sem dúvida alguma, um dos grandes poemas em prosa que cantam o Mundo do Sertão, ao lado de obras como Os Sertões, de Euclides da Cunha, Terra de Sol, de Gustavo Barroso, e Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa.

Em 1999, foi exibida, na Rede Globo de Televisão, em quatro capítulos, adaptação do Auto da Compadecida dirigida por Guel Arraes. Tal adaptação, que teve enorme sucesso de público, foi convertida em filme de igual sucesso no ano seguinte.

No ano de 2000, foi Suassuna eleito membro da Academia Paraibana de Letras, passando a ocupar a cadeira número 35, cujo patrono é Raul Campelo Machado, e recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Paraíba.

Em 2007, em homenagem aos oitenta anos de Ariano Suassuna, foi exibida, na Rede Globo de Televisão, a minissérie A Pedra do Reino, adaptação do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, sob a direção de Luiz Fernando Carvalho.

Em 2011, Ariano Suassuna se tornou Secretário da Assessoria de Eduardo Campos, então Governador de Pernambuco, permanecendo no cargo até abril deste ano. Sofreu a 21 de julho o acidente vascular cerebral que o vitimou dois dias mais tarde.

Não podemos concluir o presente artigo a respeito da vida e da obra do autor do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta sem evocar o fato de que teve este, em Taperoá, entre os anos de 1938 e 1941, seus dois primeiros mestres de Literatura nos tios Manuel Dantas Villar, meio ateu, republicano, anticlerical e de ideias socialistas, e Joaquim Duarte Dantas, católico, monarquista e integralista. Foi, aliás, em grande parte, pela influência do primeiro que se tornou Ariano Suassuna um homem que se proclamava “de esquerda” e mesmo socialista, do mesmo modo que foi graças à influência do segundo que se tornou o escritor patrício católico apostólico romano e monarquista, assim como profundo admirador da figura d’El-Rei Dom Sebastião I “de Portugal, do Brasil e do Sertão”, como diria [12]. Integralista talvez não tenha se tornado por não haver conhecido o pensamento econômico e social do Integralismo, inspirado, aliás, na Doutrina Social da Igreja, que o autor da História do rei degolado nas caatingas do Sertão admirava, a associando, porém, equivocadamente, à “esquerda” e ao socialismo.

Da mesma forma, estamos certos de que, caso houvesse conhecido a fundo a obra literária e religiosa de Plínio Salgado, teria Suassuna nutrido pelo Chefe Nacional do Integralismo mais respeito do que aquele já considerável que nutriu por este, apesar do autor da Vida de Jesus e de Primeiro, Cristo! havê-lo acusado de ser comunista e ter atacado duramente seu Auto da Compadecida [13].

Isto posto, cumpre sublinhar que, a despeito de se proclamar “esquerdista” e mesmo socialista, foi Ariano Suassuna, ao longo de toda a vida, um crítico tão ferrenho do comunismo quanto o foi do capitalismo liberal e daquilo a que bem denominou “modernidade liberal” [14]. A propósito, reputamos ser relevante transcrever aqui um breve trecho da entrevista concedida pelo autor de As infâncias de Quaderna à Folha de S. Paulo, em 1991, no qual fala de sua aversão ao marxismo e à tirania soviética:

 "...sempre fui socialista, mas sempre tive horror ao marxismo. Eu acho o marxismo um pensamento estreito, castrador. Eu não me entendia com os comunistas brasileiros porque achava que eles agiam com faca de dois gumes, com pau de dois bicos. Quando eu denunciava o imperialismo americano e me batia contra a exploração americana no Brasil e coisa, eles batiam palma para mim. Mas quando eu dizia que o stalinismo era uma ditadura horrorosa, assassina, era considerado vendido aos americanos, a Wall Street. Eu sempre denunciei as duas coisas" [15].

Faz-se mister salientar, do mesmo modo, que Ariano Suassuna sempre proclamou suas convicções católicas, defendendo corajosamente princípios da Fé e da Moral Católica em diversas ocasiões, havendo sido, aliás, muitas vezes chamado de “arcaico” em razão disto. Na palestra que deu no Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília, a 18 de abril de 2012, na inauguração do Auditório Ministro Mozart Victor Russomano, afirmou ele, com efeito, que era católico e que sua “visão do mundo e do homem” era “uma visão religiosa”, refutando, em seguida, a teoria da evolução, de Charles Darwin. Pouco mais tarde, aduziu que, diversamente dos “herois” de Cazuza, que, segundo este, morreram de overdose, seu “Heroi principal” jamais teve uma overdose, tendo morrido na Cruz, entre dois ladrões, e ressaltou que era necessário sustentar os valores religiosos e morais “sem ter medo de ser considerado arcaico” ´[16].

Joaquim Duarte Dantas, o tio católico, monárquico e integralista de Suassuna, inspirou o personagem Samuel Wandernes, ou Wan d’Ernes, como este preferia que escrevessem, do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, assim como Manuel Dantas Villar inspirou o personagem Clemente Anvérsio, do mesmo romance.

Promotor de Justiça de Taperoá e inspirado poeta, foi Samuel Wandernes o criador do movimento literário denominado “Tapirismo Ibérico-Armorial do Nordeste”, para o qual “onça é ‘jaguar’, anta é ‘Tapir’, e qualquer cavalinho esquelético e crioulo do Brasil é logo explicado como ‘um descendente magro, ardente, nervoso e ágil das nobres raças andaluzas e árabes, cruzadas na Península Ibérica e para cá trazidas pelos Conquistadores fidalgos da Espanha e de Portugal, quando realizaram a Cruzada épica da Conquista’” [17], isto é, da Conquista da América Hispânica, Lusíada e Castelhana, que Wandernes qualificou de autêntica “‘Epopeia’” [18].

Isto posto, cumpre enfatizar que o estilo de escrita de Pedro Quaderna, protagonista e narrador do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, e, por conseguinte, do próprio Suassuna, é, em suas palavras, uma “fusão feliz” do estilo rebuscado do “Tapirismo Ibérico-Armorial do Nordeste” e do estilo simples do “Oncismo Negro-Tapuia do Brasil”, criado pelo Professor Clemente Anvérsio [19].

Samuel Wandernes não era um filho do Sertão, mas sim um “‘um gentil-homem dos Engenhos pernambucanos’, como costumava dizer” [20]. Depois de se formar em Direito pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, no dealbar do século 20, planejara aquele então jovem “‘poeta do Sonho e pesquisador da Legenda’” escrever “uma obra-de-gênio intitulada O Rei e a Coroa das Esmeraldas”. Para a feitura de tal “‘livro de tradição e de brasilidade’”, se dedicara a pesquisas heráldicas e genealógicas sobre as famílias aristocráticas de Pernambuco, antiga Nova Lusitânia, acabando por se deparar, no meio de tais pesquisas, com a história da família Garcia-Barretto, chegando à conclusão de que o patriarca de tal família, Dom Sebastião Barretto, não era senão El-Rei Dom Sebastião I de Portugal, que teria vindo para o nordeste da Terra de Santa Cruz depois da derrota de Alcácer-Quibir, no norte da África. Descobrira, ainda em suas pesquisas, que a família Garcia-Barretto ainda sobrevivia, nos fundos do Sertão do Cariri da Paraíba, estando viva, pois, a descendência do soberano “‘moço, casto e guerreiro como o Santo que lhe deu o nome’” e que foi, em seu sentir, um “‘Cruzado e cavaleiro medieval extraviado na Renascença ibérica’” [21], havendo decidido então seguir para o Sertão, onde acabara por permanecer depois de ali ter encontrado os supostos descendentes d’El-Rei Dom Sebastião.

Samuel Wandernes, que brilhava de modo singular na “plêiade zodiacal e literária de Taperoá” [22], foi, ao lado de Pedro Quaderna e de Clemente Anvérsio, fundador da “Academia de Letras dos Emparedados do Sertão da Paraíba” [23]. Patriota, nacionalista e defensor da Fé Católica e do retorno do Brasil “a seus caminhos”, ou seja, ao “caminho ibérico e fidalgo dos Conquistadores e sertanistas” [24], era ele um profundo admirador de Plínio Salgado, com quem tinha contato desde o tempo em que este liderara o movimento literário denominado “Revolução da Anta” e a quem via como uma das grandes “‘esperanças de restauração do grande império da Nova Ibéria’” [25]. Após a fundação, por Plínio Salgado, da Ação Integralista Brasileira (AIB), o poeta fidalgo dos engenhos da antiga Nova Lusitânia entrou para tal organização, fundando o núcleo integralista de Taperoá. Tinha até mesmo “‘recebido um cartão de Plínio Salgado, com quem passara a manter relações de amizade depois da visita que o Chefe Nacional fizera ao Sertão da Paraíba, em companhia dos intelectuais paraibanos Hortênsio Ribeiro e Pedro Batista’, como diziam na rua, deslumbrados com o prestígio de Samuel, pois o Chefe Plínio Salgado, além de político, era um literato nacionalmente consagrado” [26].

Isto posto, cumpre assinalar que o personagem Samuel Wandernes apresenta algumas posições que diferem sobremaneira daquelas da Doutrina Integralista, a saber, um certo desprezo pelo povo e pelo Sertão e mesmo preconceitos de ordem étnica contra negros e índios. Não sabemos se Joaquim Duarte Dantas, que, como vimos, inspirou o aludido personagem de Suassuna, tinha tais ideias, mas se as tinha, estava parcialmente em desacordo com os princípios da Doutrina do Sigma.  

Já havendo nos estendido além do que pretendíamos, encerramos aqui o presente artigo em memória de Ariano Suassuna, sublinhando, uma vez mais, que o romancista do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, dramaturgo de O desertor de Princesa e poeta de Pasto incendiado é um dos primeiros vultos do firmamento literário pátrio, tendo sido, em vida, ademais, um dos primeiros patriotas deste Império de Santa Cruz-Brasil. E àqueles que nos censurarem por elogiá-lo, nos apontando seus erros políticos e doutrinários e os defeitos que há em sua obra, responderemos dizendo que não é por estar equivocado em algo que alguém está equivocado em tudo.


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 17 de agosto de 2014-LXXXI.



Notas:
[1] Cumpre sublinhar que todos os intelectuais mencionados, com exceção de Gladstone Chaves de Mello, Sílvio Meira, Peregrino Júnior e Vianna Moog, foram, assim como Suassuna, membros fundadores do Conselho Federal de Cultura.
[2] Um romance picaresco?, in Ariano SUASSUNA, Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, 8ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 2006, p. 16.
[3] Idem, p. 17.
[4] Trecho de texto citado na contracapa da 8ª edição do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, já aqui citada.
[5] Trecho de texto citado na contracapa da 8ª edição do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, já aqui citada.
[6] A Pedra do Reino, in Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, p. 745.
[7] Idem, p. 754.
[8] Entrevista publicada no jornal Folha de S. Paulo em 26 de outubro de 1991. Disponível em: http://almanaque.folha.uol.com.br/leituras_16jun00.htm. Acesso em 10 de agosto de 2014.
[9] Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, cit., p. 7.
[10] Entrevista publicada no jornal Folha de S. Paulo em 26 de outubro de 1991 e já aqui citada.
[11] Idem.
[12] Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, cit., p. 7.
[13] Cf. Ariano SUASSUNA, Meu “comunismo”, in Folha de S. Paulo, 31/08/1999. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz31089907.htm. Acesso em 11 de agosto de 2014.
[14] Entrevista publicada no jornal Folha de S. Paulo em 26 de outubro de 1991 e já aqui citada.
[15] Idem.
[16] Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5MDYKt7Bb0g. Acesso em 11 de agosto de 2014.
[17] Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, cit., p. 50.
[18] Idem, p. 62.
[19] Idem, p. 50
[20] Idem, pp. 165-166.
[21] Idem, p. 166.
[22] Idem, p. 177.
[23] Idem, p. 183.
[24] Idem, p. 188.
[25] Idem, p. 246.
[26] Idem, p. 254.


20/08/2014, 10:00:36


Ariano Suassuna, in memoriam
Homenagem aos soldados do Brasil

Neste 25 de agosto, Dia do Soldado, a Frente Integralista Brasileira (FIB) rende homenagem a todos os soldados brasileiros, incluindo neste grupo não apenas os militares, mas também os civis integralistas, posto que, como escreveu Plínio Salgado, “o Integralista é o soldado de Deus e da Pátria, Homem Novo do Brasil, que vai construir uma Grande Nação” [1].   Aliás, o integralista não é apenas soldado, mas também sentinela, devendo, como tal, estar sempre alerta, respondendo “Alerta estou!” quando a outra sentinela bradar “Sentinela, alerta!”, segundo o costume introduzido pelo Conde de Lippe no exército português em fins do século XVIII, e devendo, do mesmo modo, gritar, nas sombras noturnas, para a Pátria adormecida, “Sentinela, alerta!”, no intuito de despertá-la.

Em 1939, quando esteve, por motivos de ordem política, preso na Fortaleza de Santa Cruz, Plínio Salgado, enquanto escutava as ondas do mar baterem nas pedras e entrarem pelas “casamatas com ribombos oceânicos”, ouvia também, de hora em hora, uma sentinela bradar “Sentinela, alerta!” e a outra, “nas sombras da noite, com a cabeça coroada pelas estrelas”, responder “Alerta estou!” [2]. Ali mesmo escreveu o escritor, pensador e doutrinador político patrício seu magnífico Poema da Fortaleza de Santa Cruz, em que reviveu a glória militar do nosso Brasil e aduziu que, no seio da escura noite que cobria este vasto Império, apenas a sentinela estava desperta; apenas a sentinela, “porque ninguém, na Pátria imensa”, despertara, exceto a sentinela, que gritava “Sentinela alerta” ao seu irmão, que bradava “Alerta estou!” [3].

Não é necessário dizer que aquela sentinela representa, em última análise, todos os verdadeiros nacionalistas, os únicos despertos, em 1939 como agora, nas trevas da caliginosa noite que cobre este gigante adormecido. Não é preciso dizer, em outras palavras, que aquela sentinela representa todas as “sentinelas do Brasil”, como o Chefe Nacional Plínio Salgado já a nós se referira no Hino Avante!, por ele composto na primeira metade da década de 1930.

Alertas devemos estar, as sentinelas da Nação Brasileira, nas palavras do autor d’O poema da Fortaleza de Santa Cruz, “pelo Brasil, por nossa Pátria”, do mesmo modo que estiveram alertas, “em outros tempos”, os canhões da fortaleza, “despedindo trovões sobre as ondas do mar”, e da mesma forma que alerta está o “Espírito Imortal das Tradições Antigas”, que, “nos pátios da velha fortaleza”, na “hora morta da noite, passeia devagar...” [4].

Alertas devemos estar, as sentinelas do Brasil Profundo e Integral e de suas tradições, porque nosso grito simboliza que “a alma da Pátria não morreu” e que está tão viva em nós quanto estava, em 1939, “nos quartéis, nas fortalezas”, e como estivera “nas guerras de outros tempos”, quando “com o sangue dos bravos se escreveram/ as luminosas páginas heroicas” [5].

Devemos, pois, bradar “Sentinela, alerta!”, como a sentinela da vetusta fortaleza, “para as trevas da noite” e “para a amplidão”, pois só assim se saberá, nas palavras do grande Bandeirante do Brasil Profundo e Integral, “que Osório está vivo!/ que Caxias está vivo!/ como vivos também Tamandaré, Barroso,/ e, mais vivo, o Brasil em nosso coração!”. Assim, pois, despertemos o Brasil com nosso brado de “Sentinela, alerta!” e que este magno Império do Ontem e do Amanhã acorde e escute, erga-se e viva e “vivendo, glorioso e digno”, responda, “nas últimas sombras da noite”, quando já desponta, no céu, a alvorada, ao nosso retumbante grito de “Sentinela, alerta!” com um “Alerta estou!” vindo do fundo de seus sertões, de suas matas, de suas campanhas, das margens de seus rios e do alto de suas montanhas, “nas amplidões continentais” [6].

Antes de concluir esta pequena homenagem aos soldados do Brasil, reputamos ser mister assinalar que o dia 25 de agosto é, em nosso País, o Dia do Soldado por ser a data de nascimento de Luís Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias e maior soldado de nossa História, cuja glória será eterna na memória deste Império.

Mais rutilante astro da constelação da História Militar Pátria, Caxias, chamado o Condestável do Império e também o Pacificador, foi, como observou Gustavo Barroso, o “gênio militar que soube mais do que vencer, pacificar e unir” [7], havendo sido um dos grandes responsáveis pela manutenção da unidade nacional durante o chamado período imperial de nossa História, ao lado de José Bonifácio, de Feijó, de Dom Pedro II e de Bernardo Pereira de Vasconcelos, e tendo sido, ademais, o maior responsável pelo triunfo do Império do Brasil na Guerra do Paraguai. Ainda segundo aduziu Gustavo Barroso, aliás, nosso maior historiador militar, o grande vulto de Caxias como que simboliza, na História Pátria, “a unidade nacional que a sua espada, tanto quanto a sua prudência, souberam tão bem defender” [8].

O perfil histórico de nosso nobre e corajoso militar, “Condestável da Monarquia, Espada do Império, sustentáculo da Ordem Imperial dentro do Brasil e na sua projeção no Continente”,  se recorta, na expressão de Gustavo Barroso, “nítido e inconfundível”, verdadeiramente “olímpico na integridade do seu caráter e na inteireza de sua brasilidade” [9]. Colocando-se por sua honradez, por sua nobreza de caráter, por sua bravura e por “seu nunca superado espírito de brasilidade”, do qual é, no sentir de Gustavo Barroso, autêntico “paradigma”, acima dos dissídios partidários, das lutas entre facções, “das paixões individuais, dos juízos de campanário, das incompreensões e recalques”, pôde o Duque de Caxias “realizar sua obra de pacificação”, graças à qual “será eternamente glorificado” [10].

Ergamos, como Gustavo Barroso, nossas preces a Deus, rogando ao Altíssimo, Criador e Imperador do Universo, que permita que o espírito do “Grande Soldado Pacificador do Norte, do Centro e do Sul” [11], cuja espada jamais foi vencida, “inspire e anime as gerações de hoje e as gerações de amanhã na manutenção da unidade nacional” [12].

Isto posto, cumpre enfatizar que, no entender de Gustavo Barroso, duas são as fontes por excelência da Tradição Nacional Brasileira. A primeira de tais fontes é de ordem espiritual, vindo a ser “a religião católica, o cristianismo”, enquanto a segunda é de ordem “social e política”, se constituindo na própria “unidade nacional através de todas as dificuldades, que conservou um patrimônio de cultura e de sentimento em dilatadíssimo patrimônio territorial” [13].

Caxias foi um dos mais ilustres entre os “homens de 1.000” do Império de que nos falou Oliveira Vianna e que, segundo este, tinham “inata vocação ao bem comum” nacional. Nutridos pelo sentimento de seu dever público, repletos do desejo de bem servir à Nação, colocando os legítimos interesses nacionais e o cumprimento dos deveres cívicos acima dos seus interesses de ordem pessoal e mesmo partidária, absorvidos, enfim, pelas preocupações do sadio patriotismo e do serviço público [14], formaram tais varões a nata daquilo a que o autor de Instituições políticas brasileiras denominou a “aristocracia do Império” e a “elite nacional” [15].

Um dos grandes líderes e estadistas do Partido Conservador, Caxias declarou, porém, que sua espada não tinha partido, posto que servia à Nação, como bem destacou Plínio Salgado, em Nosso Brasil [16], podendo ser considerado, em razão disto e, sobretudo, de sua defesa da unidade nacional, um dos grandes precursores do Integralismo Brasileiro, estando claramente presente seu espírito no chamado Manifesto de Outubro, documento fundamental do Integralismo, escrito por Plínio Salgado e divulgado a 07 de Outubro de 1932, particularmente nos artigos quinto e décimo. Ao comentar, em sua obra O Integralismo na vida brasileira, escrita no final da década de 1950, sobre o primeiro de tais capítulos, intitulado Nós, os partidos e o Governo, assinalou Plínio Salgado  que tal capítulo “está cheio da alma de Caxias, do sentido da Unidade Nacional pela qual lutou o Condestável do Império, do sentimento sempre presente em nossas Forças Armadas da ordem interna como base da defesa externa” [17]. Já ao comentar, na mesma obra, sobre o último de tais capítulos, denominado O Estado Integralista, o autor de Espírito da burguesia e de Madrugada do Espírito, havendo sublinhado que o capítulo em questão contém “a síntese nacionalista do Estado Cristão, o resumo da democracia orgânica”, observou que nele são traçados os lineamentos da expressão e do prestígio da Pátria, ali vivendo, dentre outras coisas, a ação do Imperador D. Pedro II e do Duque de Caxias na consolidação de nossa unidade e de nossa grandeza [18].

Já nos havendo estendido, na presente homenagem aos soldados do Brasil, mais do que inicialmente pretendíamos, a encerramos por aqui, não sem antes rogar ao Ser Supremo que suscite, na atual geração e nas gerações futuras, homens que sejam autênticos soldados e sentinelas da Nação Brasileira, cuja unidade e integridade defendam, tendo como modelo o Duque de Caxias, Condestável do Império e Espada da Ordem Imperial. E que o Criador e Governante do Cosmos permita que o Brasil Profundo, Integral, Autêntico e Verdadeiro escute o nosso brado de “Sentinela, alerta!”, o respondendo com um vibrante “Alerta estou!”.

Por Cristo e pela Nação!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 25 de agosto de 2014-LXXXI.



Notas:
[1] Citamos de memória.
[2] Centenário da Batalha do Riachuelo (discurso proferido na Câmara dos Deputados na sessão de 31 de maio de 1963), Discursos parlamentares (Volume 18 – Plínio Salgado), Seleção e introdução de Gumercindo Rocha Dorea, Brasília, Câmara dos Deputados, 1982, p. 495. Discurso proferido a 10 de junho de 1965, na sessão solene do Congresso Nacional em comemoração do I Centenário da Batalha Naval do Riachuelo e em homenagem à Marinha de Guerra do Brasil.
[3] O Poema da Fortaleza de Santa Cruz, 1ª edição, São Paulo, Editorial Guanumby, 1951, p. 40.
[4] Idem, loc. cit.
[5] Idem, loc. cit.
[6] Idem, pp. 40-41.
[7] Caxias, Rio de Janeiro, Livraria AGIR Editora, 1945, p. 29. Tal obra foi originalmente uma palestra pronunciada por Gustavo Barroso a 25 de agosto de 1936, na série “Nossos Grandes Mortos”, promovida pelo então Ministro da Educação, Gustavo Capanema.
[8] Idem, loc. cit.
[9] Idem, p. 25.
[10] Idem, p. 26.
[11] Idem, loc. cit.
[12] Idem, pp. 26-27.
[13] Idem, pp. 28-29.
[14] Instituições políticas brasileiras, Primeiro volume, Fundamentos sociais do Estado (Direito Público e Cultura), 2ª edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1955, p. 394.
[15] Idem, p. 395.
[16] Nosso Brasil, 4ª edição (na verdade 5ª), Prefácio de Arruda Camargo, São Paulo, Voz do Oeste/Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, 1981, p. 71.
[17] O Integralismo na vida brasileira, in Enciclopédia do Integralismo, Volume I, Rio de Janeiro, Edições GRD/Livraria Clássica Brasileira, s/d [1958], p. 26.  
[18] Idem, p. 29.


25/08/2014, 14:36:43


Homenagem aos soldados do Brasil
Antônio Ermírio de Moraes, in memoriam

Foi com profundo pesar que recebemos a notícia do falecimento do Dr. Antônio Ermírio de Moraes, ocorrida em sua casa, em São Paulo, no último domingo, dia 24 de agosto, em razão de uma insuficiência cardíaca.

Vemos no Dr. Antônio Ermírio de Moraes um patriota e nacionalista sincero, um grande empresário que muito contribuiu para o Bem Comum e o desenvolvimento nacional, um exemplar pai de família e um católico convicto, homem de muita Fé e que muito praticou a Caridade.

Cumpre ressaltar que, além de empresário, foi Antônio Ermírio de Moraes Doutor em Metalurgia pela Colorado School of Mines, em Golden, nos Estados Unidos da América, mesma instituição em que se formara em Engenharia Metalúrgica em 1949, assim como foi também articulista e dramaturgo, havendo pertencido à Academia Paulista de Letras e alcançado considerável sucesso literário com as peças Brasil S.A. (1996), SOS Brasil (2000) e Acorda Brasil (2006), todas de acentuado caráter nacionalista e vistas, em diversos teatros do País, por dezenas de milhares de pessoas. É forçoso sublinhar, do mesmo modo, que o ex-Presidente do Grupo Votorantim era admirador de Plínio Salgado e de diversos homens que vestiram a camisa-verde integralista e nunca se envergonharam disto, a exemplo de Miguel Reale e San Tiago Dantas, e sofreu profunda influência do grande pensador tomista e tradicionalista brasileiro Heraldo Barbuy, de quem foi aluno no Liceu Nacional Rio Branco, na Capital Paulista.

Isto posto, convém salientar que era Antônio Ermírio de Moraes, como todo bom patriota e nacionalista, um defensor do capital produtivo e ferrenho crítico da especulação financeira e do vampiresco sistema financeiro internacional.

Colocando sempre o Bem Comum acima do interesse individual, o autêntico bandeirante da indústria nacional que foi Antônio Ermírio de Moraes teve sua vida marcada, como escreveu João de Scantimburgo, por uma “fantástica conquista de prêmios pelo civismo, pelo patriotismo e pelo desenvolvimento do Brasil” [1].

Filho do grande empresário e engenheiro metalúrgico pernambucano José Ermírio de Moraes, que, radicado em São Paulo, criou o Grupo Votorantim [2], e de Helena Rodrigues Pereira, paulista de Boituva e filha do imigrante português António Pereira Inácio, pioneiro da indústria paulista e cofundador do Grupo Votorantim, tinha Antônio Ermírio de Moraes, segundo o poeta Paulo Bomfim, seu entranhado amigo, “o perfil de São Paulo”, representando melhor do que ninguém a Terra Bandeirante naquilo que ela tem de brasileira e universal. Na trajetória do empresário paulistano revivemos, na expressão do autor de Armorial, “passadas bandeirantes plantando cidades e semeando civilização”, sendo ele “o retrato de corpo inteiro de São Paulo na sensibilidade dos gestos e no elã garimpeiro do progresso”. Em seu multifacetado temperamento podemos identificar, ainda nas palavras do chamado “Poeta de São Paulo”, “o industrial e o homem de cultura, o filantropo e o dirigente de hospitais, escolas e horizontes; o teatrólogo e a ronda de personagens que passam a se integrar na saga da brasilidade” [3].

Encerramos esta pequena e singela homenagem a Antônio Ermírio de Moraes rogando a Deus, nosso Pai Celeste, Criador e Regente do Universo, que conforte, nesta hora de dor, seus numerosos familiares e amigos, assim como lhe dê um lugar no Paraíso e suscite, nas novas gerações de empresários brasileiros, varões que possuam as virtudes morais desse grande homem de São Paulo e do Brasil.

Por Cristo e pela Nação!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 27 de agosto de 2014-LXXXI.



Notas:
[1] Antônio Ermírio de Moraes, in Gabriel CHALITA e José PASTORE (Organizadores), 80 olhares nos 80 anos de Antônio Ermírio de Moraes, São Paulo, Ediouro, 2008, p. 130.
[2] Sobre José Ermírio de Moraes: Maria Aparecida de Paula RAGO, José Ermírio de Moraes: trajetória de um empresário nacional, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2008; João de SCANTIMBURGO, José Ermírio de Moraes: o homem – a obra, 1ª edição, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1975. Já sobre seu filho que ora homenageamos: José PASTORE, Antônio Ermírio de Moraes: memórias de um diário confidencial, São Paulo, Planeta, 2013.
[3] Amigo de fé, in Gabriel CHALITA e José PASTORE (Organizadores), 80 olhares nos 80 anos de Antônio Ermírio de Moraes, cit., p. 35.


28/08/2014, 10:21:06


Antônio Ermírio de Moraes, in memoriam
Justiça e Bem Comum

No presente artigo [1], partindo das concepções tomistas de Justiça e de Bem Comum e da divisão aristotélica das formas de Justiça, buscamos demonstrar que não existe Justiça sem respeito ao Bem Comum, que é, ademais, a medida da legitimidade do Estado, da Sociedade, das instituições e das formas de governo. E concluímos sustentando que, imbuídos do mais sadio sentimento de idealismo orgânico, isto é, de um idealismo alicerçado na experiência e orientado pela observação do povo e do meio, devemos defender a tradição do Bem Comum, pugnando pela integral restauração de seu primado, condição vital para a instauração de um autêntico Estado Ético de Justiça, ético por se inspirar na Ética e se mover por um ideal ético e de Justiça por se pautar nas regras da Justiça e ser movido por um ideal de Justiça. Tal Estado, que não se confunde com o Estado Ético totalitário de Hegel ou Gentile, é um Estado a um só tempo antitotalitário e anti-individualista, não sendo, pois, um Estado absorvente, que sacrifica a pessoa humana ao seu poder despótico, nem um Estado fraco, que sacrifica o Bem Comum a um individualismo sem peias.

Justiça e Bem Comum

Profunda e sólida é a tradição que a ideia de Bem Comum representa no pensamento jurídico ocidental. Tal tradição tem ocupado, com efeito, lugar de suma importância tanto na teoria quanto na prática jurídica e política de nosso hemisfério (BLÁZQUEZ MARTÍN, 2008, p. 183), estando presente na obra dos mais diversos autores (Idem, loc. cit.; D’ANTRÈVES, 2001, p. 262). Suas origens remontam à chamada Antiguidade, estando presente, ainda que de forma embrionária, na obra de Platão, que, em A politeia, nos fala dos guardiões da Pólis, dentre os quais sairiam seus governantes, que, educados de maneira virtuosa, fariam o que reputassem ser o Bem da Pólis, jamais aceitando fazer aquilo que não o fosse (PLATÃO, 2009, p. 125). Está presente, ademais, e de forma mais clara, na obra de Aristóteles, que preleciona, por exemplo, que o propósito dos legisladores é o Bem da comunidade, e que a Justiça é, por vezes, definida como aquilo que concorre para o Bem de todos (ARISTÓTELES, 2009, p. 251). E está presente, ainda, na História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, obra, aliás, anterior a A politeia, de Platão, em passagens como aquela do discurso fúnebre de Péricles, em homenagem aos primeiros mortos atenienses daquele conflito, onde se ressalta que aqueles homens deram suas vidas para o Bem da Pólis (PÉRICLES apud TUCÍDIDES, 1986, p. 101).

Embora o termo Bem Comum apareça em diversas traduções de obras helênicas, incluindo a última aqui citada, surgiu ele, em verdade, segundo Nicola Abbagnano, apenas na denominada Idade Média (ABBAGNANO, 2007, p. 124), época em que, ademais, nomeadamente na obra de Santo Tomás de Aquino, se constituiu a doutrina do Bem Comum em sentido estrito, que, baseada na leitura do pensamento aristotélico à luz da Tradição e da Revelação Cristã (BLÁZQUEZ MARTÍN, 2008, p. 188), se configura, segundo Georges Renard, na grande contribuição do pensamento medieval (RENARD. In MICHEL, 1932, p. XVII). Santo Tomás, que fez, com efeito, do Bem Comum elemento central de seu pensamento político e jurídico, definiu a própria lei positiva como a “ordenação da razão para o bem comum”, promulgada por aquele que tem o encargo da comunidade perfeita (AQUINO, 1980, p. 1736).

Isto posto, faz-se mister salientar que Santo Tomás de Aquino fez a “análise do sentimento de justiça” em “termos nunca depois ultrapassados”, conforme faz salientar Léon Duguit (DUGUIT, 1927, p. 122), havendo, ademais, conduzido ao apogeu, por meio de sua obra, o Direito Natural Clássico, ou Direito Natural Tradicional, nos legando, com efeito, lições tão válidas hoje quanto no século XIII e que se constituem nas colunas sobre as quais foi possível construir uma ciência jurídica que, na expressão de Rubens Limongi França, “sem perder de vista a realidade externa dos fatos, não fizesse abstração dos juízos de valor, propiciando assim a restauração da concepção integral, e, por isso mesmo, realista e verdadeiramente científica do Direito” (FRANÇA, 1961, pp. 264-265).

O Bem Comum, conceito que, na frase de Pablo Lucas Verdú, demonstra, como poucos, “qualidades frutíferas, no campo da filosofia social”, sendo, segundo aquele professor salmantino, “patrimônio de toda construção orgânica e personalista da sociedade” (VERDÚ, 1951, p. 51), representa “para a teoria do Estado aquilo que o Direito Natural representa para a teoria do Direito” (D’ANTRÈVES, 2001, pp. 261-262), posto que, do mesmo modo que não há lei positiva ou ordenamento jurídico justo e legítimo sem respeito ao Direito Natural, não há Estado ou Governo justo e legítimo sem respeito ao Bem Comum.

Ademais, sendo a lei humana, ou lei positiva, consoante preleciona Santo Tomás de Aquino, como restou dito, a “ordenação da razão para o bem comum”, promulgada pela autoridade competente (AQUINO, 1980, p. 1736), não há que se falar em lei positiva ou em ordenamento jurídico justo e autêntico sem que sejam levados em conta os ditames do Bem Comum. E, da mesma forma, sendo a Justiça, conforme aduz o Doutor Angélico, com base na definição do jurisconsulto romano Ulpiano, “um hábito pelo qual, com vontade constante e perpétua, atribuímos a cada um o que lhe pertence” (Idem, 1937, p. 19. Em itálico no original), e sendo que, ainda segundo ensina o Aquinate, “todos os que fazem parte de uma comunidade estão para esta como a parte está para o todo”, de sorte que “qualquer bem da parte se ordena ao bem do todo” e que, portanto, “o bem de qualquer virtude, quer o da que ordena o homem para consigo mesmo, quer o da que o ordena a qualquer outra pessoa singular, é referível ao bem comum, para o qual a justiça ordena” (Idem, pp. 28-29), é manifesto que não há que se falar em Justiça sem se tomar em consideração o Bem Comum. Esta é, com efeito, também a posição do jusfilósofo patrício Miguel Reale, para quem, objetivamente considerada, “a justiça se reduz à realização do bem comum” (REALE, 1953, p. 250).

Com efeito, a justiça geral, também denominada legal, que é aquela que vai da pessoa para a Sociedade, se fundamenta na obrigação, que todos têm, de contribuir para o Bem Comum. Enquanto parte da Sociedade, os indivíduos lhe são subordinados, posto que, como vimos, o todo prepondera sobre a parte. Isto há que ser entendido, contudo, sem que se perca de vista a dignidade e a intangibilidade da pessoa humana e seu fim último transcendente, em relação ao qual deve a Sociedade proporcionar condições favoráveis a cada pessoa no cumprimento de sua destinação (SOUSA, GARCIA, CARVALHO, 1998, p. 299). O mesmo, com efeito, vale para o Estado, que não se confunde com a Sociedade, mas que é, como ela, um instrumento da pessoa humana, submetendo-se aos fins transcendentes desta (TELLES JUNIOR, 1938, pp. 31-32). Claro exemplo de justiça legal - assim chamada pelo fato de competir à lei ordenar os atos humanos em prol do Bem Comum (SOUSA, GARCIA, CARVALHO, 1998, p. 299), embora as demais formas de Justiça também sejam legais, posto que regidas por leis (TELLES JUNIOR, 2008, p. 368) - é o pagamento de impostos, que deve ser de acordo com as faculdades de cada contribuinte, e tem como fundamento o Bem Comum (DEFROIDMONT, 1933, p. 248; PINTO, 1936, p. 14).

A justiça particular, por seu turno, se divide em justiça comutativa e justiça distributiva, sendo a justiça comutativa aquela que se dá nas relações interpessoais, como, por exemplo, entre credor e devedor, comprador e vendedor, enquanto a justiça distributiva é aquela que parte da Sociedade para os indivíduos, naquilo que concerne à distribuição de encargos ou de benefícios. Na justiça comutativa há absoluta igualdade na própria coisa devida, enquanto na justiça distributiva há igualdade proporcional, não havendo rigor de igualdade no que diz respeito ao objeto, desde que respeitada a proporcionalidade entre os méritos, as aptidões e as funções de cada indivíduo (SOUSA, GARCIA, CARVALHO, 1998, p. 299), sendo, neste sentido, justo aquilo que é proporcional e injusto o que viola a proporção, como aduz o Estagirita (ARISTÓTELES, 2009, p. 153). Tanto a justiça comutativa quanto a justiça distributiva devem, evidentemente, respeitar o Primado do Bem Comum.

A esta divisão tradicional, ou clássica, das formas de Justiça, que remonta a Aristóteles, para quem, ademais, a Justiça se completa pela Equidade, que vem a ser a retificação, a correção da justiça legal (ARISTÓTELES, 2009, p. 172), quando, em virtude de lacuna ou deficiência da lei, a aplicação rigorosa desta puder causar uma injustiça, alguns autores acrescentam outras formas de Justiça, dentre as quais a mais relevante é, sem dúvida alguma, a justiça social, que, segundo Johaness Messner, respeita essencialmente aos grupos sociais, obrigando patrões e empregados no decorrer das negociações de contratos coletivos de trabalho e estabelecendo um conjunto de regras para a ordem socioeconômica (MESSNER, s/d, pp. 419-420). Muitos autores, contudo, não veem diferenças entre a justiça geral, ou legal, e a justiça social (V., p. ex., PAUPÉRIO, 1993, pp. 63-64; SOUSA, GARCIA, CARVALHO, 1998, p. 299), sendo que um deles, Arthur Machado Paupério, havendo observado que a “justiça pode ser comutativa, distributiva ou social”, pondera que “a justiça social implica na contribuição de cada um para a realização do bem comum”, correspondendo à “chamada justiça geral ou legal da nomenclatura aristotélico-tomista” (PAUPÉRIO, 1993, pp. 63-64. Grifos em itálico no orginal). Já Marcus Claudio Acquaviva considera a justiça social como mais próxima da justiça distributiva, escrevendo que em Aristóteles já se antevê “o moderno significado da justiça social, quando esse notável filósofo enuncia, entre outros, o princípio da justiça distributiva” (ACQUAVIVA, s/d, p. 502. Grifos em itálico no original).

A expressão “justiça social”, que se constitui num dos princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja, foi cunhada no século XIX pelo filósofo tomista e sacerdote jesuíta italiano Luigi Taparelli D’Azeglio, que preleciona que ela nasce espontânea da ideia do Direito, devendo “igualar de fato todos os homens naquilo que diz respeito aos direitos de humanidade” (TAPARELLI, 1843, p. 151). Consoante ressalta Pio XI, na Encíclica Quadragesimo anno, de 1931, “cada um deve (...) ter a sua parte nos bens materiais; e deve procurar-se que a sua repartição seja pautada pelas normas do bem comum e da justiça social” (PIO XI, 2004, n. 58, p. 335).

Enfim, todas as formas de Justiça pressupõem o Bem Comum, que se constitui, ademais, numa das três finalidades essenciais do Direito, ao lado da Justiça e da Segurança (PAUPÉRIO, 1993, p. 61; VV.AA., 1938).

Isto posto, cumpre assinalar que, do mesmo modo que a noção de Bem Comum é, assim como o Direito Natural, vital para a teoria do Direito, também é o Direito Natural, a par da ideia de Bem Comum, imprescindível para a teoria do Estado, posto que o autêntico Estado de Direito supõe, inevitavelmente, o Direito Natural, inexistindo sem o respeito e a tutela dos direitos naturais das pessoas, bem como das famílias e demais grupos naturais integrantes da sociedade civil, ou política, cuja autonomia deve ser assegurada (SOUSA, 1977, p. 126). Tal Estado de Direito, ou, como diria Del Vecchio, de Justiça, difere do Estado Liberal de Direito por não ter no Direito o seu fim único, sendo Estado de Direito, ou de Justiça, por operar “sobre o fundamento do Direito e na forma do Direito” (DEL VECCHIO, 1957, p. 103. Grifos em itálico no original).Os direitos naturais, sobre cuja base e em função dos quais deve ser exercida toda a atividade legislativa estatal (Idem, loc. cit.), decorrem da própria essência da pessoa humana, sendo anteriores ao Estado, que não se constitui em princípio e nem em fim, mas sim num meio, num instrumento a serviço da pessoa humana e do Bem Comum.[2]

De acordo com a tradição formada pelos filósofos helenos, pelos jurisconsultos romanos e pelos teólogos e canonistas da Cristandade, em particular Santo Tomás de Aquino, compreendemos o Direito Natural como um conjunto de normas inatas na natureza humana, pelo qual o ente humano se dirige, com o objetivo de agir retamente. Tendo seu fundamento metafísico último em Deus, o Sumo Bem, ou Bem Supremo, Princípio e Fim de todas as coisas, o Direito Natural é, como salienta Alexandre Corrêa, racional, na medida em que a razão conhece os seus preceitos, intuitivamente, e também experimental, posto que depende, no travejamento de seus princípios, dos dados ministrados pela experiência (CORRÊA, 1984, p. 36). Faz-se mister ressaltar, porém, que o Direito Natural por si só não basta como regra de vida, sendo necessária sua complementação pelo Direito Positivo, ao qual cabe a concretização dos princípios do Direito Natural, aplicando as máximas deste às particularidades da vida em Sociedade, o que deve fazer sempre levando em conta as circunstâncias de tempo e de lugar, motivo pelo qual deve possuir caráter eminentemente histórico (SOUSA, GARCIA, CARVALHO, 1998, p. 179). Daí concordarmos com Alexandre Corrêa, quando este ilustre professor e pensador patrício sustenta que as ideias da Escola Histórica, particularmente sob a forma que lhe imprimiu o Conde Joseph De Maistre, “são admissíveis, como complemento à verdadeira teoria do Direito Natural” (CORRÊA, 1984, p. 42).

O Bem Comum, que é o bem de todos e de cada um dos membros da Sociedade, pode ser definido como o conjunto de condições externas aptas a permitir o integral desenvolvimento do homem, da família e dos demais grupos naturais integrantes da Sociedade. É ele, como preleciona Suzanne Michel, o Bem da Sociedade, das pessoas consideradas não isoladamente, mas em comum; o bem que toca a todos, em bloco, e também a cada um, em particular, sendo, ademais, o bem intermediário entre o bem particular e o Bem Divino, ou Bem Supremo, que é, como vimos, Deus (MICHEL, 1932, p. 18).

“Maior e mais divino que o bem privado” (AQUINO, 1954, pp. 98 e 102), o Bem Comum, embora diverso deste (AQUINO, 1937, p. 35; BUZAID, 1973, p. 30; MICHEL, 1932, p. 43; OLIVEIRA, 2008, p. 193; SOUSA, GARCIA, CARVALHO, 1998, p. 60), tem para com ele uma relação não de antagonismo, mas sim de afinidade e harmonia (MICHEL, 1932, p. 53). Há entre eles, com efeito, contínua interação, isto é, comunhão e dualidade ininterrupta (BUZAID, 1973, p. 30), sendo que, como leciona Santo Tomás, aquele que busca o Bem Comum busca também o seu próprio bem, posto que não pode existir o bem próprio sem o Bem Comum, seja ele da família, da cidade ou da pátria, do mesmo modo que, sendo a pessoa parte de uma casa e de uma cidade, deve buscar o que é bom para ela pelo prudente cuidado do Bem Comum (AQUINO, 1990, p. 409).

Isto posto, insta salientar que, para o Doutor Comum, o domínio sobre os bens, as coisas exteriores, concedido por Deus ao ente humano, deve estar sempre subordinado a um fim, que impõe a necessidade racional e social do bom uso de tais bens (ARIAS, 1942, p. 256). Sustenta o Aquinate que, quanto ao uso de tais coisas, não deve a pessoa humana tê-las “como próprias, mas, como comuns, de modo que cada um as comunique facilmente aos outros, quando delas tiverem necessidade” (AQUINO, 1937, p. 162), prelecionando, ainda, consoante já restou dito, que “qualquer bem da parte se ordena ao bem do todo” (Idem, p. 28).

Segundo Heraldo Barbuy, as instituições medievais, de acordo com o pensamento do Aquinate, afirmavam, por um lado, “o direito natural da propriedade” e, por outro, “a sua instrumentalidade, o fim social do seu uso”, partindo do pressuposto de que “a propriedade, como instrumento de produção de riqueza, deve servir de meio à consecução dos fins para os quais a sociedade política se constitui, fins que se resumem no maior benefício da comunidade”, enquanto o seu uso, a fim de “não violar os limites da moral natural, deve ser ordenado a esses fins: Jus utendi, non abutendi” (BARBUY, 1950, pp. 13-14).

A concepção tomista dos bens econômicos em geral e da propriedade em particular foi retomada pelo Papa Leão XIII, que, na Encíclica Rerum Novarum, de 1891, sustentou que a propriedade, produto do trabalho humano, é um direito natural, porém subordinado ao Bem Comum, estando, pois, condicionado a um dever do proprietário (LEÃO XIII, 2004, n. 36, p. 300). Tal ideia tem sido repetida pelos sumos pontífices seguintes em todas as encíclicas e demais pronunciamentos sobre a questão social, sendo a ela associada a expressão “função social” desde a Encíclica Quadragesimo Anno, de Pio XI, dada, conforme já aqui assinalado, em 1931 (PIO XI, 2004, n.s 45 e 57, pp. 331 e 335).

Como é sabido, o primeiro a empregar a expressão “função social”, aplicada à propriedade, foi o jurista francês Léon Duguit, no ano de 1911, o que não significa, porém, que haja sido ele o criador da ideia de função social da propriedade, já clara em Santo Tomás de Aquino, em Leão XIII e nos pensadores sociais católicos do século XIX e princípio do século XX, sendo denominada “lei de solidariedade” por Enríque Gil Robles, no Tratado de Derecho Politico según los principios de la Filosofía y el Derecho Cristianos, cuja primeira edição é de 1899 (GIL ROBLES, 1961, p. 258), e “noção social” pelo Marquês de La Tour-du-Pin, em Vers un ordre social chrétien, livro cuja primeira edição data de 1907 (LA-TOUR-DU-PIN LA CHARCE, s/d, p. 4).

Duguit, que, como vimos, era profundo admirador de Santo Tomás, fundamentou, com efeito, a defesa da função social da propriedade na noção tomista de Bem Comum (ARAÚJO, s/d (a), p. 198). Cumpre enfatizar, todavia, que, para Duguit, “a propriedade não é um direito, é uma função social” (DUGUIT, 1911, p. 101), ao passo que para a Doutrina Social da Igreja, inspirada nas preleções do Doutor Angélico, a propriedade é um direito natural condicionado ao dever do proprietário para com o Bem Comum, tendo e não sendo uma função social.

Faz-se mister salientar, ademais, que, caso compreendamos, a exemplo de Telga de Araújo, a ideia de função social da propriedade como um dever do proprietário de atender à sua finalidade econômica e social com vistas ao Bem Comum (ARAÚJO, s/d (b), p. 7), não poderemos deixar de concordar com o jusagrarista patrício quando este sustenta que a “tradicional doutrina católica” já cogitara da função social da propriedade muito antes de Duguit, reconhecendo o elemento social da propriedade, ao lado do particular (Idem, p. 5). Tal é, com efeito, também a posição do jusagrarista espanhol Ballarín Marcial, para quem “a verdadeira concepção tomista e cristã (...) foi sempre a de conceber o direito de propriedade ao serviço dos fins humanos, de funções individuais, familiares e sociais” (BALLARÍN MARCIAL, 1965, p. 7). Ademais, cumpre assinalar que mesmo as constituições formais que primeiro consagraram o princípio da função social da propriedade, a saber, a mexicana de 1917 e a denominada Constituição de Weimar, de 1919, bem como as constituições brasileiras de 1934 e 1946, que igualmente o consagraram, não empregaram a referida expressão, que, em nosso País, apareceu pela primeira vez no Estatuto da Terra (Lei 4504/64) e, pouco mais tarde, na Constituição de 1967, estando também consagrada na Constituição de 1988.

Havendo feito referência à Constituição de Weimar, reputamos oportuno salientar que o artigo 153 de tal diploma legal afirma que “a propriedade obriga” e que “seu uso constitui, consequentemente, um serviço para o Bem Comum [Gemeine Beste]”, conceito que, como faz notar António Sardinha, está, assim como o conceito de Trabalho adotado por aquela constituição, muito “perto do conceito cristão e tradicionalista”, sendo, segundo o ensaísta e poeta português, uma pena que tal doutrina fosse “diminuída pelo critério materialista do Estado alemão, inteiramente sujeito ao prestígio ideológico do marxismo” (SARDINHA, 1928, p. 19).

A concepção da propriedade à luz da doutrina cristã e tomista foi muito bem sintetizada por Plínio Salgado na obra Direitos e deveres do Homem, cuja primeira edição data de 1950 e em que, partindo da divisão tomista da Lei,[3] demonstra o escritor e pensador patrício que a propriedade privada, prevista na Lei Divina do Decálogo e de acordo com a natureza humana, havendo sido aceita como “bem necessário” pelo “consenso universal” ao longo dos séculos, “não tem um fim egoístico”, devendo ser “instrumento de benefício social”, encontrando, em tal caráter, “irrecusável fundamento moral” e representando “imperiosa necessidade ao bem comum” (SALGADO, 1957, p. 261), salientando, ainda, que o “duplo caráter individual e social” da propriedade, bem assinalado por Leão XIII, na Encíclica Rerum Novarum, e por Pio XI, na Encíclica Quadragesimo Anno, “não destrói, antes fortifica o direito de propriedade” (Idem, p. 259), de que o ente humano “se utiliza para o seu próprio bem, para o bem da sua família e para o bem social, que, em última análise, reflui sobre ele, como um bem de que participa em comum com os seus semelhantes” (Idem, p. 262).

Isto posto, cumpre assinalar que o Primado do Bem Comum não implica na absorção dos direitos naturais da pessoa humana pelo Estado, não se confundindo, pois, com o coletivismo ou o totalitarismo, ou, como diria Ricardo Dip, o princípio de totalidade, com a Primazia do Bem Comum, não impõe que os entes humanos, “segundo toda sua pessoa e todos seus bens, se submetam plenamente ao todo estatal”, posto que aí já não haveria, em realidade, Primado do Bem Comum, “mas exatamente a negação do conceito de comum” (DIP, 2009, p. 156). Neste sentido, pondera Alexandre Corrêa que a doutrina de Santo Tomás de Aquino, “conjunto de princípios reais e realistas”, não cedendo a nenhum exagero, “nem ao panestatismo, que absorve e aniquila o indivíduo, nas suas mais elevadas e nobres aspirações”, nem permitindo “concentração egoísta num individualismo feroz, completamente descurado da sua finalidade social e das justas exigências do bem comum”, se mantém, pois, num “justo meio, que nem sacrifica o indivíduo ao Estado, nem o bem comum coletivo a um individualismo desenfreado” (CORRÊA, 1984, pp. 319-320). Ainda assim, tal primado não foi aceito pelo liberalismo econômico e político, que, caindo no erro do individualismo, rejeitou, como salienta Blázquez Martín, tanto o termo quanto o conceito de Bem Comum (BLÁZQUEZ MARTÍN, 2008, p. 184), inaugurando “a era do Interesse”, preponderantemente particular (Idem, p. 189. Grifos em itálico no original).

Bem conhecidos são os erros do liberalismo, que, afastado do Primado do Bem Comum, implantou uma verdadeira tirania do Capital e da propriedade, que concentrou nas mãos de poucos, gerando profunda injustiça social, contra a qual se levantaram tanto os chamados cristãos sociais quanto os socialistas, os primeiros, em nosso sentir, corretos tanto nas críticas ao liberalismo quanto nas alternativas a ele propostas, no sentido de harmonizar as relações entre o Capital e o Trabalho em benefício de todo o tecido social e de fazer com que o direito natural de propriedade fosse exercido com vistas ao Bem Comum e estendido ao maior número possível de famílias, enquanto os socialistas, quase que plenamente certos no que toca à análise dos problemas engendrados pelo liberalismo econômico, erraram, contudo, naquilo que a ele opuseram, pregando a extinção do Capital e do direito de propriedade, sem atentar para o fato de que o mal não estava neles, mas sim na forma pela qual eram geridos sob a égide do liberalismo.

A partir do final do século XIX, diante do agravamento da questão social provocada pelo liberalismo, a noção tomista de Bem Comum, afirmada pela Doutrina Social da Igreja e pelos denominados neotomistas, recuperou considerável terreno. Mais tarde, já no chamado período entreguerras, surgiu o denominado institucionalismo, que, como sublinha Blázquez Martín, igualmente recuperou a ideia de Bem Comum, em clara crítica tanto ao liberalismo quanto ao bolchevismo (BLÁZQUEZ MARTÍN, 2008, p. 190).

Tratando do chamado neotomismo e do institucionalismo, Blázquez Martín salienta que estas doutrinas desempenharam papel relevante na forte reação intelectual que se operou contra as ideias individualistas do liberalismo nas décadas de 1920 e 1930, ressaltando que as ponderações de tais doutrinas obedecem ao intento de estabelecer “uma visão harmônica do sistema social no marco dos importantes conflitos sociais e econômicos do momento”, que decorriam, de um lado, “do sistema econômico capitalista, e de seus fundamentos individualistas e egoístas do interesse privado”, e, de outro, “da visão conflitualista que o marxismo oferecia sobre a base da ideia da luta de classes” (BLÁZQUEZ MARTÍN, 2008, pp. 190-191).

Havendo feito referência, por meio de citação de Blázquez Martín, ao sistema capitalista, reputamos oportuno assinalar que por capitalismo compreendemos o sistema econômico em que o sujeito da Economia é o Capital, cujo acréscimo ilimitado, pela aplicação de pretensas leis econômicas mecânicas, é considerado o objetivo final único de toda a produção. Neste sentido, podemos citar, dentre outros, o sacerdote e pensador argentino Julio Meinvielle, que, na obra Concepción católica de la Economía, de 1936, define o capitalismo como “um sistema econômico que busca o acréscimo ilimitado dos lucros pela aplicação de leis econômicas mecânicas” (MEINVIELLE, s/d, p. 5), e Miguel Reale, que, em O capitalismo internacional, de 1935, aduz que o “capitalismo é o sistema econômico no qual o sujeito da Economia é o Capital, sendo o acréscimo indefinido deste considerado o objetivo final e único de toda a produção” (REALE, 1935, p. 87). Cumpre salientar, ainda, que o capitalismo, que, afastando a instrumentalidade da riqueza material, a vê como um fim em si, trocando a busca do Sumo Bem por aquela da “suma riqueza”, como observa Heraldo Barbuy (BARBUY, 1953, p. 146), e que, como frisa Vázquez de Mella, não percebe que o problema não é a produção da riqueza, mas sim sua distribuição equitativa (VÁZQUEZ DE MELLA, 1903), não é o sistema da propriedade privada e da livre iniciativa, que, com efeito, são naturais, já existindo muito antes de seu surgimento, mas, como pondera Hilaire Belloc, o sistema que “emprega esse direito em benefício de uns poucos privilegiados contra um número muito maior de homens que, ainda que livres e cidadãos em [suposta] igualdade de condições, carecem de toda base econômica própria” (BELLOC, 1979, p. 154), isto é, o sistema econômico no qual os meios de produção são controlados por uma minoria e a esmagadora maioria dos cidadãos se encontra excluída e despossuída (Idem, 2002, p. 28).

Fazemos nossas, pois, as palavras de Pio XII, que, tratando do “sistema econômico conhecido pelo nome de capitalismo, do qual a Igreja não tem cessado de denunciar as graves consequências”, salienta que a Igreja, com efeito,

apontou não somente os abusos do capital e do próprio direito de propriedade que o mesmo sistema promove e defende, mas tem igualmente ensinado que o capital e a propriedade devem ser instrumentos da produção em proveito de toda a sociedade e meios de manutenção e de defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana (PIO XII, 1998, n. 115, p. 499).

Isto posto, voltemos ao institucionalismo. Partindo do pressuposto de que “as instituições representam, no direito como na história, a categoria da duração, da continuidade e do real” e de que “a operação de sua fundação constitui o fundamento jurídico da sociedade e do Estado” (HAURIOU, 2009, p. 11) e criticando a teoria individualista rousseauniana do “Contrato Social” (Idem, pp. 11-12), inspiradora do liberalismo político, o institucionalismo buscou, conforme salienta Ruiz-Giménez, reintegrar a Filosofia do Bem Comum no lugar ocupado até a época de seu advento pela Filosofia do Contrato Social, fazendo sua uma visão social da pessoa humana que superasse o individualismo, conciliando o Bem Comum e o bem particular e permitindo a realização integral do ente humano (RUIZ-GIMÉNEZ, 1944, p. 251), tudo isto sob forte influência do pensamento tomista, sendo importante ressaltar que, como aduz Georges Renard, “Santo Tomás está em todas as páginas da Teoria da instituição” (RENARD, 1932, p. VIII). E se em Maurice Hauriou, criador da teoria da instituição, a influência de Santo Tomás já é marcante, mais forte é ela, ainda, nos outros dois grandes mestres do institucionalismo, a saber, o próprio Renard e Joseph Delos.

Graças à vigorosa ação da Doutrina Social da Igreja, do denominado neotomismo e do institucionalismo, a ideia de Bem Comum, abandonada sob influência do utilitarismo e, sobretudo, do liberalismo individualista, voltou à tona, no século XX, nos campos da Filosofia, da Ciência Política, do Direito e da Sociologia, ainda que, como enfatiza José Pedro Galvão de Sousa, nem sempre empregada “com a significação autêntica e com aquela plenitude de sentido de que se reveste no vocabulário tomista” (SOUSA, 1974, p. 124). Neste contexto, consoante assinala Blázquez Martín, tal noção, juntamente com outras sustentadas por aqueles grupos, em reação tanto contra o liberal-capitalismo individualista quanto contra o socialismo estatista e coletivista, se configuraram na origem doutrinária dos fundamentos político-antropológicos do Estado Social de Direito (BLÁZQUEZ MARTÍN, 2008, p. 191).

 

Conclusão

Encerremos este artigo. Temos consciência de que, conforme salienta Tobias Barreto, “as instituições que não são filhas dos costumes mas produtos abstratos da razão não aguentam muito tempo a prova da experiência e vão logo quebrar-se contra os fatos” (BARRETO, 1962, p. 204), bem como de que, como preleciona Giambattista Vico, na Scienza Nuova, “as coisas fora de seu estado natural não se adequam nem duram” (VICO, 2006, n. 134, p. 246) e de que, consoante preleciona Arlindo Veiga dos Santos, “Tradição é vida, é progresso” e “o pretenso progresso que renega a tradição é eterno recomeço, perpétua imperfeição”, posto que “progresso é acréscimo, não substituição” (SANTOS, s/d, p. 4), de sorte que não terá futuro o presente que negar o passado (Idem, loc. cit.; Idem, 1962, p. 76). Assim, rejeitamos o idealismo utópico, que não é senão, como faz notar Oliveira Vianna, o idealismo que não leva em consideração os dados da experiência (VIANNA, 1939, p. 12), podendo ser definido como “todo e qualquer conjunto de aspirações políticas em íntimo desacordo com as condições reais e orgânicas da sociedade que pretende reger e dirigir” (Idem, p. 10), a ele opondo o idealismo orgânico, que, na lição do autor de O idealismo da Constituição, é aquele formado tão somente de realidade, apoiado tão somente na experiência e orientado tão somente pela observação do povo e do meio (Idem, pp. 12-13). Corresponde esta última forma de idealismo ao “idealismo fundado na experiência”, de que nos fala o médico, filósofo e sociólogo ítalo-argentino José Ingenieros (INGENIEROS, 1936, p. 14), nascido Giuseppe Ingegneri em Palermo, na Sicília, e que, conforme escreve Julio Endara, representa “uma força moral inspirada no desejo de melhorar o real” e não uma simples ideologia abstrata (ENDARA, 1922, p. 94).

O idealismo orgânico é, numa palavra, o idealismo consciente de que as instituições devem brotar da Tradição e da História dos povos e não de voos de fantasia de ideólogos engendradores de mitos e quimeras, o idealismo que extrai da História uma Tradição sólida e viva, um coeficiente espiritual de edificação moral, social e cívica, um desenvolvimento estável e verdadeiro, transmissor e enriquecedor do patrimônio de pensamento e de costumes herdado de nossos maiores.

Imbuídos, pois, de idealismo orgânico, cremos que, sem o devido respeito ao Primado do Bem Comum, carecem de legitimidade e de autenticidade o Estado, a Sociedade e as instituições em geral, do mesmo modo que não há que se falar em Justiça ou em Direito, entendido este como “o direito da justiça” de que nos fala Ignacio Poveda e que é assim denominado por derivar da Justiça, se configurando na “seiva que vivifica a árvore da convivência social” (POVEDA VELASCO, 2011, p. 11). Assim, afirmamos a tradição do Bem Comum, que, nas palavras de Alfredo Buzaid, não é senão um “capital acumulado de valores humanos e culturais, legados que as gerações transmitem umas às outras” (BUZAID, 1973, p. 30), e proclamamos a necessidade de plena restauração da Primazia do Bem Comum, como pressuposto da instauração de um autêntico Estado Ético de Justiça, ético não por ser a própria encarnação da Ética, como querem Hegel e Gentile (HEGEL, 1997, pp. 204-205; GENTILE, 1932, pp. 847-848[4]), mas sim por ser inspirado na Ética, que lhe é anterior e superior, e movido por um ideal ético, como defendem, dentre outros, Gino Arias, Giorgio Del Vecchio e Miguel Reale (ARIAS, 1937, p. XVIII; Idem, 1942, p. 410; DEL VECCHIO, 1957, p. 210; REALE, 1934, p. 197), e de Justiça não por ser o criador da Justiça, que igualmente lhe é precedente e superior, mas por se pautar nas regras da Justiça e se mover por um ideal de Justiça, promovendo, de acordo com o princípio de subsidiariedade, o Bem Comum, cuja aquisição, como ensina Leão XIII, deve ter por finalidade o aperfeiçoamento dos entes humanos (LEÃO XIII, 2004, n. 50, p. 305).


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira


Notas:
[1] O presente artigo, originalmente publicado no livro Filosofia do Direito: Estudos em homenagem a Willis Santiago Guerra Filho [Marcelo Rolando ZOVICO (Organizador), São Paulo, Editora Clássica, 2012, pp. 316-342.], se constitui em versão revista e ampliada de trabalho apresentado no segundo semestre do ano de 2011 no curso de pós-graduação da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), na disciplina “O Direito e as formas de Justiça”, ministrada pela Professora Doutora Elza Pereira Boiteux.
[2] Dentre os autores que afirmam que o Estado é meio e não fim, podemos citar, dentre outros: ACQUAVIVA.Teoria Geral do Estado. 2ª ed., revista e aumentada. São Paulo: Editora Saraiva, 2000; ATHAYDE, Tristão de. Política. Rio de Janeiro: Livraria Católica, 1932, p. 77; AZAMBUJA, Darcy. Teoria Geral do Estado. 38ª ed. São Paulo: Globo, 1998, p. 122; Sumo bem e suma riqueza. Separata do Anuário da Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, da Universidade Católica de São Paulo, 1953; Idem. A Família e a Sociedade. In Servir, n° 1297, ano XXVII, São Paulo, 20 de setembro de 1957, p. 77; NOGUEIRA, J. . C. Ataliba. O Estado é um meio e não um fim. 1ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1940, p. 113; PAUPÉRIO, A. Machado. Teoria Geral do Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1979; SALGADO, Plínio. Estado Totalitário e Estado Integral. In Idem. Madrugada do Espírito. 4ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol. VII. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 443 (artigo publicado originalmente no jornal A Ofensiva, do Rio de Janeiro, a 01 de novembro de 1936); SOUSA, José Pedro Galvão de. Iniciação à Teoria do Estado. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1976, pp.12-13; SOUZA, José Soriano de. Princípios Gerais de Direito Público e Constitucional. Recife: Casa Editora Empresa d’A Província, 1893, p. 63; TELLES JUNIOR, Goffredo. Justiça e Júri no Estado Moderno.São Paulo: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1938, p. 31; Idem. Carta aos Brasileiros, 1977. 1ª ed. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira Ltda., 2007, p. 80.
[3] Para Santo Tomás de Aquino, a Lei se divide em Lei Eterna, Lei Natural, Lei Divina Positiva, ou, simplesmente, Lei Divina, e Lei Humana Positiva, ou, apenas, Lei Humana. A Lei Eterna nada mais é que a razão da divina sabedoria enquanto rege o Universo, dirigindo todos os atos e movimentos. Já a Lei Natural é a participação da Lei Eterna na criatura racional, se constituindo em um conjunto de normas segundo as quais o homem vive enquanto homem, distinguindo por natureza o justo do injusto, a honestidade da torpeza, a virtude do vício. A Lei Divina Positiva, por seu turno, é aquela que o próprio Deus promulga por meio de uma intervenção direta na História, como é o caso do Decálogo, que Deus confiou a Moisés, e da Lei do Evangelho, ou Lei de Cristo. Por fim, a Lei Positiva é a ordenação da razão para o Bem Comum, promulgada por aquele que tem o encargo da comunidade perfeita. A divisão da Lei aparece na Suma Teológica, na questão XCI do denominado Tratado da Lei (AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. 1ª parte da 2ª parte, q. XCI. Trad. de Alexandre Corrêa. Org. e dir. de Rovílio Costa e Luís Alberto de Boni. Vol. IV. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Livraria Sulina Editora; Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1980, pp.1736-1745)
[4] O texto citado, que consta do verbete Fascismo da Enciclopedia Italiana di Scienze, Lettere ed Arti, não é assinado e foi muitas vezes atribuído a Benito Mussolini, mas, em verdade, foi escrito a pedido deste por Giovanni Gentile (V. GREGOR, A. James. Phoenix: Fascism in our time. 1ª ed., 4ª reimpr. New Brunswick: Transaction Books, 2009, p. 940; TURI, Gabriele. Giovanni Gentile: Una biografia. Florença: Giunti Editore, 1995, p. 426).


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30/08/2014, 22:10:20


Justiça e Bem Comum
7 de Setembro

Como bem fizeram ressaltar, dentre outros, Arlindo Veiga dos Santos,[1] Tito Lívio Ferreira[2] e José Pedro Galvão de Sousa,[3] o Brasil jamais foi uma colônia de Portugal.[4] Foi esta Terra de Santa Cruz, com efeito, inicialmente um patrimônio da Ordem de Cristo, governado pelo Grão-Mestre desta, que era El-Rei de Portugal, e mais tarde, um patrimônio da Coroa Portuguesa, ou, como diria Arlindo Veiga dos Santos, uma “Província d’El-Rei”.[5]

A independência política do Brasil, por sua vez, ocorreu, de fato, em 1815,[6] com a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e as consequentes elevação do Brasil à categoria de Reino e fundação do Estado Brasileiro.[7] Por esse tempo, já era o Brasil, aliás, um Império, sendo Dom João VI, como bem aduziu o Frei Francisco de Monte Alverne, “o verdadeiro Fundador do Império do Brasil”,[8] Império este surgido em 1808, no entender de João Mendes Júnior, e que permaneceu vivo mesmo depois da Constituição Republicana de 1891,[9] e, portanto, até nossos dias, já que as constituições posteriores àquela de 1891 não alteraram aquilo a que o jurisconsulto patrício denominou a “unidade formal da Nação Brasileira”.[10]

Em 1822, as Cortes de Lisboa, movidas por radical liberalismo e, como assinalou Arlindo Veiga dos Santos, rebeldes à Coroa,[11] “pretendendo destruir”, nas palavras do autor de Ideias que marcham no silêncio, “a obra de nossos antigos Reis e do nosso Rei Dom João VI”, nos quiseram “fazer ser a ‘colónia’ que nunca tínhamos sido”, forçando a separação do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.[12]

Não é, porém, da separação do Brasil do Reino Unido a que este pertencia, em 07 de Setembro de 1822, com o célebre “Grito do Ipiranga”, romanticamente imortalizado no magnífico quadro de Pedro Américo, que trataremos no presente artigo, mas sim da independência econômica de que necessita o nosso Brasil. Este foi, em verdade, reduzido à situação de colônia dos grandes grupos econômicos e financeiros internacionais desde o século 19, como denunciou Gustavo Barroso nas páginas de Brasil - colônia de banqueiros, sendo imperiosa a união de todos os autênticos patriotas e nacionalistas brasileiros no combate em prol da independência, da libertação de nossa Terra de Santa Cruz.

Não é necessário dizer que a libertação deste vasto Império das amarras em que foi preso pelos grandes grupos econômico-financeiros internacionais será um duríssimo golpe contra a civilização liberal que ora impera no Mundo e que, como sintetizou Plínio Salgado, é “uma civilização que criou a luta de classes, que desorganizou as bases morais das nacionalidades e que nos amarrou (...), como escravos miseráveis, aos pés da mesa onde o capitalismo internacional se banqueteia, surdo ao gemido dos povos”.[13]

O livro de Gustavo Barroso a que há pouco nos referimos (Brasil - colônia de banqueiros) foi qualificado de “espantoso” por Goffredo Telles Junior,[14] tendo em vista que todos aqueles que o leem ficam espantados ao saber da gravidade da situação de nosso País, que hoje, aliás, é ainda mais grave do que era em 1934, quando foi escrita aquela obra. Na homenagem póstuma prestada a Gustavo Barroso, na Câmara dos Deputados, então ainda no Rio de Janeiro, Plínio Salgado observou que “o maior livro de Gustavo Barroso”, na fase de sua ativa militância integralista, “o que causou maior sensação na juventude e no povo, e até hoje serve de inspiração, roteiro e guia a novas correntes tendentes à libertação completa do Brasil, foi aquele intitulado: Brasil, colônia de banqueiros”.[15]

Fecharemos este breve artigo rogando a Deus que nos ilumine em nossa peleja em prol da independência do Brasil, da libertação deste vasto Império da escravidão a que há quase dois séculos tem sido submetido pelas forças parasitárias e vampirescas do capitalismo internacional, e citando algumas das mais belas linhas da grande obra de Gustavo Barroso de que falamos. Nestas linhas cheias de esperança, o autor de Espírito do século XX, havendo aduzido que, no Zoológico do Rio de Janeiro, comovera-se ao ver um condor andino preso em uma gaiola por demais apertada e reconhecera naquele condor prisioneiro a imagem do nosso explorado, espoliado Brasil, assim escreveu:

BRASIL,
Brasil, Brasil, meu querido Brasil, não te concentres mais, como o condor prisioneiro, na tua grande dor! A tua concentração e o teu desprezo eles chamam de preguiça, de inércia, de jecatatuísmo. Estás sendo caluniado. Vamos, acorda do marasmo de teu desespero, distende as asas possantes e soberbas, amola o bico anavalhante, desembainha as lâminas das garras formidáveis! Eia! Prepara-te para o combate aos urubus traiçoeiros e nefandos!
Escuta! Não ouves, no fundo dos séculos, esse retumbo soturno de passos que marcam a imensidão das tuas terras virgens povoadas de onças, papagaios e índios nus, todos empenachados de palmeiras verdes? São as botas dos bandeirantes, cujo ritmo embalou o teu berço de taquara. Não ouves agora outro tropel mais próximo, um tropel que os teus ouvidos nunca ouviram? São os passos de novos bandeirantes, são os homens vestidos de verde, vestidos da cor da esperança, que vêm quebrar as grades de ferro e as grades de ouro desta prisão!

Então, ó grande e infeliz Condor Brasileiro, com um grito triunfal que espantará todos os urubus em todas as carniças do planeta, tu desfraldarás o pálio magnífico das grandes asas que Deus te deu para os grandes vôos e subirás para as alturas azuis do espaço. E a vasta sombra das tuas asas passeará vitoriosa sobre o mapa das nações![16]

  

Por Cristo e pela Nação!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 07 de Setembro de 2014-LXXXI.



Notas:
[1] Brasil, Província d’El-Rei, São Paulo, Jornada, 1960.
[2] O Brasil não foi colónia, São Paulo, Edição do autor, 1958; A Ordem de Cristo e o Brasil, São Paulo, IBRASA, 1980.
[3] História do Direito Político brasileiro, 2ª edição, São Paulo, Edição Saraiva, 1962, p. 3.
[4] Cumpre ressaltar que, do mesmo modo que o Brasil não foi colônia de Portugal, as possessões castelhanas da América também não foram colônias de Espanha, como bem demonstrou o historiador argentino Ricardo Levene (Las Indias no era colonias, 1ª edição, Buenos Aires, Editora Austral, 1951).
[5] Brasil, Província d’El-Rei, cit.
[6] Cf., dentre outros, Kenneth MAXWELL, Por que o Brasil foi diferente? O contexto da independência, in Carlos Guilherme MOTTA (Organizador), Viagem incompleta. A experiência brasileira: formação, 2ª edição, Editora SENAC São Paulo, 1999, pp. 186-187.
[7] Cf. Clovis Lema GARCIA, O Estado de Direito e a Ordem Constitucional do Brasil, in VV.AA., O Estado de Direito, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1980, p. 71; José Pedro Galvão de SOUSA, História do Direito Político brasileiro, p. 93.
[8] Obras oratorias, Tomo I, Rio de Janeiro, Laemmert, 1853, p. VI.
[9] A idéa de “Imperio”, in Revista da Faculdade de Direito, volume XIX, São Paulo, 1911, p. 156.
[10] Idem, loc. cit.
[11] Brasil, Província d’El-Rei, cit., p. 7.
[12] Idem, loc. cit.
[13] Revolução Integralista, in O pensamento revolucionário de Plínio Salgado (antologia organizada por Augusta Garcia Rocha Dorea), 2ª edição ampliada, São Paulo, Voz do Oeste, 1988, p. 255. Texto originalmente publicado no jornal A Offensiva, do Rio de Janeiro, a 17 de janeiro de 1935 e transcrito na obra Palavra nova dos tempos novos, cuja primeira edição é de 1936.
[14] A folha dobrada: lembranças de um estudante, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999, p. 91.
[15] Gustavo Barroso (discurso proferido na Câmara dos Deputados na sessão de 04 de dezembro de 1959), in Discursos parlamentares (Volume 18 – Plínio Salgado), Seleção e introdução de Gumercindo Rocha Dorea, Brasília, Câmara dos Deputados, 1982, p. 725.
[16] Brasil – colônia de banqueiros, 4ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1935, pp. 206-207.


07/09/2014, 13:49:03


7 de Setembro
Nota: Eduardo Campos, in memoriam

Foi com profunda consternação que recebemos, no início da tarde de hoje, a notícia do falecimento de Eduardo Campos, juntamente com quatro assessores e o piloto e o copiloto do avião em que viajava, em trágico acidente aéreo ocorrido nesta manhã, no município paulista de Santos. Não poucas divergências doutrinárias nos separam do ex-Deputado Federal, ex-Ministro da Ciência e Tecnologia, ex-Governador de Pernambuco e candidato à Presidência da República pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), mas não podemos deixar de reconhecer que era ele o mais honesto, o mais íntegro, o mais bem preparado e o mais patriota dentre os três candidatos à Primeira Magistratura da Nação mais bem colocados nas pesquisas eleitorais, representando para muitos a esperança de formação, no País, de uma espécie de terceira via de vulto, no campo político-partidário, entre o autoproclamado Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Que Deus dê conforto aos familiares e amigos de Eduardo Campos, assim como suscite, na presente geração e nas vindouras, homens em geral e políticos em particular com a integridade e o patriotismo do mais célebre neto de Miguel Arraes. E que, sob as bênçãos de Cristo e de nossos Maiores, surja, no cenário político nacional, uma autêntica terceira via de vulto entre o PT e o PSDB, do mesmo modo que entre o capitalismo liberal e o comunismo.


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 13 de agosto de 2014.LXXXI.


13/08/2014, 18:28:31


Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista

Uma síntese recente do Movimento Integralista
O integralismo, os cargos, a modéstia, a mentira e a intriga

O texto a seguir é uma pequena reflexão do então Cap. Olympio Mourão Filho dirigida aos membros da A.I.B., tendo sido publicada originalmente na revista “Anauê!”, no ano de 1935. Os problemas observados àquela época são os mesmos que se observam hoje nas agremiações de todo tipo, nos partidos políticos e nos diversos grupelhos que surgem e rapidamente sucumbem ou se tornam inertes pela vaidade de poucos. Observar e também evitar as más condutas dentro de nossa organização é responsabilidade de todos os membros da Frente Integralista Brasileira.

 

I

O integralismo e os cargos

1 — No Integralismo não é admissível que os cargos deem brilho aos indivíduos; estes, ao contrário, devem dar brilho aos cargos.

Desde o momento em que o Integralista sinta que não mais pode desempenhar, com prestigio, um cargo, deve, por si mesmo, deixa-lo. Se souber de outrem, em condições de substituí-lo com vantagem, é dever indicar o mesmo aos chefes, a título de sugestão ou proposta.

2 — Aspirar a uma posição por vaidade, para ter ocasião de se exibir, é triste; conservar uma posição, sentindo que lhe falta terreno para mantê-la a contento do serviço, é doloroso e prejudicial.

3 — É índice certo de revolução interior, saber-se o momento oportuno de deixar uma posição, sem ressentimentos, sem orgulhos feridos, sem exibicionismo.

4 — Recusar cargo por falsa modéstia é exibicionismo; recusar, por temor á responsabilidade, é covardia.

5 — Aspirar a postos com a ambição de prestar serviços é nobre; todavia, é muito difícil separar a ambição nobre do impulso de vaidade.

6 — A autocritica serena e segura é processo de revolução interior.

7 — Integralista, exercita a auto critica: Nosce te ipsum!

 

II

O Integralismo, a modéstia, a mentira e a intriga

1 — A modéstia é virtude fundamental do Integralista.

Por maior que seja o serviço prestado, nunca deve ser alegado; jamais poderia ser gabado pelo autor: é ridículo e denuncia propósitos imediatos.

2 — Antes suportar calado a injustiça do silencio ou da atribuição a outrem de serviços prestados, do que alegar os mesmos, reclamar sua paternidade.

3 — Nesta causa servimos a Deus e Ele não se confunde jamais: as injustiças dos homens não podem ser julgadas pelos homens; só Deus as julgará, ou melhor, já as julgou desde toda a eternidade...

4 — Integralista! Trabalha, presta serviços, desdobra-te, sacrifica-te, sacrifica aos teus pela causa, porém, cala a boca. Silencia!

Se teus chefes não percebem teus esforços, desde que eles sejam reais, é que já não são chefes: em breve o movimento passará por sobre eles.

5 — Gabar o próprio serviço é ridículo; exagerá-lo para se fazer credor de estima, denota imediatismo e fraqueza de caráter.

6 — Mentir, fantasiar prestação de serviços... Integralista, antes de cometeres tal miséria, despe tua camisa verde e corre para um dos 160 partidos [*] que existem por aí; estás errando tua vocação de salafrário liberal e solerte.

7 — A intriga! Oh! A intriga e a difamação!

Aquele que não as repele com energia, é cúmplice, não é mais integralista.

8 — Se deixarmos que estas duas megeras se instalem em nosso movimento, dentro em breve não teremos um único chefe honesto, um único oficial competente, nem um só miliciano corajoso...

9 — Fulano roubou, Sicrano tem vida irregular, Beltrano correu no combate... Não, Integralista. Sabes se Fulano rouba? Conheces a vida irregular de Sicrano? Viste Beltrano correr no tiroteio? Procura teu chefe e denuncia-o com toda a franqueza e lealdade. Se não procedes assim, não és integralista, és covarde, fariseu!

 

Olympio Mourão Filho
Integralista, o General Olympio Mourão Filho (1900-1972) foi o único brasileiro a participar ativamente na frustração de dois golpes comunistas contra o Brasil. Em 1935, então Capitão do Exército, teve decisivo papel na aniquilação da chamada "Intentona Comunista". Anos depois, em 1964, agora General do Exercito, ordenou que as tropas da IV Região Militar ocupassem a cidade do Rio de Janeiro, antiga capital da República, episódio que desencadeou a Revolução de 31 de Março de 1964 e mais uma vez frustrou os planos comunistas, que pretendiam rebaixar o Brasil à condição de satélite da extinta URSS.


06/08/2014, 12:18:14


O conflito entre Rússia e Ucrânia
Arruda Furtado, in memoriam

De Fortaleza, Terra de Luz, capital da Terra de Sol banhada pelos “verdes mares bravios” cantados pelo magno poeta em prosa de Iracema, chegou-nos, há já algum tempo, a notícia do falecimento do Dr. Francisco de Assis de Arruda Furtado, nosso ilustre irmão de Fé e companheiro de ideais tradicionalistas, patrióticos e sadiamente nacionalistas.

Ainda que estejamos certos de que Arruda Furtado, exemplar cristão, autêntico modelo das mais lídimas virtudes, gozará, no Paraíso, da Eterna Bem-Aventurança, livre do exílio que é a vida do Ente Humano neste “vale de lágrimas”, não podemos deixar de receber tal notícia com certo pesar, posto que, com a partida deste bravo soldado de Deus, da Pátria e da Família para o Outro Mundo ficaram o Ceará e o Brasil menos nobres moral e intelectualmente.

Advogado, professor universitário, político, escritor e estudioso da História, Arruda Furtado foi, antes e acima de tudo, um homem profunda e sinceramente religioso, que se tornou não apenas um dos mais notáveis vultos do Integralismo no Ceará, como também um dos grandes líderes católicos da província de José de Alencar e de Gustavo Barroso, fazendo parte da “plêiade de paladinos da fé que encontraram abrigo no Instituto do Ceará”, [1] no qual ingressou no ano de 1975. Esta prestigiosa e tradicional instituição cultural, voltada a estudos científicos, sobretudo históricos, geográficos e antropológicos, fora fundada em 1887 pelo médico e historiador cearense Guilherme Chambly Studart, Vice-Cônsul do Reino Unido em Fortaleza e católico militante e dedicado a obras de caridade, a quem o Papa Leão XIII concedeu, em 1900, o título de barão.

Nasceu Francisco de Assis de Arruda Furtado no Município de Senador Pompeu, no sertão cearense, sendo o décimo quarto dos vinte e um filhos do comerciante Luiz de Gonzaga Furtado e de sua esposa Maria Adelina de Arruda Furtado. Aos cinco anos de idade já estava matriculado no tradicional Colégio Imaculada Conceição, pertencente à sua tia paterna, D. Maria Furtado. Em 1929, quando a família se mudou para Fortaleza, continuou os estudos com uma professora particular contratada pelo pai.

A 09 de fevereiro de 1930, realizou a Primeira Comunhão, na Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio, na Capital Cearense, sendo oficiante o Padre Germiniano Bezerra de Menezes, seu parente pelo lado paterno. Três anos mais tarde, ingressou como aluno interno no Ginásio Salesiano Domingos Sávio, na municipalidade cearense de Baturité, onde concluiu o curso primário em 1935.

Em abril de 1936, ingressou Arruda Furtado no Liceu do Ceará, tradicional instituição de ensino em que, anos antes, estudara Gustavo Barroso, cujo segundo livro de memórias se intitula, aliás, Liceu do Ceará [2]. A 15 de junho do mesmo ano, principiou a trabalhar na empresa Ceará Tramway, Light & Power Co., na função de auxiliar de escrita, labutando com bastante afinco a fim de se manter e ajudar os pais.

Havendo concluído o curso ginasial no ano de 1940, matriculou-se no ano seguinte no curso pré-jurídico, concluído em 1943, mesmo ano em que deixou a Ceará Tramway, Light & Power Co., no alto cargo de secretário da gerência da seção de luz.

Ainda em 1943, ingressou Arruda Furtado na Faculdade de Direito do Ceará e passou a trabalhar no Gabinete da Agricultura e Obras Públicas, havendo deixado o emprego na Ceará Tramway, Light & Power Co. em virtude de serem diurnas suas aulas na faculdade de Direito. Em princípios de 1944, foi designado pelo Interventor do Ceará, Francisco de Meneses Pimentel, para integrar a comissão que procedeu à reorganização administrativa dos serviços públicos, origem do Departamento do Serviço Público (DSP), em que foi admitido, na função de Assistente de Pessoal, aos 02 de outubro do mesmo ano.

Em abril de 1945, fez concurso para o cargo de Técnico de Administração do Estado, sendo classificado em terceiro lugar, mesmo lugar, aliás, em que se situara na lista de aprovados do vestibular da Faculdade de Direito do Ceará. Ainda em 1945, foi designado para, em companhia do Técnico de Administração Germano de Carvalho Rocha, apresentar ao governo cearense os planos para um aumento geral dos vencimentos do funcionalismo público, civil e militar, aumento este que ocorreu em outubro, sendo aos quatro dias do mês seguinte nomeado Técnico de Administração.

Nas eleições de 1947, figurou Arruda Furtado entre os candidatos do Partido de Representação Popular (PRP) à Assembleia Legislativa do Ceará. Fora ele, em 1945, um dos sócios fundadores do PRP, agremiação política que defendia os princípios eminentemente cristãos, tradicionais, nacionais e renovadores do Integralismo Brasileiro, Movimento a que aderira quando ainda adolescente e ginasiano.

Em seus tempos de estudante, participara Arruda Furtado do Centro Estudantil Cearense, do qual foi Secretário Interino, bem como do Clube Liceal de Estudos, do Centro Literário Juvenal Galeno, do Centro Literário Gustavo Barroso e do Grêmio de Estudantes Fenixtas, colaborando ativamente nas revistas Folha Estudantil, A Ideia, 7 de Outubro e Fênix. Colaborou, ainda, no jornal O Nordeste, de que foi redator comercial de 1944 a 1945, e no semanário católico A Verdade, de Baturité.

Cidadão mais moço que já tomara assento na Assembleia Legislativa Cearense, Arruda Furtado, a despeito de ali haver permanecido por pouco mais de um mês, realizou mais coisas do que muitos inpíduos que ali permaneceram por vários anos. (Imagem: Arquivo/Assembléia Legislativa do Ceará)

Diplomado Segundo Suplente do Partido de Representação Popular a 20 de fevereiro de 1947, foi Arruda Furtado convocado aos vinte e seis dias do mesmo mês para substituir o Deputado Raimundo Aristides Ribeiro, que requerera licença de trinta e cinco dias a fim de participar, no Rio de Janeiro, da III Convenção Nacional do PRP, da qual o Primeiro Suplente, Dr. Assis Pereira, também participaria.

Cidadão mais moço que já tomara assento na Assembleia Legislativa Cearense, Arruda Furtado, a despeito de ali haver permanecido por pouco mais de um mês, realizou mais coisas do que muitos inpíduos que ali permaneceram por vários anos. Teve ele, com efeito, como membro da Comissão Constitucional, ativa participação na elaboração da Constituição Cearense de 1947, havendo redigido três capítulos do projeto que se transformou na referida Constituição. Um de tais capítulos é aquele referente à Polícia Militar, que inexistia nas constituições cearenses anteriores, sendo tal inovação uma proposta sua, e outro o que diz respeito aos funcionários públicos. Neste capítulo, foram consagrados, como regras constitucionais, persos institutos que anteriormente constavam tão somente da legislação ordinária, a exemplo das férias de trinta dias, da licença à gestante, do salário-família, da gratificação adicional por tempo de serviço e da isenção de impostos para aquisição da casa própria [3].

Dentre outras proposições de seu curto porém profícuo mandato na Assembleia Legistalitva Cearense, podemos destacar, antes de qualquer outra, aquela que mandava apor, no Plenário da Assembleia, a imagem do Cristo Crucificado. Tal projeto foi aprovado, havendo sido feita a entronização da imagem do pino Mestre Crucificado em sessão solene, presidida por Dom Antônio de Almeida Lustosa, Arcebispo de Fortaleza.

O triunfo do requerimento de Arruda Furtado que determinava a aposição da imagem de Cristo na sala das sessões da Assembleia Legislativa Cearense foi, sem dúvida alguma, uma grande vitória do Ceará e do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro e contra as hostes do antiCeará e do antiBrasil, representadas, antes de tudo, pela bancada comunista, que, composta pelos deputados José Marinho de Vasconcelos e José Pontes Neto, votou, evidentemente, contra o referido projeto.

Um dos principais líderes do Partido de Representação Popular no Ceará, foi Arruda Furtado, por vários anos, Secretário-Geral, em sua província natal, desta agremiação política, que Plínio Salgado definiu como “um grande Partido Nacional Democrático e Cristianíssimo, profundamente enraizado no mais puro nacionalismo e altamente projetado no mais luminoso dos espiritualismos” [4].

Casado em 1948 com D. Antônia Valburga de Araújo Arruda Furtado, teve nosso homenageado os seguintes filhos: Maria de Fátima Furtado Chaves; Juvenal Antônio Araújo Furtado; Maria Tereza Lumena Furtado Moreira; Luiz de Gonzaga Furtado Neto (sacerdote); Maria Francelina Furtado Chagas; Maria Mônica Furtado Rodrigues Lima e Francisco de Assis de Arruda Furtado Júnior, já falecido.

A despeito de afastado da vida parlamentar, continuou Arruda Furtado ligado à história das Constituições cearenses, posto que participou, na qualidade de representante do chamado Poder Executivo, da comissão composta, além dele, por Mauro Benevides, Barros dos Santos, José Napoleão e Weimar Silva Thé, para a redação do projeto da Constituição Cearense de 1970 [5].

Em 1957, fundou, juntamente com outros intelectuais, expoentes da política, da cultura e da educação de sua província natal, a Escola de Administração do Ceará (EAC), de que foi um dos mais importantes professores. No ano de 1975, quando a EAC se transformou no Curso de Administração da Universidade Estadual do Ceará (UECE), tornou-se professor titular desta instituição de ensino superior.  

Pertenceu Arruda Furtado a entidades como a Academia Cearense de Letras Jurídicas, a Academia Cearense de Retórica, o Instituto dos Advogados do Brasil, a Associação Cearense de Imprensa, o Instituto Cearense de Administração e o Instituto Latino Americano de Derecho del Trabajo y Seguridad Social, com sede em Buenos Aires, Argentina, e, é claro, o já aqui mencionado Instituto do Ceará.

No campo administrativo, ocupou nosso homenageado persos cargos e funções de relevo, a exemplo de Procurador do Conselho de Contas dos Municípios, de Consultor Geral do Estado e de Diretor Geral do Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região, com sede em Fortaleza, havendo sido, ademais, membro do Conselho Estadual de Educação e do Conselho Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Participou Arruda Furtado de persos congressos, simpósios e seminários nacionais e internacionais, dentre os quais podemos destacar o V Congresso Nacional de Municípios (Recife, 1959), o Encontro de Secretários de Administração dos Estados (Rio de Janeiro, 1969), o Simpósio de História do Acre (Rio Branco, 1977), o Seminário Latino-Americano de Direito do Trabalho (Fortaleza, 1978) e o Congresso Latino-Americano de Direito do Trabalho (Lima, 1979).

Dentre as persas obras do escritor cearense, podemos pôr em relevo as seguintes: Acumulações remuneradas (1957); Direito Administrativo Municipal (1957); Aperfeiçoamento de servidores (1959); Regimento Interno da Câmara Municipal e prática de inquérito administrativo (1961); Crimes de responsabilidade de prefeitos municipais (1962); Ode às mães (Poesia, 1972); Pareceres como Consultor Geral do Estado (1974); Luiz de Gonzaga Furtado (notas biográficas, 1975); Emigração para o Acre (História, 1979); Agradável a Deus e por Ele amado (biografia, 1982), e Firmes na Fé, perseverantes nos mandamentos (biografias, 1987).

 Dentre todas as obras de Arruda Furtado que acabamos de mencionar, infelizmente só tivemos a oportunidade de ler o livro Agradável a Deus e por Ele amado, tocante obra que conta a vida de seu virtuoso filho Francisco de Assis de Arruda Furtado Júnior, “vida brevíssima, porque findou aos dezessete anos e meio, porém fecunda porque fez germinar frutos opimos de espirituais valores” [6]. No magnífico prefácio de tal obra, Dom Manoel Pestana Filho, saudoso e virtuoso Bispo de Anápolis, sublinhou o amor do jovem biografado à Igreja; sua dedicação integral à Santíssima Virgem; seu “entusiasmo pelos tesouros da tradição doutrinal e litúrgica; seu discernimento de ancião em alma de jovenzinho; sua docilidade à voz do magistério autêntico; sua delicadeza de consciência no trato” com aqueles que lhe pareciam se desviar do caminho; seu coração aberto às mais pequeninas necessidades dos outros, e, por fim, “sua acolhida à irmã Morte que lhe punha fim a tantos sonhos para mergulhá-lo na grande Realidade”. Isto posto, salientou o preclaro sacerdote patrício que tudo isto o convencia de que “Cristo continua morando entre os homens, ainda que às vezes pareça dormir no fundo da barca, em meio à tempestade” [7].

Em seguida, ainda no referido prefácio à bela e comovente biografia de Francisco de Assis de Arruda Furtado Júnior, afirmou Dom Pestana que “a família Arruda Furtado ofereceu ao mundo e a Deus, pela sua fé e testemunho evangélico, o maior de todos os presentes, um santo, pois é o de que unicamente o mundo precisa”. Segundo o autor de Igreja doméstica, o que realmente está em falta na hora presente é a “santidade radical e heroica”, que Virgil Gheorghiu, o magno romancista de A 25ª hora, reputou ser a única instituição de autêntica utilidade pública [8].

Assim como o filho, Francisco de Assis de Arruda Furtado sempre buscou a santidade radical e heroica, tendo plena consciência de que, como prelecionou Plínio Salgado, “não é digno de lutar pelo Cristo quem não erguer a bandeira da própria santificação” [9].

Oliveira Vianna nos falou, na obra Instituições políticas brasileiras, dos homens de mil do Império Brasileiro, assinalados varões que tinham, na expressão do insigne pensador fluminense, “inata vocação ao bem comum” nacional. Alimentados pelo “sentimento do seu dever público”, repletos “do desejo de bem servir” este País, colocando os lídimos “interesses da Nação” e o cumprimento das “obrigações cívicas acima dos seus interesses pessoais – e mesmo de partido”, absorvidos, enfim, pelas “preocupações do patriotismo e do serviço público”, constituíram estes homens políticos a nata daquilo a que o autor de Populações meridionais do Brasil denominou a “aristocracia do Império” e a “elite nacional” [10].

Nós, por nossa vez, seguindo o ínclito companheiro Gumercindo Rocha Dorea, já por mais de uma vez falamos dos homens de mil do Integralismo, varões ilustres e profundamente virtuosos, que, como aqueles do Império, colocaram o bem da Nação Brasileira acima de seus interesses de ordem pessoal, tudo fazendo em prol dos legítimos interesses deste vasto Império da Terra de Santa Cruz sem nada pedir em troca e estando sempre prontos a defender, segundo as palavras de Gustavo Barroso, “as Sagradas Tradições Cristãs do Brasil”, regando-as, se necessário for, com seu “próprio sangue para que melhor resplandeçam no futuro” [11].

Exemplo de beleza moral, de grandeza e nobreza de alma, de desprendimento, de espírito de sacrifício e de capacidade de servir ao Bem Comum, Francisco de Assis de Arruda Furtado foi, ou melhor, é um de tais homens de mil, que, assim como aqueles do Império, permanecem e permanecerão vivos, brilhando como faróis, a iluminar o futuro desta Grande Nação do ontem e do amanhã.

Encerramos esta pequena homenagem póstuma a Arruda Furtado rogando a Deus, Sumo e Eterno Príncipe, Criador e Regente do Universo, que suscite, na atual geração e naquelas vindouras, homens da estirpe deste bravo e valoroso paladino de Cristo Rei, do Brasil Profundo e da Família Tradicional que acaba de partir deste Mundo, passando a fazer parte da assim chamada Milícia do Além. 

Por Cristo e pela Nação!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 11 de junho de 2014-LXXXI.



Notas:
[1] Cf. O NORDESTE, Enciclopédia Nordeste, verbete “Arruda Furtado”. Disponível em: http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Arruda+Furtado&ltr=a&id_perso=528. Acesso em 14 de abril de 2014.
[2] Liceu do Ceará, 1º edição, Rio de Janeiro, Getúlio Costa, 1940.
[3] Cf. Assembleia Legislativa do Ceará, Memorial Deputado Pontes Neto, Os constituintes de 1947, Fortaleza, Editora INESP, 2002, pp. 169-170.
[4] Discursos, 1ª edição, São Paulo, Companhia Editora Panorama, 1949, p. 18.
[5] Cf. Assembleia Legislativa do Ceará, Memorial Deputado Pontes Neto, Os constituintes de 1947, Fortaleza, Editora INESP, 2002, p. 170.
[6] Agradável a Deus e por Ele amado: biografia de um jovem, 1ª edição, Fortaleza, Imprensa Oficial do Ceará, 1982, p. 13.
[7] Prefácio, in Agradável a Deus e por Ele amado: biografia de um jovem, 1ª edição, Fortaleza, Imprensa Oficial do Ceará, 1982, p. 9.
[8] Idem, loc. cit.
[9] Primeiro, Cristo!, 4ª edição, in Obras completas. 2ª edição, vol .VI, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 212.
[10] Instituições políticas brasileiras, Primeiro volume, Fundamentos sociais do Estado (Direito Público e Cultura), 2ª edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1955, pp. 394-395.
[11] Comunismo, Cristianismo e Corporativismo, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1938, p. 99.


11/06/2014, 23:28:30


Arruda Furtado, in memoriam
Copa das Copas

A escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo foi recebida como prova do prestígio internacional de um “novo Brasil”. Nesse país diferente, que fora fundado recentemente com a posse de Lula, parecia surgir uma extraordinária oportunidade para comprovar ao mundo que seus líderes estavam preparados para assumir o merecido protagonismo entre as nações mais desenvolvidas. Tudo estava de ponta-cabeça na geopolítica global, pois, esse “novo Brasil” agora era a “bola da vez” ao passo que as nações mais ricas sucumbiam uma a uma em meio aos murmúrios da violenta crise financeira que afetaria o mundo pouco tempo depois.

Mas para o Brasil tudo seria diferente, uma vez que em 2014 os brasileiros testemunhariam uma revolução memorável, a iniciar-se nas gares do Rio de Janeiro, quando o primeiro trem de alta velocidade (TAV) partisse rumo a São Paulo para a abertura do mundial – tal trajeto seria concluído em impressionantes uma hora e trinta minutos [1]. O mesmo se repetiria nas demais cidades-sede: em Cuiabá, um moderno sistema de veículo leve sobre trilhos (VLT), interligaria quase toda a cidade, facilitando o acesso de turistas e moradores aos pontos de maior interesse [2]; em Porto Alegre, a nova linha 2 do Metrô, apelidada apropriadamente como a “Linha da Copa”, diminuiria o trânsito na região mais densa da capital gaúcha [3]; e, o melhor de tudo, as modernas e gigantescas “Arenas” seriam custeadas pela iniciativa privada em todas as cidades-sede [4].

Infelizmente, essa “aquarela” da infraestrutura, cujo catalisador seria um torneio de futebol, não poderia ter sido menos ilusória. Foi mais dura a realidade de um País em trapos governado por uma elite de corruptos megalomaníacos...


Ficava também muito evidente a relação do governo brasileiro com a empresa multinacional FIFA e o preço pago por políticos megalomaníacos para trazer o evento ao Brasil. (Reuters)

Mas parecia ser o “plano perfeito”. O “novo Brasil” foi criado em 2002, suplantando séculos de opressão e reparando as mazelas deixadas pelos antigos governantes, que colonizaram o Brasil até o mandato anterior. Suas políticas ditas “progressistas”, “modernizariam” o “atrasado” Brasil, facilitando a inclusão das “minorias” nos instrumentos de educação e da administração do Estado, por exemplo [5]. Este novo país tinha como marca “a marcha histórica que resgata nosso País de seu passado escravista, subalterno, elitista e excludente” [6].

O “novo Brasil” tinha a ajuda de marqueteiros consagrados, peritos em iludir as massas com miragens estonteantes [7]. Do dia para a noite a seca em parte do nordeste acabou, milhões de brasileiros automaticamente cruzaram a linha da pobreza e o Brasil passou a ser a sexta economia do mundo. O governo tinha ampla base de apoio político e popular, a primeira conquistada no que viria a ser conhecido como “Ação Penal 470” (ou "julgamento do mensalão") [8] e a segunda por meio de “confiáveis” institutos de pesquisa, como Ibope e DataFolha.

Não bastava o País estar frequentemente em matérias compradas na The Economist [9], na Time [10] ou no The New York Times [11]. Por que não colocar a cereja no bolo? A consagração deste “novo País” – repetimos, inventado em 2002 – se daria com o governante da Nação aplaudido pela multidão sem fôlego após discurso que, tal como ocorreu nos Jogos Olímpicos de Pequim, minuciosamente arquitetado pelo Partido Comunista Chinês [13], em 2008, elevaria este novo país de bandeiras vermelhas à sua condição de potência entre os grandes jogadores globais.


No "plano perfeito", o novo Brasil das bandeiras vermelhas repetiria sucesso similar aos Jogos Olímpicos de Pequim, realizados em 2008, pelo Partido Comunista Chinês, com o objetivo de propagandear o regime. (Reprodução/Internet)

Algo saiu errado...

O descontentamento com o absurdo custo da construção dos estádios em contraste com a situação desastrosa dos serviços públicos essenciais levou a um desânimo geral e à falta de apoio popular à realização da Copa do Mundo [13]. Tanto que, o bordão “quero ver na Copa” não foi invenção de uma suposta oposição às vésperas das eleições, mas sinal do descrédito espontâneo da população às promessas fantasiosas do governo, como a suposta construção de um “trem-bala”, anunciado inúmeras vezes pela então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Vana Rousseff [14].

Com a Copa do Mundo às portas, essa insatisfação foi tomando fôlego, uma vez que a cada dia mais próximo do evento, mais facilmente constatava-se que promessas não seriam cumpridas e que a qualidade geral dos serviços públicos não tendia a melhorar: o Brasil regrediu ou estagnou em quase todos os índices internacionais que medem a qualidade dos serviços de saúde,  educação, infraestrutura, dentre outros, sendo superado por países como Colômbia e Tailândia em alguns desses indicadores [15].

Ficava também muito evidente a relação do governo brasileiro com a empresa multinacional FIFA e o preço pago por políticos megalomaníacos para trazer o evento ao Brasil. De um lado os cofres públicos custeariam a construção de doze novos estádios, que tiveram, até o momento, um custo estimado em R$ 8,5 bilhões, sendo que algumas dessas arenas não terão qualquer utilidade após a Copa [16]. De outro lado, além de rasgar a Constituição Brasileira ao impor a Lei Geral da Copa, calcula-se que a FIFA vai lucrar aproximadamente R$ 9 bilhões com o evento, sendo beneficiária de inúmeras isenções fiscais e tendo suas autoridades e instalações proteção custeada pelo Estado [17].

Ora, se apenas a FIFA pode licenciar produtos relacionados à Copa do Mundo, mas a mesma FIFA e seus parceiros (tais como Hyundai e Coca-Cola por exemplo), não darão aos cofres públicos qualquer retorno, pois estão isentas de pagar impostos [18], a quem interessa a realização da Copa do Mundo no Brasil? Arrisco dizer que interessa certamente a uma certa quadrilha de políticos megalomaníacos e a meia dúzia de megaempresários que sustentam estes mesmos políticos no poder...

O ápice do descontentamento popular deu-se há um ano nas manifestações de junho, quando “os protestos evoluíram do oportunismo, das utopias irracionais marxistas e das infantis reclamações por passes livres para a adesão em massa de milhões de pessoas indignadas com o governo em todo o Brasil” [19]. Este fato, em especial, deu um baque na elite política e financeira nacional, ainda iludida com as falácias que ela mesmo criou: o novo Brasil, artificial, sem pobreza e centrado em personalidades como o “megaempresário” Eike Batista.

Acreditam nas próprias fraudes...


As obras inacabadas do VLT de Cuiabá, que não chegaram a 50% de conclusão, estão sendo cobertas por grama melhorar o aspecto visual da cidade. (Aiuri Rebello/UOL)


Em Brasília, às vésperas da Copa, operários trabalhavam para cobrir viadutos imundos com mármore branco, sob o mesmo pretexto. (Fernando Rodrigues/UOL)

Saindo da esfera da propaganda e do ufanismo governamental, verificamos que as cidades brasileiras hoje são canteiros de lama repletos de obras inacabadas, pois a maior parte da infraestrutura prometida por governantes oportunistas não foi entregue [20]. Só para ilustrar, não há TAV ligando Rio de Janeiro a São Paulo [21], o VLT em Cuiabá não estará pronto antes de 2015 [22], a “Linha da Copa”, de Porto Alegre, talvez só esteja pronta em 2019 e os estádios foram todos custeados com dinheiro público [23][24]. Isso para não falar da lentidão nas obras em aeroportos que não comportam mais a demanda de passageiros [25], em sistemas de transporte de alta capacidade cujas obras não foram concluídas, mas inauguradas pela presidente [26] e nos milhares de operários que até o fim da Copa correm contra o tempo para enfeitar viadutos caindo aos pedaços e jardins mal cuidados [27], comuns ao cotidiano do brasileiro, mas inadmissíveis se estiverem aos olhos dos estrangeiros.

A verdade é que a realização da Copa só beneficiou as empreiteiras que construíram os estádios e a própria FIFA, que levará do Brasil bilhões de reais livres de impostos!

A esta altura, apoiemos ou não, a Copa começou. Certamente será uma imponente realização do ponto de vista midiático e da pirotecnia a ser empregada nas cidades-sede, elementos indispensáveis à sustentação das modernas técnicas da política de pão e circo. E, para alíviar a tensão do governo e das multinacionais que investiram no evento, a massa, que é a parcela inconsciente da população, é suscetível de transformar tudo em um grande carnaval, impedindo um desfecho político mais desfavorável ao governo brasileiro.

Mas, ao passo que diminui a parcela daqueles que são massa, aumenta consideravelmente a parcela daqueles que podem ser considerados povo, isto é, a parcela consciente da população. Estes estão menos preocupados com o circo e mais interessados nas reais prioridades do País, não aceitando mais de forma passiva a atitudes desprezíveis de um governo que trabalha dia e noite para destruir o Brasil verdadeiro, forjado a fogo e ferro em mais de quinhentos anos de tradição e bravura.

O que fica claro afinal é que o governo não é o povo e vice-versa. E no nosso caso, em especial, o governo nunca esteve tão dissociado do povo. Os olhos do mundo se voltam para o Brasil. O grande legado da Copa não é material. É político.

Sentinela Alerta!


Eduardo Ferraz
Membro do Conselho Diretivo Nacional e Secretário de Expansão da Frente Integralista Brasileira.


N
otas:
[1] Trem-bala entre Rio e São Paulo ficará pronto para Copa de 2014, diz Dilma. G1, 03 de junho de 2009.  Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL1181261-9356,00-TREMBALA+ENTRE+RIO+E+SAO+PAULO+FICARA+PRONTO+PARA+COPA+DE+DIZ+DILMA.html Acesso em: 10 de junho 2014.
[2] Não trabalhamos com a hipótese de não entregar o VLT até a Copa. Portal 2014, 01 de novembro de 2012. Disponível em:  www.portal2014.org.br/noticias/10988/NAO+TRABALHAMOS+COM+A+HIPOTESE+DE+NAO+ENTREGAR+O+VLT+ATE+A+COPA.html. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[3] Porto Alegre confirma metrô para Copa. Portal 2014, 28 de agosto de 2009. Disponível em:  www.portal2014.org.br/noticias/982/PORTO+ALEGRE+CONFIRMA+METRO+PARA+COPA.html. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[4] Ministro descarta dinheiro público para estádios da Copa-2014. Terra, 04 de dezembro de 2007. Disponível em:  http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI2124945-EI306,00-Ministro+descarta+dinheiro+publico+para+estadios+da+Copa.html. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[5] Para ler algo mais consistente a respeito do tal progressismo engendrado pelo governo, basta ler o hediondo “Programa Nacional de Direitos Humanos 3”. Disponível em: http://portal.mj.gov.br/sedh/pndh3/pndh3.pdf. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[6] Trecho transcrito da apresentação do “Programa Nacional de Direitos Humanos 3”, disponível em página especial da presidência da república dedicada ao tema. Disponível em: http://portal.mj.gov.br/sedh/pndh3/index.html. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[7] João Santana, o homem que elegeu seis presidentes. Época, 04 de outubro de 2013. Disponível em: http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2013/10/bjoao-santanab-o-homem-que-elegeu-seis-presidentes.html. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[8] Página especial do portal UOL sobre a “Ação Penal 470”, mais conhecido como “julgamento do mensalão”. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/politica/eventos/julgamento-do-mensalao/. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[9] Brazil takes off. The Economist, 12 de novembro de 2009. Disponível em: http://www.economist.com/node/14845197. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[10] Revista 'Time' escolhe Lula como um dos líderes mais influentes do mundo. G1, 29 de abril de 2010. Disponível em: http://g1.globo.com/politica/noticia/2010/04/revista-time-escolhe-lula-como-o-lider-mais-influente-do-mundo.html. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[11] Strong Economy Propels Brazil to World Stage. The New York Times, 31 de julho de 2008. Disponível em:   http://www.nytimes.com/2008/07/31/world/americas/31brazil.html?pagewanted=all. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[12] Como o Ocidente falhou com a China nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008. Epoch Times, 2008. Disponível em:  http://www.epochtimes.com.br/como-ocidente-falhou-china-nos-jogos-olimpicos-pequim-2008/#.U5nUtCjijOM. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[13] Apoio à realização da Copa no Brasil cai para 52%, aponta pesquisa do Datafolha. Jogos Limpos, 24 de fevereiro de 2014. Disponível em: http://www.jogoslimpos.org.br/destaques/apoio-a-realizacao-da-copa-brasil-cai-para-52-aponta-pesquisa-datafolha/. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[14] ‘Sucesso do trem-bala’ se deve a Dilma, diz Lula em cerimônia. G1, 13 de julho de 2010. Disponível em: http://g1.globo.com/politica/noticia/2010/07/sucesso-do-trem-bala-se-deve-dilma-diz-lula-em-cerimonia.html. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[15]  Brasil se distancia de média mundial em ranking de educação. BBC, 08 de maio de 2014. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/05/140508_brasil_educacao_ranking_dg.shtml. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[16] Estádios da Copa já somam 20 atrasos, e gastos de R$ 8 bilhões podem aumentar. IG, 13 de fevereiro de 2014. Disponível em: http://copadomundo.ig.com.br/2014-02-13/estadios-da-copa-ja-somam-20-atrasos-e-gastos-de-r-8-bilhoes-podem-aumentar.html. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[17] Isenta de pagar R$ 1 bilhão em impostos, Fifa garante lucro recorde na Copa de 2014. R7, 25 de junho de 2013. Disponível em: http://esportes.r7.com/futebol/copa-das-confederacoes-2013/isenta-de-pagar-r-1-bilhao-em-impostos-fifa-garante-lucro-recorde-na-copa-de-2014-25062013. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[18] Ministério Público diz que isenção fiscal à Fifa é inconstitucional. UOL, 20 de agosto de 2013. Disponível em: http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/08/20/ministerio-publico-diz-que-isencao-fiscal-a-fifa-e-inconstitucional.htm. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[19] FERRAZ, Eduardo. Resposta a uma crise. Frente Integralista Brasileira, 23 de junho de 2013. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=231. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[20] Agora é de verdade. Revista francesa detona a Copa no Brasil. UOL, 07 de março de 2014. Disponível em: http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/03/07/revista-francesa-detona-a-copa-no-brasil-viva-o-bordel-brasileiro.htm. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[21] Previsto para a Copa de 2014, trem-bala será concluído apenas em 2020. Estadão, 26 de março de 2014. Disponível em: http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,previsto-para-a-copa-de-2014-trem-bala-sera-concluido-apenas-em-2020,1145413. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[22] População de Cuiabá só vai usar VLT a partir de 2015, diz secretário da Copa. G1, 04 de março de 2014. Disponível em: http://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2014/03/populacao-de-cuiaba-so-vai-usar-vlt-partir-de-2015-diz-secretario-da-copa.html. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[23] Consórcios apresentam propostas para construção do metrô de Porto Alegre. Zero Hora, 22 de abril de 2014. Disponível em:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/04/consorcios-apresentam-propostas-para-construcao-do-metro-de-porto-alegre-4481252.html. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[24] Gastos públicos com os estádios da Copa já passam de R$ 8,5 bilhões. LANCENET, 19 de junho de 2013. Disponível em: http://www.lancenet.com.br/copa-do-mundo/estadios-Copa-governo-populacao-brasileira_0_940705956.html. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[25] Nenhum aeroporto da Infraero ficará 100% pronto para a Copa. Folha de S. Paulo, 14 de maio de 2014. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/05/1454211-nenhum-aeroporto-da-infraero-ficara-100-pronto-para-a-copa.shtml. Acesso em: 10 de junho de 2014.
[26] Dilma inaugura metrô inacabado em Salvador. Folha de S. Paulo, 11 de junho de 2014. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/06/1468175-dilma-inaugura-metro-inacabado-em-salvador.shtml. Acesso em: 11 de junho de 2014.
[27] Prefeituras e Estados apelam ao improviso para esconder e maquiar atraso em obras. Folha de S. Paulo, 24 de maio de 2014. Disponível em:  http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/05/1459409-prefeituras-e-estados-apelam-ao-improviso-para-esconder-e-maquiar-atraso-em-obras.shtml. Acesso em: 11 de junho de 2014.


12/06/2014, 15:00:01


Copa das Copas
Homenagem aos jovens idealistas da Revolução de 1932

Neste dia 09 de Julho, celebramos mais um aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932, na qual São Paulo, o atual Mato Grosso do Sul, as tropas de Borges de Medeiros, no interior do Rio Grande do Sul, e muitos brasileiros, de Norte a Sul deste vasto País, se levantaram, como um só Homem, lutando, heroicamente, contra a ditadura de Getúlio Vargas.

Cumpre ressaltar que a maioria dos líderes da Revolução de 1932 era composta de liberais que queriam a restauração da Constituição de 1891 ou uma nova Constituição nos moldes daquela, essencialmente liberal e, como tal, contrária à alma nacional brasileira, e, como ponderou José Soriano de Souza, “inspirada pela Constituição dos Estados Unidos do Norte, e não poucas vezes dela copiada” [1], do mesmo modo que desejavam, como escreveu Goffredo Telles Junior, recuperar os postos perdidos em 1930 ou conquistar postos que sempre tinham almejado [2]. Ao contrário, porém, dos líderes daquele movimento revolucionário, os jovens combatentes das hostes constitucionalistas eram, como fez ver o próprio autor de A folha dobrada, idealistas sinceros [3], em sua esmagadora maioria autênticos patriotas e nacionalistas, muitos dos quais tombaram naquele levante, “sonhando um Brasil maior”, como escreveu Miguel Reale na dedicatória de sua obra O Estado Moderno, de 1934 [4].

Muitos de tais jovens idealistas, patriotas e nacionalistas, como o próprio Miguel Reale, José Loureiro Júnior e Lafayette Soares de Paula, autor, aliás, da obra São Paulo um ano após a guerra [5], praticamente saíram das trincheiras da Revolução Constitucionalista de 1932 diretamente para as fileiras da Ação Integralista Brasileira (AIB), oficialmente fundada logo após o ocaso daquele movimento revolucionário, com o lançamento do denominado Manifesto de Outubro, de Plínio Salgado. Este, aliás, não apoiou a Revolução Constitucionalista de 1932, tanto pelo liberalismo da absoluta maioria de seus líderes quanto pelo fato de saber que nela São Paulo acabaria lutando praticamente sozinho, não tendo, pois, reais chances de derrotar as forças da ditadura varguista.

Isto posto, faz-se mister sublinhar que a Revolução de 1932 não foi um alçamento de caráter separatista, como, aliás, bem demonstrou o escritor Rui Ribeiro Couto, que depois da Revolução ingressaria na Ação Integralista Brasileira, no ensaio Espírito de São Paulo, escrito no Rio de Janeiro em julho daquele ano e publicado pelo poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, que igualmente vestiria a camisa-verde da AIB.

Como escreveu Ribeiro Couto no aludido ensaio, foi São Paulo, “na crônica remota, como nos seus dias do Império e da República, uma afirmação”, sem medo e sem mácula, “de brasilidade inteligente, de vontade construtora, de amor à ordem e à cultura”. Segundo o poeta de Um homem na multidão e romancista de Cabocla, não foi tão somente no campo das realizações práticas que se revelou o patriotismo dos filhos de São Paulo, mas também no terreno da vida moral e da vida política nacional, havendo corrido a progressão de sua riqueza “paralela à progressão de sua educação cívica e dos seus ideais” [6].

Ainda segundo o contista de Largo da Matriz e ensaísta de Sentimento lusitano e de Dois retratos de Manuel Bandeira, “o espírito de São Paulo, atento a todas as manifestações da vida nacional, não o arrastará nunca ao isolamento, mas sempre a uma preocupação sempre maior do bem do Brasil”. A vitalidade característica da Terra Bandeirante, nas palavras do escritor santista, “esteve sempre, estará sempre a serviço do país”. Destarte, em seu sentir, a acusação de separatismo, de “‘espírito separatista’” lançada contra São Paulo resulta, quando não de má-fé, de um completo desconhecimento das condições em que São Paulo se desenvolvia havia quatro séculos [7].

Isto posto, ainda se referindo à injusta acusação de separatismo dirigida contra São Paulo, assim fechou o exemplar diplomata e ilustre homem de Letras patrício o seu ensaio a respeito do “Espírito de São Paulo”:

“A essa injustiça São Paulo responde com o testemunho simples da realidade. Só não vê quem não quer. A História, aliás, não faltará com sua sentença no momento oportuno, no julgamento claro e definitivo das atitudes contemporâneas” [8].

Fechemos este breve texto salientando que hoje prestamos nossa sincera homenagem ao espírito patriótico e sadia e construtivamente nacionalista do povo de São Paulo e aos jovens idealistas que, imbuídos de tal espírito, pegaram em armas em prol de um Brasil Maior e Melhor, e não aos chefes liberais da Revolução de 1932.

Pelo Bem do Brasil!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 09 de Julho de 2014-LXXXI. 



Notas:
[1] Principios Geraes de Direito Publico e Constitucional. Recife: Casa Editora Empreza d'A Provincia, 1893, p. 4.
[2] A folha dobrada: lembranças de um estudante,Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999, p. 64.
[3] Idem, pp. 63-64
[4] O Estado Moderno: liberalismo, fascismo, integralismo, 2ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1934.
[5] São Paulo um ano após a guerra – 1932-1933, Rio de Janeiro, Calvino Filho, Editor, 1934.
[6] Espirito de São Paulo, Rio de Janeiro, Schmidt, Editor, 1932, p. 66.
[7] Idem, p. 67.
[8] Idem, pp. 67-68.


09/07/2014, 19:11:17


Algumas palavras no aniversário da Revolução de 1932
Nacionalismo no Mundo: Forza Nuova!

Roberto Fiore já era uma lenda do nacionalismo europeu antes mesmo de fundar em 1997 o Forza Nuova juntamente com o seu amigo, o igualmente lendário músico nacionalista Massimo Morsello. A vida de Fiore poderia facilmente inspirar um romance de aventuras. Ativo politicamente desde 1973, ele funda em 1976 - juntamente com outros militantes - o Lotta Studentesca com o objetivo de agrupar os estudantes partidários de um nacionalismo de Terceira Via. Em 1978 o nome do movimento muda para Terza Posizione, expressando assim a sua natureza igualmente contrária ao comunismo e ao capitalismo.

Entretanto, a Itália vivia então os chamados “anos de chumbo”, em que grupos terroristas de esquerda realizavam seguidos atentados à bomba e assassinatos. A isso se somavam atuações clandestinas pouco claras envolvendo grupos armados de direita, os serviços de inteligência italiano e norte-americano, a máfia e a então poderosa Loja Maçônica P2, em um momento da História da Itália que ainda necessita ser totalmente desvendado. Nesse contexto, alguns integrantes Terza Posizione, sem conhecimento da liderança do movimento – que incluía Fiore – se envolveram com o Nuclei Armati Rivoluzionari (NAR), grupo armado direitista que praticava ações extremamente violentas. Em dezembro de 1979 três integrantes do Terza Posizione são presos com grande número de armas. A isso se segue algo ainda pior: investigações relacionadas ao atentado de Bolonha, em 1980, que matou 85 pessoas, apontam para uma ação do NAR em colaboração com integrantes do Terza Posizione. Embora até hoje não se saiba exatamente quem ordenou aquele ataque, a promotoria italiana expede mandados de prisão para toda a liderança do Terza Posizione, obrigando muitos líderes do grupo – incluindo Fiore – a procurarem asilo no Reino Unido. O governo britânico, percebendo que as acusações italianas não possuíam fundamento, concedeu asilo aos refugiados. Em Londres, Fiore trabalhou em estreita colaboração com o seu amigo britânico Nick Griffin no fortalecimento dos movimentos europeus de Terceira Via.

Em 1999, com a prescrição das acusações, Fiore e Morsello retornam a Roma e assumem a liderança do movimento que haviam fundado ainda no exílio. Em 2001, o Forza Nuova sofre com o impacto do falecimento precoce de Massimo Morsello, mas, sob a firme liderança de Fiore, o movimento se fortalece. Atualmente, o Forza Nuova é o principal movimento nacionalista italiano, fortemente influenciado pelas ideias do romeno Corneliu Zelea Codreanu, fundador da Legião do Arcanjo Miguel. Nas eleições parlamentares de 2013 conseguiu aproximadamente 90.000 votos, resultado modesto, mas superior aos dos demais partidos nacionalistas italianos.  

Com esta entrevista, pretendemos possibilitar que os leitores integralistas conheçam o pensamento desse personagem que vem marcando a história do nacionalismo italiano desde o último quarto do século XX.

 

***

 

Você e o Massimo Morsello fundaram, em 1997, o Forza Nuova, atualmente o mais importante movimento nacionalista italiano. Mas, antes, você participou de outro movimento que era conhecido por toda a Europa: o Terza Posizione. Você pode falar um pouco a respeito do Terza Posizione para os leitores brasileiros? O que distingue o Forza Nuova em relação ao Terza Posizione? Podemos dizer que o Forza Nuova é o Terza Posizione mais maduro?

Podemos dizer que há uma forte ligação entre os dois movimentos, não somente pela minha presença e a de outros dirigentes do Forza Nuova que provém do Terza Posizione, mas também pela irredutível luta contra o sistema, sempre conduzida em termos políticos absolutamente radicais. Assim como existe um fechamento total e radical do sistema em relação ao Forza Nuova porque ele é a continuação histórica de algo que nasceu muitos anos antes. A única diferença real entre o Forza Nuova e o Terza Posizione é o posicionamento católico do movimento forzanovista, amadurecido em décadas de busca espiritual.

 

Roberto Fiore, fundador do Forza Nuova, em entrevista à imprensa italiana. (Reprodução/IlPaesano)

Vimos um fortalecimento de partidos nacionalistas das mais variadas tendências na recente eleição para o Parlamento Europeu, incluindo dos gregos do Aurora Dourada, próximos ao Forza Nuova. Podemos dizer que estamos assistindo um novo despertar europeu? E a Itália? O que falta para um melhor desempenho eleitoral do nacionalismo italiano?

Há um forte despertar do patriotismo e do radicalismo político, mas o sistema se defende e, enquanto cede em alguns países como Hungria e Grécia (aqui, entretanto, a reação do sistema é fortíssima no momento), não recua em nada na Itália, Espanha, Inglaterra ou Alemanha porque o sistema europeu não pode permitir uma revolução nessas nações. Na França a situação é outra, mas é um assunto a ser discutido separadamente.

Uma característica do Forza Nuova e que o distingue da maioria dos demais movimentos nacionalistas italianos e europeus é o profundo apego às tradições espirituais católicas do povo italiano. Entretanto, os governos europeus – com apoio de setores da própria igreja – tem adotado uma política suicida de permitir a entrada de imigrantes provenientes de países culturalmente muito distantes da europeia. Qual é o tamanho da ameaça representada pela imigração maciça de povos não-cristãos para a civilização europeia e para os valores cristãos, e porque as elites europeias – incluindo muitos na hierarquia da Igreja – são cúmplices nesta invasão?

A História da Europa é uma história de fidelidade e traição, de soldados anônimos que morrem pela Pátria e elites que a traem. A imigração, o declínio populacional, os abortos, têm como objetivo, além de enfraquecer a Itália moralmente, a destruição em termos concretos e numéricos do nosso povo. As elites traem, os povos decaem, mas a verdadeira aristocracia, aquela do espirito, reage, luta, se sacrifica e salva a Europa e a Cristiandade da morte certa.

Podemos perceber que em momentos de crise econômica algumas pessoas desenvolvem tendências egoístas e contrárias ao espírito de solidariedade nacional e passam a defender a secessão de regiões mais ricas do país. Isso acontece no Brasil, onde de tempos em tempos certas pessoas retornam com o discurso de independência do Sul, e, acredito, na Itália. Os movimentos que querem a independência de Veneza ou da fictícia Padaria são de fato ameaças à integridade territorial italiana? Ou na Itália esses grupos – assim como no Brasil – não possuem representatividade junto à opinião pública?

A Padania não existe, é uma criação artificial que não existe na historia italiana. Outra coisa é o Veneto, terra sempre leal a Roma, mas, com razão, exigente. Os habitantes da região estão fartos de ver os seus empresário morrerem cometendo suicídio, a imigração devastar cidades como Pádua ou Mestre e da classe política italiana não se importar minimamente com eles. Por esta razão muitos falam de independência, mas, na realidade, o sofrimento deles é similar ao de milhões de italianos de outras regiões.

Temos acompanhado, desde 2008, a crise do sistema capitalista em todo o mundo, principalmente nos chamados países desenvolvidos. O capitalismo, baseado na busca desenfreada do lucro, parece estar gradualmente ruindo. É possível uma economia mais solidária? Em quais bases? A crise do capitalismo pode ser também a crise da sua contraparte política, o sistema liberal?

Em 1989 morreu o comunismo e em 2009 morreu o capitalismo. Ninguém acredita mais nestes sistemas, que criaram somente injustiça e sofrimento. O enriquecimento geral de muitos povos e certa distribuição das riquezas não vem do capitalismo, mas da filosofia cristã que permeou o mundo civil e que não permite aos detentores da riqueza pensar em enriquecer sem pensar nos próprios velhos, no futuro dos filhos ou nas pessoas desfavorecidas.

O Capitalismo está morrendo em decorrência da sua própria evolução financeira e usurária que, como um câncer, está levando à morte as economias, apesar de haver abundância no mundo graças às descobertas científicas. Todos os povos poderiam viver bem, se não fosse por aquelas teorias econômicas que conduzem ao extremo enriquecimento de poucos e ao empobrecimento de muitos.

Militantes do Forza Nuova durante manifestação contra a crise econômica, que na visão do movimento foi causada pelos bancos com a cumplicidade dos partidos políticos e os políticos do país.

Sabemos que grandes partidos nacionalistas de vários países europeus, para tentar provar que não são «nazis», terminaram por apoiar outro tipo de racismo, o sionismo. Como você analisa esta deriva sionista de muitos nacionalistas europeus?

Muito simples. O sionismo é um mal que deve ser combatido, é uma ideologia que conduz à guerra e aos abusos, é um verdadeiro racismo que pretende transformar uma nação, a hebraica, em um deus. Só podemos apoiar os palestinos e defender a formação de uma pátria palestina que, como a Suiça, defenda as diferentes religiões e os diferentes povos, incluido o hebreu.

A crise na Ucrânia tem provocado intenso debate no interior dos movimentos nacionalistas em todo o mundo. A maioria dos nacionalistas tem apoiado o governo russo e as comunidades russas na Ucrânia contra o governo de Kiev apoiado pelo ocidente. Entretanto, outros mantiveram o apoio aos ucranianos em função da simpatia pelos movimentos nacionalistas desse país, como o Pravy Sektor. Como o Forza Nuova se posiciona nessa crise? 

Quando eclodiu a revolta contra o Yanukovich, ficamos ao lado do Svoboda, pois sabíamos que ele não representava os interesses russos; na verdade, ele era um traidor a soldo dos americanos.

Mas quando a América e certos setores europeus se lançaram ​​contra a Rússia, provocando-a continuamente para fazê-la cair em uma armadilha, saímos em defesa da Rússia e denunciamos politicamente grupos como o Pravy Sektor por estarem totalmente alinhados com aqueles que queriam a guerra. Mas a Rússia de Putin soube jogar xadrez, tomou, de maneira justa, a Criméia e está possibilitando que os russos do leste possam defender-se da brutal agressão do governo de Kiev.

Se o Svoboda compreender que ele mesmo está caindo em uma armadilha a situação poderá normalizar-se; caso contrário, os ventos da guerra serão ainda mais fortes e nós estaremos ao lado do Putin.

Há uma grande discussão nos movimentos nacionalistas da Europa e da Ibero-América a respeito dos regimes “nacionalistas” - inspirados no bolivarianismo venezuelano e o seu “socialismo do século XXI” - implantados hoje em países da América Latina, como a própria Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua. Para alguns, esses regimes estariam baseados em uma proposta nacionalista de Terceira Via. Para outros, são uma variação mais ou menos disfarçada do velho comunismo cubano. Qual a sua opinião a respeito deste tema?

Pergunta interessante, porém complexa. influências peronistas nesses movimentos, mas também uma forte veia marxista. Paradoxalmente, a chave passa pela visão de sociedade. Somos contra ou a favor do casamento gay e do aborto? Somos contra ou a favor do liberalismo rockfelleriano que está invadindo a América Latina? Sobre estes temas se joga o futuro; de qualquer maneira, estamos muito interessados em conhecer a opinião de vocês.

Gostaria de enviar uma mensagem aos militantes da Frente Integralista Brasileira?

A Europa conta muito sobre o vosso posicionamento antiamericano e católico, de liberdade verdadeira e de antiliberalismo, de terceira posição e de orgulho popular. Se penso na liberdade da América Latina e nos seus heróis, não penso em Che Guevara ou em Simón Bolívar, mas antes em Evita Perón, Gabriel García Moreno e nos mestres do integralismo brasileiro.


*

Alexandre Villacian
Um dos dirigentes do núcleo de Curitiba (PR), Alexandre é também coordenador da Secretaria de Relações Internacionais da Frente Integralista Brasileira.

Marina Inglese (Tradução)
Ítalo-brasileira residente na Itália, Marina é militante do Forza Nuova e participa ativamente das relações entre o Forza Nuova e a Frente Integralista Brasileira.


Nota:
[1] A página do Forza Nuova pode ser acessada pelo seguinte endereço: http://www.forzanuova.org/


16/07/2014, 11:55:29


Nacionalismo no Mundo: Forza Nuova!
Relembrando uma conversa com Plínio de Arruda Sampaio

Faleceu, no último dia 08 de julho, nesta Capital, o Dr. Plínio de Arruda Sampaio, em quem, a despeito das profundas divergências religiosas, filosóficas e políticas que nos separam, reconhecemos um homem de sincera Fé e de igualmente sincero amor à Pátria e ao Povo brasileiro, além de um intelectual que sempre nos pareceu dos mais honestos e corajosos que a chamada “esquerda” já produziu neste País. Tal honestidade e tal coragem foram, aliás, demonstradas na entrevista que concedeu, há alguns anos, ao hoje extinto blogue “Bombordo”, ao assim falar a respeito de Plínio Salgado:

“Ele era um escritor fantástico. Eu tinha divergências políticas e teóricas com ele, mas o respeitava muito. O mais incrível é a força desse nome: Plínio Salgado morreu há mais de trinta anos e ainda confundem meu nome com o dele.”

Alguns anos depois de havermos lido a aludida entrevista, que infelizmente se perdeu com a extinção do blogue “Bombordo”, tivemos a oportunidade de conversar, por cerca de meia hora, com o Dr. Plínio de Arruda Sampaio, no auditório da Faculdade Santa Marcelina, nesta cidade de São Paulo. Tal conversa se deu em agosto do ano de 2010, logo após o término do debate promovido pelas redes de televisão Canção Nova e Aparecida, de que participaram três dos quatro candidatos à Presidência da República mais bem colocados nas pesquisas eleitorais, a saber, José Serra, Marina Silva e ele, Plínio de Arruda Sampaio, não havendo a candidata Dilma Rousseff comparecido, segundo este último, por medo de certas perguntas que lhe seriam feitas.

Durante a conversa que tivemos com o Dr. Plínio de Arruda Sampaio, e da qual tomaram parte outros companheiros nossos, falamos principalmente sobre Plínio Salgado e o Integralismo.

Ao tratar de Plínio Salgado, Plínio de Arruda Sampaio uma vez mais ressaltou o profundo respeito que tinha por ele, a despeito das divergências políticas e “teóricas” que os separavam, e novamente sublinhou o quão inacreditável é a força do nome de Plínio Salgado, com quem já diversas vezes fora confundido. Do mesmo modo, afirmou mais uma vez que considerava Plínio Salgado um “escritor fantástico”, dizendo que concordava com Rachel de Queiroz no sentido de que O estrangeiro se constitui no primeiro romance, em importância, do modernismo literário brasileiro, maior, segundo ele, que os romances de Oswald de Andrade não apenas literariamente como também pela sua preocupação social. Eram, porém, os livros religiosos de Plínio Salgado a parte da obra deste escritor e pensador patrício mais apreciada por Arruda Sampaio, estando a Vida de Jesus, Primeiro, Cristo! e A imagem daquela noite, segundo suas palavras, entre seus livros de cabeceira.

Outra obra de Plínio Salgado à qual Plínio de Arruda Sampaio não poupou elogios foi Espírito da burguesia. Aliás, salientou ele que grande parte de seu respeito por Plínio Salgado e pelo Integralismo decorria do fato de serem estes antiburgueses e, como tais, antiliberais. Bem me lembro que, antes mesmo de falar sobre tal obra, proferiu ele a seguinte frase: “Eu respeito muito os integralistas, pois eles não são burgueses."

Plínio de Arruda Sampaio ressaltou, ainda, na referida conversa, como pontos positivos do pensamento pliniano e integralista, o nacionalismo, a defesa do conceito de Função Social da Propriedade e o combate ao racismo, e evocou o fato de que grandes brasileiros pertenceram às fileiras da Ação Integralista Brasileira (AIB), incluindo seu amigo Goffredo Telles Junior, que, como salientou, foi, até o fim de seus dias, um profundo admirador de Plínio Salgado e de sua obra, como fica claro, aliás, em seu livro de memórias, intitulado A folha dobrada.

Não foi, contudo, apenas a respeito de Plínio Salgado e do Integralismo que nos falou o Dr. Plínio de Arruda Sampaio. Falou-nos ele, com efeito, também sobre o comunismo, o marxismo e o socialismo, afirmando que jamais fora comunista ou marxista e que infelizmente seu partido, o PSOL, quase só tinha marxistas, que, a exemplo de seu mestre, Karl Marx, eram ateus e materialistas. E, por fim, expôs sua posição a respeito da questão do aborto, deixando claro que divergia da Igreja e de nós em tal questão tanto quanto divergia da Igreja e de nós na questão do socialismo, sendo, pois, um defensor da legalização de tal crime, ainda que moralmente o condenasse.

Já nos havendo estendido além do que inicialmente pretendíamos, encerramos aqui o presente texto, manifestando nossos votos de que a alma do Dr. Plínio de Arruda Sampaio receba o perdão do Pai Celeste por seus erros, podendo, um dia, contemplar, no Paraíso, a Divina Face, assim como externando nossos votos de que os intelectuais da “esquerda”, assim como os liberais e mesmo alguns tradicionalistas, sigam, no futuro, o exemplo deste homem em matéria de honestidade intelectual e de coragem mental.

Por Cristo e pela Nação!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 19 de julho de 2014-LXXXI.


25/07/2014, 10:27:50


Relembrando uma conversa com Plínio de Arruda Sampaio
Orientação Eleitoral aos Integralistas

Parece hoje evidente que, principalmente desde o final do Regime Militar, está em curso um projeto de paulatina instauração de um Estado totalitário no Brasil, em que todos os Governos ditos Civis deram sua contribuição.

No campo eleitoral, diversos Partidos de esquerda aparentam disputar entre si, mas, de fato, formam um bloco ideológico, que está desgovernando o País.

Assim, cabe-nos apenas relembrar o que dissemos nas Orientações Eleitorais anteriores, e que é apenas repetição da Orientação Histórica do Movimento, desde 1932: Os Integralistas não podem apoiar direta ou indiretamente quaisquer Partidos comunistas ou socialistas. Portanto, cada Integralista, que é um Eleitor Consciente do Valor do seu Voto, deverá examinar aqueles Candidatos que se oferecem a sua escolha, rejeitando todos os que uma vez Eleitos vão cooperar, direta ou indiretamente, para a implantação de um Regime totalitário marxista em nossa Terra.

Igualmente, ressaltamos que aqueles Candidatos comprometidos parcial ou totalmente à agenda globalista do capitalismo financeiro internacional, em hipótese alguma poderão ser sufragados pelos Integralistas. O Integralismo é visceralmente contrário ao liberalismo, em todas as formas que possa assumir, com seu amoralismo dissolvente, o seu falso conceito de liberdade, seu individualismo exacerbado que é incompatível com o autêntico Conceito de Pessoa Humana, com a plutocracia se fingindo de Democracia, com seu agnosticismo (a forma mais torpe de materialismo), enfim, com o seu espírito burguês corruptor de todas as Nacionalidades.

Os demais Candidatos deverão ser examinados à luz da Doutrina Integralista, e, encontrando-se algum que se aproxime dos nossos Princípios, a este deve ser dado o Voto. Obviamente, havendo Candidato Integralista, este deve ser Votado pelos Camisas Verdes.

A Direção Nacional da Frente Integralista Brasileira – FIB -, à guisa de sugestão aos Companheiros, poderá emitir um Documento específico recomendando Candidatos. Neste caso, antecipamos que tais Candidatos já foram examinados exaustivamente pela Direção Nacional e merecem a confiança de todos os Integralistas.


Sérgio de Vasconcellos
Secretário Nacional de Doutrina e Estudos da Frente Integralista Brasileira
São Paulo, 28 de Agosto de 2014
Ano LXXXI da Era Integralista


18/09/2014, 14:37:19

Achilles Lima, in memoriam

Integralistas! No último sábado, dia 27 deste mês de setembro, entregou seu espírito a Deus, Criador e Sumo Regente do Universo, nosso companheiro Achilles Lima (13/09/1963 - 27/09/2014), que passa a integrar a Milícia do Além e, caso se confirmem nossas suspeitas, também o rol dos Mártires do Integralismo.

Barbaramente assassinado, em circunstâncias ainda não de todo esclarecidas, no município pernambucano de Paulista, na região metropolitana do Recife, onde residia, o Companheiro Achilles Lima tinha cinquenta e um anos de idade, era formado em Direito pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, da Universidade Federal de Pernambuco, e há anos trabalhava como Comissário da Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco. Ex-Presidente da seção pernambucana da Frente Integralista Brasileira (FIB), este bravo e exemplar soldado de Deus, da Pátria e da Família escreveu definitivamente seu nome nos anais da História do Movimento do Sigma.

Esperamos, de todo o coração, que o sangue derramado pelo companheiro Achilles Lima, que caiu sonhando um Brasil Maior, seja a semente de novos combatentes de Cristo e da Nação, que, como ele, marchem, sob as trevas da caliginosa noite materialista, lutando pela Aurora do Espírito, pela Idade Nova, pelo Novo Império que, segundo supomos, nascerá das ruínas e das cinzas da periclitante civilização liberal-burguesa, sob as bênçãos de Deus, Ser Supremo, Necessário e Absoluto, Sumo Bem e Princípio e Fim de todas as coisas.

Farei a chamada do companheiro Achilles Lima. Antes, contudo, peço um minuto de concentração em homenagem ao companheiro de Ideal tão tragicamente falecido.

À direita o Companheiro Achilles Lima, em 2010, durante coleta de cestas básicas destinadas a doação para as vítimas das enchentes ocorridas em Alagoas e Pernambuco. (Reprodução/FIB-PE)

Companheiro Achilles Lima! Presente! No Integralismo ninguém morre. Quem entrou neste Movimento imortalizou-se no coração dos camisas-verdes, arautos e guerreiros de Deus e da Pátria, homens novos do nosso Brasil, que, segundo esperamos, um dia erguerão um Grande Império.

Ao companheiro Achilles Lima três Anauês!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 30 de Setembro de 2014-LXXXI.


30/09/2014, 11:19:00


Pela retirada das obras blasfemas da Bienal de São Paulo
Nota de esclarecimento ao Portal Yahoo

No artigo Quem são os bandidos que batem em jornalistas e pedem o “impeachment” de Dilma, publicado em seu blog no Portal Yahoo, a jornalista e militante “esquerdista” Laura Capriglione associou a Frente Integralista Brasileira (FIB) a “predadores neonazistas” que, segundo ela, espancam homossexuais e negros nas ruas de São Paulo, e classificou esta associação como uma “contrafação de organização nazista”.

Profundamente revoltados com tais afirmações, que revelam, com efeito, completo desconhecimento a respeito do Integralismo e da Frente Integralista Brasileira, escrevemos o presente texto manifestando nosso total repúdio às absurdas e injuriosas afirmações da referida jornalista, passando a repetir, uma vez mais, a verdade sobre o Integralismo. A verdade sobre o Integralismo é, aliás, o nome de um pequeno grande livro de Jayme Ferreira da Silva [1] que a autora do supramencionado artigo deveria ler antes de associar o Integralismo ao nacional-socialismo, confundindo duas doutrinas e dois movimentos cívico-políticos muito diversos.

Ao contrário do nacional-socialismo alemão, essencialmente racista, o Integralismo sempre pregou a união de todas as etnias, partindo do pressuposto de que, como sublinhou Plínio Salgado, “o problema do mundo é ético e não étnico” [2]. Ademais, o chamado Manifesto de Outubro,documento inaugural do Integralismo, escrito por Plínio Salgado e lançado a 07 de Outubro de 1932, condena veementemente o racismo, nele sendo duramente criticados os pequenos e grandes burgueses citadinos do Brasil, que são, em regra, cosmopolitas que desconhecem “os pensadores, os escritores, os poetas nacionais” e vivem a “engrandecer tudo o que é de fora, desprezando todas as iniciativas nacionais” e se envergonhando “do caboclo e do negro de nossa terra”. Não conhecendo, nas palavras de Plínio Salgado, “todas as dificuldades e todos os heroísmos, todos os sofrimentos e todas as aspirações, o sonho, a energia, a coragem do povo brasileiro”, vivem tais burgueses “a cobri-lo de baldões e de ironias, a amesquinhar as raças de que proviemos” [3].

Plínio Salgado, que já em 1934 denunciou a “guerra” movida aos judeus, na Alemanha, pelos nacional-socialistas, segundo ele inspirada, em seus exageros, “pelo paganismo e pelo preconceito de raça” [4], que condenava integralmente, escreveu, em dezembro do ano seguinte, a célebre Carta de Natal e fim de ano, em que voltou a atacar o nacional-socialismo hitlerista, denunciando suas tendências racistas, totalitárias e pagãs e o endeusamento do Führer [5].

Em 14 de fevereiro de 1936, foi publicado, no jornal integralista A Offensiva, do Rio de Janeiro, o artigo Nacional-Socialismo e Cristianismo Social, de Plínio Salgado, do qual destacamos o seguinte trecho, que mostra a posição oficial do Integralismo a respeito do chamado nazismo:

No caso da Alemanha, não tenho dúvida (pelo que tenho lido nos livros nazistas, notadamente no livro de Hitler – Minha Luta – e pelo que tenho deduzido das medidas e iniciativas governamentais), que o governo hitlerista está, sem dúvida alguma, infringindo as mais sagradas leis naturais e humanas e dando lugar a que católicos, ciosos do livre arbítrio e da intangibilidade do homem e de sua família, se rebelem contra o Estado. (...) O ascetismo, a mística, (...) a super-humanização do tipo do Fuehrer, a sua divinização ao ponto de o considerarem, os mais exaltados, a encarnação de Odin, exprime um artificialismo político que foge de toda a base e equilíbrio da razão humana. Nós, os integralistas, que somos coisa absolutamente diferente do nazismo e do fascismo, não nos cansamos de dizer que o nosso fundamento é cristão [6].

Isto posto, cumpre ressaltar que não apenas Plínio Salgado, mas todos os principais pensadores integralistas condenaram o racismo nacional-socialista. No artigo Nós e os fascistas da Europa, publicado na edição de abril-maio de 1936 da revista Panorama, de São Paulo, Miguel Reale, logo após deixar claro que o Integralismo não aceitava a tese nazista da superioridade racial, escreveu que

Nós brasileiros devemos nos libertar do jugo do capitalismo financeiro e do agiotarismo internacional, sem que para isso abandonemos os princípios éticos para descambarmos até aos preconceitos racistas. A moral não permite que se distinga entre o agiota judeu e o agiota que diz ser cristão; entre o açambarcador que frequenta a Cúria e o que frequenta a Sinagoga. O combate ao banqueirismo internacional e aos processos indecorosos dos capitalistas sem pátria, justifica-se no plano moral. E quando a pureza da norma ética está conosco, não se compreende bem qual a necessidade de outras justificações, que podem ser de efeito, mas que certamente são discutíveis [7].

Do mesmo modo, Gustavo Barroso, principal doutrinador integralista depois de Plínio Salgado, também condenou duramente o racismo e o totalitarismo e fez diversas críticas ao denominado nazismo, assim como ao fascismo italiano, ressaltando que estes são muito diferentes do Integralismo, cada um deles tendo sua “doutrina própria” e obedecendo “a realidades humanas diferentes, que só os ignorantes ou os de má-fé negam ou escondem” [8].

Como observamos algures [9], os integralistas sempre tiveram plena consciência de que as pretensamente científicas teorias racistas tinham, como já apontara Alberto Torres, “natureza política” [10], não passando de um instrumento das nações economicamente desenvolvidas da Europa e da América do Norte para justificar o domínio dos povos por eles julgados inferiores. Estando, ademais, no dizer de Alberto da Costa e Silva, entre os “mais atentos leitores” do autor de O problema nacional brasileiro e de A organização nacional, não puderam os integralistas deixar de fazer constar de sua agenda “a valorização do mestiço e a dignificação do negro” [11].

Ainda sobre a posição antirracista do Integralismo, cumpre evocar o testemunho de Gilberto Freyre, que, em Uma cultura ameaçada – a luso-brasileira, faz referência ao geógrafo nacional-socialista alemão Reinhard Maack, que, atacando o Integralismo, afirmara, com indignação, que um dos “chefes teuto-brasileiros” da Ação Integralista Brasileira havia proclamado, em discurso proferido na cidade de Blumenau que, “na época de completa fraternização de toda a família brasileira num Estado integral, não haverá mais diferenças de raça e de cor”. No entender de Freyre, tal posição seria “um dos pontos simpáticos e essencialmente brasileiros do programa daquele movimento”, isto é, do Movimento Integralista, enquanto para Maack seria a “heresia das heresias” [12].

É mister salientar que o Integralismo não apenas sempre condenou o racismo, como também sempre teve negros em suas fileiras, contando-se aos milhares os descendentes de africanos que vestiram a camisa-verde da Ação Integralista Brasileira na década de 1930, havendo muitos deles ocupado posições de liderança. Dentre os negros ilustres que militaram no Movimento Integralista, reunindo-se à sombra da bandeira azul e branca do Sigma, podemos destacar, dentre outros, o “Almirante Negro” João Cândido, líder da chamada Revolta da Chibata; o ativista negro, teatrólogo, escritor e artista plástico Abdias do Nascimento; o sociólogo Guerreiro Ramos; o escritor e militante negro Sebastião Rodrigues Alves; o professor de Direito, escritor e membro da Academia Sul-Riograndense de Letras Dario de Bittencourt, que chegou a ser Chefe Provincial da AIB no Rio Grande do Sul, e o jornalista, escritor, advogado, militante negro e professor Ironides Rodrigues, que durante anos assinou uma coluna sobre cinema no jornal integralista A Marcha, dirigido por Gumercindo Rocha Dorea.

Cumpre enfatizar, ademais, que sempre foram excelentes as relações da Ação Integralista Brasileira com a Frente Negra Brasileira (FNB), maior movimento negro da História do Brasil e de toda a América Hispânica, que teve como principal líder Arlindo Veiga dos Santos, também Chefe Geral da Ação Imperial Patrianovista Brasileira (AIPB). O jornal da FNB, intitulado A voz da Raça, chegou, aliás, a ter como epígrafe o lema “Deus, Pátria, Raça e Família”, muito parecido, com efeito, com o lema integralista “Deus, Pátria e Família”.

A Frente Integralista Brasileira, que leva adiante o facho do Integralismo, também tem em suas fileiras vários negros e lançou, aos 13 de maio de 2009, o chamado Manifesto de 13 de Maio, que condena o racismo e assim principia:

O Integralismo, movimento cívico, político, cultural e social alicerçado numa visão integral do Universo e do Homem, luta pela edificação de um Estado Ético e de uma Democracia Orgânica e condena, à luz dos ensinamentos do Evangelho e de pensadores como Alberto Torres, todas as teorias defensoras da superioridade de determinadas etnias sobre outras. Defende, a Doutrina do Sigma, portanto, que o nosso povo é tão capaz quanto qualquer outro e que o Brasil deve se tornar efetivamente uma Democracia Étnica onde brancos, negros, índios, orientais, caboclos, mulatos, cafuzos e demais mestiços vivam em harmonia e em igualdade de deveres e de direitos em face da Sociedade e do Estado.

Os Integralistas, partidários da harmonia social e étnica que somos, rejeitamos tanto a luta de classes quanto a luta de “raças” e fazemos nossas as palavras de Plínio Salgado, criador, Chefe perpétuo e principal doutrinador do Integralismo Brasileiro, quando preleciona que “o problema do mundo é ético e não étnico” [13].

Também houve e há judeus nas hostes do Movimento do Sigma, sendo o mais célebre deles o Dr. Aben Athar Neto, fundador do Centro Oswaldo Spengler e Chefe do Departamento Universitário e depois Secretário Provincial de Propaganda da AIB no Rio de Janeiro. Como fez ver o ilustre diplomata e escritor Rui Ribeiro Couto, célebre autor de Cabocla, O jardim das confidências e Baianinha e outras mulheres e um dos próceres do Integralismo, em entrevista ao Diário de Notícias de Lisboa, os integralistas não admitimos “a menor animosidade contra quaisquer raças” e reconhecemos no “judeu integrado na consciência do país” um “formidável elemento de ação realizadora na formação nacional” [14].

São, pois, absurdas a afirmações de que a FIB se constitui em uma “contrafação de organização nazista” e de que membros seus agridem negros nas ruas, assinando um atestado de profunda ignorância ou de completa má-fé aquele que repeti-las. O mesmo podemos dizer a respeito da afirmação de que integralistas agridem homossexuais, pois condenamos as práticas homossexuais como contrárias à Lei Natural e à Lei Divina e, por conseguinte, à Lei Eterna, de que estas duas formas de Lei são expressões, mas igualmente condenamos qualquer agressão ou discriminação injusta contra qualquer pessoa.

Ressaltamos que nenhum membro da FIB jamais agrediu qualquer jornalista, da mesma forma que sublinhamos que, alicerçados nos ensinamentos de Santo Tomás de Aquino, aceitamos a violência física apenas nos casos de legítima defesa, de guerra justa e de resistência legítima contra governos injustos. Salientamos, ainda, que a FIB não acredita na possibilidade de um impeachment de Dilma Rousseff no atual cenário brasileiro, assim como julga que tal impeachment pouco alteraria a situação do País.

Encerramos estas linhas na esperança de que Laura Capriglione pare de nos atacar por aquilo que não somos e não fazemos, passando a nos atacar, caso deseje, por aquilo que realmente somos e fazemos. Se, mesmo depois de haver lido estas linhas, a referida jornalista nos atacar por aquilo que não somos e não fazemos, estaremos certos de que ela não é intelectualmente honesta, como, aliás, a maioria dos “esquerdistas”, caracterizada, antes de tudo, pela completa desonestidade intelectual.


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira,
São Paulo, 06 de dezembro de 2014-LXXXII.



Notas:
[1] A verdade sobre o Integralismo, 2ª edição, São Paulo, Edições GRD, 1996.
[2] Trechos de uma carta, In Panorama, Ano I, Nº 4 e 5, São Paulo, abril-maio de 1936, p. 5. Também disponívelem: http://pliniosalgado.blogspot.com/2011/02/trechos-de-uma-carta-plinio-salgado-em.html. Acesso em 01 de dezembro de 2014. Carta originalmente escrita em 24 de abril de 1934.
[3] de Outubro. Disponível em:  http://www.integralismo.org.br/?cont=75. Acesso em 01 de dezembro de 2014.
[4] Trechos de uma carta, cit.
[5] Carta de Natal e fim de ano, O Integralismo perante a Nação, 4ª edição, in Obras completas, 2ª edição, vol. IX, São Paulo, Editora das Américas, 1957, pp. 142-143. A Carta de Natal e fim de ano foi originalmente publicado em 25 de dezembro de 1935 no jornal A Offensiva, do Rio de Janeiro, e a obra O Integralismo perante a Nação foi lançada no ano de 1945.
[6] Apud Jayme Ferreira da SILVA, A verdade sobre o Integralismo, cit., pp. 29-30.
[7]Nós e os fascistas da Europa, in Obras políticas (1ª fase – 1931-1937).Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1983, p. 231-232.
[8] A Sinagoga Paulista, 3ª edição, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1937, p. 176.
[9] Posição do Integralismo em face do racismo. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=219. Acesso em 02 de dezembro de 2014.
[10] O problema nacional brasileiro, 3ª ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional, Brasília, INL, 1978, p. 58.
[11] Quem fomos nós no século XX: as grandes interpretações do Brasil, In MOTA, Carlos Guilherme (Org.), Viagem incompleta, A experiência brasileira (1500-2000): a grande transação,São Paulo, Editora SENAC, 2000, pp. 22-23.
[12] Uma cultura ameaçada: a luso-brasileira, 2ª edição, Rio de Janeiro, Casa do Estudante do Brasil, 1942, pp. 87-88.
[13] Victor Emanuel Vilela BARBUY, Manifesto de 13 de Maio. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=825&ox=4. Acesso em 02 de dezembro de 2014.
[14] In Milton TEIXEIRA, Ribeiro Couto, ainda ausente, São Paulo, Editora do Escritor, 1982, pp. 259-260.


07/12/2014, 13:15:57


Nota de esclarecimento ao Portal Yahoo
Mensagem de Natal e Ano-Novo

Companheiros! Tendo, uma vez mais, a honra e o privilégio de vos dirigir a palavra no limiar de um Natal e de um Ano-Novo, que, segundo esperamos, serão mais abençoados, santos e felizes do que aqueles que os precederam, enfatizamos que o ano de 2014 foi de considerável progresso para o Integralismo e a Frente Integralista Brasileira. Com efeito, o Movimento e a Doutrina do Sigma conquistaram vários novos adeptos e simpatizantes em todo o Brasil e mesmo fora dele e a Frente Integralista Brasileira se fortaleceu enquanto escola de civismo, de cultura e de política e como guardiã do rico legado cultural e moral de Plínio Salgado e da Ação Integralista Brasileira, bem como de outras instituições integralistas do passado.

O ano de 2015, em que celebraremos os cento e vinte anos do nascimento de Plínio Salgado, Chefe Perpétuo da Revolução Integralista, será, contudo, muito mais prolífico para o Movimento do Sigma do que foi este ano de 2014. Isto porque em 2015 deverão ser lançados diversos novos livros sobre o Integralismo e a respeito de alguns vultos do Movimento Sigmático, bem como obras de autores integralistas, do mesmo modo que deverão ser fundados novos núcleos da Frente Integralista Brasileira em diferentes regiões deste vasto Império da Terra de Santa Cruz.

Uma vez que vos dirigimos a palavra no umbral de um novo Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo e do início de um novo ano da Era Cristã, não podemos deixar de proclamar, uma vez mais, a realeza de Cristo, Mestre dos Mestres e Rei dos Reis, Imperador do Universo e princípio e fim de todas as coisas.

Nós, soldados de Cristo Rei e Redentor e da Nação Brasileira, hoje como ontem, temos a coragem de remar contra a corrente materialista e anticristã da hora que passa, erguendo bem alto a Cruz de Cristo e a bandeira azul e branca do Sigma e fazendo nossos os lemas “Primeiro, Cristo!”, de Plínio Salgado, e “Tudo instaurar em Cristo” (Intaurare omnia in Christo), do Papa São Pio X [2], este último tirado da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Efésios (Ef. 1, 10). Isto porque, como prelecionou o autor da Vida de Jesus, de Primeiro, Cristo! e de O Rei dos Reis, “Deus é a medida do Homem” [3], assim como de todas as coisas, e “o problema do mundo é espiritual” [4], sendo nosso dever proclamar o Primado do Espiritual sobre o político e o econômico [5], e, por conseguinte, igualmente proclamar, como o magno pensador, escritor e líder político patrício, que a salvação do Mundo se dará pela santificação das almas [6] e que “Jesus, o Cristo, o Filho de Deus Vivo, Mestre incomparável e Redentor do Mundo – é a chave de todos os problemas humanos” [7].

Nós, que, como Plínio Salgado, lutamos, com todas as nossas forças, pelo Reino de Cristo Rei, por quem sempre estaremos de pé [8], e que, ainda como o nosso Chefe Nacional, gritamos, também com todas as nossas forças, “que só a soberania de Cristo trará a verdadeira liberdade, conforme aos católicos da Colômbia disse Pio XII” [9], voltamo-nos, nesta véspera de Natal, para o Cristo, que é, como diz o Evangelho de São João, “o Caminho, a Verdade e a Vida” (João 14,6), bem como “o pão da vida” (João 6,35) e a fonte de “água viva”, capaz de saciar para sempre toda a sede de quem a bebe (João 4,10-14). E nos voltamos ao Filho do Homem, ao Divino Mestre, em cujas lições sempre procuramos nos inspirar, neste tempo em que impera, em todo o Orbe Terrestre, a inversão dos valores e a confusão dos espíritos, por termos plena certeza de que, como escreveu Plínio Salgado, na Carta de Natal e Fim de Ano, de 1935, é na lição de Jesus Cristo e apenas nela que podemos encontrar “a verdadeira linha do Estado, da Sociedade, da Família e do Homem, segundo suas finalidades próprias, seus limites próprios, sua própria essência” [10]. Daí proclamarmos, novamente como o grande apóstolo e bandeirante de Cristo Rei e Redentor e do Brasil Integral que foi e é Plínio Salgado, que o Estado Integral, a um só tempo anti-individualista e antitotalitário, que desejamos edificar no Brasil, é “o Estado que vem de Cristo, inspira-se em Cristo, age por Cristo e vai para Cristo” [11], e, parafraseando o autor de A imagem daquela noite, A aliança do sim e do não e A tua cruz, Senhor..., fazemos a seguinte profissão de Fé:

Eu creio em Deus Eterno, Criador e Sumo Regente do Universo; creio na Alma, no Espírito Imortal; creio no livre-arbítrio, no poder optativo, deliberativo da Alma Humana e em sua capacidade de interferir nos acontecimentos históricos, erguendo as multidões e conduzindo-as. Creio em Cristo Rei e Redentor, o Deus Filho, Soberano e Sumo Bem do Cosmos, e na Luz que d’Ele desce e resplende muito mais do que todas as auroras e crepúsculos deste Mundo. Creio que aqueles que O invocam, que Lhe suplicam inspiração, que Lhe pedem com humildade Fé, Esperança, Caridade, Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança, Sabedoria, escutam as misteriosas harpas dos anjos da milícia celeste que despertaram, uma noite, em Belém da Judeia, os homens simples e de boa vontade para que louvassem o Senhor, o Messias, o Rei dos Reis, que acabara de nascer numa manjedoura.

Por Cristo me levantei; por Cristo quero um Brasil grande e forte; por Cristo ensino a doutrina da solidariedade humana e da harmonia social e defendo a Família, cellula mater da Sociedade, o Município, cellula mater da Nação, e todos os demais Grupos Sociais Naturais; por Cristo vos conclamo; por Cristo vos conduzo; por Cristo batalharei, estando disposto a sacrificar a própria vida por Ele e pela Nação.

Na hora da perseguição, das dificuldades e das incertezas para nós e para a Terra de Santa Cruz, quero contar conVosco, ó Cristo! Na hora do triunfo, quero construir conVosco. E quando nos chamarem fracos, ó Cristo, eu Vos peço, dai-nos, do alto da Vossa Divina Glória, a Vossa Fortaleza! [12]

***

A civilização ocidental de nossos dias é essencialmente materialista, cientificista, tecnicista, epicurista e capitalista, nela reinando, em lugar do Cristo, Mamon e o Bezerro de Ouro. Daí ser um crime se chamar tal civilização de cristã, como bem assinalou Plínio Salgado [13], que percebeu a grande necessidade que temos de uma profunda “revolução nos costumes, de sorte a repor a sociedade de hoje nas bases do espírito cristão” [14], ou, em outras palavras, uma Revolução que restaure a autêntica Civilização Cristã sobre os escombros da civilização ocidental moderna.

Talvez o primeiro passo de tal Revolução seja a restauração do verdadeiro espírito do Natal, que é o aniversário natalício de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo e Redentor do Homem, e não a festa materialista do “Papai-Noel bonachão” e da árvore cheia de presentes caros para crianças ricas e contentes de que nos falou Alfredo Leite num de seus belos e tocantes poemas natalinos [15].

Havendo mencionado o nome de nosso ilustre companheiro Alfredo Leite, reputamos ser mister assinalar que é ele um dos grandes poetas patrícios de Nossa Senhora e, sem sombra de dúvida, o maior poeta natalino do nosso Brasil, sendo “seus poemas de Natal”, na expressão de Renato Pacheco, “um bálsamo para a alma nesses dias tormentosos que estamos vivendo” [16], tendo o poeta com eles conquistado considerável número de ardorosos admiradores. Isto posto, encerramos esta singela mensagem de Natal e Ano-Novo com a transcrição das estrofes finais da Súplica deste inspirado poeta, que se proclama “fervoroso apóstolo do nacionalismo cristão, baseado no culto dos valores supremos de DEUS, PÁTRIA e FAMÍLIA” [17]:

Ó Deus menino, ó Jesus amado,

Deus nascido à sombra de uma cruz

para vencer a morte e o pecado.

Dá-me a Tua força para amar,

para nascer e renascer, para perdoar,

para sofrer e dizer amém,

para pedir humildemente de joelhos,

com o sentimento mais sincero e mais profundo,

a redenção do Brasil e a salvação do mundo... [18]

Por Cristo Rei e Redentor e pela Nação Brasileira!


Victor Emanuel Vilela Barbuy
São Paulo, 24 de dezembro de 2014 - LXXXII.


Notas:
[1] Primeiro, Cristo!, 4ª edição, in Obras Completas, volume 6, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1957.
[2] Encíclica E Supremi Apostolatus, dada em Roma a 04 de outubro de 1903. Disponível (em latim) em: http://w2.vatican.va/content/pius-x/la/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_04101903_e-supremi.html.
[3] Primeiro, Cristo!, cit., p. 147.
[4] O Rei dos Reis, in Obras Completas, volume 6, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 291.
[5] Idem, p. 294.
[6] Primeiro, Cristo!, cit., p. 211.
[7] Idem, p. 206.
[8] Idem, p. 171.
[9] Idem, p. 168.
[10] Carta de Natal e Fim de Ano, in O Integralismo perante a Nação, 4ª edição, in Obras completas, volume 9, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 144.
[11] Cristo e o Estado Integral, in O Integralismo perante a Nação, 5ª edição, in Obras Completas, volume 9, cit., p. 201. Cristo e o Estado Integral é a peroração do discurso proferido por Plínio Salgado na Sessão Soleníssima das Cortes do Sigma, realizada a 12 de junho de 1937 no Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro.
[12] Idem, pp. 202-203.
[13] Espírito da burguesia, 6ª edição, in Obras Completas, volume 15, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1959, p. 171.
[14] Idem, pp. 170-171.
[15] Com amor e devoção, São Paulo, GRD Edições, 2010, p. 53.
[16] Citado na “orelha” da contracapa do livro Com amor e devoção (Op. cit.).
[17] Introdução (não assinada), in Com amor e devoção, cit., p. 11.
[18] Com amor e devoção, cit., p. 44.


24/12/2014, 21:05:48


Mensagem de Natal e Ano Novo
Os noventa anos de Gumercindo Rocha Dorea

Não podemos deixar que o ano de 2014 termine sem que façamos uma homenagem a Gumercindo Rocha Dorea pelos seus noventa anos, completados no último dia 04 de agosto.

Figurando ao lado de homens como Monteiro Lobato, José Olympio, Augusto Frederico Schmidt e Ênio Silveira como um dos mais notáveis editores da História do Brasil e sendo dentre estes seguramente o mais injustiçado, tendo sido duramente perseguido e boicotado pelas chamadas “patrulhas ideológicas” de “nossa” “esquerda” rancorosa e intelectualmente desonesta desde o início de sua carreira editorial, há cinquenta e oito anos, o Sr. GRD chega aos noventa anos de idade incrivelmente lúcido e integralmente fiel aos princípios cristãos e patrióticos sintetizados na tríade “Deus, Pátria e Família”, nobre e excelsa como nenhuma outra.

Àqueles que desconhecem a vida e a obra deste homem que é, inegavelmente, o patriarca da ficção científica no Brasil e um dos mais importantes editores e descobridores de vocações literárias da nossa História, assim como um exemplar cristão, cidadão brasileiro e intelectual, delas daremos, nas linhas que se seguem, um pálido esboço, com base sobretudo no artigo que sobre ele escrevemos em 2011 e que foi publicado na edição daquele ano do prestigioso jornal literário Linguagem Viva, da Capital Paulista.

Editor, jornalista e escritor, Gumercindo Rocha Dorea nasceu em Ilhéus, na Bahia, a 04 de agosto de 1924, sendo filho do cacauicultor e sindicalista Alcino da Costa Dorea e de D. Emérita da Rocha Dorea, compositora de sonetos e colaboradora esporádica em periódicos de Sergipe, sua terra-natal. Em 1934 se mudou, com a família, para a Cidade do Salvador, ali ingressando no Ginásio da Bahia, onde foi aluno do filólogo Herbert Parentes Fortes, um dos principais intelectuais e líderes da Ação Integralista Brasileira (AIB), que, reunindo, no dizer de Miguel Reale, “o que havia de mais fino na intelectualidade da época”[1], constituiu, na expressão de Gerardo Mello Mourão, o “mais fascinante grupo da inteligência do País”.[2]

Em 1944, Gumercindo Rocha Dorea, que frequentara, na Bahia, o curso complementar de Direito, se mudou para o Rio de Janeiro. Na então Capital Federal, onde se formou em Direito no ano de 1948 pela Faculdade Católica de Direito do Rio de Janeiro, colaborou GRD, a partir de meados da década de 1940, na imprensa, primeiro no jornal integralista Idade Nova, dirigido por Raymundo Padilha, e depois no jornal A Marcha, também integralista, que chegou a dirigir. Foi, ainda, redator do jornal Folha Carioca e militou ativamente, desde a década de 1940, no Partido de Representação Popular (PRP), que, sob a presidência de Plínio Salgado, combateu em prol dos ideais essencialmente cristãos e brasileiros do Integralismo entre os anos de 1945 e 1965.

Após a grande repercussão do I Congresso de Estudantes do PRP, realizado em Campinas (SP) em julho de 1948, foi constituída, no ano de 1952, a Confederação dos Centros Culturais da Juventude, cuja presidência mais tarde seria ocupada por GRD, que então tinha ótimo relacionamento com Plínio Salgado e estava em permanente contato com os jovens. A Confederação dos Centros Culturais da Juventude, de que nasceria o denominado Movimento Águia Branca, elegeria Plínio Salgado seu Presidente de Honra, e reuniria milhares de jovens distribuídos em centenas de núcleos espalhados por todo o País, configurando-se num dos mais belos movimentos cívicos, políticos e culturais da História Pátria.

No ano de 1956, com a publicação da Filosofia da linguagem, de Herbert Parentes Fortes, fundou Gumercindo Rocha Dorea as Edições GRD, que teriam seu apogeu na década de 1960 e renovariam toda a Literatura brasileira, lançando autores hoje consagrados como Nélida Piñon, Rubem Fonseca, José Alcides Pinto, Astrid Cabral, Fausto Cunha, Maria Alice Barroso, André Carneiro, Ronaldo Moreira, Geraldo França de Lima e, no romance, com a obra O valete de espadas, Gerardo Mello Mourão, que também publicou diversos livros de poesias pela GRD. Pode-se afirmar, assim, que Gumercindo Rocha Dorea foi um descobridor de vultos literários tão somente comparável, no Brasil, a Augusto Frederico Schmidt e a José Olympio.

Quando da fundação das Edições GRD, Gumercindo Rocha Dorea já estava casado com D. Augusta Garcia Rocha Dorea. Esta, falecida em 2005, é autora das obras O romance de Plínio Salgado (1956, com segunda edição publicada em 1978 sob o título O romance modernista de Plínio Salgado), Aclimação (publicada pela Secretaria de Cultura do Município de São Paulo em 1982, fazendo parte da série História dos bairros de São Paulo) e Plínio Salgado, um apóstolo brasileiro em terras de Portugal e Espanha (1999), esta última agraciada com o Prêmio Clio da Academia Paulistana de História em 2000, além de organizadora da obra O pensamento revolucionário de Plínio Salgado, magnífica antologia do pensamento do autor da Vida de Jesus, de quem, aliás, GRD publicou diversas obras, bem como a biografia escrita pela filha do escritor e pensador patrício, Maria Amélia Salgado Loureiro, intitulada Plínio Salgado, meu pai.

Verdadeiro Pedro Álvares Cabral da ficção científica no Brasil, GRD editou, em 1958, a obra Além do planeta silencioso, de C. S. Lewis, primeiro dos muitos livros estrangeiros de ficção científica que publicou, e, em 1960, a obra Eles herdarão a terra, de Dinah Silveira de Queiroz, primeira das também muitas obras de ficção científica de autores brasileiros dadas à estampa por ele. Em 1961, publicou a primeira Antologia Brasileira de Ficção Científica, com trabalhos de Dinah Silveira de Queiroz, Antonio Olinto, Rachel de Queiroz e Fausto Cunha, dentre outros. Como diz o verbete sobre Gumercindo Rocha Dorea na SFE (Science Fiction Encyclopedia), de Londres, é o infatigável editor baiano “considerado o mais importante na história da ficção científica brasileira”, tendo sido “em larga medida responsável pela Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1958-1972)”, que sem ele “poderia talvez nem ter ocorrido”.[3]

Gumercindo Rocha Dorea tem sido, ademais, depois da Editora Biblioteca do Exército, o principal editor, no País, de obras sobre geopolítica e voltadas à segurança nacional. A publicação, em 1986, do livro Heráldica, de Luiz Marques Poliano, lhe confere o título de primeiro editor, no Brasil, a publicar uma obra de vulto dedicada aos estudos heráldicos. Por fim, GRD tem sido um dos mais destacados editores em matéria de publicações filosóficas e históricas, bem como referentes à Monarquia e ao Império do Brasil, e o mais destacado na publicação de obras integralistas ou referentes ao Integralismo, havendo sido, aliás, o idealizador e principal realizador da Enciclopédia do Integralismo, que conta com doze volumes publicados entre fins da década de 1950 e princípios da década de 1960.

GRD dirigiu o Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC), entre os anos de 1961 e 1963, e ocupou, entre 1964 e 1967, o cargo de Diretor da Superintendência de Turismo da Cidade do Salvador. Dirigiu, durante algum tempo, a revista Convivium, da Convívio – Sociedade Brasileira de Cultura, que tinha sede em São Paulo, cidade em que vem residindo, salvo por breves períodos, desde 1972. Foi coordenador editorial da Biblioteca do Pensamento Brasileiro, publicada pela Convívio, bem como do Centro Editorial das Faculdades Integradas de Guarulhos e da Editora Voz do Oeste, fundada por Carmela Patti Salgado, viúva de Plínio Salgado, e da Editora Universitária Champagnat, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Ao lançar, pela primeira vez no Brasil, sob o título de A dignidade do Homem, famosa obra de Pico della Mirandola, recebeu GRD as seguintes palavras de Gilberto de Mello Kujawski, na obra O signo de sagitário:

Por incrível que pareça, o texto não interessou a nenhuma grande editora. Foi preciso que um pequeno editor, GRD, dos menos abonados, ao mesmo tempo que dos mais dispostos e vocacionados à difusão da cultura, fizesse de lançar em português a obra-prima.[4]

Em 30 de agosto 1986, o escritor e jornalista Oswaldo de Camargo publicou, no Jornal da Tarde, de São Paulo, uma longa matéria sobre os trinta anos das Edições GRD, comemorados naquele ano.

Em 2002 foi lançada a obra Ora, direis... Ouvir “orelhas” que falam de livros, homens e ideias, com prefácio do escritor e historiador Hernâni Donato, reunindo diversos dos significativos textos escritos por GRD nas “orelhas” dos títulos por ele editados desde o início de sua carreira editorial até então. Em tal obra, temos, no dizer de Hernâni Donato, “um GRD crítico, um espirituoso cronista, um ponderado historiógrafo, o cidadão GRD motivado por valores sociais e a responsabilidade do intelectual, um GRD dono de impulsos poéticos”.[5] E, como ressaltou Odilon Nogueira de Matos em artigo publicado no jornal A Federação, de Itu (SP), a 11 de janeiro de 2003, Hernâni Donato, “admitindo que nunca se fez coisa igual – um livro construído de orelhas – reconhece (...) que só um Gumercindo Rocha Dorea poderia produzir obra semelhante, literariamente correta, extremamente correta, extremamente perfeita e significativa”.

Em 2007, o Clube de Leitores de Ficção Científica, importante instituição literária de São Paulo, dedicou o centésimo número de seu fanzine Somnium a Gumercindo Rocha Dorea e a seu trabalho editorial no campo da ficção científica.

Após muitos anos em que sua atuação editorial sofreu o boicote dos noticiaristas em virtude de sua posição filosófico-política, GRD, “o mais injustiçado dos editores”, na expressão de Antônio Olinto,[6] teve o contentamento de ver, em outubro de 2010, seu nome estampado na hoje extinta revista Bravo!, da Capital Paulista, que reconheceu sua importância como editor. No ano anterior, no prefácio de Os prisioneiros, primeira obra de Rubem Fonseca, originalmente publicada por GRD e então relançada pela Agir, Sérgio Augusto reconheceu o papel do editor baiano como descobridor do consagrado contista e romancista brasileiro.

A 08 de abril 2011, Gumercindo Rocha Dorea foi agraciado com a Comenda da Cruz da Ordem do Mérito Cívico e Cultural, outorgada pela Sociedade Brasileira de Heráldica e Medalhística e oficializada pelo Governo da República Federativa do Brasil, em cerimônia realizada no Circolo Italiano de São Paulo. No mesmo ano, foi ele homenageado na Fantasticon 2011, simpósio de literatura fantástica realizado em São Paulo, tendo sido novamente homenageado no Anuário brasileiro de literatura fantástica 2011, de Cesar Silva e Marcello Simão Branco, publicado no ano seguinte.

Em 04 de agosto de 2013, data de seu octogésimo nono aniversário, teve Gumercindo Rocha Dorea a grata surpresa de se ver lembrado como o primeiro editor de Rubem Fonseca, no artigo Os pensamentos imperfeitos de um selvagem, de Alvaro Costa e Silva, publicado na Folha de S. Paulo.[7] Cumpre ressaltar que Costa e Silva manifestou, no referido artigo, rara honestidade intelectual ao falar de Gumercindo Rocha Dorea e de sua posição política, não repetindo os velhos e carcomidos chavões “esquerdistas” sobre o Integralismo, infelizmente ainda comuns em nossa imprensa. Igualmente cabe enfatizar, contudo, que o autor do mencionado artigo equivocou-se ao afirmar que até o início dos anos 1960 GRD só havia publicado obras de e sobre Plínio Salgado, quando, em verdade, além de obras do líder integralista e a respeito dele e do Integralismo, publicara o editor baiano obras ficcionais desde a década de 1950, sem mencionar a já aqui aludida Filosofia da linguagem, de Herbert Parentes Fortes. 

Em 16 de agosto deste ano de 2014, o Clube de Leitores de Ficção Científica ofereceu um almoço em homenagem a GRD, pelos seus noventa anos, no tradicional restaurante italiano O gato que ri, na Capital Paulista, e os noventa anos do decano dos editores patrícios foram, ainda, lembrados pelo editor maranhense José Lorêdo Filho, da editora Livraria Resistência Cultural, de São Luís, que homenageou GRD no livro Poesia completa, de Ives Gandra Martins. Esperamos que no próximo ano se concretizem os projetos de Lorêdo de publicar um depoimento de Gumercindo Rocha Dorea e, em convênio com as Edições GRD, uma Antologia da Enciclopédia do Integralismo, assim como esperamos que GRD prossiga em seu projeto de relançar grandes obras olvidadas do pensamento brasileiro, iniciado em 2013, com o lançamento da terceira edição de Fausto: ensaio sobre o problema do ser, de Renato Almeida, com prefácio de Ronald de Carvalho e posfácio de Tasso da Silveira, de cuja memória é Rocha Dorea, aliás, o maior guardião, tendo publicado inúmeras obras poéticas do inspirado poeta e pensador curitibano.

Fausto, de Renato Almeida, é, sem dúvida alguma, uma das mais notáveis obras da pequena grande biblioteca filosófica GRD, que conta com obras como as seguintes: Sobre a diferença entre a palavra divina e a humana, de Santo Tomás de Aquino, traduzida por Luiz Jean Lauand; a Antologia de Farias Brito, organizada por Gina Magnavita Galeffi; O poema, de Parmênides, em tradução de Gerardo Mello Mourão; Santo Tomás de Aquino, hoje, de Luiz Jean Lauand; Filosofias da hora e filosofia perene, do Monsenhor Emílio Silva de Castro; Nietzsche e o Cristianismo, de Belkiss Silveira Barbuy; Em busca do ser, de Manoel Joaquim de Carvalho Júnior; O século da máquina e a permanência do homem, de Euro Brandão; Max Scheler e a ética cristã, de Karol Woytila, em tradução de Diva Toledo Pisa;  Bibliografia filosófica, de Antonio Paim; Variações, de Miguel Reale; Correspondência de um ângulo a outro, de Gerschenson e Ivanov, em tradução de Diva Toledo Pisa, e Viver é perigoso e O signo de sagitário, de Gilberto de Mello Kujawski.

A biblioteca poética das Edições GRD, por seu turno, conta, dentre muitas outras, com obras como as seguintes: Os escravos e Espumas flutuantes, de Castro Alves, em belas edições facsimilares; Três pavanas, O país dos Mourões e Peripécia de Gerardo, de Gerardo Mello Mourão; Com amor e devoção, de Alfredo Leite, e Puro Canto (poesias completas), Cantos do campo de batalha e Poemas (antologia organizada por Ildásio Tavares), de Tasso da Silveira.

Já havendo nos estendido além daquilo que pretendíamos nesta singela homenagem a este tão grande quanto injustiçado editor e intelectual brasileiro que é Gumercindo Rocha Dorea, a encerramos aqui, manifestando nosso desejo e esperança de que ele continue vivo por muito tempo, promovendo a Cultura em nosso País e, como tem feito em todos esses anos, influenciando positivamente novos editores, escritores e jornalistas, e que, depois de seu falecimento, continue viva a GRD, esta editora que, sendo pequena, é uma das maiores da nossa História.


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo e Campos do Jordão, dezembro de 2014-LXXXII.



Notas:
[1] Entrevista concedida ao Jornal da USP. Disponível em: http://espacoculturalmiguelreale.blogspot.com/2007/08/entrevista-concedida-pelo-prof-reale-ao.html. Acesso em 26 de dezembro de 2014.
[2] Entrevista concedida ao Diário do Nordeste. Disponível em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=414001. Acesso em 26 de dezembro de 2014.
[3] Versão eletrônica disponível em: http://www.sf-encyclopedia.com/entry/dorea_gumercindo_rocha. Acesso em 27 de dezembro de 2014.
[4] O signo de sagitário, São Paulo: Edições GRD, 1990, p. 92.
[5] Ouvindo “orelhas”, in Gumercindo Rocha DOREA, Ora, direis... Ouvir “orelhas” que falam de livros, homens e ideias, São Paulo, Edições GRD, 2002, p. XIII.
[6] Apud Hernâni DONATO, Ouvindo “orelhas”, in Gumercindo Rocha DOREA, Ora, direis... Ouvir “orelhas” que falam de livros, homens e ideias, cit., p. XIV.
[7] Versão eletrônica disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2013/08/1320482-os-pensamentos-imperfeitos-de-um-selvagem.shtml. Acesso em 27 de dezembro de 2014.

 

 


31/12/2014, 16:46:52


Os noventa anos de Gumercindo Rocha Dorea
Pedro Paulo Filho, in memoriam

Foi com profundo pesar que recebemos, há alguns dias, a notícia do falecimento do advogado, jurista, poeta, contista, cronista, historiador, memorialista, conferencista e orador Pedro Paulo Filho, ocorrida, em decorrência de uma parada cardíaca, no último dia 15 de novembro, em sua residência, na cidade de Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira, na região do Vale do Paraíba paulista. Tal pesar se explica pelo fato de o inspirado poeta e abalizado historiador e memorialista da chamada “Montanha Magnífica” haver deixado muitas saudades entre seus parentes e amigos e ter deixado, ademais, Campos do Jordão, a Serra da Mantiqueira, o Vale do Paraíba, São Paulo e o Brasil mais pobres moral e intelectualmente.

Sabemos, porém, que o ilustre autor da História de Campos do Jordão e A Montanha Magnífica permanece vivo na memória de todos aqueles que o conheceram e/ou leram suas obras, assim como esperamos que, ao chegar ao cimo da íngreme montanha da vida, tenha esse “Homem das Montanhas” encontrado o Cristo, Sumo Bem e Imperador do Universo, passando a gozar, no Paraíso, da Verdadeira Felicidade, ou Eterna Beatitude, que vem a ser a contemplação de Deus na Vida Eterna, como preleciona Santo Tomás de Aquino [1].

Filho do comerciante Pedro Paulo e de Izabel Cury Paulo, ambos imigrantes libaneses, nasceu Pedro Paulo Filho em Pindamonhangaba a 04 de setembro de 1937, radicando-se, porém, em Campos do Jordão desde as primeiras semanas de vida. Tanto seu pai quanto sua mãe, cujos nomes tinham sido traduzidos do árabe para o português (o pai nascera Butros Boulos e a mãe, Zabad Khoury), tinham chegado ao Brasil em 1924 e, sofrendo de tuberculose, haviam ido alguns anos mais tarde, em busca de cura, para Campos do Jordão, onde se conheceram, curaram-se, casaram-se e viveram a maior parte de suas longas vidas, amando a terra das araucárias e dos plátanos com o mesmo amor com que amavam a terra dos cedros. Sobre esses dois imigrantes, que muito amaram não apenas Campos do Jordão, mas também São Paulo e o Brasil e muito contribuíram para o engrandecimento do Bem Comum, tendo, ainda, criado filhos patriotas e tementes a Deus que igualmente muito contribuíram para o Bem Comum, escreveu Pedro Paulo Filho um belo livro, intitulado Izabel e Pedro Paulo: uma história de amor e coragem e publicado em 2005 [2].

Pedro Paulo Filho, esse ilustre jordanense de Pindamonhangaba, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Presbiteriana Mackenzie no ano de 1961, exerceu diversos cargos públicos, culturais e políticos, na chamada “Suíça Brasileira”. Elegeu-se vereador no ano de 1959, pelo Partido Social Progressista (PSP), de Adhemar de Barros, reelegendo-se em 1962. Em 1968, voltou a se eleger vereador, desta vez pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), obtendo os votos de mais de 20% do eleitorado jordanense. Foi presidente da Câmara Municipal de Campos do Jordão por três vezes, em 1969, 1970 e 1971, e substituiu o Prefeito José Antônio Padovan no cargo de Prefeito Municipal por trinta dias, em 1971, por ocasião da viagem do titular ao exterior.

Integrou Pedro Paulo Filho os quadros de diversas instituições científicas e culturais de grande prestígio, a exemplo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, da Academia Santista de Letras, do Instituto de Estudos Valeparaibanos, da Academia Pindamonhangabense de Letras, da Academia Valeparaibana de Letras e Artes, da União Brasileira de Escritores, da União Brasileira dos Pesquisadores de História e Genealogia e da Academia de Letras de Campos do Jordão, da qual foi um dos fundadores e que presidiu por vários anos. Foi, ainda, membro fundador do Conselho Municipal de Cultura de Campos do Jordão e recebeu, dentre outros diplomas, aqueles de “Cidadão Jordanense” e de “Cidadão Emérito de Campos do Jordão”, tendo sido, ainda, agraciado com a Medalha do Mérito Municipalista, da Associação Paulista dos Municípios.

Advogado militante, foi o autor de A Revolução da Palavra consultor jurídico da Estrada de Ferro Campos do Jordão, advogado credenciado do Instituto Nacional de Segurança Social e do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural e Procurador Geral do Município de Campos do Jordão, havendo sido, ademais, membro-fundador e primeiro Presidente da 84ª Subsecção da Ordem dos Advogados do Brasil, de Campos do Jordão. Escreveu a bela Oração do advogado, publicada no Boletim da Associação dos Advogados de São Paulo em 27 de abril de 1988. Infelizmente não podendo transcrever por inteiro tal oração, por razões de tempo e de espaço, transcreveremos a seguir apenas suas primeiras e últimas estrofes:

Senhor,
Confiaste-me o privilégio de defender meus semelhantes
À imagem perene do Teu Filho Unigênito.
Pequeno e frágil,
Oro a teus pés,
Para que o clarão da tua presença
Ilumine os meus passos
Aos caminhos seguros que levam à Justiça [3].

Muitas vezes passamos, em Campos do Jordão, nos ora já longínquos dias da infância e adolescência, pela Avenida Pedro Paulo, que homenageia o genitor do autor de Campos do Jordão, meu amor e de Estórias e lendas do povo de Campos Jordão. Mas apenas tomamos conhecimento da existência deste último em princípios do ano de 2003, quando, aos dezoito anos de idade, compramos, juntamente com alguns volumes das Obras Completas de Plínio Salgado, na Livraria ORNABI, (Organizadora Nacional de Bibliotecas), do meu saudoso amigo Luiz de Oliveira Dias, os Anais da Primeira Semana Plínio Salgado, obra organizada e apresentada pelo meu então futuro amigo e companheiro de ideais e lutas Gumercindo Rocha Dorea e recomendada por “Seu” Luiz, profundo admirador de Plínio Salgado, que fora, aliás, seu amigo e padrinho de casamento.  Em tais anais se encontra transcrita a palestra de Pedro Paulo Filho intitulada Plínio Salgado, esse injustiçado e proferida em São Bento do Sapucaí durante a Primeira Semana Plínio Salgado, realizada naquela cidade entre os dias 07 e 12 de outubro do ano de 1993.

Em Plínio Salgado, esse injustiçado, Pedro Paulo Filho, com seu vasto cabedal cultural e seus dotes de grande artífice da palavra, fez uma ótima síntese da vida, da obra e do pensamento do tão nobre quanto injustiçado pensador, escritor e líder político Plínio Salgado, mais ilustre dos filhos de São Bento do Sapucaí, que, nas palavras do autor da História de Campos do Jordão, deixou “à Pátria exemplo inolvidável de um dos maiores pensadores políticos brasileiros e uma herança cultural soberba”, que o elenca “entre os mais notáveis escritores do Brasil” [4]. Tendo apreciado muito tal trabalho a respeito do autor da Vida de Jesus e de Espírito da burguesia, logo tratamos de procurar ler algumas obras de Pedro Paulo Filho, principiando pelos seus principais trabalhos históricos sobre Campos do Jordão, cidade que aprendemos a amar desde a mais tenra idade e na qual não nascemos, mas renascemos, posto que nela, em julho de 2004, nossa alma, morta pelo punhal da descrença, renasceu ao reencontrar a Fé perdida, durante o mais belo crepúsculo hibernal que jamais vimos e que para nós, para parafrasear Paul Verlaine, valeu por todas as auroras deste Mundo [5].

Assim, lemos, ainda no primeiro semestre de 2003, a História de Campos do Jordão e, em seguida, A Montanha Magnífica.

A História de Campos do Jordão, obra de maior tomo saída da inspirada e fecunda pena de Pedro Paulo Filho, é um grande trabalho de sistematização dos fatos históricos mais relevantes daquela belíssima estância climática, cujas raízes busca aflorar, como escreveu o autor na apresentação do livro [6]. “Trabalho de grande fôlego, que ficará como marco indelével na historiografia dessa aprazível Estância”, nas palavras do advogado e jurisconsulto Egberto Lacerda Teixeira, que a qualificou de “esplêndida” [7], a História de Campos do Jordão é, como enfatizou o escritor e jornalista Henrique Losinskas Alves, uma “obra clássica”, que “representa subsídio importante para o estudo das gerações e possui rico material de informações históricas da Estância” [8]. Ao concluirmos a leitura de tal obra, nossa admiração por Pedro Paulo Filho, já considerável desde quando lêramos Plínio Salgado, esse injustiçado, recrudesceu ainda mais.

Depois da História de Campos do Jordão, trabalho graças ao qual Pedro Paulo Filho assumiu “merecidamente o posto de ‘Historiador de Campos do Jordão’”, como escreveu o escritor Paulo Rangel [9], lemos, como há pouco observamos, a também monumental obra A Montanha Magnífica: memória sentimental de Campos do Jordão, a respeito da qual fazemos nossas as palavras do escritor e historiador Arakaki Masazaku:

Pedro Paulo Filho, escritor festejado, o maior historiador da Mantiqueira, demonstra, mais uma vez, sua extraordinária capacidade de pesquisador, buscando centenas de escritos ligados a esta terra, através do trabalho de homens de letras que escreveram sobre este recanto do Alto da Serra,ou que aqui produziram suas obras [10].

A Montanha Magnífica, obra por nós já várias vezes relida, contém inúmeros estudos sobre personalidades ilustres que estiveram em Campos do Jordão ou ali viveram e que em geral escreveram na ou sobre a chamada “Suíça Brasileira”, que, em homenagem ao escocês Robert John Reid, fundador do bairro jordanense de Vila Abernéssia, que viu na paisagem dos Campos do Jordão muitas semelhanças com aquelas de sua pátria distante, também podemos denominar “Escócia Brasileira”. Dentre tais personalidades, podemos destacar, além do já aqui mencionado escritor, pensador e líder político Plínio Salgado, outros notáveis escritores como Rui Ribeiro Couto, Monteiro Lobato, Paulo Setúbal, Dinah Silveira de Queiroz, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Martins Fontes, Vicente de Carvalho, Dantas Mota, Jamil Almansur Haddad, Helena Silveira, Lygia Fagundes Telles, Mário de Andrade, Orígenes Lessa, Sérgio Milliet, Euclides da Cunha, Paulo Dantas, Domingos Jaguaribe Filho, Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Alberto da Costa e Silva, Assis Brasil, José Carlos Macedo Soares, Genésio Pereira Filho, Afonso Arinos de Mello Franco, Juò Bananère (pseudônimo de Alexandre Ribeiro Marcondes Machado), Honório de Sylos, José de Castro Nery, Ary de Andrade, Teodoro Sampaio, Luiz Arrobas Martins, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Luiz Pereira Barreto, Tulo Hostílio Montenegro, Benedito Dalmo Florence, Antônio Costella, Adelaide Carraro e os já aqui citados Henrique Losinskas Alves e Arakaki Masazaku. Não podemos deixar de mencionar, ainda, dentre tais personalidades, algumas estrelas de primeira grandeza na constelação das letras jurídicas pátrias, a saber, Miguel Reale, Alfredo Buzaid, Alexandre Corrêa e seu filho Alexandre Augusto de Castro Corrêa, Goffredo Telles Junior e Tércio Sampaio Ferraz Júnior; importantes políticos como Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Júlio Prestes e Ulisses Guimarães, e cientistas renomados como Emílio Ribas e Raphael de Paula Souza.

Muito aprendemos nas páginas de A Montanha Magnífica, obra em que tivemos, aliás, nosso primeiro contato com Rui Ribeiro Couto, desde então um de nossos escritores prediletos, e sua obra poética, tão magnífica quanto a Montanha que muito amou e cujos bons ares curaram o seu pulmão.

O terceiro livro de Pedro Paulo Filho que tivemos o privilégio de ler, ainda no primeiro semestre do ano de 2003, foi A Revolução da Palavra, trabalho que se constitui, inegavelmente, numa das mais importantes obras de Retórica já escritas em terras brasílicas. Como escreveu o Professor Admir Ramos, membro da Academia Paulista de Direito e autor de diversas obras no campo da Oratória, na Carta-Prefácio à 1ª edição de A Revolução da Palavra, Pedro Paulo Filho demonstrou, nesta obra, grande “fecundidade de conhecimento” na matéria ali versada [11], e, como assinalou, no mesmo sentido, o escritor e jornalista Torrieri Guimarães, tal livro, “notavelmente bem escrito” e “ricamente documentado, com a contribuição de artistas e pensadores”, é um autêntico “repositório de conhecimentos, cuja leitura se torna obrigatória” [12].

Isto posto, cumpre enfatizar que os justos elogios feitos por Admir Ramos e Torrieri Guimarães à obra A Revolução da Palavra podem ser feitos a qualquer das obras de Pedro Paulo Filho que já tivemos a oportunidade de ler, uma vez que todas elas são notavelmente bem escritas e ricamente documentadas, realmente se constituindo em verdadeiros repositórios de conhecimentos, cuja leitura é obrigatória e nos quais o autor de O bacharelismo brasileiro e de Campos do Jordão, o presente passado a limpo nos revela a magna fecundidade de seu conhecimento, ou, noutras palavras, de sua cultura verdadeiramente admirável.

Segundo lemos na contracapa da 2ª edição de A Revolução da Palavra, tal estudo se constitui em “um apelo à preservação do homem espiritual”, que, em nosso sentir, deve ser precedida, na maioria de nós, pela restauração do homem espiritual e que deverá se dar, no entender do autor, pela “Revolução da Palavra”, baseada nos ensinamentos de Cristo. Cumpre sublinhar que o vocábulo “revolução” é aí empregado em sua concepção etimológica, astronômica e tradicional, segundo a qual tal termo significa retorno ao ponto de partida, ou, noutras palavras, restauração. Tal sentido foi empregado, dentre outros, por Chesterton, que escreveu que “não há na história uma única revolução que não seja uma restauração” [13], e por Plínio Salgado, que, em discurso proferido na Câmara dos Deputados, em Brasília, a 29 de abril de 1963, tendo observado que a doutrina que pregava era revolucionária, ressaltou que “a palavra revolução, conforme indica a sua etimologia, significa retorno”, posto que “o prefixo re quer dizer volver a alguma coisa”. Assim, segundo Plínio Salgado, “quando se dá um desequilíbrio econômico, social ou político numa nação, urge uma revolução para retornar ao equilíbrio perdido” [14].

O sentido dado por Pedro Paulo Filho à “Revolução da Palavra” fica bem claro nas páginas finais de sua obra, onde, pouco depois de haver feito suas as palavras de Victor Hugo em que o autor de Os miseráveis proclama que os filósofos são fachos de luz, enquanto Jesus Cristo é o dia [15], faz igualmente suas as palavras de Gerardo Mello Mourão em que o autor de A invenção do mar salienta que a palavra dada deve ser mantida, uma vez que toda promessa é um compromisso e “toda palavra responsavelmente dita tem carga de eternidade” [16], de modo que peca todo homem que não cumpre sua palavra. Em seguida, observa o escritor jordanense que a “palavra de honra, arrebatada de nossos maiores, como a mais alta expressão de dignidade humana”, se encontra, na hora presente, “bolorenta e jazente dos quartos de despejo da morada dos homens e da vida das nações”, sendo

tarefa urgente da nossa geração redimi-la dos nossos pecados.

Como fazê-lo?

Vivendo a mais alta de todas as palavras, na expressão do salmista (a tua palavra me vivifica), a palavra que liberta, como disse o evangelista (a verdade vos libertará), a palavra que purifica, como pregou o Santo (são palavras, é verdade, mas purificam), a palavra que santifica, como proclamam as escrituras (santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade), a palavra que anima, emanada do Senhor (quem guardar a minha palavra, não verá a morte eternamente), e, enfim, a palavra da comunhão, como anunciou Cristo (se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á dado).

Se alguém me ama, pregou Jesus, guardará as minhas palavras [17].

Em julho daquele ano de 2003, encontramos o Dr. Pedro Paulo Filho pela primeira vez, em seu escritório no centro da Vila Abernéssia, onde tivemos uma longa e agradável conversa com o autor de Campos do Jordão, meu amor e lemos, pela primeira vez, alguns de seus belos e tocantes poemas sobre a terra jordanense. Saímos de seu escritório não apenas com os livros Estórias e lendas do povo de Campos do Jordão (1988), Campos do Jordão, o presente passado a limpo (1997) e Contos bem contados (1999), que nos foram dados de presente pelo seu autor, como também com a melhor das impressões a respeito deste, que era um homem tão fino, simpático e generoso quanto sábio e culto.

Lemos os três livros mencionados, todos eles muitíssimo bem escritos e documentados, em apenas dois dias, lá mesmo na “Montanha Magnífica”, e, nas páginas de Campos do Jordão, o presente passado a limpo, encontramos a transcrição de uma carta de Plínio Salgado escrita em 05 de maio de 1965 e dirigida ao arquiteto e artista plástico Sylvio Jaguaribe Ekman, neto do médico e escritor cearense Domingos Jaguaribe Filho, um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, assim como um dos primeiros moradores de Campos do Jordão e um de seus mais importantes propagandistas e um dos mais notáveis arautos do Municipalismo em toda a História Pátria. Tal carta já fora, aliás, parcialmente transcrita no estudo Plínio Salgado, escritor injustiçado, que consta da obra A Montanha Magnífica e é tão brilhante quanto a conferência Plínio Salgado, esse injustiçado, que foi, com efeito, bastante elogiada por Maria Amélia Salgado Loureiro, filha e biógrafa de Plínio Salgado, em carta a Pedro Paulo Filho transcrita no referido estudo. Nesta carta, a autora de Plínio Salgado, meu pai evoca, dentre outras coisas, o amor de seu ilustre genitor pelas paisagens jordanenses e o fato de que foi ele, quando Deputado Estadual, em fins da década de 1920, o responsável pela criação da rodovia que hoje se chama Monteiro Lobato e liga Campos do Jordão a São José dos Campos. Um fato relevante de que Maria Amélia Salgado Loureiro se esqueceu de evocar na carta é aquele de que foi Plínio Salgado também responsável pela criação, em 1928, da Prefeitura Sanitária de Campos do Jordão, primeiro passo para a emancipação total da terra jordanense do Município de São Bento do Sapucaí, que ocorreria no ano de 1934.

 Transcrevemos parte da mencionada carta de Plínio Salgado, que contém algumas das mais belas linhas já escritas sobre Domingos Jaguaribe Filho, cognominado o “Pedro Álvares Cabral de Campos do Jordão” e “o Patriarca do Municipalismo” pelo assinalado autor da Vida de Jesus, d’O estrangeiro e de Espírito da burguesia [18], em pequeno estudo sobre O Município, centro das famílias, célula da Nação, que escrevemos há alguns anos, a quatro mãos, com o jornalista paranaense Anderson Salim Calil, e que deve ser publicado no próximo ano, em comemoração aos oitenta e três anos do chamado Manifesto de Outubro, documento inaugural do Integralismo,e aos cento e vinte e anos do nascimento de Plínio Salgado, autor daquele tão relevante quanto injustamente esquecido documento da nossa História.

Voltemos, porém, aos poemas de Pedro Paulo Filho que tivemos o prazer de ler na tarde em que o conhecemos pessoalmente, em seu escritório na Vila Abernéssia. Dentre eles, aqueles que julgamos mais formosos foram Campos do Jordão, meu amor, Vila Abernéssia, Três sentidos, O pinheiro e O Homem das Montanhas, além do poema em prosa Campos do Jordão, onde sempre é estação.

Como infelizmente não dispomos de muito tempo e espaço, conforme já assinalamos anteriormente, transcreveremos a seguir apenas os poemas Campos do Jordão, meu amor, Vila Abernéssia, Três sentidos e O Homem das Montanhas. Ao ler tais poemas, verificará o leitor o fato de que Pedro Paulo Filho não é apenas um dos maiores historiadores e memorialistas da Mantiqueira e do Vale Paraíba, mas também um de seus mais inspirados poetas.

CAMPOS DO JORDÃO, MEU AMOR

Verdes campos,
Embrenhados nos confins da Mantiqueira;
Ao dia, os pássaros, à noite, os pirilampos,
Entoando agreste sinfonia, à ribanceira,
Dos abismos de esmeraldas e aos flancos
E às baixadas e planícies e aos barrancos,
A serra, de silhueta olímpica e brejeira.

Verdes campos,
Luminosos, feitos de pedrarias,
Em manhãs hibernais e de espantos!
Da noturna alcova, todos os dias
Saltitavas, fresca e aos prantos,
Que as lágrimas do orvalho, aos cantos,
Dos olhos, belos e serenos, vertias.

Verdes campos,
Que à beira dos córregos risonhos
E apaixonados – não sei quantos!
Viam despencar cascatas de sonhos
Estilhaçados – e que foram tantos!
Loucos sonhos de amor, santos
E malditos, puros e medonhos.

Noites formosas,
Adornando, com seus negros cabelos,
Veredas encantadas, sinuosas,
Que das alturas da Serra, pelos
Volteios dos rios, vertiginosas,
Iam caindo, despetalando as rosas,
Turvando as formas, rompendo os zelos.

Noites formosas
E solitárias – bêbadas de amor!
De brumas envoltas, vaporosas,
Prenhes de luz, morena de cor,
Tangendo as cordas amorosas
Do seresteiro que canta glosas
Na musicalidade da dor.

Noites formosas,
No dorso da Serra, desmaiadas,
Vesperal de auroras misteriosas,
Que um dia – doce conto de fadas!
Em épocas longínquas, idosas,
Em Oyaguara seduziram, tanto em prosa
Quanto em verso, estórias encantadas [19]

 

VILA ABERNÉSSIA

Desce a neblina com seu claro manto,
Cobrindo a Vila, aos poucos, de mansinho;
Logo as encostas, vestidas de arminho,
Jazem brancas e alvas, por todo o canto.

Ei-la, a Vila Nova de antigamente,
Tendo a brancura das noivas agora,
A distribuir nas veredas afora,
O encanto da graça, doce e envolvente,
Heroica Vila de estórias contadas,
Onde o escocês Reid, seu fundador,
Um belo dia, perdido de amor,
Escutou falar de contos de fadas.

A semelhança com a terra natal
Levou Robert John Reid a perguntar:
Por que Vila Abernéssia não chamar,
Se o encanto é o mesmo, a formosura igual?

De Aberdeen Reid o prefixo grafou
E de Inverness o sufixo extraiu,
Era a Escócia se juntando ao Brasil
E à Vila Abernéssia que tanto amou [20].

 

TRÊS SENTIDOS

Campos do Jordão é ver, ouvir e sentir,
Três provas da existência de Deus. 

Ver
O azul-anil uniforme do céu,
As folhas douradas dos plátanos,
O verde enfeitiçado dos pinheirais,
O recorte sensual [21] das montanhas,
A natureza cantando as cores,
Nas nuances, tons e matizes,
E depois de ver, viver.

Ouvir
A orquestração dos pintassilgos,
A monotonia cristalina dos córregos
A brisa leve a balançar as folhas,
O barulho surdo da chuva no telhado,
O galo no romper da aurora,
Anunciando o nascer do dia,
E depois de ouvir, sorrir.

Sentir
Saudades dos tempos de menino,
A lembrança do beijo paterno,
A evocação das serenatas ao luar,
O doce acalanto materno,
As claras manhãs hibernais,
O mistério das noites estreladas,
E, depois de te ver, ouvir e sentir,
Campos do Jordão,
- Já posso morrer! [22]

 

O HOMEM DAS MONTANHAS

Sou homem das montanhas,
Minha fronte é erguida
E toca os astros siderais.
Sou homem das montanhas
Minha coluna verga, mas não quebra
E tem a verticalidade da vida.

Sou homem das montanhas,
Minha face guarda sinais de ozona
E desafia o chicotear dos ventos.


Sou homem das montanhas,
Meus passos são largos, decididos,
E pressentem os atavios do caminho.

Sou homem das montanhas,
Estou mais perto das estrelas
e da morada de Deus.

Sou homem das montanhas,
Tenho olhos de lince
E vejo para além dos horizontes.

Sou homem das montanhas,
Meu espírito é duro como aço
E não dobra às borrascas do destino.

Sou homem das montanhas,
Meus braços são longos e fortes
E enlaçam para a vida e para a morte.

Sou homem das montanhas,

Minhas palavras são espelho d’alma
E refletem a verdade do coração.

Sou homem das montanhas,
Deus, que dá o corpo e o espírito,
Me fez nascer em Campos do Jordão [23].

Poucos dias depois de termos conhecido pessoalmente o Dr. Pedro Paulo Filho, escrevemos, ainda em Campos do Jordão, um poema, que dedicamos ao poeta de Campos do Jordão, meu amor e que leva o nome daquela bela e aprazível estância climática, terra dos verdes pinheiros, dos plátanos de folhas douradas e das hortênsias azuis:

CAMPOS DO JORDÃO

A Pedro Paulo Filho
Da janela contemplo as derradeiras brumas
E as últimas sombras
Da fria e escura noite
Que cobre , como um negro véu duma viúva d’outrora,
A encantatória cidade montanhesa,
Suíça Brasileira,
Sem neve e com araucárias,
Helvética Rosa
Na Terra de Santa Cruz. 

Parafraseando William Blake,
Clamo à manhã,
Formosa virgem adornada do mais puro alvor,
Que abra os umbrais de ouro dos céus
E desperte a alvorada nos céus adormecida.
Atendendo ao meu clamor,
Abre a manhã
Os celestes portais de ouro,
Atrás dos verdes morros cobertos de araucárias
Que erguem os braços aos céus,
Como numa prece,
Ao mesmo tempo em que faz cair
Sobre os Campos do Jordão,
O branco véu de noiva de suas névoas puras,
Tão puras quanto o azul deste céu hibernal
E o ar destas magníficas e mágicas montanhas,
Onde, a respirar o doce perfume dos pinheiros,
Pela primeira vez andei,
Pela primeira vez falei
E aprendi a rezar
Muitas das poucas orações que conheço.

Sob a límpida luz dos primeiros raios
Do sol invernal
E o alvor das neblinhas da antemanhã,
Que aos poucos se dissipam,
Caminho entre plátanos, pinheiros e hortênsias,
Pedindo ao ar, ao bom ar de Campos do Jordão
Que cure não o meu pulmão
Como pediu o poeta d'O chalé na montanha [24],
Mas sim o meu espírito,
O meu atormentado espírito.

E assim, entre sonhos e névoas,
Contemplando a beleza das translúcidas paisagens
Da montanha
E ouvindo o cantar alegre dos pássaros
E a nebulosa cascata de sons tristes
Que sai dos crepusculares e outonais violinos e violões
Que plangem dentro de mim,
Vou caminhando pelas ruas e alamedas de Campos do Jordão,
Suíça Brasileira,
Sem neve e com araucárias,
Helvética Rosa
Na Terra de Santa Cruz.

No outono de 2005, estando novamente nas montanhas jordanenses, ali escrevemos, dentre outros poemas, um outro dedicado a Pedro Paulo Filho, assim como a Verlaine, e intitulado Outono em Campos do Jordão:

OUTONO EM CAMPOS DO JORDÃO

A Pedro Paulo Filho e Paul Verlaine

Põe-se o sol nas fímbrias do horizonte,
Atrás das altas montanhas
Cobertas de verdes pinheiros.
Sob o alabastrino manto da névoa,
Que desce dos céus sobre a bucólica
Cidade serrana,            
Vestindo de arminho as encostas das montanhas,
Como num poema de
Pedro Paulo Filho,
Caminho contra o vento frio,
Que leva as folhas amareladas e mortas
Que caem dos plátanos
E que os raios d’ouro do entardecer
Tingem de dourado,
Enquanto me recordo de que Carlos Drummond de Andrade
Escreveu que “o outono é mais estação da alma que da natureza ”,
E, parafraseando Verlaine,
Digo que é outono em minh’alma
Como é outono na cidade.
Então, sob a branca neblina
E as primeiras sombras negras
Da noite que cai, docemente,
Sobre as montanhas,
Pensando no crepuscular poeta
Dos Poemas saturninos e dos Romances sem palavras,
Lembro-me de sua Canção d’outono
E, junto com o ruído das folhas secas
Que piso
E o rumor do vento que leva outras folhas secas
Para cá e para lá,
Escuto “os longos soluços
Dos violinos
D’outono”,
Que “ferem meu coração
Dum langor
Monótono”,
E, “todo sufocante
E pálido quando soa a hora,
Recordo-me dos dias d’antanho
E choro”,
Choro de saudade e nostalgia
Daqueles dias dourados, doces e floridos
Da alvorada de minha peregrinação terrena,
Que não mais voltarão
E que então pareciam longos,
Mas na verdade foram curtos demais.

E assim “vou-me embora
Ao vento” que não direi mau, como Verlaine, mas bom
E “que me leva
De cá, de lá
Como uma folha morta”,
Exatamente igual
Às que piso
E que os bons ventos de Campos do Jordão
Levam daqui e dacolá,
Enquanto em volta de mim
As sombras da noite tudo cobrem
E no céu, entre alvas neblinas e nuvens,
Surgem uma lua cheia de pura prata
E dezenas de estrelas de brilhante,
Que brilham como os pirilampos que começam a cantar
No mato, perto da linha do trem.
Pouco depois, chego
Ao elegante e iluminado centro da Vila Capivari,
Juntamente com os primeiros pingos
Da chuva que principia a cair, mansamente,
Sobre a cidade montanhesa.
Então, na minha penumbrista e brumista
Cidade Interior,
Onde quase sempre é outono e crepúsculo,
Nuvens de puro ouro
Começam a derramar lágrimas
Sobre as ruas estreitas e nevoentas,
Enquanto, no alto das torres da Catedral,
Sinos de prata badalam melancolicamente,
Anunciando a hora da Ave-Maria,
Que lá fora há muito já passou,
E me recordo, uma vez mais,
Dos dias d’outrora
E choro,
Choro de saudade e nostalgia
Daqueles dias dourados, doces e felizes
Da alvorada da minha peregrinação terrena,
Que não mais voltarão,
Mas que talvez estejam vivos dentro de mim,
E que então pareciam longos,
Mas na verdade foram curtos demais.

Embora não sejam estes os únicos poemas de nossa lavra que dedicamos a Pedro Paulo Filho ou em que citamos o poeta jordanense, consideramos oportuno, por razões de tempo e de espaço, não mais transcrever aqui nenhum deles.

Depois da primeira visita que fizemos ao historiador, memorialista e poeta de Campos do Jordão, em julho de 2003, ainda o encontramos, nos anos seguintes, mais três vezes, as duas primeiras em seu escritório e a última por ocasião de uma sessão da Academia Jordanense de Letras, em que o escritor e advogado sambentista Genésio Pereira Filho, nosso grande amigo e companheiro de ideais e membro-fundador daquela Academia, fez uma belíssima conferência sobre a poeta Cecília Meirelles, de quem fora amigo e a quem escolhera como patrona de sua cadeira na referida Academia. Foi nesta ocasião, aliás, que conhecemos pessoalmente o escritor Paulo Dantas, também membro-fundador daquela Academia, que faleceria pouco depois e de quem já então lêramos os romances O capitão Jagunço e Cidade enferma, este último ambientado, aliás, em terras jordanenses.

Entre fins de julho de 2003, quando conhecemos pessoalmente o Dr. Pedro Paulo Filho e lemos os livros com que este nos presenteou, e este mês de dezembro de 2014 em que escrevemos estas linhas, lemos diversos trabalhos de sua lavra, todos eles escritos num português lapidar e revelando a profunda erudição de seu autor. Dentre tais trabalhos, podemos destacar, além dos já aqui mencionados Izabel e Pedro Paulo: uma história de amor e coragem (2005) e O bacharelismo brasileiro (1997), os livros Grandes advogados, grandes julgamentos (1989), Conto, canto e encanto com a minha terra – Campos do Jordão – onde sempre é estação (2003), Notáveis bacharéis na vida boêmia (2005), Advogados e bacharéis, os doutores do povo (2005), Famosos rábulas no Direito brasileiro (2007), Cerejeira em flor: a história da imigração japonesa em Campos do Jordão (2008), História da Estrada de Ferro Campos do Jordão (2008) e Camargo Freire, o pintor da paisagem de Campos do Jordão (2012), assim como os prefácios aos livros Uma casa, Campos do Jordão (2013), de autoria anônima, e Poetas paulistas (2004), coletânea de poesias de autores de São Paulo organizada por Paulino Rolim de Moura.

Isto posto, cumpre confessar que ainda não lemos a maior parte das diversas obras jurídicas do Dr. Pedro Paulo Filho, a respeito das quais ouvimos, aliás, grandes elogios proferidos por advogados ilustres. Falta-nos ler, com efeito, os seguintes livros jurídicos do autor de O bacharelismo brasileiro: As ações na locação imobiliária urbana (1999), Absolvição sumária nos crimes dolosos contra a vida (2000), Contratos no Direito brasileiro (2001), Novo Direito de Família (2003), Divórcio e separação (2004) e Concubinato, união estável, alimentos e investigação de paternidade (2004), estes três últimos escritos em parceria com a esposa, a advogada Guiomar Apparecida de Castro Rangel Paulo, mão de seu filho, Pedro Paulo Netto, advogado e administrador de empresas.

Gostaríamos de dispor de tempo e espaço para tratar de cada um dos trabalhos do autor de Notáveis bacharéis na vida boêmia que tivemos a oportunidade de ler, todos eles magníficos como a Montanha em que foram escritos, mas, como, infelizmente, não dispomos de tal tempo e de tal espaço, encerramos aqui o presente artigo em memória de Pedro Paulo Filho, manifestando, uma vez mais, nossa esperança de que, ao chegar ao cume da montanha da existência, tenha esse “Homem das Montanhas” encontrado o Cristo, princípio e fim da Pessoa Humana, passando a gozar, no Paraíso, da felicidade eterna. Aliás, bem sabemos que esse varão de raras e excelsas virtudes não temia a morte, pois bem sabia que é com o fim de nossa peregrinação terrena que se inicia a Verdadeira Vida, ou, como diz a Oração de São Francisco de Assis, “é morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna” [25].

Assim terminamos nossa singela, porém sincera homenagem a Pedro Paulo Filho, historiador, memorialista e poeta de Campos do Jordão e um dos filhos mais ilustres da terra jordanense, cujo nome permanecerá vivo, iluminando, como um farol, a “Montanha Magnífica”, a Serra da Mantiqueira e todo o Vale do Paraíba, de que foi e é, inegavelmente, um dos maiores intelectuais e escritores. E roguemos a Deus, Criador e Sumo Regente do Universo, que suscite, na atual geração e naquelas vindouras, homens com as qualidades morais e intelectuais do autor da História de Campos do Jordão.


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira e 1º Vice-Presidente da Casa de Plínio Salgado.
São Paulo e Campos do Jordão, dezembro de 2014 - LXXXII.



Notas:
[1] Suma contra os gentios, Livro III, Capítulo XXXIX, 1. Tradução de D. Odilão Moura O.S.B. Revisão de Luís A. de Boni, Porto Alegre, EDIPUCRS, Edições EST, 1996, volume II, p. 437.
[2] Izabel e Pedro Paulo: uma história de amor e coragem, Pindamonhangaba, Gráfica e Editora São Benedito, 2005.
[3] Oração do advogado. Disponível em: http://www.apdcrim.com.br/#!homenagem-4/c5t5. Acesso em 15 de dezembro de 2014.
[4] Plínio Salgado, esse injustiçado, in Gumercindo Rocha DOREA (Organizador e apresentador), São Bento do Sapucaí, São Paulo, Espaço Cultural Plínio Salgado, 1994, p. 25.
[5] In Jules HURET, Enquête sur l’évolution littéraire, 1ª edição, Paris, Charpentier, 1891, p. 71.
[6] História de Campos do Jordão, Aparecida, São Paulo, Editora Santuário, 1986, p. 5.
[7] Citado na “orelha” da contracapa do volume I da obra A Montanha Magnífica: memória sentimental de Campos do Jordão, de Pedro Paulo Filho (São Paulo, O Recado Editora Ltda., 1997).
[8] Citado na “orelha” da contracapa do volume I da obra A Montanha Magnífica: memória sentimental de Campos do Jordão, de Pedro Paulo Filho (Op. cit.).
[9] Citado na “orelha” da contracapa do volume I da obra A Montanha Magnífica: memória sentimental de Campos do Jordão, de Pedro Paulo Filho (Op. cit.).
[10] Citado na “orelha” da contracapa do volume I da obra A Montanha Magnífica: memória sentimental de Campos do Jordão, de Pedro Paulo Filho (Op. cit.).
[11] Carta-Prefácio à 1ª edição, in A Revolução da Palavra: uma visão do homo “loquens”, 2ª edição, atualizada e ampliada, São Paulo, Edições Siciliano, 1987, p. V.
[12] Citado na “orelha” da contracapa do volume II da obra A Montanha Magnífica: memória sentimental de Campos do Jordão, de Pedro Paulo Filho (Op. cit.).
[13] O que há de errado com o mundo, Tradução de Luíza Monteiro de Castro Silva Dutra, Campinas, São Paulo, Ecclesiae, 2013, p. 42.
[14] Exposição em torno do projeto de lei agrária, o problema da terra e a valorização do homem, in Discursos parlamentares (Volume 18 – Plínio Salgado), Seleção e introdução de Gumercindo Rocha Dorea, Brasília, Câmara dos Deputados, 1982, p. 613.
[15] A Revolução da Palavra: uma visão do homo “loquens”, cit., p. 240.
[16] Apud Pedro PAULO FILHO, A Revolução da Palavra: uma visão do homo “loquens”, cit., p. 242.
[17] A Revolução da Palavra: uma visão do homo “loquens”, cit., p. 242.
[18] Apud Pedro PAULO FILHO, Campos do Jordão, o presente passado a limpo, São José dos Campos, Vertente, 1997, p. 70.
[19] Campos do Jordão, meu amor. Disponível em: http://www.pedropaulofilho.com.br/poesias_cj.php. Acesso em 18 de dezembro de 2014. Cumpre ressaltar que há erros de transcrição na versão do portal citado, aparecendo, por exemplo, a expressão “noites famosas” duas vezes no lugar de “noites formosas”.
[20] Vila Abernéssia. Disponível em: http://www.pedropaulofilho.com.br/poesias_abernessia.php. Acesso em 18 de dezembro de 2014.
[21] Cumpre sublinhar que o termo “sensual” não foi aí empregado no sentido de “voluptuoso”, mas sim no sentido de que apela aos sentidos.
[22] Três sentidos. Disponível em: http://www.pedropaulofilho.com.br/poesias_sentidos.php. Acesso em 19 de dezembro de 2014.
[23] O Homem das Montanhas. Disponível em: http://www.pedropaulofilho.com.br/poesias_homem.php. Acesso em 19 de dezembro de 2014.
[24] Rui Ribeiro Couto.
[25] Preghiera di San Francesco d’Assisi. Disponível em: http://www.vaticanoweb.com/preghiere/preghiera_di_san_francesco.asp. Acesso em 20 de dezembro de 2014. Tradução nossa.


31/12/2014, 16:54:39


Pedro Paulo Filho, in memoriam
Não, eu não sou Charlie!

Non, je ne suis pas Charlie! Não, eu não sou Charlie! E abomino totalmente as charges e os textos de tal pasquim, que não tem zombado apenas do Islã, mas também e duramente da própria Fé Cristã, assim como zombou de crianças palestinas mortas num bombardeio israelense. Faço minhas, pois, as palavras de Jean-Marie Le Pen, fundador, ex-líder e Presidente de Honra da Frente Nacional (Front National), que, tendo afirmado que não é Charlie, salientou que este hebdomadário tem um “espírito anarco-trotskista” integralmente “dissolvente da moralidade política” [1].

Ressaltando que lamento pelo ocorrido no jornal satírico Charlie Hebdo e que rejeito o terrorismo e enfatizando, do mesmo modo, que, como bom cristão, rezo pelas almas dos blasfemos chargistas assassinados e por aquelas de seus assassinos agora também mortos, saliento, ainda, que, por suas posições políticas e ideológicas e por seus ataques blasfemos à Religião, o Charlie Hebdo representa parte da AntiFrança nascida do “Iluminismo” que nada iluminou e da Revolução (Anti)Francesa e que, segundo espero, um dia será derrotada pela França Profunda, Autêntica e Verdadeira. Esta França Profunda é, dentre outros, a França de dois grandes heróis por nome Charles, ou Carlos, a saber, Charles Martel, que salvou a França e a maior parte da Europa do domínio muçulmano na Batalha de Poitiers, no ano 732 da Era Cristã, e seu neto, o Imperador Charlemagne, ou Carlos Magno, que, aliás, no norte da Península Hispânica, também deu forte combate aos sarracenos, e, é, ainda, a França de Charles Maurras, cujas ideias políticas devem ser tomadas em consideração por todo aquele que deseje empreender a reconstrução da verdadeira França [2].  
 
Capa do jornal satírico Charlie Hebdo por ocasião da visita do Papa Francisco ao Brasil, publicada em julho de 2013.
 
 
É dos Charles mencionados e não de Charlie Hebdo que a França necessita, e, uma vez que é Charles Martel o grande símbolo da heroica resistência francesa contra o invasor muçulmano, faço meu, nestes tempos em que a França é novamente invadida por hordas maometanas, o grito “Je suis Charles Martel!”
 
Com relação à liberdade de expressão pela imprensa, faz-se mister sublinhar que é ela plenamente legítima e salutar, desde que limitada, temperada, regrada, subordinada à verdade e ao bem, não podendo ser confundida com o “direito de calúnia, de mentira e de venalidade”, como escreveu Plínio Salgado, no Código de Ética Jornalística, de 1936 [3], e muito menos com o “direito de blasfêmia”, cumprindo ressaltar que tais direitos não existem. Em outras palavras, a liberdade de expressão pela imprensa é legítima e salutar caso entendida como liberdade de propagar a verdade e o bem, mas absolutamente ilegítima caso compreendida como liberdade de proclamar o que se quiser, seja verdade ou mentira, bem ou mal. Neste sentido, com efeito, assim se expressou o Papa Leão XIII na Encíclica Libertas Praestantissimum, também conhecida como Libertas e dada em Roma a 20 de junho de 1888:
 
Digamos agora algumas palavras a respeito da liberdade de exprimir pela palavra ou pela imprensa tudo o que se quiser. Se essa liberdade não for justamente temperada, se ultrapassar os devidos limites e medidas, desnecessário é dizer que tal liberdade não é seguramente um direito. O direito é uma faculdade moral, e, como dissemos e como não se pode deixar de repetir, seria absurdo crer que essa faculdade cabe naturalmente, e sem distinção nem discernimento, à verdade e à mentira, ao bem e ao mal. A verdade e o bem há o direito de os propagar no Estado com liberdade prudente, a fim de que possam aproveitar ao maior número; mas as doutrinas mentirosas, que são para o espíirito a peste mais fatal, assim como os vícios que corrompem o coração e os costumes, é justo que a autoridade pública empregue toda a sua solicitude para os reprimir, a fim de impedir que o mal alastre para ruína da sociedade. Os extravios do espírito licensioso que, para a multidão ignorante, se convertem facilmente em verdadeira opressão, devem justamente ser punidos pela autoridade das leis, não menos que os atentados da violência cometidos contra os fracos. E essa repercussão é tanto mais necessária, quanto é impossível ou dificílimo à parte, sem dúvida, mais numerosa da população precaver-se contra os artifícios de estilo e sutilezas de dialética, principalmente quando tudo isso lisonjeia as paixões. Concedei a todos a liberdade de falar e escrever, e nada haverá que continue a ser sagrado e inviolável; nada será poupado, nem mesmo as verdades primárias, esses grandes princípios naturais que se devem considerar como um patrimônio comum a toda a humanidade. Assim, a verdade é, pouco a pouco, invadida pelas trevas e, o que muitas vezes sucede, estabelece-se com facilidade a dominação dos erros mais perniciosos e mais diversos. Tudo o que a licença então ganha, perde a liberdade; pois ver-se-á sempre a liberdade crescer e consolidar-se à medida que a licença seja mais refreada [4].
 
Assim, a liberdade de expressão plena, ilimitada do liberalismo, defendida por Charlie Hebdo e seus apoiadores, não é verdadeira liberdade, mas, antes, libertinagem, licenciosidade, ou, em outros termos, corrupção da liberdade. E cumpre sublinhar, ademais, que, apesar de se proclamar defensor da plena liberdade de expressão, o jornal em questão chegou a defender o fechamento da Frente Nacional e fez várias campanhas de delação visando calar a voz de inimigos ideológicos, como bem observou, recentemente, Alain de Benoist, em entrevista a Nicolas Gauthier [5], demonstrando, pois, ter dois pesos e duas medidas e ser seu discurso em prol da plena liberdade de expressão uma grande falácia, como o é, aliás, todo o discurso liberal e “esquerdista”.
 
Já tendo estas breves considerações se estendido além do que inicialmente pretendia, as fecho aqui, ressaltando, uma vez mais, que eu não sou Charlie e que eu sou Charles Martel. E que este inspire o nobre povo francês em seu combate não apenas contra o terrorismo e a silenciosa invasão islâmica, mas contra todos os inimigos da França Profunda, Autêntica e Verdadeira, entre os quais se encontram o jornal blasfemo Charlie Hebdo e todos os demais expoentes do pensamento liberal e “esquerdista”.


Victor Emanuel Vilela Barbuy
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira


Notas:
[1] LE POINT, Jean-Marie Le Pen: “Moi, je suis désolé, je ne suis pas Charlie”. Disponível em: http://www.lepoint.fr/politique/jean-marie-le-pen-moi-je-suis-desole-je-ne-suis-pas-charlie-10-01-2015-1895397_20.php. Acesso em 15 de janeiro de 2015.
 
[2] Sobre o pensamento político de Charles Maurras: Rubén CALDERÓN Bouchet, Maurras y la Acción Francesa frente a la IIIª República, Buenos Aires, Ediciones Nueva Hispanidad, 2000.
[3] Código de Ética Jornalística. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=894&ox=17. Acesso em 17 de janeiro de 2015.
[4] Libertas, in Documentos de Leão XIII, Tradução de Honório Dalbosco e Lourenço Costa, São Paulo, Paulus, 2005, pp. 329-330.

17/01/2015, 15:14:20


Não, eu não sou Charlie!
Pela retirada das obras blasfemas da Bienal de São Paulo

A 31ª Bienal de São Paulo traz uma exposição profundamente blasfema, que contém obras absolutamente execráveis como Sagrado coração de bicha e Virgem com baratas e escorpião, cujo mero nome basta, aliás, para infundir grande e justo sentimento de revolta em todos os autênticos cristãos.

Tais obras, essencialmente sacrílegas, ofendem fundamente a Deus, Nosso Senhor, Criador e Regente do Universo, e, como acima escrevemos, também a todos aqueles que merecem se ufanar do glorioso nome de cristão. Do mesmo modo, tais obras são essencialmente antibrasileiras, uma vez que a nossa Terra de Santa Cruz é uma Nação essencialmente cristã, nascida e formada sob o signo da Cruz da Ordem de Cristo, pintada com cinábrio nas velas das naus que aqui aportaram em abril de 1500, sob o comando de Pedro Álvares Cabral.

Cumpre sublinhar que tais obras, além de sacrílegas e contrárias às tradições cristãs do povo brasileiro, são também criminosas, uma vez que o Código Penal pátrio, no artigo 208, dispõe que o vilipêndio público de ato ou objeto religioso configura crime, punível com detenção de um mês a um ano ou multa.

Cristãos em oração durante o chamado Ato de Reparação pelas blasfêmias da Bienal, realizado no último domingo (30).

Isto posto, nós, que hoje (30) participamos, com dezenas de fiéis católicos, do chamado Ato de Reparação pelas blasfêmias da Bienal, e que assinamos e ajudamos a divulgar um abaixo-assinado para a retirada das obras blasfemas da exposição, conclamamos todos os verdadeiros cristãos deste vasto Império da Terra de Santa Cruz-Brasil à luta sem tréguas em prol da retirada, da Bienal de São Paulo, dessas horríveis blasfêmias a que os inimigos de Deus, da Pátria e da Família ousam chamar de “arte”. Sabemos que conosco caminha o Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro, que herdamos de nossos pais e que temos o dever de transmitir, engrandecido, a nossos descendentes, e que de nós depende a sobrevivência desta Grande Nação e de suas sagradas tradições cristãs. 

Por Cristo e pela Nação!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira,
São Paulo, 30 de novembro de 2014 - LXXXII.


03/12/2014, 12:15:37


Tradição e Revolução
Tradição e Revolução

Na presente comunicação, trataremos dos conceitos de Tradição e de Revolução, concluindo pela necessidade de restauração da Tradição por meio de uma autêntica e profunda Revolução.

Uma vez que os termos “Tradição” e “Revolução” não são unívocos, cumpre sublinhar que aqui entenderemos o vocábulo “Tradição” segundo o compreende o tradicionalismo político e o termo “Revolução” de acordo com o seu sentido astronômico, ou cósmico, isto é, como restauração, como volta às origens, ao ponto de partida.

Isto posto, faz-se mister sublinhar que o tradicionalismo político, que não se confunde com o chamado tradicionalismo esotérico de Guénon e Evola, ainda que tenha alguns pontos de contato com este, vê a Tradição como essencialmente histórica, inserida, no dizer de Alberto Buela, “como coisa valiosa no sangue vivo dos povos”,[1] sendo, na lição de Francisco Elías de Tejada, a “medula dos povos”, assim como uma excelente “filosofia política”, a “filosofia do homem concreto” e das liberdades concretas e limitadas,[2] em oposição à ideologia liberal do homem abstrato e da liberdade abstrata. O tradicionalismo político, que se nutre da metafísica da Filosofia Perene, que tem em Santo Tomás de Aquino seu máximo expoente, concebe a Tradição como a transmissão de um patrimônio de valores espirituais, culturais e religiosos essenciais às nações, de uma geração a outra, ou, como diria Marcello Veneziani, “de pai para filho”,[3] partindo do princípio de que, como bem sentenciou Alfredo Pimenta, “Nação que rejeita a Tradição é Nação que se suicida, que se nega a si própria”.[4]

Empregamos aqui a palavra “Revolução”, como há pouco observamos, no sentido cósmico, segundo o qual corresponde ela, em última análise, a uma Restauração. Insta ressaltar, aliás, que antes de nós, tal vocábulo já havia sido empregado em tal sentido tanto por pensadores tradicionalistas católicos como Chesterton, Belloc, Fulton Sheen, António Sardinha, João Ameal, Alfredo Pimenta, Plínio Salgado, Arlindo Veiga dos Santos e Heraldo Barbuy quanto por tradicionalistas ditos cristãos ortodoxos como Corneliu Codreanu, por tradicionalistas esotéricos como Evola e por pensadores não propriamente tradicionalistas como Hannah Arendt. Como escreveu esta última, aliás, a palavra revolução foi usada pela primeira vez como um termo político na Inglaterra do século XVII, justamente designando a restauração monárquica de 1660 e sendo compreendida como “um movimento de retorno a algum ponto preestabelecido e, por extensão, de volta a uma ordem predeterminada”.[5] Segundo Arendt, com efeito, não apenas esta, mas todas as revoluções do século XVII e XVIII pretenderam, ser restaurações, inclusive, ao menos no início, a Revolução Americana e a Revolução (anti)Francesa.[6]

A despeito, contudo, de empregarmos, na presente comunicação, o termo “Revolução” no sentido tradicional e astronômico de “Restauração”, não excluímos a possibilidade de se denominar revolução ao processo de desconstrução da Fé, da Ordem Natural e da Ordem Tradicional iniciado com o humanismo antropocêntrico do chamado Renascimento e que tem na denominada Reforma, na Revolução (anti)Francesa, na Revolução (anti)Russa e no Maio de 1968 em Paris seus principais marcos, havendo seu processo até o dealbar do século 20 sido muito bem sintetizado por Leão XIII na Encíclica Parvenu à la 25ème anné, de 1902.[7] Foi, com efeito, tendo em vista esta chamada revolução, essencialmente moderna, antitradicional, antropocêntrica e racionalista, correspondente à “revolta metafísica” de que nos falou Camus,[8] que Louis Veuillot afirmou, em A ilusão liberal, que “duas forças vivem e estão em luta no mundo: a Revelação e a Revolução”,[9] ou, em outras palavras, a Fé em Cristo, Deus feito homem, e a fé no homem, erigido em deus.

Em breve ensaio a respeito da Monarquia Tradicional, denominamos a Revolução em seu sentido cósmico de “Revolução Tradicional” e “Revolução com ‘R’ maiúsculo”, enquanto chamamos a revolução moderna, antitradicional, de “revolução com ‘r’ minúsculo”, sustentando que a primeira, “única verdadeira e autêntica Revolução”, seria uma “mudança de atitude em face da realidade e dos problemas, uma transmutação integral de valores no sentido de defesa dos valores perenes da Tradição contra os valores passageiros da antitradição, uma revolta dos paladinos do Império de Ariel contra as hordas de Calibã”.[10]

Isto posto, cumpre salientar que o emprego do termo “Revolução” no sentido de “Restauração”, de retorno ao ponto de partida, é, em nosso sentir, mais apropriado do que no sentido de revolta contra a Fé, a Ordem Natural e a Ordem Tradicional, posto que está de acordo não apenas com o significado astronômico do vocábulo, como também de seu significado etimológico, já que a palavra “revolução” deriva do termo latino revolutio, que, por seu turno, deriva de re-volvere, significa justamente revolver, voltar para o ponto de onde se partiu. Neste sentido, Plínio Salgado, em discurso proferido na Câmara dos Deputados, em Brasília, a 29 de abril de 1963, observou que

A doutrina que prego é revolucionária. A palavra revolução, conforme indica a sua etimologia, significa retorno. O prefixo re quer dizer volver a alguma coisa. Isto representa o seguinte: quando se dá um desequilíbrio econômico, social ou político numa nação, urge uma revolução para retornar ao equilíbrio perdido.[11]

Ainda em tal diapasão, Julius Evola, em uma das páginas iniciais da obra Os homens e as ruínas, defendeu a associação da “fórmula da ‘reação’”, que teria, em sua opinião, certo colorido negativo, com a de uma espécie de “´revolução conservadora’”, fórmula na qual “é posto em relevo o elemento dinâmico, deixando de significar a ‘revolução’ a subversão violenta contra uma ordem legítima”, passando a significar uma ação destinada a “varrer uma desordem ocorrida e a remeter a uma situação de normalidade”.[12] Como evocou Evola, na referida passagem, o Conde Joseph de Maistre afirmou que o que urge fazer não é uma “contrarrevolução” em sentido estrito, mas sim “o contrário da Revolução”,[13] tomada esta, é claro, em seu sentido moderno, ou seja, como enfatizou o autor de Revolta contra o Mundo Moderno, “uma ação positiva que nos remeta às origens”. Em seguida, frisou Evola que “é estranho o destino das palavras”, posto que o vocábulo “revolução”, em sua acepção latina original expressava exatamente “um movimento que remete ao ponto de partida, à origem”.[14]

Ainda no mesmo sentido, observou Hilaire Belloc, no primeiro capítulo de seu livro Danton, que a Revolução é "a reversão para o normal – um repentino e violento retorno às condições que constituem as bases necessárias para a saúde de qualquer comunidade política",[15] e João Ameal prelecionou, na obra No limiar da Idade-Nova, que "a verdadeira revolução – a única – só poderá ser aquela que (de acordo com o sentido rigoroso do termo), represente a volta ao ponto de partida, restitua o homem ao seu princípio”.[16]

 

A Tradição 

O termo Tradição deriva do vocábulo latino traditio, que, por sua vez, deriva de tradere, palavra que possui o significado de entregar ou de dar e, por seu turno, procede da raiz indo-europeia , que podemos traduzir como dar. Como escreveu Ricardo Dip, ao primitivo indo-europeu se antepôs a preposição latina trans, que significa além, ir além, ou de um lado a outro e que, a um tempo, se pronunciava tras, o que permitiu a redução para tra, como aparece em vocábulos como tradere e traditio.[17]

Ainda como expôs Ricardo Dip, tanto pela preposição latina trans quanto pelo termo indo europeu , significa o vocábulo traditio “algo que transita de alguém, ou de algo, para além; alguma coisa que se dá ou se entrega de um lado a outro”. Este essencial dinamismo do significado da palavra traditio é, com efeito, muitíssimo relevante, conforme ponderou Dip, para acentuar o absurdo erro no entendimento que reserva ao vocábulo “tradição” a nota, incondicional, de estaticidade, de oposição ao progresso ou de conservação total.[18]

A Tradição vem a ser a entrega constante, ao longo das gerações, de um patrimônio de valores comuns, mantidos em sua essência, corrigidos sempre que necessário e incessantemente aprimorados,[19] representando, nas palavras de António Sardinha, a “continuidade no desenvolvimento” e a “permanência na renovação”.[20] Algures definida por nós, em paráfrase a José de Alencar, como a “arca veneranda da sabedoria de nossos maiores, consolidada pelos séculos e apurada pelas gerações”,[21] não é a Tradição todo o Passado, mas tão somente aquela porção do Passado que, na expressão de Víctor Pradera, “qualifica suficientemente os fundamentos doutrinais da vida humana de relação”, isto é, “o passado que sobrevive e tem virtude para fazer-se futuro”,[22] ou, ainda, nas palavras de Ribeiro Couto, o “Passado que é presente e que é futuro”.[23] Neste sentido, assim distinguiu Hélio Rocha a Tradição do Passado:

Tradição não é simplesmente o passado.
O passado é o marco. A Tradição é a continuidade.
O passado é o acontecimento que fica. A Tradição é o fermento que prossegue.
O passado é a paisagem que passa. A Tradição é a corrente que continua.
O passado é a mera estratificação dos fatos históricos já realizados.
A Tradição é a dinamização das condições propulsoras de novos fatos.
O passado é estéril, intransmissível. A Tradição é essencialmente fecundadora e energética.
O passado é a flor e o fruto que findaram. A tradição é a semente que perpetua.
O passado é o começo, as raízes. A Tradição é a seiva circulante, o prosseguimento.
O passado explica o ponto de partida de uma comunidade histórica.
A tradição condiciona o seu ponto de chegada.
O passado é a fotografia dos acontecimentos. A tradição é a sua cinematografia.
Enfim: Tradição é tudo aquilo que do passado não morreu.[24]

Vista por alguns como figadal inimiga do progresso, é a Tradição, ao contrário, a base, o alicerce de todo progresso autêntico e estável, havendo sido denominada, com efeito, “progresso hereditário” por Vázquez de Mella.[25]  Nesta mesma linha de raciocínio, escreveu Michele Federico Sciacca que “não há progresso verdadeiro ou construtivo sem tradição”, assim como “não há tradição viva e operante sem progresso”,[26] e Plínio Salgado, em estudo sobre a obra de Francisco Elías de Tejada, salientou que “Tradição e Progresso estão de tal sorte unidos, que este não pode existir sem aquela nem aquela sem este”.[27] Em uma palavra, como prelecionou Arlindo Veiga dos Santos, “o pretenso progresso que renega a tradição é eterno recomeço, perpétua imperfeição”,[28] do mesmo modo que “o Presente que nega o Passado não terá Futuro”.[29]

Fio que une as gerações presentes às pretéritas e às futuras, deve ser a Tradição compreendida, pois, não como uma relíquia de museu ou um ser fossilizado, mas sim como uma força viva, dinâmica e atuante, que não se constitui na antítese do Progresso, mas em seu pressuposto. “Fonte de permanente renovação”, na frase de Alfredo Buzaid, a Tradição nos subministra, conforme enfatizou este, “o passado vivo, com os seus exemplos, as suas aspirações, o seu legado de saber e de experiências”.[30]

Isto posto, cumpre ressaltar que a fidelidade às raízes, raízes do Homem enquanto ser essencialmente histórico e tradicional, exprime o mais profundo sentido de Tradição, que não exclui, de forma alguma, a razão criadora.[31] Aliás, podemos dizer que não há doutrina política mais racional do que o tradicionalismo, tanto quanto podemos dizer que não existem ideologias mais irracionais do que aquelas produzidas pelo denominado racionalismo, a saber, o liberalismo e seus filhotes, e tanto quanto podemos dizer que não há doutrina política mais renovadora e revolucionária na acepção mais própria do termo do que o tradicionalismo.

 

A Revolução

Conscientes do dever, mais do que nunca urgente, de sustentar a Tradição, expressa, como acentuou Marcello Veneziani, no trinômio “Deus, Pátria e Família”,[32] nós, que, do mesmo modo que António Sardinha, proclamamos que, “como homens de tradição, somos assim renovadores e, como tal, revolucionários”,[33] consideramos ser necessária, na hora presente, uma autêntica Revolução para a defesa da Tradição. Tal Revolução não será senão a Revolução destinada a restaurar, nas palavras de Plínio Salgado, “o primado do Espírito, da Inteligência, da Verdade”.[34]

Como escreveu o autor de Psicologia da Revolução no prefácio à primeira edição de tal obra, que data de 1933, o Homem tem o direito de interferir na marcha da História e quando uma sociedade está se dissolvendo e um país está na iminência de se desagregar esta intervenção se impõe como um inelutável dever.[35]

Ora, uma vez que nossa Sociedade se encontra inegavelmente à beira da dissolução, consumida pelo materialismo, pelo hedonismo, pelo mamonismo, enfim, pelo espírito burguês, e estando nosso País, da mesma forma, percorrendo o infausto caminho que conduz à desagregação, temos o dever irretorquível de interferir na marcha da História, restaurando o Primado do Espírito, da Inteligência e da Verdade e reconduzindo a Nação às bases morais de seu nascimento e formação.

Conscientes de que, conforme sentenciou Corneliu Codreanu, “o homem novo e a nação renovada pressupõem uma grande revolução espiritual de todo o povo, isto é, uma mudança da orientação espiritual moderna, e uma ofensiva categórica contra essa organização”,[36] proclamamos que a autêntica Revolução deve principiar no Homem, correspondendo à Revolução Interior, ou Revolução do Espírito, de que fez Plínio Salgado um dos pilares fundamentais de sua Doutrina cívico-política. Esta Revolução se configura numa mudança de atitude em face dos problemas que lhe são apresentados, numa transmutação total de valores que, de acordo com o sentido cósmico e tradicional do vocábulo “Revolução”, implica na restauração daquele a quem podemos denominar o Homem Autêntico, Homem Integral, ou, simplesmente, o Homem. Daí podermos chamá-la, como o fizeram João Ameal[37] e Plínio Salgado, a “Reconstrução do Homem”, título, aliás, de uma das mais importantes obras deste último.[38]

A Revolução do Espírito, que é, nas palavras de Fulton Sheen, “a verdadeira revolução (...), revolução de dentro para fora”, que muda os corações, “revolução semelhante à que descreve o Magnificat, que foi mil vezes mais revolucionário do que o manifesto de Karl Marx, em 1848”,[39] se faz necessária porque, como ponderou Chesterton, para quem, com efeito, “não há na história uma única revolução que não seja uma restauração”,[40] o homem moderno é "um viandante que se perdeu na estrada" e que "tem de regressar ao ponto de partida, se quiser se lembrar de onde veio e para onde vai".[41] 

A Revolução Interior, pela qual o Homem muda a totalidade dos conceitos, dando a si próprio um novo e superior sentido de vida, se traduz, antes de tudo, como salientou Plínio Salgado, na autoimposição de “normas de nobreza tanto na vida particular como na vida pública”,[42] se constituindo, em última análise, numa obra de educação, ou de reeducação. Vitória decisiva do Ente Humano em sua Guerra Interior, iniciada ao nascer, é a Revolução Interior, da qual surge o Homem Novo, uma Revolução Permanente, implicando, do mesmo modo que a Guerra Interior, num combate perene do Homem contra si próprio, ou do Homem Novo contra o Homem Velho, este portando a tendência ao mal e aquele a se iluminar com a “luz que de si mesmo tira e que é a aspiração ao Bem”.[43]

Já nos havendo estendido além do que inicialmente pretendíamos, encerramos aqui a presente comunicação, salientando que o preceito da hora que passa não é o lamento sobre o fato de vivermos num Mundo em ruínas, ou, como diria Evola, “num mundo de ruínas” (in un mondo di rovine),[44] mas sim a ação, o combate em defesa da Tradição e em prol da edificação de uma Nova Civilização Tradicional. Tendo plena consciência de que esta Nova Civilização Tradicional somente poderá ser edificada por uma autêntica Elite, uma Aristocracia do Espírito, proclamamos a imperiosa e inelutável necessidade de nos fazermos, por meio da Guerra e da Revolução Interior, autênticos Homens Nobres, dispostos a tudo sacrificar, exceto a salvação de suas almas, na luta em nome dos valores tradicionais consubstanciados na trilogia “Deus, Pátria e Família”, nobre e excelsa como nenhuma outra no Mundo.


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira


* Comunicação apresentada no último dia 12 de setembro d 2014, no IV Encontro Internacional Evoliano.


Notas:
[1] Metapolitica y tradicionalismo. Disponível em: http://disenso.info/?p=1949. Acesso em 08 de setembro de 2014. Tradução nossa.
[2] La lección política de Navarra, in Reconquista, Ano I, Vol. I, n. 2, São Paulo, 1950, p. 127. Tradução nossa.
[3] De pai para filho: elogio da Tradição, Tradução de Orlando Soares Moreira, Edições Loyola, 2005. Obra originalmente escrita em italiano.
[4] In Fernando CAMPOS (Organizador),Os nossos mestres ou Breviário da Contra-revolução: juízos e depoimentos, Lisboa, Portugália Editora, 1924, p. 147.
[5] Sobre a Revolução, Tradução de Denise Bottmann, Apresentação de Jonathan Schell, 1ª edição, São Paulo, Companhia das Letras, 2011, 2ª reimpressão (2014), p. 73.
[6] Idem, pp. 73-74.
[7] Parvenu à la 25ème anné (sobre a perseguição contra a Igreja Católica), Tradução de J. de Freitas Guimarão Ablas, 1ª edição, Petrópolis, Vozes, 1947. Encíclica dada em Roma a 19 de março de 1902.
[8] O homem revoltado, Tradução de Valerie Rumjanek, 10ª edição, Rio de Janeiro, Record, 2013.
[9] L’illusion libérale, in Ouevres complètes, Paris, Lethielleux, Tomo X, 1929, p. 325.
[10] A Monarquia Tradicional. Disponível em: http://cristianismopatriotismoenacionalismo.blogspot.com.br/2010/05/monarquia-tradicional.html. Acesso em 08 de setembro de 2014.
[11] Exposição em torno do projeto de lei agrária, o problema da terra e a valorização do homem in Discursos parlamentares (Volume 18 – Plínio Salgado), Seleção e introdução de Gumercindo Rocha Dorea, Brasília, Câmara dos Deputados, 1982, p. 613.
[12] Los hombres y las ruínas, Tradução e estudo preliminar de Marcos Ghio, Buenos Aires, Ediciones Heracles, 1994, p. 22. Tradução nossa. Obra originalmente escrita em italiano.
[13] Citar De Maistre e explicar.
[14] Los hombres y las ruínas, cit., loc. cit. Tradução nossa.
[15] Danton, a study, Capítulo I. Disponível em: http://www.bostonleadershipbuilders.com/belloc/danton/chapter01.htm. Acesso em 09 de setembro de 2014.
[16] No limiar da Idade-Nova, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1934, p. 12.
[17] Segurança jurídica e crise pós-moderna, São Paulo, Quartier Latin, 2012, p. 35.
[18] Idem, loc. cit.
[19] Cf. Victor Emanuel Vilela BARBUY, Idealismo utópico e idealismo orgânico. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=137. Acesso em 09 de setembro de 2014; José Pedro Galvão de SOUSA, Clovis Lema GARCIA e José Fraga Teixeira de CARVALHO, Dicionário de Política, São Paulo, T.A. Queiroz, 1998, p. 533.
[20] Ao princípio era o Verbo, 2ª edição, Lisboa, Editorial Restauração, 1959, p. 10.
[21] Idealismo utópico e idealismo orgânico, cit. O trecho de José de Alencar por nós parafraseado se encontra em A propriedade, Prefação do Conselheiro Dr. Antônio Joaquim Ribas, Rio de Janeiro, B. L. Garnier – Livreiro-Editor, 1883, p. 2.
[22] O Novo Estado, Tradução portuguesa, Lisboa, Edições Gama, 1947, p. 15.
[23] Entre mar e rio, 3ª edição, in Poesias reunidas, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1960, p. 446.
[24] Apud Derval Cardoso GRAMACHO, Toré: uma tradição inventada na etnogênese dos Kiriri, Dissertação apresentada ao Colegiado do Curso de Mestrado em Cultura, Memória e Desenvolvimento Regional, do Campus V da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), como requisito para obtenção do grau de Mestre, Santo Antônio de Jesus, Bahia, 2010, p. 7.
[25] Vázquez de Mella (antologia), Seleção, estudo preliminar e notas de Rafael Gambra, s/d, p. 22. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/29642956/Vzquez-de-Mella-Antologia. Acesso em 10 de setembro de 2014.
[26] Revolución, Conservadurismo, Tradición, in Verbo, série XIII, número 123, Madri, Março de 1964, p. 293.
[27] O ritmo da História, 3ª edição (em verdade 4ª), São Paulo, Voz do Oeste; Brasília, INL (Instituto Nacional do Livro), 1978, p. 205.
[28] Sob o signo da fidelidade: considerações históricas. São Paulo: Pátria-Nova, s/d, p. 4.
[29] Ideias que marcham no silêncio. São Paulo: Pátria-Nova, 1962, p. 76.
[30] A missão da Faculdade de Direito na conjuntura política atual, in Ensaios literários e históricos,São Paulo, Editora Saraiva, 1983, p. 228.
[31] José Pedro Galvão de SOUSA, Clovis Lema GARCIA e José Fraga Teixeira de CARVALHO, Dicionário de Política, cit., p. 533.
[32] De pai para filho: elogio da Tradição, cit., p. 138.
[33] A Teoria das Cortes Gerais, 2ª edição, Lisboa, qp, 1975, p.283. Grifos em itálico no original.
[34] Psicologia da Revolução, 6ª edição, in Obras Completas, 2ª edição, volume VII, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p.9.
[35] Idem, loc. cit.
[36] Manual del Jefe de la Guardia de Hierro,Tradução castelhana de Manuel de la Isla Paulin, 2ªedição, Barcelona, Ediciones Ojeda, 2004, p. 93.
[37] Europa e os seus fantasmas, Porto, Livraria Tavares Martins, 1945, p. 319.
[38]  Reconstrução do Homem, 2ª edição, Rio de Janeiro, Livraria Clássica Brasileira, s/d.
[39] Filosofias em luta, Tradução de Cypriano Amoroso Costa, Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1946, p. 18.
[40] O que há de errado com o mundo, Tradução de Luíza Monteiro de Castro Silva Dutra, Campinas, São Paulo, Ecclesiae, 2013, p. 42.
[41] The New Jerusalem, Londres, Hodder & Stoughton, 1920, p. I.
[42] Espírito da burguesia, 3ª edição, in Obras completas, 2ª edição, volume XV, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 47.
[43] O ritmo da História, cit., p. 67.
[44] Orientamenti, Padova, Edizioni di Ar, 2000,p. 18.


13/11/2014, 17:38:28


Achilles Lima, in memoriam
Candidatos a Deputado Federal que merecem o SEU voto

Normalmente a Frente Integralista Brasileira não declara possuir candidatos de sua preferência, buscando apenas orientar os integralistas no sentido de escolherem qual o melhor candidato que defenda os princípios tradicionais consubstanciados na tríade "Deus, Pátria e Família", sendo, por conseguinte, um defensor da Família Tradicional, da Vida e da Nação. Contudo, há alguns candidatos que, em virtude do seu verdadeiro comprometimento com a Nação Brasileira e com temas centrais da política nacional, merecem atenção especial e um endosso mais contundente. Tal apoio não deve, contudo, ser entendido como um apoio aos partidos a que estes pertencem ou uma aceitação, da nossa parte, do sistema partidário ora em vigor.

Uma vez que o único interesse do capitalismo internacional no Brasil é o controle de nossos recursos naturais, a população de cerca de duzentos milhões de pessoas torna-se um entrave aos seus objetivos. Por esta razão, as políticas de promoção do aborto são incessantemente financiadas por organizações internacionais que, manobrando nossos governantes-fantoche e forjando uma dita “opinião pública”, impõem uma agenda política completamente oposta aos valores fundamentais do povo brasileiro.

É em oposição à perversão implantada à força pela ação secreta dos fariseus internacionais que recomendamos o voto consciente nos seguintes candidatos a Deputado Federal:

Paulo Fernando (DF) - 4555

▪ Trabalha há mais de 20 anos em defesa da Vida e da Família, especialmente na Câmara dos Deputados como assessor parlamentar; é casado, pai de 3 filhos, advogado, especialista em regimento interno da Câmara dos Deputados, professor de Direito Constitucional e Eleitoral, vice-presidente da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família, membro da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Brasília e realiza a “Operação Resgate”, cuja função é convencer as mulheres a não praticarem o aborto.

▪ Assessorou a Comissão Especial do projeto Ficha Limpa na Câmara dos Deputados e trabalhou como assessor de deputados católicos, entre eles, Severino Cavalcanti, Elimar Máximo, Enéas Carneiro e, atualmente, Miguel Martini (PHS). Pediu exoneração do cargo de assessor do presidente da Câmara dos Deputados, porque o deputado Severino Cavalcanti cedeu à pressão para se posicionar favorável à utilização de células-tronco embrionárias. Até então, Severino Cavalcanti era um dos maiores defensores da vida humana no Congresso Nacional. Foi autor do pedido de cassação do registro profissional do ex-ministro José Dirceu à OAB.

▪ Acompanha mais de 85 projetos de lei no Congresso Nacional relacionados à defesa da vida e da família. Foi um dos redatores do Estatuto do Nascituro e um dos responsáveis pela mudança de postura dos políticos favoráveis à vida, que passaram a apresentar projetos propositivos, em vez de apenas combater os projetos contrários à vida e à família.

Hermes Nery (SP) - 3155

▪ É professor, formado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sendo também jornalista, escritor, membro da Academia de Letras de Campos do Jordão e ex-Presidente da União Brasileira de Escritores. Nasceu em Curitiba (PR) e há anos reside em São Bento do Sapucaí (SP). É Secretário Geral da Executiva Nacional do Movimento Brasil Sem Aborto e coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e do “Movimento Legislação e Vida”, da Diocese de Taubaté (SP).

▪ Foi Presidente da Câmara dos Vereadores de São Bento do Sapucaí (SP), cidade que tem a honra de ser a terra natal de Plínio Salgado e de Miguel Reale, e em seu mandato foi o principal responsável pela transformação da cidade no primeiro Município Pró-Vida do Brasil. Protagonizou um duro embate com uma representante da organização autodenominada “Católicas pelo Direito de Decidir”, entidade financiada com milhões de dólares em recursos provenientes de grupos norte-americanos, cujo objetivo é na verdade a promoção do aborto e o combate ao catolicismo.

▪ Recentemente, em ato amplamente noticiado, cancelou seus compromissos de campanha e em seu papel de verdadeiro cristão articulou a defesa da catedral de Campinas (SP), templo que seria profanado por uma horda de petistas e integrantes do MST em ato denominado “Marcha das Vadias pela Descriminalização do Aborto”.

Rodrigo Pedroso (SP) - 2084

▪ Nascido na Capital Paulista, onde reside, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo, da qual é atualmente Procurador e Mestrando em Filosofia, com uma pesquisa sobre a Política de Aristóteles. Casado e pai de um filho, milita desde o ano 2000 no movimento em defesa da Vida, sendo assessor jurídico da Comissão de Defesa da Vida da Regional 1 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e havendo representado o Brasil no Seminário de Peritos em Biodireito realizado pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) entre 27 e 29 de agosto de 2007. É adepto da Doutrina Social da Igreja, do tradicionalismo político e do nacionalismo e membro da Associação Theotokos.

Antes de encerrar estas linhas, julgamos importante ressaltar que, além dos referidos candidatos a Deputado Federal, recomendamos, especificamente aos companheiros do Distrito Federal, o voto em Ivonildo Di Lira (31456) para o cargo de Deputado Distrital, enfatizando que o Sr. Ivonildo Di Lira é, como todos os candidatos por nós apoiados, nacionalista e defensor da Vida e da Família.

***

Os integralistas, como soldados de Deus, da Pátria e da Família, devem se colocar na linha de frente desta grande batalha em Defesa da Vida e da Família. Estejam onde estiverem, não deixem de fazer campanha pelos candidatos desta lista e para os demais candidatos comprovadamente patriotas e Pró-Vida de todo o País.

Pelo Bem do Brasil!
Anauê!


Eduardo Ferraz
Secretário de Expansão da Diretoria Administrativa Nacional

Victor Emanuel Vilela Barbuy
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira


03/10/2014, 01:59:58

82 anos do Manifesto de Outubro *

Neste dia 07 de Outubro, celebramos, como cristãos, os quatrocentos e quarenta e três anos da Batalha de Lepanto, em que a armada cristã da Santa Liga, sob o comando de D. João de Áustria e sob as bênçãos de Deus e de Nossa Senhora, venceu a armada turca, mais numerosa, salvando a Europa e pondo termo à expansão otomana no Mediterrâneo, e, como cristãos e brasileiros, celebramos os oitenta e dois anos do lançamento do denominado Manifesto de Outubro, que marca o nascimento oficial do Integralismo e da Ação Integralista Brasileira (AIB). É deste documento tão significativo para a História Pátria, ainda que tão esquecido em razão da nefasta ação das forças antitradicionais e antinacionais, que havemos de tratar nas linhas que se seguem.

Tal Manifesto foi redigido por Plínio Salgado e lido no Teatro Municipal de São Paulo a 07 de Outubro de 1932, data em que foi também distribuído na Capital Paulista e remetido para diversas províncias brasileiras, por este motivo tendo ficado conhecido como Manifesto de Outubro, a despeito de haver sido escrito em maio e aprovado em junho daquele ano pela Sociedade de Estudos Políticos (SEP). Esta foi um núcleo de grande relevo, destinado, antes de tudo, à meditação sobre a problemática política e social brasileira e que fora fundado aos 12 dias do mês de março do referido ano, no Salão de Armas do Clube Português, na Capital Bandeirante, por um grupo de intelectuais encabeçado pelo próprio Plínio Salgado. Este era já então, como cumpre ressaltar, um consagrado escritor, jornalista e político, havendo seu primeiro romance, O estrangeiro (1926), também o primeiro romance social em prosa modernista do País, sido um grande sucesso de público e de crítica, merecendo elogios de escritores e críticos literários da estirpe de Jackson de Figueiredo, Agripino Grieco, Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima), Monteiro Lobato, José Américo de Almeida, Tasso da Silveira, Afrânio Peixoto, Augusto Frederico Schmidt e Cassiano Ricardo, dentre outros. Seu segundo romance, O esperado (1931), também fizera bastante sucesso, ainda que menor do que aquele feito pelo anterior. Como jornalista, fora redator do Correio Paulistano, de São Paulo, colaborara em diversos jornais e revistas e fora redator-chefe do matutino A Razão, também da Capital Paulista, onde, em sua Nota Política (artigo diário de abertura daquele jornal), transcrita no jornal Era Nova, da Bahia, e em jornais do Ceará,[1] revelara, no dizer de Virgínio Santa Rosa, o sociólogo que vivia embuçado no romancista, sendo saudado por Tristão de Athayde como a maior revelação do ano (de 1931),[2] havendo, ainda, despertado diversos jovens para o estudo da realidade nacional e dos pensadores brasileiros. Em 1928 fora eleito Deputado Estadual em São Paulo pelo Partido Republicano Paulista, entrando pelo 2° turno e sendo o candidato mais votado,[3] e em 1930 redigira o manifesto que no ano seguinte (1931) seria entregue à Legião Revolucionária de São Paulo,[4] que o adotaria, ainda que logo mais se desviasse de suas diretrizes.
A despeito de o Manifesto entregue por Plínio Salgado à Legião Revolucionária de São Paulo, que recebera justíssimos elogios de intelectuais como Oliveira Vianna e Octavio de Faria, poder ser já plenamente considerado um manifesto integralista e de o próprio Plínio Salgado mais tarde haver afirmado que o romance O estrangeiro havia sido seu “primeiro manifesto integralista”,[5] foi o Manifesto de Outubro, incontestavelmente, o primeiro manifesto oficialmente integralista do Brasil. Sua mensagem, essencialmente cristã, brasileira, democrática na acepção integral e orgânica do termo e revolucionária no sentido tradicional e astronômico do vocábulo, espalhou-se, com grande rapidez, por todas as províncias componentes deste vasto Império, logo se reunindo, à sombra da bandeira azul e branca do Sigma, centenas de milhares de soldados de Deus, da Pátria e da Família, bandeirantes do Brasil Profundo e de sua Tradição Integral e sentinelas, sempre alertas e vigilantes, da Nação Brasileira.
O Manifesto de Outubro, de magna relevância para a História Nacional e de impressionante atualidade, se constitui na mais perfeita síntese daquilo que foi construído pelos pensadores, escritores e estadistas patrícios até o ano de 1932 e na igualmente perfeita síntese da vigorosa e sadia Doutrina Integralista, autêntico exemplo do mais lídimo “idealismo orgânico” de que nos fala Oliveira Vianna e que vem a ser o idealismo realista e tradicionalista, formado tão somente de realidade, alicerçado tão somente na experiência e orientado tão somente pela observação do povo e do meio,[6] ou, noutras palavras, o idealismo consciente de que as instituições devem brotar da Tradição e da História dos povos e não da cabeça de ideólogos criadores de mitos e quimeras; o idealismo, enfim, que extrai da História uma Tradição sólida e viva, um coeficiente espiritual de edificação moral, social e cívica, um desenvolvimento estável e verdadeiro, transmissor e enriquecedor do patrimônio de pensamento e de costumes por nós herdado de nossos maiores.[7]
Reflete, pois, o Manifesto de Outubro, como sublinhamos algures,[8]a Tradição Integral da Nação Brasileira, trazendo soluções nacionais para os problemas nacionais, e isto em um País em que já desde o Império as elites nada mais faziam do que transplantar ideias e soluções estrangeiras, geralmente utópicas mesmo nos países em que haviam sido inicialmente propostas, e totalmente alheias à nossa Tradição, aos nossos costumes, à nossa Identidade Nacional. Isto porque Plínio Salgado tinha plena consciência de que, consoante preleciona Eduardo Prado, em A ilusão americana, as sociedades devem ser regidas por leis emanadas de sua estirpe, de sua História, de seu caráter, de seu desenvolvimento orgânico.[9]
Plínio Salgado também tinha plena consciência, como igualmente sublinhamos,[10] de que, como faz ver Oliveira Vianna, no prefácio à primeira edição da obra O idealismo da Constituição, de 1927, “se, ontem como agora, o problema da democracia no Brasil tem sido mal posto, é porque tem sido posto à maneira inglesa, à maneira francesa, à maneira americana; mas, nunca, à maneira brasileira”.[11] Daí o então futuro autor de Espírito da burguesia e da Vida de Jesus propor, naquele documento histórico, um modelo orgânico e autenticamente brasileiro de Democracia, que, conforme assinala Gustavo Barroso, se inspira profundamente nas lições políticas de Santo Tomás de Aquino.[12]
As não muitas, mas densas páginas do Manifesto de Outubro, estuantes de Cristianismo e de Brasilidade, refletem os mais nobres valores, costumes e tradições pátrios e a mais genuína Doutrina Social Cristã, a um só tempo anti-individualista e anticoletivista, anitiliberal e antitotalitária, e sintetizam, como há pouco sublinhamos, toda a Doutrina Integralista, depois de seu surgimento desenvolvida em diversos livros, manifestos, artigos publicados em jornais e revistas e discursos de Plínio Salgado e de outros vultos do Movimento Integralista. Em tais páginas estão presentes, por exemplo, as ideias seguintes, centrais na Doutrina do Sigma: Afirmação da existência de Deus e da Alma Imortal do Homem; Concepção Integral do Universo e do Ente Humano; Patriotismo; Nacionalismo Integral, justo, equilibrado, sadio e edificador, alicerçado na Tradição e tendente ao autêntico Universalismo, que não pode ser confundido com o internacionalismo liberal ou comunista; Defesa da Família, cellula mater da Sociedade, e do Município, cellula mater da Nação; Culto da Tradição Nacional; Combate sem tréguas ao comunismo e ao liberal-capitalismo internacional; Guerra sem quartel ao cosmopolitismo; Sustentação da Harmonia e da Justiça Social; Restauração dos princípios de Autoridade, Hierarquia e Disciplina; Pugna sem tréguas contra o racismo e em prol da valorização do nosso povo e das nossas tradições, assim como dos pensadores e escritores nacionais; Luta pela construção de uma Democracia Integral e de um Estado Ético Orgânico Integral Cristão, instrumento da Nação, do Homem do Bem Comum.
O primeiro artigo do Manifesto de Outubro trata da concepção integral do Universo e do Homem, afirmando que “Deus dirige o destino dos povos”; que o Homem, ente dotado de vocação sobrenatural,“ deve praticar sobre a terra as virtudes que o elevam e aperfeiçoam”, valendo pelo trabalho e pelo sacrifício em prol da Família, da Pátria e da Sociedade, assim como pelo estudo, inteligência e honestidade e pelo progresso científico, técnico e artístico “tendo por fim o bem estar da Nação e o elevamento moral das pessoas”; que as riquezas são bens meramente passageiros, não engrandecendo a ninguém, ao menos que seus detentores cumpram os deveres que lhes são impostos em benefício da Pátria e da Sociedade, e que os homens, assim como as classes, “podem e devem viver em harmonia”.[13]
Como observa Plínio Salgado em O Integralismo na vida brasileira, obra que se constitui no primeiro volume da Enciclopédia do Integralismo, organizada por Gumercindo Rocha Dorea em fins da década de 1950, neste primeiro capítulo do Manifesto de Outubro se encontra a influência de Farias Brito, quando este, no livro A verdade como regras das ações, demonstra que não podem existir normas morais sem que preliminarmente adotemos uma precisa noção da origem e da finalidade da Pessoa Humana. Ainda segundo Plínio Salgado, tal capítulo reconduz os valores morais ao lugar superior de onde foram arrancados pelo materialismo moderno, e defende “o direito às legítimas aspirações de cada um e de todos, pela prática da fraternidade cristã e da justiça, que emana dos corações à luz de uma consciência conhecedora das leis de Deus”, se constituindo em uma proclamação de direitos da Pessoa Humana, “não segundo o critério agnóstico-naturalista de Rousseau, mas segundo a filiação comum dos homens em Deus”.[14]
No segundo artigo do Manifesto de Outubro, Plínio Salgado sustenta a Democracia Orgânica, ou Democracia Integral, consagrando o princípio democrático da representação política dos trabalhadores de acordo com suas categorias profissionais,[15] sistema este que está plenamente de acordo com a Doutrina Social da Igreja, conformando-se plenamente com as lições, no campo social, de todos os Sumos Pontífices a partir de Pio IX e Leão XIII.[16]
No artigo terceiro, defende-se a restauração do princípio de Autoridade,[17] entendida como pressuposto da autêntica Liberdade, nele podendo ser sentida, nas palavras do autor do Manifesto de Outubro, “a presença de Jackson de Figueiredo, nas suas campanhas pela restauração do princípio de autoridade, sem a qual a liberdade dos maus, dos traficantes e dos imorais tripudiará sobre os direitos dos bons, dos honestos e virtuosos”.[18]
No artigo quarto do Manifesto de que ora tratamos e que fala do nacionalismo, podemos perceber que Plínio Salgado está plenamente de acordo com Alberto Torres, que, na obra O problema nacional brasileiro, defende o autêntico nacionalismo, combatendo o cosmopolitismo e a influência estrangeira, assim como os absurdos e nefastos preconceitos étnicos, que levaram muitos brasileiros a amesquinhar os elementos formadores da Nacionalidade, assim como aqueles que posteriormente nela se estabeleceram.[19] Consoante escreveu Plínio Salgado,
Nesse capítulo 4º, palpitante de brasilidade, como que se ouvem os clarins de Olavo Bilac na sua memorável campanha cívica; as vozes de Alencar e de Gonçalves Dias, repetindo os ecos da selva; o clangorar das inúbias na obra de Couto de Magalhães; a simpatia humana de Joaquim Nabuco por aqueles que ele ajudou a libertar da escravidão; o nobre orgulho da estirpe lusitana, que ilumina as páginas de Elísio de Carvalho; a alma do sertanejo, presente nos “Sertões” de Euclides da Cunha; o sentido do tradicionalismo flagrante em Oliveira Lima e Eduardo Prado; o entusiasmo patriótico do Conde de Afonso Celso.[20].
No artigo quinto do Manifesto Integralista de 07 de Outubro de 1932, Plínio Salgado condena o regionalismo excessivo e o exclusivismo da política estadual em detrimento da política nacional, colocando-se contra os “partidarismos egoístas”, a luta de classes e o caudilhismo.[21] Tal artigo está, nas palavras do seu próprio autor, repleto “da alma de Caxias, do sentido da Unidade Nacional pela qual lutou o Condestável do Império, do sentimento sempre presente em nossas Forças Armadas, da ordem interna como base da defesa externa,” se erguendo contra “o exclusivismo da política provinciana em detrimento da grande política da Nacionalidade”.[22]
No sexto artigo do Manifesto ora em apreço, Plínio Salgado condena veementemente as conspirações carentes de objetivos doutrinários, as revoluções sem programas,[23] proclamando que o Integralismo é a “Revolução em marcha”, porém “a Revolução com ideias”, sendo, portanto, “franca, leal e corajosa”.[24]
O artigo sétimo do Manifesto de Outubro trata da questão social tal como a considera o Integralismo, sob visível influência da Doutrina Social da Igreja e das ideias de pensadores brasileiros como Pandiá Calógeras e o Rui Barbosa dos últimos anos de vida, ideias estas inspiradas, aliás, principalmente na Encíclica Rerum novarum, de Leão XIII, e na obra do Cardeal Mercier.[25] Em tal artigo, Plínio Salgado, entendendo a propriedade como trabalho acumulado e projeção física da personalidade humana[26] e condenando a “escravidão comunista” e o liberal-capitalismo, sustenta o direito natural de propriedade, contra o qual atenta o sistema econômico liberal-capitalista, e defende, ainda, as justas reivindicações dos trabalhadores, que deveriam perceber “salários adequados às suas necessidades”, participar dos lucros das empresas “conforme seu esforço e capacidade” e tomar parte nas decisões governamentais.[27]
O artigo oitavo do Manifesto Integralista de 07 de Outubro, por sua vez, defende a Família, cellula mater da Sociedade e primeiro dos Grupos Naturais, que, assim como o Homem, precederam o Estado, que tem o dever de respeitar sua intangibilidade, necessitando ser forte justamente para manter a integridade do Homem e da Família.[28]
O artigo nono do Manifesto de Outubro sustenta o Municipalismo, com base, antes de tudo, nos ensinamentos dos constitucionalistas do Primeiro Reinado e nas observações, já no período republicano, de homens como Gama Rodrigues, ao lado de quem Plínio Salgado fundara, em fins da década de 1910, o Partido Municipalista, e Domingos Jaguaribe,[29] a quem o autor de O estrangeiro e O esperado considerava o “patriarca do Municipalismo”.[30] Neste artigo, Plínio Salgado afirma que o Município, cellula mater da Nação, é uma reunião de pessoas livres e de famílias autônomas, devendo ser autônomo em tudo aquilo que diz respeito a seus interesses peculiares.[31]  
Por fim, o artigo décimo do Manifesto de Outubro é, na expressão de Plínio Salgado, a “síntese nacionalista do Estado Cristão, o resumo da democracia orgânica”. Nele são traçados
                                          os grandes lineamentos da expressão e do prestígio internacional da Pátria Brasileira. Vive ali o espírito de Alexandre de Gusmão e do Barão do Rio Branco; os sonhos de D. João Terceiro e do Conde de Bobadela e de D. João VI; a firmeza de José Bonifácio na construção da nossa unidade e da nossa grandeza; a ação de Pedro Segundo e do Duque de Caxias na consolidação desse patrimônio.[32]
Consoante salientamos há exatamente dois anos, por ocasião do octogésimo aniversário do Manifesto de Outubro,[33] este tão injustamente olvidado Manifesto e o tão caluniado e mesmo demonizado Integralismo, movimento sobre o qual se criou uma verdadeira leyenda negra ainda não de todo destruída, desempenharam papel de grande relevância na vida cultural, política e social do nosso Brasil, relevância esta muito bem sintetizada por Plínio Salgado nas páginas de O Integralismo na vida brasileira e que é por nós assaz conhecida, do mesmo modo que os nomes dos diversos pensadores, escritores, juristas, jornalistas, médicos, professores, políticos, sociólogos e historiadores que vestiram a Camisa-Verde Integralista e muito contribuíram, em suas respectivas áreas, para o engrandecimento da Nação Brasileira. Em virtude disto, julgamos não ser necessário discorrer aqui a respeito de tais assuntos. Salientemos, pois, apenas, que o Integralismo não foi somente o primeiro “movimento de massas” do Brasil e que a AIB (Ação Integralista Brasileira) não foi unicamente a primeira agremiação política de amplitude nacional desde o ocaso do Império, mas que tal movimento e tal organização foram – e tal movimento ainda é -, como afirmamos algures, uma admirável escola de Moralidade, Civismo, Patriotismo e Nacionalismo construtivo, assim como um possante foco de irradiação, inexpugnável cidadela e vigilante atalaia do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro.[34]
 Com efeito, o Integralismo, que é, como aduz Gustavo Barroso, “uma Ação Social, um Movimento de Renovação Nacional em todos os pontos e em todos os sentidos”, pregando “uma doutrina de renovação política, econômica, financeira, cultural e moral”,[35] tendo como lema a tríade “Deus, Pátria e Família”, “grandiosa como nenhuma outra”, na expressão de Afonso de Escragnolle Taunay,[36] reuniu, no dizer de Miguel Reale, “o que havia de mais fino na intelectualidade da época”,[37] se constituindo, segundo Gerardo Mello Mourão, no “mais fascinante grupo da inteligência do País”.[38] No mesmo sentido, poderíamos citar as palavras do liberal e, portanto, insuspeito Roberto Campos, que, em suas memórias, ao falar de San Tiago Dantas, evoca “o surpreendente fascínio que o Integralismo exerceu em sua geração, particularmente sobre a parte mais intelectualizada”,[39] assim como as palavras do igualmente liberal e insuspeito Pedro Calmon, que, na biografia de seu pai, Miguel Calmon, observa que a plêiade de intelectuais reunida pelo Integralismo “poderia lotar uma Academia, em vez de ocupar uma trincheira”[40].
 
Já nos havendo estendido mais do que o ideal, reputamos oportuno encerrar, por aqui, o presente artigo, ressaltando que o Manifesto de Outubro, síntese por excelência da Doutrina profundamente cristã e brasileira do Integralismo, vanguarda da Nação Profunda e de sua Tradição, se configura em um altaneiro e eloquente brado em prol da edificação de um Brasil Grande e Renovado, restituído a sua augusta missão histórica, herdada de Portugal, de dilatar a Fé e o Império. Tal documento, repositório do mais sadio, vigoroso, rigoroso e edificante nacionalismo e leitura obrigatória a todos aqueles que pretendem se tornar autênticos guerreiros de Deus, da Pátria, da Família e de todos os valores tradicionais consubstanciados em tal tríade, tal documento, enfim, em que se pode sentir o palpitar do Brasil Autêntico, se configura na sementeira da Pátria Nova com que sonhamos, com os pés no chão, todos os autênticos e verdadeiros idealistas orgânicos. Neste octogésimo segundo aniversário do “nosso Manifesto”, como, aliás, o chamou o Professor Goffredo Telles Junior, pouco antes de seu falecimento, em conversa telefônica com o Professor Acacio Vaz de Lima Filho, rogamos, uma vez mais, a Deus, Criador e Regente do Universo e do Homem, que suscite, no nosso Brasil, varões de espírito nobre e guerreiro dispostos a marchar pelo fogo e pelas ruínas, sacrificando, se necessário, as próprias vidas, sem nada pedir em troca, em nome dos princípios resumidos no Manifesto de Outubro, lídima expressão do autêntico Espírito Nobre e carta de princípios que deve ser tomada em consideração por todo aquele que tem consciência de que é com base na autêntica Tradição Nacional e no autêntico pensamento nacional brasileiro que devemos estruturar as nossas instituições políticas.
 
Por Cristo e pela Nação!
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente Nacional da Frente Integralista. São Paulo, 07 de Outubro de 2014-LXXXII.
 
*Versão revista e ampliada de nosso artigo 81 anos do Manifesto de Outubro, disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=247. Acesso em 06 de outubro de 2014.


[1] Cf. Plínio SALGADO, O Integralismo na vida brasileira, in Enciclopédia do Integralismo, vol. I, Rio de Janeiro, Edições GRD/Livraria Clássica Brasileira, s/d, p. 15.
[2] Virgínio Santa ROSA, A personalidade de Plínio Salgado, in VV.AA., Plínio Salgado, 4ª edição, São Paulo, Companhia Editora Panorama, 1937, p. 73.
[3] Cf. Maria Amélia Salgado LOUREIRO, Plínio Salgado, meu pai, São Paulo, Edições GRD, 2001, p.154.
[4] Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo, in Antônio Carlos PEREIRA, Folha dobrada: documento e história do povo paulista em 1932, São Paulo, O Estado de S. Paulo, 1982, pp. 517-525.
[5] Despertemos a Nação, 1ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1935, p. 5.
[6] O idealismo da Constituição,2ª edição, aumentada, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1939, pp. 12-13.
[7] Cf. Victor Emanuel Vilela BARBUY, Idealismo utópico e idealismo orgânico (Comunicação apresentada no III Simpósio de Filologia e Cultura Latino-Americana, promovido pelo PROLAM/USP e pelo Núcleo de Pesquisa “América” e realizado nos dias 28, 29 e 30 de novembro de 2011, na sala de videoconferências de Filosofia e Ciências Sociais, na Cidade Universitária, em São Paulo). Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=137. Acesso em 07 de outubro de 2014.
[8] 79 anos do Manifesto de Outubro. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=125. Acesso em 07 de outubro de 2014.
[9] A ilusão americana, 2ª edição, Prefácio de Augusto Frederico Schmidt, Rio de Janeiro, Livraria Civilização Brasileira S.A., 1933, p. 60.
[10] 79 anos do Manifesto de Outubro, cit.
[11] O idealismo da Constituição, 1ª edição, Rio de Janeiro, Edição de Terra de Sol, 1927, p. 13.
[12] Comunismo, Cristianismo e Corporativismo, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Ltda., 1938, p. 98.
[13] Cf. Plínio Salgado, Manifesto de Outubro de 1932, in Sei que vou por aqui!, n. 2, São Paulo, setembro-dezembro de 2004, p. V.
[14] O Integralismo na vida brasileira, cit., p. 23.
[15] Manifesto de Outubro de 1932, cit., p. V.
[16] O Integralismo na vida brasileira, cit., p. 24.
[17] Manifesto de Outubro de 1932, cit., loc. cit.
[18] O Integralismo na vida brasileira, cit., p. 25.
[19] Idem, loc. cit.
[20] Idem, p. 26.
[21] Manifesto de Outubro de 1932, cit., p. VIII.
[22] O Integralismo na vida brasileira, cit., loc. cit.
[23]Idem, loc. cit.
[24] Manifesto de Outubro de 1932, cit., p. IX.
[25] O Integralismo na vida brasileira, cit., p. 27.
[26] Idem, loc. cit.
[27] Manifesto de Outubro de 1932, cit., pp. IX-X.
[28] Idem, pp. X-XI; O Integralismo na vida brasileira, cit., pp. 27-28.
[29] O Integralismo na vida brasileira, cit., p. 28.
[30] Apud Pedro PAULO FILHO, Campos do Jordão, o presente passado a limpo, São José dos Campos, Vertente, 1997, p. 70.
[31] Manifesto de Outubro de 1932, cit., p. XI.
[32] O Integralismo na vida brasileira, cit., p. 29.
[33]80 anos do Manifesto de Outubro, cit.
[34] 79 anos do Manifesto de Outubro, cit.
[35] O que o Integralista deve saber, 5ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, S.A, 1937, pp. 09-10.
[36] Algumas palavras, in Lúcio José dos SANTOS, Filosofia, Pedagogia, Religião, São Paulo, Companhia Melhoramentos, 1936, p. 7.
[37] Entrevista concedida ao Jornal da USP.  Disponível em:http://espacoculturalmiguelreale.blogspot.com/2007/08/entrevista-concedida-pelo-prof-reale-ao.html. Acesso em 07 de outubro de 2014.
[38] Entrevista concedida ao Diário do Nordeste. Disponível em:
[39] A lanterna na popa, Rio de Janeiro, Topbooks, 1994, p. 843.
[40] Miguel Calmon – uma grande vida, Prefácio de Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro, José Olympio Editora; Brasília, INL (Instituto Nacional do Livro), 1983, p. 170.

07/10/2014, 23:39:37

12 de Outubro

No último dia 07 de Outubro, celebramos os quatrocentos e quarenta e três anos da vitória cristã na Batalha de Lepanto, que salvou a Europa e pôs fim à expansão do Império Otomano no Mediterrâneo, assim como o octogésimo segundo aniversário do Manifesto de Outubro, documento histórico e Carta Magna do Integralismo, cuja mensagem essencialmente cristã e brasileira rapidamente se espalhou por todo o território nacional, constituindo a base doutrinária do maior movimento social renovador de toda a História Pátria.

Hoje, dia 12 de Outubro, nós outros, legionários de Deus, da Pátria e da Família, celebramos o Dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, do mesmo modo que o Dia da Hispanidade, o Dia da América, o Dia das Crianças e o octogésimo terceiro aniversário do Monumento ao Cristo Redentor do Corcovado e da solene consagração do Brasil a Cristo Rei e Redentor.

Há exatos duzentos e noventa e cinco anos, aos doze dias do mês de outubro do ano da graça de 1717, nas águas do rio Paraíba do Sul, no atual Município de Aparecida, tradicional e popularmente conhecido como “Aparecida do Norte” e por esse tempo pertencente à Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, na então Capitania de São Paulo e das Minas do Ouro, humildes pescadores encontraram, segundo reza a tradição, a enegrecida imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal, heroica e cruzada Nação de que nasceu a nossa igualmente heroica e cruzada Nação. Hoje, todos os autênticos brasileiros, quer se considerem ou não católicos, devem evocar, com o máximo respeito, a figura de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira deste grande Império do ontem e do amanhã ao lado do injustamente olvidado São Pedro de Alcântara.

Foi também a 12 de Outubro que Cristóvão Colombo chegou a este magno Continente que tantos filhos e frutos deu à Cristandade, sendo nesta data celebrado, em todo o Mundo Hispânico, ao qual pertence o Brasil, assim como Portugal e todo o Mundo Lusíada, o Dia da Hispanidade, também chamado Dia da Raça, tomado este último termo em seu sentido espiritual e cultural. É assim, pois, que nós outros, descendentes em sangue e espírito ou apenas em espírito dos portugueses, daquela “gente fortissima de Espanha" de que nos fala Luís Vaz de Camões,[1] defendendo, como António Sardinha, “a unidade cultural e social do elevado destino que Portugal e Castela nobremente conseguiram no Universo, dilatando com a Fé e o Império o mesmo ideal superior da civilização”,[2] celebramos o Dia da Hispanidade, lamentavelmente tão pouco evocado em nossa América Lusíada. E, como luso-americanos, e, enquanto tais, filhos da América, não podemos deixar de celebrar o dia deste imenso Continente.

Quanto ao Dia das Crianças, o despimos do caráter comercial que este adquiriu, assim como do caráter, que igualmente adquiriu, em nosso País, de substituição ao Dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, substituição esta orquestrada pelas forças anticristãs, antitradicionais e antinacionais controladas pelos adoradores de Mamon e do Bezerro de Ouro, e, assim, lembrando que tal dia foi instituído com intenções legítimas pelo Presidente Arthur Bernardes, católico devoto e praticante e exemplar patriota e nacionalista, homenageamos todas as crianças brasileiras, representantes do porvir da Nação, rogando a Deus que suscite entre elas futuros soldados de Cristo Rei e da Terra de Santa Cruz.

Por fim, recordemos o octogésimo terceiro aniversário da estátua do Cristo Redentor do Corcovado e da solene consagração do Brasil a Cristo Rei e Redentor, realizada pelo Cardeal Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, por ocasião da inauguração daquele monumento, que, como escreveu Tasso da Silveira, no seu magnífico Cântico ao Cristo do Corcovado, estende os braços sobre o Rio de Janeiro e todo o Brasil “numa bênção infinita”.[3] E ressaltemos que, ainda como observou, no aludido poema, o poeta dos Cantos do campo de batalha e do Canto absoluto, nós outros, os brasileiros, não nos importamos em ser “o Povo-sem-Nome sobre a terra”, desde que também sejamos o “jardim fechado” de Nosso Senhor Jesus Cristo, de onde Este “colha as almas luminosas/ como rosas frescas e matinais...”, e desde que sejamos, ainda, o “esplêndido trigal” do Divino Mestre, de que Este tire a “farinha alvíssima” para Seu “pão de pureza” e para Seu “pão de glória”, porque “o destino que sobre todos os destinos desejamos” é aquele de, “para todo o sempre”, servir e adorar a Cristo Rei e Redentor.[4]

Isto posto, fechemos esta breve apresentação transcrevendo a fórmula de consagração de nossa Terra de Santa Cruz a Cristo Rei e Redentor, composta pela Madre Maria José de Jesus, priora do Convento de Santa Tereza, a pedido de Dom Leme, e, em seguida, uma breve invocação de Plínio Salgado a Cristo Rei, que vem a ser a peroração da conferência intitulada Primeiro, Cristo! e por ele proferida em 28 de outubro de 1945 no Liceu Camões, em Lisboa, a convite da Acção Católica portuguesa e na presença de Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal-Patriarca de Lisboa.

Senhor Jesus, Redentor nosso, verdadeiro Deus
E verdadeiro Homem, que Sois para o mundo
A única fonte de luz, de paz, de progresso e de felicidade,
E Salvador que nos remistes com o sacrifício da Vossa vida,
Eis a Vossos pés representado o Brasil, a Terra de Santa Cruz,
Que se consagra solenemente a Vosso Coração sacratíssimo
E Vos reconhece, para sempre, por seu único Rei e Senhor.

Vós, que esculpistes no céu brasileiro a Vossa cruz,
De onde jamais poderá ser apagada,
Aceitai e abençoai essa imagem que será entre nós
O símbolo de Vossa Fé de Rei de nosso espírito,
De Vossa dor de Rei de nossos corações.
Oh! Reinai, Senhor Jesus, reinai sobre nossa Pátria
Queremos que o Brasil viva e prospere sob os Vossos olhares,
Queremos que o nosso povo seja sempre iluminado

Pela verdade de vosso Evangelho.

Reinai, ó Cristo Rei, reinai, ó Cristo Redentor!

Ser brasileiro seja crer em Jesus Cristo, amar a Jesus Cristo!
E esta sagrada imagem seja o símbolo de Vosso domínio,
De Vosso amparo, de Vossa predileção, de Vossa bênção,
Que paira sobre o Brasil e sobre os brasileiros,
Como Senhor dos que, tendo sido Vossos na terra,
Vossos serão eternamente no céu.

Amém.[5]

Por Cristo-Rei

Seja, pois, a exaltação da realeza de Cristo, o coroamento destas palavras. Eu a proclamo, do fundo da minha pequenez, com o ardor de um soldado. E como soldado vos convido ó homens do meu tempo, a aclamarmos o Cristo-Rei, por cujo Reino devemos ir à luta, uma luta diferente, porque não seremos portadores de morte, mas de vida; nem de aflições, mas de consolações, nem de crueza, mas de bondade.

E Vós – ó Jesus, a quem tanto amamos, e que estais tão abandonado pelas nações no século dos horrores, como Vos prefigurou na tábua apocalíptica o pintor neerlandês [Van Aeken, o Bosch] – recebei o nosso preito de soldados fiéis, e socorrei-nos em nossas fraquezas, para que possamos cumprir quanto desejamos, no empenho de Vos bem servir; pois incapazes somos nós sem vossa Graça, mas se não faltardes com Ela, ainda que hajamos de cair muitas vezes, outras tantas nos levantaremos, de sorte que, nas horas perigosas, nas horas decisivas e, principalmente, na hora extrema, por Vós, sempre por Vós, estaremos de pé![6]

Por Cristo Rei e Redentor e pela Nação Brasileira!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 12 de Outubro de 2014- LXXXII.



Notas:
[1] Luís Vaz de CAMÕES, Os Lusíadas, Canto I, estrofe XXXI.
[2] António SARDINHA, À lareira de Castela, Lisboa, Edições Gama, 1943, pp. 12-13.
[3] Cântico ao Cristo do Corcovado(1931), 6ª edição, in Cantos do campo de batalha, 4ª edição, Texto introdutório de Amândio César, São Paulo, Edições GRD, 1997, p. 40
[4] Idem, p. 48.
[5] In PIO XI, Carta Encíclica Quas Primas, Tradução de Renato Romano, Belo Horizonte, Edições Cristo Rei, 2011, p. 53 (edição comemorativa dos 80 anos de inauguração do Cristo Redentor e da consagração do Brasil a Cristo Rei e Redentor). A fórmula de consagração do Brasil a Cristo Rei e Redentor foi transcrita nesta obra do jornal Folha da Manhã, de São Paulo, de 13 de outubro de 1931.
[6] Plínio SALGADO, Primeiro, Cristo!, 4ª ed. (em verdade 5ª), Palavras introdutórias de Manuel Trindade Salgueiro, Bispo de Helenópole, São Paulo/Brasília, Editora Voz do Oeste/Instituto Nacional do Livro, 1979, pp. 26-27.

 


[*] Versão revista e atualizada do discurso proferido no encerramento da reunião do núcleo paulistano da Frente Integralista Brasileira (FIB) de 12 de outubro de 2013, realizada em homenagem ao Manifesto de Outubro e disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=251. Acesso em 12 de outubro de 2014.

 

 


12/10/2014, 21:22:23


12 de Outubro

12 de Outubro
António Sardinha e o Integralismo Lusitano

Na presente comunicação, falaremos a respeito de António Sardinha e do Integralismo Lusitano, movimento cívico-político católico, tradicionalista e monárquico de que este foi e é o principal líder e doutrinador e cujas ideias, na opinião do insuspeito, posto que não católico e republicano, Fernando Pessoa, eram “as únicas com sistema e coerência” no Portugal de seu tempo.[1]

Salientamos, antes de mais nada, que António Sardinha teve inúmeros leitores e admiradores não apenas no Portugal do Conde de Monsaraz, de Hipólito Raposo, Rolão Preto, Luís de Almeida Braga, Pequito Rebelo, Manuel Múrias, Rodrigues Cavalheiro, Afonso Lopes Vieira, João Ameal, Marcelo Caetano, Fernando de Aguiar, Jacinto Ferreira, Mário Saraiva, Henrique Barrilaro Ruas e mesmo de Salazar, na Espanha de Ramiro de Maeztu, Pemán e Francisco Elías de Tejada ou no Brasil de Oliveira Lima, Jackson de Figueiredo, Gilberto Freyre, Arlindo Veiga dos Santos, Sebastião Pagano, Plínio Salgado, Gustavo Barroso, Câmara Cascudo, Guilherme Auler, Vicente do Rego Monteiro, José Pedro Galvão de Sousa, Ítalo Galli, Clovis Lema Garcia e Ricardo Dip, como também na Itália de Julius Evola. Este, aliás, citou Sardinha em nota que consta de sua obra Os homens e as ruínas,[2] salientando que o pensador português acertou ao afirmar que a Tradição não é apenas o Passado, mas, antes, a “permanência no desenvolvimento”, a “permanência na continuidade”.[3]

 
 

António Sardinha e o Integralismo Lusitano

 

António Sardinha, que, de acordo com Fernando de Aguiar, fora trazido por Hipólito Raposo “à conversão, à Fé, à Tradição, ao municipalismo donde caminharia para a Monarquia, popular e descentralizadora, realenga e representativa dos povos”,[4] foi, segundo Ramiro de Maeztu, o “criador e propulsor do movimento chamado ‘integralista’, cuja ideia-mãe consistia na crença de que a saúde da sociedade portuguesa somente poderia se encontrar ‘no regresso às condições naturais de sua formação e desenvolvimento’”.[5] Sardinha encontrou o lema para tal regresso, ainda segundo observou Maeztu, em uma frase que este atribui a Renan, mas que, em verdade, é de seu neto, Ernest Psichari, como destacou o próprio Sardinha:[6] "É preciso tomar o partido de nossos maiores contra o partido de nossos pais”. Seus principais inspiradores, ou “pais espirituais”, foram, de acordo com o pensador e político espanhol, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Fialho d’Almeida e, “um pouco mais atrás”, Oliveira Martins, Antero de Quental e Camilo Castelo Branco, todos eles “patriotas, tão saturados da grandeza de Portugal no passado como desesperados de sua pequenez contemporânea”.[7]

Nascido em Monforte, no Alentejo, a 09 de setembro de 1888, e falecido em Elvas, também no Alentejo, a 10 de janeiro de 1925, António Maria de Sousa Sardinha, ou, simplesmente, António Sardinha, o principal doutrinador e líder do movimento de regeneração a que se denomina Integralismo Lusitano, foi poeta, ensaísta, jornalista e doutrinador político.

Ao falecer, com apenas trinta e seis anos de idade, não havia deixado descendência física, posto que seu único filho morrera algum tempo antes, ainda praticamente recém-nascido,[8] abrindo em seu coração, como escreveu Luís de Almeida Braga, “uma chaga, que para sempre ficou sangrando”.[9] Esta perda foi a “primeira das grandes esperanças mortas de quem tanto merecia da vida”, como escreveram seus irmãos de ideal na revista Integralismo Lusitano: estudos portugueses, por ocasião da trasladação das cinzas do poeta e doutrinador tradicionalista, no oitavo aniversário de sua morte, para jazigo próprio, no cemitério da vila natal daquele infatigável “Batalhador do Espírito”, que ali passou a repousar ao lado do “filhinho querido”.[10]

Inspirado poeta, Sardinha cantou, antes de tudo, a Tradição da Nação Portuguesa, monárquica e católica. Os sonetos e poemas de sua lavra constituem, no dizer de Gilberto Freyre, “uma poesia cheia de nobreza intelectual”.[11] De sua obra poética, podemos destacar: Tronco reverdecido (1910),[12] A epopeia da planície (1915),[13] Quando as nascentes despertam (1921),[14] Na corte da Saudade (1922),[15] Chuva da tarde (1923),[16] Era uma vez um menino (1926),[17] Roubo de Europa (1931)[18] e Pequena casa lusitana (1937).[19]

A despeito de “grande poeta”, na justa expressão do poeta, ensaísta e crítico literário português Amândio César,[20] é como ensaísta que António Sardinha revela todo o seu valor. Este “insigne Mestre tradicionalista”, no dizer de Arlindo Veiga dos Santos,[21] nos legou, como sublinhou Gilberto Freyre, “notáveis trabalhos de erudição histórica”.[22] Dentre tais trabalhos, podemos destacar: O valor da Raça (1915),[23] Ao princípio era o Verbo (1924),[24] a introdução às Memórias e alguns documentos para a História e Teoria das Cortes Gerais, do segundo Visconde de Santarém (1924),[25] Ao ritmo da ampulheta (1925),[26] A aliança peninsular (1925),[27] Na feira dos mitos (1926),[28] Glossário dos tempos (1942)[29] e À lareira de Castela (1943).[30]

Consoante salientou António José de Brito, os mais vivos e característicos traços da obra de António Sardinha, que podemos resumir no tradicionalismo e no nacionalismo, garantem ao autor de Ao ritmo da ampulheta e de A aliança peninsular “lugar bem alto e cimeiro, o lugar de quem permanece de pé no meio de um mundo em ruínas”.[31]

Junto de António Sardinha, jovens intelectuais portugueses como Alberto de Monsaraz, Luís de Almeida Braga, José Adriano Pequito Rebelo, Francisco Rolão Preto, Hipólito Raposo, João do Amaral e Domingos Garcia Pulido, pugnaram por uma Nova Nação Portuguesa, cujas instituições se baseassem na Tradição Nacional. Eram todos eles arautos do “Integralismo Lusitano”, expressão que fora utilizada pela primeira vez em 1913, por Luís de Almeida Braga, na revista Alma Portuguesa, editada na Bélgica, quando ali se encontrava exilado juntamente com Rolão Preto, Simeão Pinto de Mesquita e outros jovens envolvidos nas incursões monárquicas de 1911, partidas da Galiza e comandadas por Paiva Couceiro.[32]

Em 1914, na revista Nação Portuguesa, dirigida por Alberto de Monsaraz, a expressão “Integralismo Lusitano” já designava, como ressaltou José Manuel Quintas, um “índice de soluções sob o título ‘monarquia tradicional, orgânica, antiparlamentar’”.[33] Surgia, então, politicamente, o Integralismo Lusitano, movimento que representa, na expressão de Marcelo Caetano, “a mais completa e importante afirmação das doutrinas nacionalistas, na política e na economia”, que teve lugar em Portugal.[34]

Victor Emanuel Vilela Babuy durante apresentação desta comunicação no IV Encontro Internacional Evoliano.

A Monarquia Tradicional que defende o programa integralista não é senão a Monarquia em que o Rei reina e governa, mas tem seu poder concretamente limitado pelas Assembleias, constituídas pelos representantes dos corpos intermediários, dos grupos naturais componentes da Sociedade, às quais cabe a administração dos negócios do Estado. É a Monarquia de São Luís, Rei de França; o Regime Misto, ou Monarquia Temperada, tido por Santo Tomás de Aquino como a melhor dentre as formas de governo;[35] a Monarquia, enfim, que vigorou na Espanha e no Portugal das Cortes, na França dos Estados Gerais, na Inglaterra do Parlamento e na Alemanha da Dieta.[36]

No “programa” integralista de 1914 também é defendido o nacionalismo. Com efeito, o Integralismo Lusitano é um movimento eminentemente nacionalista, tendo como objetivo principal a restauração da grandeza perdida da Nação Portuguesa, escolhida por Deus para dilatar a Fé e o Império. Com efeito, assim sustentou António Sardinha, em Ao princípio era o Verbo:

O que se nos impõe é restituir à Pátria o sentimento da sua grandeza, - não duma grandeza retórica ou enfática, mas naturalmente, da grandeza que se desprende da vocação superior que a Portugal pertence dentro do plano providencial de Deus, como nação ungida para a dilatação da Fé e do Império. Dilatar a Fé e o Império equivale a sustentar o guião despedaçado da Civilização. Os motivos de luta e de apostolado que outrora nos levavam à Cruzada e à Navegação, esses motivos subsistem.[37]

Isto posto, insta sublinhar que, para António Sardinha, o nacionalismo decorre do tradicionalismo, compreendido este como continuidade no desenvolvimento”, como “permanência na renovação”.[38]

Ainda segundo Sardinha, o tradicionalismo, se, por um lado, “em relação a cada pátria”, “supõe um nacionalismo”, supõe, por outro lado, “em relação ao conjunto humano, um universalismo”, universalismo este que não se confunde com o cosmopolitismo e o internacionalismo, sendo “ouniversalismo que a Idade Média professou e a que Augusto Comte rendia tão calorosas homenagens: a sociedade internacional restabelecida e restaurada sobre as únicas bases duradouras, - as da Cristandade”.[39]

Para o autor de A aliança peninsular, o “nacionalismosem universalismo”representa, derivadamente:

Ou um núcleo tumultuário do princípio das nacionalidades, filho da Democracia [liberal] e que hoje balcaniza a Europa, ou uma renúncia covardemente suicida à função que pertence a cada pátria no enriquecimento, sempre crescente, do patrimônio coletivo da civilização.[40]

Sardinha, enfim, supõe a existência de dois nacionalismos, um verdadeiro, equilibrado, justo, edificador e tendente ao universalismo, e outro falso, exagerado, antritadicional e antiuniversalista, que coloca a Nação acima da Moral e mesmo de Deus.

Isto posto, insta sublinhar que o nacionalismo do Integralismo Lusitano – assim como, diga-se de passagem, aqueles do Patrianovismo e do Integralismo Brasileiro – se completa com o transnacionalismo hispânico, que Sardinha defende em toda a sua obra e particularmente em A aliança peninsular.

É importante ressaltar que Portugal, bem como o Brasil, é tão hispânico quanto a Espanha e que o termo hispânico deriva de Hispânia, nome de toda a Península também denominada Ibérica.[41] Com efeito, Portugal e o Brasil estão entre “as Espanhas” de que nos falou Francisco Elías de Tejada[42], não hesitando Ramiro de Maeztu em incluí-los entre as nações hispânicas em sua obra Defensa de la Hispanidad:

Primeira questão: se incluirão nela [na Hispanidade] Portugal e Brasil? Às vezes protestam os portugueses. Não creio que os mais cultos. Camões os chama (Lusíadas, Canto I, estrf. XXXI): "Huma gente fortissima de Espanha".

André de Resende, o humanista, dizia o mesmo, com palavras que elogia dona Carolina Michaëlis de Vasconcelos: "Hispani omnes sumus". Almeida Garrett o dizia também: "Somos Hispanos, e devemos chamar Hispanos a quantos habitamos a península hispânica". E dom Ricardo Jorge disse: "chame-se Hispânia à península, hispano ao seu habitante onde quer que demore, hispânico ao que lhe diz respeito". Hispânicos são, pois, todos os povos que devem a civilização ou o ser aos povos hispanos da Península. Hispanidade é o conceito que a todos abarca.[43]

No prefácio de sua obra À lareira de Castela, afirmou António Sardinha que fora no tempo de seu exílio em Espanha, à sombra da Catedral de Toledo, que sentira, como “uma realidade viva”, a “Espanha-Madre”, as Espanhas das clássicas inscrições e dos primitivos roteiros, que “tanto é Castela como Aragão, tanto é Portugal como Navarra”, vendo, desde então, na Hispanidade a unidade não da raça ou da terra, em seu sentido imediato, mas sim “a unidade cultural e social do elevado destino que Portugal e Castela nobremente conseguiram no Universo, dilatando com a Fé e o Império o mesmo ideal superior da civilização”.[44]

No Brasil, dentre os diversos autores que defenderam a hispanidade de Portugal e do Mundo Lusíada, podemos destacar os nomes de José Pedro Galvão de Sousa[45], Gilberto Freyre[46] e Bento Munhoz da Rocha.[47]

Em face do Estado fraco do liberalismo e do Estado Totalitário defendido pelos fascistas e praticado pelos comunistas e nacional-socialistas,[48] os integralistas lusitanos pugnam pelo Estado Integral, que não é um fim, mas sim um instrumento, um meio do “bem comum, da civilização geral e do serviço de Deus”. A “ideia totalitária” deve ser definida, outrossim, segundo preleciona José Pequito Rebelo, “não pela fórmula de que tudo tem o seu fim no Estado, mas sim que o Estado deve cumprir a totalidade dos seus fins”.[49]

Em abril de 1916, com a entrada de Portugal na I Grande Guerra, os integralistas lusitanos anunciaram sua transformação em organização política. A recém-constituída Junta Central do movimento subscreveu, então, um Manifesto convocando todos os monárquicos a lutar em defesa da Pátria em guerra.[50]

Em 1917, quando Sidónio Pais subiu ao poder, os integralistas colaboraram ativamente com seu governo. Como sublinha José Manuel Quintas, o propósito sidonista de acolher uma representação socioprofissional no Senado tinha para eles um “profundo significado político”: pôr termo ao monopólio da representação por intermédio dos partidos ideológicos (regime parlamentar), permitindo a representação dos municípios, dos sindicatos de operários e das corporações, por exemplo, o que representaria “um primeiro passo no sentido do restabelecimento da democracia orgânica da antiga Monarquia portuguesa”.[51]

Como recordou Hipólito Raposo, foi o integralista lusitano Pequito Rebelo convidado a assumir o cargo de Comissário Geral da Agricultura, mas se recusou a aceitá-lo, posto que era monárquico e, como tal, julgava não poder aceitar cargos de confiança na República, ainda que esta fosse presidida por um “homem de tal categoria intelectual e moral”.[52] Prontificou-se Rebelo, porém, a fornecer a Sidónio Pais todos os elementos de estudo de que dispunha, para que se tentasse solucionar a grave crise econômica “por meio de uma diligente e criteriosa organização agrária”. Tal estudo foi entregue, mas provavelmente se perdeu “na confusão dos trágicos acontecimentos que se seguiram nos fastos da política portuguesa”.[53]

O Integralismo Lusitano colaborou com o governo de Sidónio Pais, ainda, no plano da reforma da Instrução Pública, tentado por impulso de Fidelino de Figueiredo, junto do Ministro Alfredo de Magalhães.[54]

Foram, por essa época, eleitos deputados três integralistas, sendo António Sardinha um deles, e, conforme escreveu Hipólito Raposo, os integralistas chegaram a elaborar um projeto de Constituição Política, entregue a Sidónio Pais e por ele recebido com entusiasmo e que provavelmente se perdeu para sempre, se é que não foi “abafado por cautela”.[55]

Na sequência do assassinato de Sidónio Pais, os integralistas chegaram à conclusão de que era chegado o momento de restaurar o Trono. Diante da reação dos partidos ideológicos, que intentavam restaurar o regime parlamentarista republicano, integralistas desempenharam ativo papel no pronunciamento restauracionista de janeiro de 1919, que culminou na efêmera “Monarquia do Norte”.[56]

Em 1925, com o prematuro falecimento de António Sardinha, iniciou-se a decadência do Movimento Integralista Lusitano. No ano seguinte, os integralistas desempenharam relevante papel nas movimentações político-militares que, vitoriosas, levaram à derrubada do regime parlamentarista, a 28 de maio daquele ano. Pouco depois, porém, de o General Gomes da Costa ter sido afastado do governo, a Junta Central Integralista já principiava a expor suas reservas acerca da evolução política.da ditadura. Tais reservas não foram, contudo, bem recebidas nas hostes do Movimento Integralista Lusitano. Destarte, muitos membros de tal movimento continuaram apoiando o governo estabelecido, o que provocou inúmeras dissidências e cisões: em 1927, afastaram-se do movimento José Maria Ribeiro da Silva, Pedro Teotónio Pereira, Manuel Múrias, Rodrigues Cavalheiro, Marcelo Caetano, Pedro de Moura e Sá; em 1929, ocorreu a ruptura definitiva de Teotónio Pereira e Marcelo Caetano com o movimento, com a dissolução do Instituto António Sardinha; em 1930, ocorreu a dissidência integral e definitiva de João do Amaral, cuja ruptura se iniciara já em 1927, com a criação do diário Ideia Nacional[57].

Em 1931, consumada a ruptura entre os principais líderes integralistas e a ditadura e diante da série de deserções e dissidências a que fizemos referência, Francisco Rolão Preto e Alberto de Monsaraz, suspendendo a reivindicação do Trono, criaram o Movimento Nacional-Sindicalista,[58] que seria dissolvido por Salazar em 1934.

Havendo feito referência ao Movimento Nacional-Sindicalista, consideramos necessário sublinhar que este, ao contrário do que julgam muitos, sempre se proclamou diverso do Fascismo italiano e do Nacional-Socialismo alemão, condenando, ademais, a concepção totalitária do Estado. Em entrevista dada à United Press em 1933 e publicada no jornal espanhol Esfera, Francisco Rolão Preto, Chefe daquele movimento fortemente influenciado pela Doutrina Social da Igreja e pelo Integralismo Lusitano, afirmou:

O Fascismo e o Hitlerismo são totalitários, divinizadores do Estado, cesaristas: nós outros pretendemos encontrar na tradição cristianíssima do Povo Português a fórmula que permita harmonizar a soberania indiscutível do Interesse Nacional com a nossa dignidade moral de homens livres.[59]

Mais tarde, no célebre banquete realizado no Parque Eduardo VII, em Lisboa, em fevereiro de 1934, Rolão Preto fez questão de ressaltar o sentido das intenções do Movimento Nacional-Sindicalista “para além da Democracia, do Fascismo e do Comunismo”.[60]

Em 1932, quando faleceu D. Manuel II sem deixar descendência, o Movimento Integralista Lusitano “acabou por se dissolver para integrar a Causa constituída em torno de D. Duarte Nuno”, descendente de El-Rei D. Miguel I. Ao contrário, porém, da maioria dos antigos apoiadores de D. Manuel II, a qual, a convite de Salazar, passou a colaborar com o nascente Estado Novo, os integralistas o combateram desde o princípio.[61]

Se verdade é que, por um lado, António de Oliveira Salazar admirava o Integralismo Lusitano e foi inegavelmente influenciado por este, o que levou Machado Paupério a afirmar que o Estado Novo derivou das “ideias de Antônio Sardinha”,[62] por outro, não pôde ele contar com o apoio dos integralistas, sobretudo por não restaurar a Monarquia Tradicional.

Em O Sistema Corporativo, de 1938, Marcelo Caetano, havendo reconhecido “a considerável influência que no rejuvenescimento do pensamento corporativo tem exercido a experiência italiana”, patente na Constituição do Estado Novo e no Estatuto do Trabalho Nacional, diploma este inspirado na Carta del Lavoro italiana, enfatizou que

A aceitação da doutrina integralista por grande parte do escol da juventude portuguesa antes de 1926, atribui-lhe um papel importantíssimo na formação da nossa sensibilidade corporativa, e até na legislação do Estado Novo.[63]

Como ponderou Leão Ramos Ascensão na obra O Integralismo Lusitano, publicada em 1943, “a doutrina do Integralismo Lusitano irradiou fortemente por todos os sectores da sociedade portuguesa”, podendo-se afirmar que “alguns dos seus pontos são hoje unanimemente admitidos”. Os integralistas, contudo, não se regozijavam em demasia, posto que “os princípios integralistas formavam um sistema coerente e harmónico, cujas vantagens só poderiam verificar-se com a sua adopção em bloco”, mas “mutilado, esfarrapado, todo o sistema é comprometido e da sua deturpação podem resultar mais inconvenientes do que vantagens”. A “chave da abóbada de todo o sistema é a Realeza hereditária” e “a aceitação do sistema sem sua conclusão lógica torna-o ineficaz e contraproducente e pode ser a origem da sua derrocada”.[64]

Nas décadas de 1930 e 1940 foram sendo doutrinadas a terceira e a quarta geração do Integralismo Lusitano em torno de revistas como a Gil Vicente, dirigida por Manuel Alves de Oliveira, jornais como o Aléo, dirigido por Fernão Pacheco de Castro, e editoras como as Edições Gama, de Leão Ramos Ascensão, Centeno Castanho e Fernando Amado. Em 1945 foi criado o Centro Nacional de Cultura.[65]

Na década de 1950, já estavam os jovens em condições de receber o legado integralista por meio de uma reatualização doutrinária intitulada "Portugal Restaurado pela Monarquia". Por essa mesma época, surgiram novas publicações, como a revista Cidade Nova, de José Carlos Amado, Afonso Botelho e Henrique Barrilaro Ruas, e jornais como O Debate, de António Jacinto Ferreira e Mário Saraiva.[66]

O movimento dos denominados "monárquicos independentes", reunindo grande parte das novas gerações formadas junto dos mestres do Integralismo Lusitano, apresentou o seu manifesto em 1957. No ano imediato, Luís de Almeida Braga e Francisco Rolão Preto surgiram a apoiar a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República. Segundo José Manuel Quintas, “terminavam ali os ‘anos de chumbo do Estado Novo’ (expressão de Fernando Rosas), com os integralistas em melhores circunstâncias para atrair os monárquicos desiludidos”.[67]

Em nossos dias, como ressaltou Mário Saraiva, “as gerações novas, viradas para o descobrimento da História que, antipatrioticamente, lhe tem sido ocultada”, vêm demonstrando “curiosidade especial para as doutrinas integralistas, também estas escondidas pelos facciosos meios de comunicação e de informação”[68].  Esperamos que esta curiosidade pelas doutrinas do Integralismo Lusitano só aumente em Portugal, Grande Pátria de que nasceu a nossa Pátria, assim como temos a certeza de que o ilustre nome de António Sardinha, bravo adail da Fé e da Tradição Lusíada, permanecerá vivo, iluminando, como um farol, o porvir daquela pequena grande Nação que um dia criou um vastíssimo Império.


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira


Notas:
[1] Da República (1910-1935),Recolha de textos por Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, Introdução e organização de Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1978, p. 354.
[2] Los hombres y las ruinas, Capítulo I, Tradução castelhana não assinada. Disponível em:  http://juliusevola.blogia.com/2010/092601-los-hombres-y-las-ruinas.-capitulo-i.-revolucion-contra-revolucion-tradicion.php. Acesso em 08 de setembro de 2014.
[3] Na feira dos mitos: idéias & factos, 2ª edição, Porto, Edições Gama, 1942, pp. 11 e 16. Grifos em itálico no original.
[4] Gente de casa: retratos de homens & perfis de ideias, Lisboa, Sigma, 1948, p. 185.
[5] Prologo de la primera edición española (1930), in António SARDINHA, A aliança peninsular, 3ª edição, Lisboa, qp, 1975, p. LXII.  Tradução nossa.
[6] Ao princípio era o Verbo, 2ª edição, Lisboa, Editorial Restauração, 1959, p. 10.
[7] Prologo de la primera edición española (1930), in António SARDINHA, A aliança peninsular, cit., pp. LXII e LXIII.  Tradução nossa.
[8] Cf. Guilherme AULER, Antonio Sardinha, Recife, Ciclo Cultural Luso-Brasileiro, 1943, p. 29.
[9] Estudo, in António SARDINHA, Roubo de Europa, Lisboa: J.F. Alves, 1931, p. XXIX.
[10] INTEGRALISMO LUSITANO, Antonio Sardinha, in Integralismo Lusitano: estudos portugueses, Volume I, Fascículo X, janeiro de 1933, p. 575.
[11] Antonio Sardinha. Disponível em: http://www.angelfire.com/pq/unica/il_gf_antonio_sardinha_por_gilberto.htm. Acesso em 08 de setembro de 2014. Artigo originalmente publicado na Revista do Norte, ano I, nº 1, Recife, 1925, pp. 5-6.
[12] Tronco reverdecido, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1910.
[13] A epopeia da planície, 2ª edição, Lisboa, Editorial Restauração, 1960.
[14] Quando as nascentes despertam, Lisboa, Livraria Ferin, 1921.
[15] Na corte da Saudade: sonetos de Toledo, Lisboa, Lumen, 1922.
[16] Chuva da tarde, Lisboa, Lumen, 1923.
[17] Era uma vez um menino, Lisboa, Livraria Universal, 1926.
[18] Roubo de Europa, Prefácio de Luís de Almeida Braga, Lisboa, Valentino de Sá, 1931.
[19] Pequena casa lusitana, Porto, Livraria Civilização, 1937.
[20] O poeta António Sardinha, in Reconquista, vol. III, n°s 2/3, São Paulo, 1952, p. 154.
[21] Roubo de Europa. In Reconquista, vol. III, n°s 2/3, São Paulo, 1952, p. 139.
[22] Antonio Sardinha, cit.
[23] O valor da Raça: introdução a uma campanha nacional,Lisboa, Almeida, Miranda & Sousa Editores, 1915.
[24] Ao princípio era o Verbo, cit.
[25] A Teoria das Cortes Gerais, 2ª edição, Lisboa, qp, 1975.
[26] Ao ritmo da ampulheta. 2ª ed. Lisboa: Biblioteca do Pensamento Político, 1978.
[27] A aliança peninsular, cit.
[28] Na feira dos mitos: ideias & factos, cit.
[29] Glossário dos Tempos, Lisboa, Edições Gama, 1942.
[30] À lareira de Castela, Lisboa, Edições Gama, 1943.
[31] António Sardinha sem disfarces, in Para a compreensão do pensamento contra-revolucionário: Alfredo Pimenta, António Sardinha, Chales Maurras, Salazar, Lisboa, Hugin, 1996, p. 95. Ensaio originalmente publicado em 1985, em número especial da revista Futuro Presente, de Lisboa.
[32] O artigo de Almeida Braga intitulado Integralismo Lusitano (anunciação) e publicado na revista Alma Portuguesa, nº II, série I, Lovaina, setembro de 1913, se encontra disponível em: http://www.angelfire.com/pq/unica/il_1913_IL_anunciacao_alma_portuguesa.htm. Acesso em 08 de setembro de 2014.
[33]Integralismo Lusitano – uma síntese. Disponível em: http://www.angelfire.com/pq/unica/il_jmq_integralismo_lusitano_sintese.htm. Acesso em 08 de setembro de 2014.
[34] Lições de Direito Corporativo,Lisboa, 1935, p. 12.
[35] Suma Teológica. 1ª parte da 2ª parte, Questão 105, Artigo 1º, Solução, Tradução de Alexandre Corrêa, Organização e direção de Rovílio Costa e Luís Alberto de Boni, Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Livraria Sulina Editora; Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1980, p.1902. No opúsculo Do governo dos príncipes ao Rei de Cipro, Santo Tomás de Aquino, tendo em vista a mesma espécie de Monarquia, igualmente observou que é a Monarquia a melhor dentre as diferentes formas de governo(Do governo dos príncipes ao Rei de Cipro e do governo dos judeus à Duquesa de Brabante, 2ª edição, Tradução de Arlindo Veiga dos Santos. Prefácio de Leonardo van Acker. São Paulo: Editora Anchieta S/A, 1946, 43 e 45).
[36] Cf. Victor Emanuel Vilela BARBUY, A Monarquia Tradicional. Disponível em: http://monarquiatradicional.blogspot.com/2010_05_01_archive.html. Acesso em 09 de setembro de 2014. Sobre a Monarquia Tradicional: Francisco Elías de TEJADA, La Monarquía Tradicional, Madrid, Ediciones Rialp, S.A., 1954; Rafael GAMBRA, La Monarquía Social y Representativa en el pensamiento tradicional, Madrid, Ediciones Rialp, 1954; António SARDINHA, A Teoria das Cortes Gerais, cit.
[37] Ao princípio era o Verbo, cit., p. 14
[38] Idem, p. 10.
[39] Idem, p. 11.
[40] Idem, loc. cit.
[41] Cf. Victor Emanuel Vilela BARBUY, Brasil, Pátria hispânica, Grande Nação do passado e do futuro. Disponível em: http://cristianismopatriotismoenacionalismo.blogspot.com/2008/03/brasil-ptria-hispnica-grande-nao-do.html. Acesso em 09 de setembro de 2014.
[42] Las Españas. Madri: Ediciones Ambos Mundos, S. L., 1948.
[43] Defensa de la Hispanidad, Capítulo I: La Hispanidad y su dispersión. Disponível em: http://hispanidad.tripod.com/maezt3.htm. Acesso em 09 de setembro de 2014.
[44] À lareira de Castela, cit., pp. 12-13.
[45] SOUSA, José Pedro Galvão de. O Brasil no Mundo Hispânico. São Paulo: Ed. do autor, 1962.
[46] FREYRE, Gilberto. O Brasileiro entre os outros hispanos: afinidades e possíveis futuros nas suas inter-relações. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.
[47] ROCHA, Bento Munhoz da. Uma interpretação das Américas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948.
[48] Cumpre assinalar que o Estado Totalitário jamais se realizou na Itália de Mussolini, cujo regime nunca absorveu integralmente a sociedade, permitindo aos cidadãos um certo grau de liberdade no âmbito das atividades privadas, como, aliás, afirmaram Raymond Aron, em Democracia e totalitarismo (Democracia e totalitarismo, Tradução portuguesa de Frederico Montenegro, Lisboa, Editorial Presença, 1966, pp. 295-296), Hannah Arendt, em Origens do totalitarismo (Origens do totalitarismo, São Paulo, Companhia das Letras, 2012 pp. 355-358), e Roque Spencer Maciel de Barros, em O fenômeno totalitário (O fenômeno totalitário, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1990, p. 81), nunca tendo o Duce, segundo Arendt, sequer tentado estabelecer um regime realmente totalitário em seu país (Origens do totalitarismo, cit., p. 437). Não podemos, pois, classificar o Estado fascista senão como um Estado Autoritário, de natureza diversa dos Estados Totalitários marxistas e do Estado Totalitário nacional-socialista. É o que Tasso da Silveira, um dos principais doutrinadores do Integralismo Brasileiro, já proclamava em 1937, em sua obra Estado Corporativo: “Na hora presente, precisamos acentuá-lo, só ficam rigorosamente dentro do quadro de um totalitarismo característico a Rússia de Stálin e a Germânia de Hitler” (Estado Corporativo, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1937, p. 273).
[49] Espanha e Portugal: unidade e dualidade peninsular, in António SARDINHA, A aliança peninsular, cit., p. CXXXIII.
[50] Cf. José Manuel QUINTAS, Integralismo Lusitano – uma síntese, cit.
[51] Idem.
[52] Folhas do meu cadastro, vol. I. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 38.
[53] Idem, loc. cit.
[54] Idem, loc. cit.
[55] Idem, p. 37.
[56] Cf. José Manuel QUINTAS, Integralismo Lusitano – uma síntese, cit.
[57] Idem.
[58] Idem.
[59] A traição burguesa, Lisboa, Pro Domo, 1945, p. 246.
[60] Idem, p. 245.
[61] Cf. José Manuel QUINTAS, Integralismo Lusitano – uma síntese, cit.
[62] Teoria Geral do Estado. 7ª edição, Rio de Janeiro, Forense, 1979, p. 125.
[63] O Sistema Corporativo, Lisboa, 1938, pp. 27-29.
[64] O Integralismo Lusitano, Porto, Edições Gama, 1943, pp. 134-135.
[65] QUINTAS, José Manuel. Integralismo Lusitano – uma síntese, cit.
[66] Idem.
[67] Idem.
[68] Frontalidade: ideias, figuras e factos, Prefácio do Professor Doutor Pedro Soares Martinez. Lisboa, Universitária Editora, 1995, p. 48.


[*] Comunicação apresentada no último dia 12 de setembro, no IV Encontro Internacional Evoliano.

 


22/10/2014, 12:15:29


António Sardinha e o Integralismo Lusitano
Considerações sobre a reeleição de Dilma Rousseff

No último domingo, dia 26 de outubro, a Sra. Dilma Vana Rousseff se reelegeu, por pequena margem de votos, Presidente da República, com a força do roubo, da fraude, da corrupção, da mentira, do medo, do estelionato e do chamado terrorismo eleitoral, numa eleição da qual, aliás, o seu partido, o autoproclamado Partido dos Trabalhadores, saiu profundamente enfraquecido em praticamente todo o território nacional.

Ressaltamos que jamais apoiamos o PSDB, agremiação política ideologicamente muito próxima, aliás, do PT, e que, como este, também está envolvido em diversos escândalos de corrupção, assim como sublinhamos que o agora já ex-candidato à Vice-Presidência da República pela chapa encabeçada pelo PSDB, o Senador Aloysio Nunes Filho, é, do mesmo modo que Dilma, um indivíduo de formação marxista e um “ex”-terrorista, assim como abortista confesso. A despeito, porém, destes e outros fatos, que tornam o ex-candidato Aécio Neves e o PSDB indignos de receber nosso apoio [1], é inegável que, na hora presente, o autoproclamado Partido dos Trabalhadores representa um mal maior à Nação Brasileira do que aquele representado pelo PSDB. Isto porque o PT defende abertamente a desconstrução do Brasil Profundo, Verdadeiro e Autêntico e de sua Tradição e tem realizado tal desconstrução de forma muito mais rápida e intensa do que fez o PSDB ao (des)governar o País, sendo, em verdade, o mais radical defensor, em nosso País, depois do PSOL, daquilo a que muitos têm denominado “marxismo cultural” e a que preferimos chamar liberalismo moral e cultural, ou burguesismo mural e cultural, cumprindo enfatizar que o marxismo não é senão um dos produtos do pensamento político, econômico e pseudo-filosófico liberal-burguês dos séculos XVIII e XIX. Do mesmo modo, os (des)governos petistas têm realizado uma política externa ainda mais contrária aos legítimos interesses nacionais do que aquela que foi exercida pelo PSDB e tem sido ainda mais subserviente que o PSDB ao banqueirismo internacional, nunca havendo os bancos, com efeito, lucrado tanto, no Brasil, quanto nos (des)governos de Lula e Dilma.

É, em verdade, incontestável o fato de que o (des)governo petista tem sido exercido em detrimento do Bem Comum, cuja supremacia foi substituída pela primazia de interesses cuja consecução beneficia apenas o PT e seus aliados, e também em detrimento da Constituição Tradicional do Brasil, que não se confunde com sua Constituição jurídico-política formal, também desrespeitada, aliás, pelo mesmo (des)governo. Com efeito, é justamente por colocar seus interesses particulares, ideológicos e partidários, acima do Bem Comum e desrespeitar a Constituição Tradicional da Nação Brasileira que o governo do PT se configura em um fator ativo de subversão social, não podendo, pois, ser considerado “propriamente governo, mas desgoverno”, segundo prelecionou Goffredo Telles Junior. Conforme sublinhou este, no ensaio Resistência violenta aos governos injustos, originalmente publicado em 1955, no jornal O Estado de São Paulo, da Capital Paulista, e posteriormente enfeixado na obra A Democracia e o Brasil: uma doutrina para a Revolução de Março (1965), os mandamentos dos (des)governos “não são propriamente normas, não são imperativos do Bem comum”, assim como ”não conduzem”, mas sim “descaminham”, e “não são mandamentos, mas desmandos” [2].

Ademais, a proposta de reforma política do PT, que este pretende impor ao Brasil em seu próximo (des)governo, com o intuito de se perpetuar no poder, contém diversos elementos de inspiração comunista, significando, caso plenamente aprovada, a transformação do País numa ditadura talvez não propriamente comunista, mas, inegavelmente, comunizante.

Que não se confunda, contudo, nossa rejeição ao projeto de reforma política do PT com a aceitação do atual modelo de democracia brasileiro, que, aliás, foi o responsável pela subida do PT ao poder. Este modelo que ora temos, baseado em mitos criados pela ideologia liberal e totalmente alheios à Tradição, à Identidade Nacional e às nossas realidades, não é uma verdadeira Democracia, mas uma mistificação e uma oligarquia, isto é, um governo de poucos em benefício próprio e em detrimento do Bem Comum, devendo ser substituído por uma autêntica Democracia, uma Democracia Integral, uma Democracia Orgânica, em que haja efetiva representação e participação popular. Tal representação e tal participação devem ocorrer, porém, por meio dos Grupos Sociais Naturais, ou Corpos Intermediários entre o Homem e o Estado, e não, como quer o PT, por grupos artificiais e ideológicos, todos eles comprometidos com a destruição do Brasil Profundo e de suas tradições.

Baseada, antes de tudo, em boatos absurdos, como aqueles de que o candidato do PSDB, Aécio Neves, acabaria, caso eleito, não apenas com programas sociais como o chamado Bolsa Família, mas também com direitos trabalhistas, incluindo os direitos a férias remuneradas, décimo terceiro salário e aposentadoria, a reeleição de Dilma Rousseff foi criminosa, a exemplo de suas ações no passado, na nefanda organização terrorista “Vanguarda Armada Revolucionária Palmares” (VAR-Palmares), que lutou para transformar o Brasil numa tirania comunista, matando e roubando em nome do funesto credo marxista.

Tal reeleição causou decepção e revolta a praticamente todos os autênticos patriotas e nacionalistas brasileiros, mas não pode, de maneira alguma, provocar o esmorecimento, em nós, dos sentimentos de amor à Pátria e de justo nacionalismo, cumprindo que pelejemos pelo robustecimento do patriotismo e do sadio nacionalismo, empreendendo guerra sem quartel ao separatismo e a todos os preconceitos e ódios entre os brasileiros das diferentes províncias e regiões do País, ou, em uma palavra, a todos os sentimentos antibrasileiros que se vêm espalhando, como um câncer, em nossa Nação.

Assim, encerramos estas linhas proclamando, uma vez mais, que, como escreveu Plínio Salgado no denominado Manifesto de Outubro, “a Nação Brasileira deve ser organizada, una, indivisível, forte, poderosa, rica, próspera e feliz”, para isso sendo necessária a união de todos os brasileiros [3], e, do mesmo modo, salientando que é por defendermos um Brasil Grande, Forte e Unido que combatemos o (des)governo que o infelicita e promove a desunião do povo brasileiro.

São estes os rumos da nossa marcha, de que depende o futuro deste vasto Império!

Por Cristo e pela Nação!

 

Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 31 de outubro de 2014- LXXXII.



Notas:
[1] Que não se confunda, porém, a impossibilidade de apoiarmos o PSDB com uma impossibilidade de votarmos em candidatos do PSDB, impossibilidade esta que não existe. Com efeito, podemos votar em candidatos do PSDB sempre que eles representarem um mal menor em relação aos candidatos adversários e até devemos sempre que este mal menor tenha possibilidade de triunfar sobre o mal maior, cumprindo ressaltar que o próprio Papa São Pio X disse aos católicos italianos que era seu dever votar no candidato menos indigno. É mister sublinhar, ainda, que casos pode haver em que um candidato do PSDB, apesar de seu partido, represente mesmo o bem, como foi o recente caso de nosso companheiro Paulo Fernando, candidato a Deputado Federal pelo Distrito Federal nas últimas eleições que teve nosso integral apoio, que não se estendeu, contudo, ao partido pelo qual se candidatou.
[2] A Democracia e o Brasil: uma doutrina para a Revolução de Março, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1965, p. 118.
[3] Manifesto de Outubro. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=825&ox=2. Acesso em 31 de outubro de 2014.


31/10/2014, 12:49:16


Considerações sobre a reeleição de Dilma Rousseff
Cento e vinte anos de Plínio Salgado

Há exatos cento e vinte anos, nasceu Plínio Salgado, na pequena cidade montanhesa de São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira, na região paulista do Vale do Paraíba. Brilhante escritor, jornalista e orador, profundo pensador e doutrinador político patriótico, nacionalista e tradicionalista, Plínio Salgado foi, ainda, o criador e principal líder do grande movimento de renovação moral e social a que denominamos Integralismo e o arauto de um Brasil Novo e Maior, sendo, nas palavras do ilustre pensador e escritor tradicionalista português Hipólito Raposo, “o mais eloquente intérprete da Brasilidade”.[i] Como observou, no mesmo sentido, o jusfilósofo espanhol Francisco Elías de Tejada y Spínola, um dos maiores vultos do pensamento tradicionalista hispânico e do jusnaturalismo tradicional, ou clássico, Plínio Salgado, “profeta incandescente e sublime de seu povo”, “encarnação viva do Brasil melhor”[ii], foi o primeiro pensador patrício a efetivamente compreender a Tradição Brasileira, sendo, pois, nas palavras de Tejada, o “descobridor bandeirante das essências de sua pátria”.[iii]

Plínio Salgado, esse nobre “cavaleiro do Brasil Integral”, na expressão de Ribeiro Couto, veio ao Mundo a 22 de janeiro de 1895, em São Bento do Sapucaí, pequena e bucólica “cidade colonial” que, ainda no dizer de Ribeiro Couto, “repousa entre verdes lavouras, num píncaro de serra, na Mantiqueira”.[iv] Seus pais foram o Coronel Francisco das Chagas Esteves Salgado, farmacêutico e chefe político da região, e D. Ana Francisca Rennó Cortez, professora normalista formada em São Paulo, no último ano do Império.

Nas veias de Plínio Salgado comungavam, nas palavras de Francisco Elías de Tejada, “as variadas genealogias que forjaram a gente brasileira”.[v] Seu avô paterno, Manuel Esteves da Costa, era português, nascido em São Pedro do Sul, distrito de Viseu, estudou humanidades em Coimbra e emigrou para o Brasil por conta da perseguição que sofreu em razão de suas ideias miguelistas. Como escreveram Francisco Elías de Tejada[vi] e Maria Amélia Salgado Loureiro, filha e biógrafa de Plínio Salgado,[vii] Manuel Esteves da Costa e os demais miguelistas pugnaram pela autêntica Tradição Portuguesa e, por conseguinte, contra a invasão liberal europeia, que iria destruir, na Península Hispânica, ou Ibérica, a substância do Portugal Profundo e Verdadeiro. Manuel Esteves da Costa se casou, em Pindamonhangaba, na região do Vale do Paraíba, com D. Mariana Salgado Cerqueira César, que viria a ser a avó paterna de Plínio Salgado e pertencia a uma das mais antigas e tradicionais famílias daquela região e descendia de bandeirantes como Bartolomeu Bueno, o primeiro “Anhanguera”, e Manuel Preto, o conquistador de Guairá, retratado por Plínio Salgado, aliás, em seu poema épico em prosa A voz do Oeste (1934), que inspirou Juscelino Kubitschek, amigo e grande admirador de Plínio Salgado, a edificar a cidade de Brasília.[viii]

Os avós maternos de Plínio Salgado, por sua vez, foram o Professor Antônio Leite Cortez, natural de Taubaté e descendente de castelhanos e portugueses, e de D. Matilde Sofia Rennó, também professora e filha do médico alemão Johann Rennow, que adotou, no Brasil, o nome de João Rennó de França, e de D. Ana Joaquina Ferreira, curitibana que descendia de alguns dos primeiros habitantes de São Paulo do Campo de Piratininga, dentre os quais podemos destacar a figura de Pero Dias, guardião das chaves daquela vila quando de sua fundação.

Como fez notar Francisco Elías de Tejada, repercutem na linhagem intelectual de Plínio Salgado várias procedências diversas, presididas sempre, em seu entender, pela “tradição sentimental e humana” daqueles miguelistas que, como há pouco salientamos, representavam a autêntica Tradição Portuguesa.[ix]

O Coronel Francisco das Chagas Esteves Salgado, pai, como há pouco dissemos, de Plínio Salgado, era um homem profundamente patriota e nacionalista na acepção sadia, equilibrada e construtiva do termo e tinha o costume de reunir os filhos à noite para lhes narrar os feitos de Felipe Camarão, de Henrique Dias, do General Osório, do Duque de Caxias, dos almirantes Barroso e Tamandaré e de outros vultos da História Pátria, incutindo-lhes, assim, desde cedo, o amor ao Brasil e às suas tradições históricas.

Pouco depois dessas primeiras aulas de patriotismo, D. Ana Francisca, que já ensinara Plínio a rezar e também lhe incutira o temor a Deus e lhe narrara histórias bíblicas, começou a dar ao filho lições de História do Brasil, Geografia, Aritmética e Francês.

Em 1907, Plínio, que havia iniciado os estudos secundários no Externato São José, dirigido pelo Professor José Calazans Nogueira, seguiu para Pouso Alegre, Minas Gerais, onde estudou humanidades no tradicional Ginásio Diocesano São José, em que também estudavam Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida e Teodoro Quartim Barbosa, com os quais o então futuro autor da Vida de Jesus (1942) firmou uma grande amizade, que se estenderia por toda a vida.

O falecimento do pai, no ano de 1911, forçou Plínio a abandonar os estudos e a retornar a São Bento a fim de cuidar da mãe e dos irmãos menores.

D. Ana Francisca, que ainda lecionava em sua escola isolada para meninas, que funcionava nos fundos de sua residência, transformou outro cômodo da casa em sala de aula, abrindo uma escola para meninos e confiando-a a Plínio.

Pouco mais tarde, Plínio principiou a trabalhar como agrimensor e topógrafo judicial. Em seguida, obteve o cargo de inspetor escolar no Município e, em virtude de se haver habilitado para requerer em juízo e promover o andamento dos feitos, foi nomeado solicitador, exercendo a função de advogado quando não havia advogados.

Por esse tempo, fundou, com o primo Joaquim Rennó Ferreira, o semanário Correio de São Bento, primeiro periódico da cidadezinha serrana, sentinela da terra bandeirante que muito se assemelha a um presépio vivo na Serra da Mantiqueira, como evocou, num belo poema, o jornalista, escritor e editor Cláudio de Cápua.[x]

Em 1913, Plínio Salgado se mudou para São Paulo, onde planejava concluir o curso secundário, interrompido quando da morte de seu pai, e, em seguida, ingressar no curso de Direito da tradicional Academia do Largo de São Francisco. Por conta, porém, da situação de pobreza da família, agravada com o início da I Guerra Mundial, Plínio abandonou os estudos em 1914, antes de ingressar na aludida faculdade, e deixou a Capital Paulista, retornando a São Bento.

Embora não tendo formação jurídica, Plínio Salgado, que, conforme salientou Ronaldo Poletti, “associava, como é notório, ao lado de sólidos conhecimentos em humanidades, uma intuição profunda reveladora de premonição atinente a fatos e a ideias futuras”, fez, em sua obra, inúmeras referências ao Direito, ciência da qual cuidou dos pontos de vista teórico e prático.[xi] Por suas reflexões sobre temas como o Homem, o Estado e a ideia de Império, podemos dizer que Plínio Salgado, defensor do Direito Natural Tradicional, ou Clássico, e do Estado Ético de Direito e de Justiça a que denominou Estado Integral, embora não tendo sido um jurista, foi e é, sem dúvida alguma, um dos mais notáveis jusfilósofos do Brasil. Cumpre sublinhar que, como enfatizou Ronaldo Poletti, as ideias jurídicas de Plínio Salgado tiveram um desdobramento na obra e na ação de diversos juristas patrícios, “cujas formações se deram ou completaram a partir de um ponto comum”, que vem a ser o pensamento do egrégio autor de O ritmo da História (1949) e de Direitos e deveres do Homem (1948). Dentre tais juristas, destacou Poletti Miguel Reale, San Tiago Dantas, Alfredo Buzaid, Goffredo Telles Junior e Loureiro Junior,[xii] aos quais poderíamos acrescentar, dentre outros vultos do Direito e das letras jurídicas, Rubem Nogueira, Arthur Machado Paupério, Ignacio da Silva Telles, Alberto Cotrim Neto, Ítalo Galli, Cláudio De Cicco, Acacio Vaz de Lima Filho e o próprio Poletti.

De volta a São Bento do Sapucaí, Plínio Salgado, aproveitando as horas de lazer, leu autores como Spencer, Comte, Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Büchner, Haeckel, Lamarck, Gustave Le Bon, Jhering, William James e Ingenieros, ao mesmo tempo em que se aprofundava no conhecimento de nossa Literatura, assim como das literaturas portuguesa, francesa, espanhola, italiana, inglesa, alemã e russa.

No ano de 1918, Plínio, que já tivera trabalhos publicados na Revista do Brasil e no Correio Paulistano e coordenara, em 1915, a publicação do Almanaque de São Bento, casou-se com Maria Amélia Pereira.

Por esse tempo, era ele a figura central da cidadezinha de São Bento do Sapucaí, sendo diretor do jornal local, secretário do Tiro de Guerra, presidente do clube de futebol, orador do Gabinete de Leitura, diretor do externato e do grupo dramático e agrimensor.

Ainda em 1918, enquanto se convalescia da gripe espanhola, que o atingira, Plínio leu o livro Farias Brito e a reação espiritualista, de Almeida Magalhães e, em seguida, as obras do próprio Farias Brito e de Jackson de Figueiredo, abandonando, assim, o materialismo e retornando ao espiritualismo cristão, ao mesmo tempo em que, preocupado com a questão nacional, lia também autores como Alberto Torres e Euclides da Cunha.

Conforme fez salientar Francisco Elías de Tejada, “o que Plínio Salgado levanta desde a sua conversão intelectual em 1918 são duas colunas solidíssimas: Cristo e o Brasil”, e o que ele nega são “as ideias estrangeiras que corrompem o Brasil e repelem o reinado social de Jesus Cristo”, a saber, o liberalismo, a liberal-democracia, os totalitarismos de todos os tipos, o positivismo e a herança do século XIX. O resultado disto será, ainda segundo Francisco Elías de Tejada, “o Integralismo como ação, como volta à Tradição brasileira” e, “por meta intelectual e política, a aproximação cada vez mais profunda, de Santo Tomás de Aquino”. Existe na obra pliniana, ainda de acordo com o ilustre jusfilósofo castelhano, “uma lógica evidente”, e, pois, “ano após ano, vão ficando mais claras as suas ideias, quer aperfeiçoando conceitos, quer estabelecendo mais exatamente as suas posições; mas são exposições e esclarecimentos conservados sempre em torno daquelas duas temáticas centrais, de Cristo e da pátria brasileira”.[xiii]

Em 1919, Plínio perdeu a esposa quinze dias depois de esta haver dado à luz Maria Amélia, única filha do casal, e teve publicado o seu primeiro livro, o volume de versos parnasianos Tabor, elogiado pela Revista do Brasil, cujo proprietário era então Monteiro Lobato, e de que consta o célebre soneto Canção das Águias.

Nesse mesmo ano, Plínio Salgado, que tempos antes fundara, ao lado do Dr. Gama Rodrigues, o Partido Municipalista, primeira agremiação política do País a defender o Municipalismo, deixou São Bento do Sapucaí em virtude de problemas políticos e seguiu para a Capital Paulista.

Em fevereiro de 1922, quando já era redator do Correio Paulistano, participou ativamente da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo.

No ano de 1926, publicou O estrangeiro, que é, cronologicamente, o primeiro romance social em prosa modernista da Literatura Brasileira. Como ressaltaria Menotti Del Picchia, o romance de estreia de Plínio Salgado “confirmou-se como um marco renovador do romance brasileiro”, abrindo “a série das grandes obras que, num radioso renascimento de um sadio nacionalismo, escachoaram do Norte tendo na vanguarda a já histórica Bagaceira de José Américo de Almeida”.[xiv] Este último escreveu a Plínio, como observou Cláudio de Cápua, uma carta em que afirma que depois de haver lido O estrangeiro considerara esta obra o primeiro romance, em importância, do Modernismo e resolvera reescrever totalmente o seu livro A bagaceira, que viria a ser publicado em 1928.[xv]

O estrangeiro, maior poema em prosa do Modernismo Brasileiro,[xvi] teve um sucesso verdadeiramente extraordinário. A primeira edição se esgotou em menos de vinte dias e o burburinho que se fez em torno da obra na imprensa nacional foi algo realmente notável. Plínio Salgado, porém, ignoraria tudo o quanto então se publicava a respeito dele e de sua revolucionária obra, não fosse por seu amigo Fernando Callage, que colecionava todos os artigos, uma vez que, naquela ocasião, em São Bento do Sapucaí, falecia a mãe de Plínio, que, estando já à beira da morte, tomou o livro do filho nas mãos, projetando lê-lo mais tarde, quando estivesse melhor, o que infelizmente não ocorreu.

Considerado por Wilson Martins a maior realização romanesca brasileira da década de 1920, ao lado de O esperado, também de Plínio Salgado,[xvii] e classificado por Rachel de Queiroz como “o primeiro romance modernista”,[xviii] O estrangeiro, que seria considerado pelo autor o seu primeiro Manifesto Integralista[xix], fez do futuro criador da Ação Integralista Brasileira um escritor nacionalmente consagrado, tanto pelo público quanto pela crítica.

Dentre os diversos críticos literários e escritores de renome que elogiaram O estrangeiro na imprensa, nos meses seguintes à sua publicação, podemos citar Agripino Grieco, Afrânio Peixoto, Tasso da Silveira, Augusto Frederico Schmidt, Cassiano Ricardo, Nuto Sant’Anna, Jackson de Figueiredo, José Américo de Almeida, Tristão de Athayde e Monteiro Lobato. Este último dedicou ao romance um magnífico artigo intitulado Forças novas e publicado no jornal A manhã, do Rio de Janeiro, aos 19 de setembro de 1926.

No referido artigo, o autor de Cidades mortas e de O presidente negro, havendo reconhecido que “Plínio Salgado consegue o milagre de abarcar todo o fenômeno paulista, o mais complexo do Brasil, talvez um dos mais complexos do mundo, metendo-o num quadro panorâmico de pintor impressionista”, frisou que “todo o livro é uma inaudita riqueza de novidades bárbaras, sem metro, sem verniz, sem lixa acadêmica – só força, a força pura, ainda não enfiada em fios de cobre, das grandes cataratas brutas”. E terminou o escritor patrício o seu artigo sobre O estrangeiro dizendo que “Plínio Salgado é uma força nova com a qual o país tem que contar”.[xx]

Como já mais de uma vez observamos,[xxi] em O estrangeiro e nos dois romances sociais em prosa modernista que se lhe seguiram e que com ele compõem as denominadas Crônicas da vida brasileira (O esperado, de 1931, e O cavaleiro de Itararé, de 1933), Plínio Salgado se revelou o genial cronista, intérprete de uma época de dúvidas e de incertezas que, sob o signo dos mais sadios e edificadores ideais cristãos, patrióticos e nacionalistas e absolutamente livre das questões da forma e do estilo, demonstrou ser arguto espectador e profundo conhecedor de todas as correntes de opinião e de todos os dramas dos diferentes segmentos da Sociedade Brasileira de seu tempo. Revelou-se, ademais, dotado de formidável capacidade de compreender e amar todos os antagonismos, assim como de alma para efetivamente sentir, sofrer e expressar, sem temor ao uso da palavra, todos os complexos estados de espírito nacionais. Nenhuma frase pode, com efeito, defini-lo melhor do que aquela em que assim afirmou, no início de sua obra Despertemos a Nação: “O drama de meu povo apoderou-se de mim”.[xxii]

Conforme observou Francisco Elías de Tejada, a “vocação de escritor egrégio” impeliu Plínio Salgado “à literatura, mas uma literatura a serviço dos ideais de um Brasil autêntico”, tendo sido o romance O estrangeiro não apenas “uma das cumiadas da literatura brasileira”, mas também “a necessária análise sociológica” da qual nasceria “um pensamento robustíssimo, o mais brasileiro que dar-se possa”.[xxiii] Ainda como notou o autor de As doutrinas políticas de Farias Brito (1953), Jackson de Figueiredo apreendeu, com sua característica agudeza, o significado de O estrangeiro, que “acima dos seus maravilhosos méritos literários, e além do finíssimo estudo sociológico”, vem a ser “todo um programa político”,[xxiv] constituindo-se, nas palavras do próprio Jackson de Figueiredo, em “um livro de esperança e de fé” na grande Pátria Brasileira.[xxv]

Os anos seguintes à publicação de O estrangeiro foram fecundos na vida de Plínio Salgado, que colaborava em diferentes jornais e revistas e foi figura central dos grupos modernistas verde-amarelista e da Anta, bem como de diversos outros grupos, na meditação sobre a realidade e os problemas sociais e nacionais. Assim, dedicou-se, com Alarico Silveira e Raul Bopp, ao estudo da língua tupi e da etnografia nacional, ao mesmo tempo em que, ao lado de Cândido Motta Filho, Fernando Callage, Plínio Mello e outros, estudava Alberto Torres, Euclides da Cunha, Tavares Bastos, Oliveira Vianna, Calógeras, Oliveira Lima e outros autores que estudaram nossa Terra e nosso Homem. Ao mesmo tempo, com Augusto Frederico Schmidt e outros, dedicou-se ao estudo da obra de Jackson de Figueiredo e de outros pensadores católicos e espiritualistas. E, por fim, com Mário Pedrosa, Araújo Lima, Plínio Mello e outros, estudou o marxismo, lendo a obra de Marx, Lênin, Trótski, Plekhanov, Riazanov e outros pensadores socialistas e considerando válidas suas críticas ao capitalismo, mas não as supostas soluções por eles apresentadas.

No ano de 1928, foi Plínio Salgado eleito Deputado Estadual pelo Partido Republicano Paulista (PRP), entrando pelo 2º turno e sendo o candidato mais votado. Foi sufragado não apenas por seu partido, mas pela totalidade das forças eleitorais do 3º Distrito, incluindo o Partido Democrático, de oposição, o Partido Independente, de Gama Rodrigues, e dissidências locais que se coligaram para elegê-lo,[xxvi] cumprindo ressaltar que toda sua atuação no PRP obedeceu ao firme propósito de criar uma corrente renovadora dentro daquele partido.

Em julho de 1929, o autor de O estrangeiro (1926) e de Literatura e política (1927) tomou posse na Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira de número seis, cujo patrono é Couto de Magalhães, a quem muito admirava, e para a qual fora eleito à revelia, como então se usava naquela instituição.

Em 1930, Plínio Salgado viajou para o velho mundo, acompanhando o jovem Joaquim Carlos Egydio de Souza Aranha, percorrendo catorze países do Oriente Médio e da Europa. Na Palestina, conheceu os lugares que tão bem haveria de descrever em sua Vida de Jesus, obra que atingiria várias edições em diferentes países e idiomas e receberia entusiásticos elogios de notáveis pensadores, escritores, críticos e autoridades religiosas do Brasil e da Europa. Em Roma, encontrou-se com Benito Mussolini e com o Senador Giovanni Gentile, filósofo e ex-Ministro da Instrução Pública, e este, que coordenava os trabalhos da Enciclopédia Italiana, pediu a Plínio que completasse o verbete dedicado ao Brasil, o que ele fez em uma madrugada, com o auxílio de Mário Graciotti, Manoel Gomes e Joaquim Carlos Egydio de Souza Aranha. E em Paris, concluiu o romance O esperado, publicado no ano seguinte, e redigiu um manifesto que meses mais tarde se tornaria o Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo.

Em julho de 1931, foi lançado, em São Paulo, o primeiro exemplar do jornal nacionalista A Razão, que tinha Alfredo Egydio de Souza Aranha como proprietário e Plínio Salgado como principal redator e revolucionou a imprensa do País, tendo como colaboradores intelectuais da estirpe de Tristão de Athayde, Sobral Pinto, San Tiago Dantas, Mário Graciotti, Paulo Setúbal, João Carlos Fairbanks, Alpínolo Lopes Casali, Silveira Peixoto, Nuto e Leopoldo Sant’Anna e, é claro, Plínio Salgado. Este era autor do artigo diário de abertura daquele matutino, a célebre Nota Política, em que era analisada a situação do País, pondo-se em evidência pensadores até então relativamente olvidados, como Farias Brito, Alberto Torres, Euclides da Cunha, Oliveira Lima, Joaquim Nabuco e Tavares Bastos e rememorando-se fatos do Império e da República.

Foi na Nota Política, transcrita no jornal Era Nova, da Bahia, e em jornais do Ceará, que Plínio revelou, na expressão de Virgínio Santa Rosa, o sociólogo que vivia embuçado no romancista, sendo saudado por Tristão de Athayde como a maior revelação do ano.[xxvii]

Também em 1931, foi lançado o Manifesto da Legião Revolucionária, elogiado por intelectuais do quilate de Oliveira Vianna, Tristão de Athayde, Azevedo Amaral, Octavio de Faria e Humberto de Campos, dentre outros, e que já é, pelo seu conteúdo, um autêntico manifesto integralista.

Em 12 de março do ano seguinte, Plínio Salgado fundou oficialmente, na Sala de Armas do Clube Português, em São Paulo, a Sociedade de Estudos Políticos, que reuniria dezenas de intelectuais preocupados em dar um rumo ao Brasil, reconduzindo-o às bases morais de sua formação.

A 07 de outubro daquele ano de 1932, divulgou Plínio Salgado o Manifesto que redigira em maio e cujo anteprojeto fora aprovado em junho, não havendo sido divulgado então por conta da Revolução Constitucionalista ora já iminente.

O Manifesto de Outubro, que assim passou a ser denominado em virtude de haver sido divulgado em tal mês, marcou o surgimento oficial do Integralismo e da Ação Integralista Brasileira.

Inspirado, antes e acima de tudo, nos ensinamentos perenes do Evangelho, na Doutrina Social da Igreja e nas lições de grandes pensadores espiritualistas, patrióticos e nacionalistas patrícios, o Manifesto de Outubro já trata, ainda que resumidamente, de todos os princípios básicos da Doutrina Integralista, posteriormente aprofundados em outros manifestos, livros, artigos e discursos de Plínio Salgado e de outros doutrinadores integralistas.

A mensagem essencialmente cristã e brasileira do Manifesto de Outubro espalhou-se rapidamente por todo o Brasil. Em pouco tempo, a Ação Integralista Brasileira (AIB) já reunia centenas de milhares de membros e outros tantos simpatizantes em todo o País, constituindo o primeiro “movimento de massas” e o primeiro partido de âmbito nacional desde o fim do Império, reunindo, ainda, diversos intelectuais ilustres, que constituíam, na expressão de Miguel Reale, “o que havia de mais fino na intelectualidade da época”,[xxviii] formando, ainda, no dizer de Gerardo Mello Mourão, o “mais fascinante grupo da inteligência do País”.[xxix] No mesmo sentido das palavras de Miguel Reale e de Gerardo Mello Mourão, Roberto Campos, ao falar, em suas memórias, de San Tiago Dantas, evocou “o surpreendente fascínio que o Integralismo exerceu em sua geração, particularmente sobre a parte mais intelectualizada”,[xxx] e Pedro Calmon, na biografia de seu pai, Miguel Calmon, afirmou que a plêiade de intelectuais reunida pelo Integralismo “poderia lotar uma Academia, em vez de ocupar uma trincheira”.[xxxi]

O presente artigo não se propõe a analisar o Integralismo, tão augusta quanto deturpada Doutrina que se constituiu na glória e na cruz de Plínio Salgado, “pensador ilustre que arrebatava multidões na mocidade e serenava a ânsia dos intelectuais com o ouro da sua pena”, na expressão de Manoel Vítor, e cuja “rota pelo sigma”, ainda nas palavras deste, “nada mais era que a projeção da sua mesma personalidade em busca de Deus para dá-lo aos homens”, sendo “a Família e a Pátria” os “degraus por onde andou semeando rosas que lhe trouxeram o paradoxal perfume dos espinhos”.[xxxii] Não podemos deixar de assinalar, contudo, que o Integralismo realizou, como escreveu o próprio Plínio Salgado, “a maior obra cívica do Brasil”,[xxxiii] tendo mobilizado desde “o homem do sertão até os numerosos e legítimos expoentes da cultura nacional”[xxxiv] e havendo soprado “a brasa do patriotismo aparentemente adormecido do povo brasileiro, acendendo um clarão como de outro não há notícia na nossa Pátria”.[xxxv] Ainda como enfatizou o autor de Palavra nova dos tempos novos (1936) e Espírito da burguesia (1951), o Integralismo

Ensinou o povo a cantar o Hino Nacional (que raríssimas pessoas sabiam); levou multidões a aplaudir freneticamente os desfiles do Exército e da Marinha (que então, como hoje, passavam nas ocasiões das paradas, em meio ao silêncio de reduzidos espectadores frios e apenas curiosos); promoveu o culto das datas históricas e dos heróis do nosso Passado Nacional, realizando comemorações imponentes, como as de Caxias, de Carlos Gomes, de Tamandaré, de Couto de Magalhães, de Pedro II, que foram memoráveis; abriu cerca de 3.000 escolas de alfabetização para adultos e cerca de mil lactários para a infância; organizou bibliotecas e fez dar cursos de História do Brasil, Geografia, Instrução Moral e Cívica, Economia Política, elementos de Direito Público e de Filosofia; fundou milhares de ambulatórios médicos e cooperou na obra de recuperação física da nossa gente; realizou exposições e concertos e cursos de Cultura Artística, um dos quais foi notabilíssimo, no salão da Escola Nacional de Belas Artes; e – o que mais importava! – arregimentou a infância e a adolescência, incutindo-lhes entusiasmo pelos nobres ideais, formando-lhes os corações segundo a doutrina do Evangelho, incendiando-as num surto de patriotismo como nem antes nem depois se viu algo de semelhante.[xxxvi]

O Integralismo, ainda nas palavras do autor de O Integralismo na vida brasileira,

fez escola de austeridade e de firmeza de princípios, de altruísmo e abnegação, de idealismo construtor, de amor ardente pela Pátria, de sacrifício por ela. Uma escola de disciplina e de ordem, de simplicidade e de modéstia, de preocupação pela coisa pública, de apostolado pela regeneração dos costumes. Uma escola que tinha por base a revolução interior, a transformação do próprio Homem pelo domínio de si mesmo, na luta contra os baixos instintos que perseguem o Ser Humano como consequência da culpa original. Uma escola de vigilância constante na defesa das bases fundamentais da vida brasileira: a Religião, a Pátria, a Família.[xxxvii]

Exilado involuntariamente em Portugal pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, que decretara o fechamento da Ação Integralista Brasileira em 1937, Plínio Salgado lá permaneceu, juntamente com D. Carmela Patti Salgado, com quem se casara em segundas núpcias, de 1939 até 1946.

Em Portugal, Pátria de que nasceu sua Pátria, o autor de Primeiro, Cristo! (1946) estudou profundamente o pensamento tradicionalista português e espanhol, proferiu algumas de suas mais belas conferências, escreveu as suas mais pujantes obras religiosas e foi reconhecido pela intelectualidade católica como um dos maiores pensadores católicos de todos os tempos e um verdadeiro apóstolo brasileiro.[xxxviii]

Foi em Portugal, ademais, que Plínio terminou sua obra prima, a Vida de Jesus, que o Padre Leonel Franca qualificou de “joia de uma literatura”[xxxix] e que é inegavelmente um clássico não apenas da Literatura Brasileira, mas da própria Literatura Universal, assim como uma das obras máximas da Cristologia. Como salientou o escritor português José Sebastião da Silva Dias, a Vida de Jesus, que “no gênero é o melhor que até hoje se publicou em língua portuguesa”, tendo realmente “conseguido ser ‘a joia de uma literatura’”, teria “o mundo inteiro por mercado”, caso tivesse sido “escrita em qualquer das grandes línguas europeias”.[xl]   

De volta ao Brasil em 1946, Plínio Salgado ingressou no Partido de Representação Popular (PRP), que havia sido fundado no ano anterior por ex-membros da Ação Integralista Brasileira e que pugnava pelos mesmos ideais cristãos e brasileiros pelos quais esta havia pugnado. Por este partido foi candidato às eleições presidenciais de 1955 e se elegeu Deputado Federal em 1956, 1960 e 1964. Exerceu outros dois mandatos na Câmara, eleito pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), até deixar definitivamente a política, em 1974. Faleceu um ano depois, no Hospital Sírio-Libanês, na Cidade de São Paulo, tendo sido sepultado no Cemitério do Morumbi.

Como Deputado Federal, integrou sempre a Comissão de Educação, na qual produziu inúmeros pareceres, e apresentou projetos como os de Reforma Agrária e de criação do Fundo Nacional para a Reforma Agrária, ambos de 1963, e o da Emenda Constitucional n. 609, que criaria a Câmara Orgânica, consagrando o princípio organicamente democrático da representação política dos trabalhadores de acordo com suas categorias profissionais.

Plínio Salgado, “esse injustiçado”, nas palavras de Pedro Paulo Filho, deixou à Pátria, ao morrer, “exemplo inolvidável de um dos maiores pensadores políticos brasileiros e uma herança cultural soberba”, que o elenca “entre os mais notáveis escritores do Brasil”.[xli] Como bem salientou Francisco Elías de Tejada, “com todos os defeitos que toda obra humana possui, e Plínio era um ser humano, a sua obra aparece majestática” pelo muito “que tem de coerente, pela lógica interna que anima o seu sistema” e, sobretudo, “pela magnitude do pensamento que sabe elaborar uma teoria da Tradição brasileira com traços de granítico castelo, destinado a suscitar adesões para quem queira em tempos vindouros conhecer a substância do Brasil”.[xlii]

Seja esta nossa singela homenagem a esse grande arauto e apóstolo do Cristianismo e da Brasilidade que foi e é Plínio Salgado, neste centésimo vigésimo aniversário de seu nascimento. Como escrevemos algures,[xliii] os já muitos anos de calúnias, de incompreensões e de silencio não foram capazes de apagar o brilho do autor da Vida de Jesus (1942) e de O Rei dos reis (1946), que fulgirá sempre, magna estrela da constelação do pensamento pátrio, luciluzente joia da rica coroa que representa a autêntica inteligência nacional, farol magnífico a guiar a nau dos verdadeiros tradicionalistas, patriotas e nacionalistas brasileiros pelos tenebrosos mares do Império de Calibã, que é o Império da Matéria, rumo ao porto seguro do Império de Ariel, que não é outro senão o Império do Espírito.

Mais genial, pujante e vigoroso intérprete da Tradição Nacional e do Espírito do Povo brasileiro, esse assinalado bandeirante da Fé e do Império, general de Deus e da Pátria, viverá, imortal, em sua obra notabilíssima e sempre atual, em que defende a restauração do Primado do Espírito e da Tradição, a recristianização integral do Brasil e a instauração de um Estado Ético e de uma Democracia Integral, assim como viverá sua alma igualmente imortal, junto do Cristo que tanto amou. Em uma palavra, o nome de Plínio Salgado perpetuar-se-á, conforme previu Juscelino Kubitschek, “como um símbolo iluminando o futuro”[xliv] deste vasto Império da Terra de Santa Cruz-Brasil.

Por Cristo e pela Nação!


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira e 1º Vice-Presidente da Casa de Plínio Salgado.
São Paulo, 22 de janeiro de 2015-LXXXII.



Notas:
[i] A notável oração do Dr. Hipólito Raposo, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II. São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 189.
[ii] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., p. 47.
[iii] Idem, p. 70.
[iv] O cavaleiro do Brasil Integral, in Sei que vou por aqui!, ano I, n. 2, São Paulo, setembro-dezembro de 2004, p. XVII. Artigo originalmente publicado no Jornal do Brasil a 20/07/1933.
[v] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA, Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, p. 48.
[vi] Idem, p. 49.
[vii] Plínio Salgado, meu pai, São Paulo, Edições GRD, 2001, p. 9.
[viii] Cf. Juscelino KUBITSCHEK, Carta a Plínio Salgado, in VV.AA., Plínio Salgado: “In memoriam”,vol. I., São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985, p. 223.
[ix] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., p. 49.
[x] Plínio Salgado (biografia), 5ª ed., São Paulo, De Cápua, 2000, p. 5.
[xi] O Direito em Plínio Salgado, in Gumercindo Rocha DOREA (Organizador e introdutor), Anais do centenário e da 2ª Semana Plínio Salgado, São Paulo, Edições GRD; São Bento do Sapucaí, São Paulo, Espaço Cultural Plínio Salgado, 1996, p. 97. Trabalho escrito para as comemorações do centenário de nascimento de Plínio Salgado, em 1995, e que foi tema da palestra proferida pelo autor a 08 de outubro daquele ano, em São Bento do Sapucaí, por ocasião da 2ª Semana Cultural Plínio Salgado.
[xii] Idem, p. 98.
[xiii] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., pp. 52-53.
[xiv] Plínio Salgado, o fraterno amigo, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. I., cit., p. 45.
[xv] Cf. RODRIGUES, Rodrigo, O Pensamento Nacionalista no Modernismo Brasileiro, São Paulo, EditorAção, 2005, p. 35.
[xvi] Bem nos lembramos de que, durante a conversa que tivemos, no ano de 2005, com o Professor Miguel Reale, concordou este conosco quando dissemos que O estrangeiro é o maior poema em prosa do Modernismo Brasileiro e ressaltou, em seguida, que não apreciava muito os poemas em verso de Plínio Salgado, mas gostava bastante de seus poemas em prosa, como os romances O estrangeiro, O esperado, O cavaleiro de Itararé e A voz do Oeste, assim como a Vida de Jesus.
[xvii] O modernismo, 4ª edição, São Paulo, Editora Cultrix, 1973, p. 251. Cumpre ressaltar que Wilson Martins cometeu um pequeno equívoco ao considerar o romance O esperado, escrito quase que integralmente em 1930 e publicado no ano seguinte, como uma obra da década de 1920.
[xviii] In A Hebraica, São Paulo, julho de 1995, p. 33.
[xix] Despertemos a Nação, 3ª edição, in Obras Completas. 2ª ed., vol. X, São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 9.
[xx] Forças novas, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. I, cit., pp. 112-113.
[xxi] Oitenta anos de “O estrangeiro”, in Linguagem Viva, ano XVIII, nº 214, junho de 2007, p. 4. Também disponível em: http://www.linguagemviva.com.br/214.pdf. Acesso em 22 de janeiro de 2015; Plínio Salgado, arauto e apóstolo de Cristianismo de Brasilidade, in O Lince, nova fase, ano 4, nº 31, Aparecida-SP, jan/fev. de 2010, p. 17. Também disponível em: http://www.jornalolince.com.br/2010/fev/pages/focus-plinio-salgado.php. Acesso em 22 de janeiro de 2015.
[xxii] Despertemos a Nação, cit., loc. cit.
[xxiii] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., p. 50.
[xxiv] Idem, p. 51.
[xxv] O saci, o Avanhandava e o imperialismo pacífico, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. I, cit., p. 100. Artigo originalmente publicado na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, a 1 de dezembro de 1926.
[xxvi] Cf.,Maria Amélia Salgado LOUREIRO, Plínio Salgado, meu pai, cit., p. 154.
[xxvii] A personalidade de Plínio Salgado, in VV.AA., Plínio Salgado,4ª edição, São Paulo, Edição da Revista Panorama, 1937, p. 73.
[xxviii] Entrevista concedida ao Jornal da USP. Disponível em: http://espacoculturalmiguelreale.blogspot.com/2007/08/entrevista-concedida-pelo-prof-reale-ao.html. Acesso em 22 de janeiro de 2015.
[xxix] Entrevista concedida ao Diário do Nordeste. Disponível em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=414001. Acesso em 22 de janeiro de 2015.
[xxx] A lanterna na popa, Rio de Janeiro, Topbooks, 1994, p. 843.
[xxxi] Miguel Calmon – uma grande vida, Prefácio de Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro, José Olympio Editora; Brasília, INL, 1983, p. 170.
[xxxii] Plínio Salgado, pensador ilustre, in  VV.AA., Plínio Salgado: “In memoriam”, vol. I., cit., pp. 41-42.
[xxxiii] O Integralismo na vida brasileira, in Enciclopédia do Integralismo, vol. I, Rio de Janeiro, Edições GRD/Livraria Clássica Brasileira, s/d (1958), p. 37.
[xxxiv] Idem, p. 7.
[xxxv] Idem, p. 37.
[xxxvi] Idem, pp. 37-38.
[xxxvii] Idem, p. 38.
[xxxviii] Sobre as atividades realizadas por Plínio Salgado durante o exílio em Portugal, bem como sobre o reconhecimento que ali recebeu dos mais altos vultos do pensamento católico lusitano: Augusta Garcia R. DOREA, Plínio Salgado, um apóstolo brasileiro em terras de Portugal e Espanha, São Paulo, Edições GRD, 1999.
[xxxix] Carta a Plínio Salgado, Plínio SALGADO,  Vida de Jesus, 22ª edição, São Paulo, Voz do Oeste, 1985, pp. IX/XI.
[xl] Vida de Jesus, de Plínio Salgado, in in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., pp. 146-147.
[xli] Plínio Salgado, esse injustiçado, in Gumercindo Rocha DOREA (Organizador e apresentador), São Bento do Sapucaí, São Paulo, Espaço Cultural Plínio Salgado, 1994, p. 25. Texto da palestra proferida por Pedro Paulo Filho em São Bento do Sapucaí a 07 de outubro de 1993, por ocasião da 1ª Semana Plínio Salgado.
[xlii] Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. II, cit., p. 53.
[xliii] Plínio Salgado, arauto e apóstolo de Cristianismo de Brasilidade, cit., p. 18. Também disponível em: http://www.jornalolince.com.br/2010/fev/pages/focus-plinio-salgado.php. Acesso em 22 de janeiro de 2015.
[xliv] Carta a D. Carmela Patti Salgado, in VV.AA.,  Plínio Salgado: “In memoriam”, vol. I., cit., p. 225.

 

 


22/01/2015, 10:04:23


Homenagem aos heróis-mártires do 11 de maio de 1938

Subversão e pornografia

Um fantasma ronda o Brasil
Žižek: uma religião ao avesso

Recentemente a esquerda brasileira regozijou-se com mais uma visita de seu mais novo (velho) profeta, o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Žižek, o qual foi entrevistado no programa “Roda Viva”, da TV Cultura no último dia 08 de julho, levantando a bandeira de uma esquerda filosoficamente moderna, que assimila os erros do passado e que, fiel às suas origens, consegue abrir novos “caminhos emancipatórios” para a humanidade ao adotar uma nova filosofia revolucionária. O filósofo defendeu, como de costume, as “causas perdidas”, e lamentou a perda do espírito revolucionário da esquerda.

O palavreado um tanto quanto intelectualizado e as referências que faz o filósofo conferem-lhe uma aparente autoridade perante seus ouvintes e leitores, chegando até a intimidar alguns e fazendo com que os militantes, já inebriados dentro da cultura e da dogmática marxista, entrem novamente no velho esquema de autoconvencimento contínuo de seus próprios dogmas e sábias certezas universais. Em outra visita ao Brasil inclusive, em maio de 2011, Žižek foi tratado como “A novidade do comunismo”, em uma matéria publicada pelo jornal O Globo.
 
Mas, se nos propusermos a analisar mais a fundo a filosofia neomarxista proposta pelo “cumpanheiro” esloveno, identificaremos a que ponto vai chegando, ao logo das décadas, o delírio marxista. Inevitavelmente o marxismo transforma-se, cada vez mais, em uma religião, mas uma religião às avessas. Transfigurou-se em um dogma espiritual oco, que apesar de conter em si todas as características da religião, ao mesmo tempo brada fortemente contra a existência da alma e da divindade.
 
A necessidade cada vez maior de lutar contra a civilização e a religião cristã esconde, no fundo, certo nível de auto reconhecimento dos materialistas dentro do cristianismo e do espiritualismo. De formas tortas eles, pouco a pouco, descobrem seu espirito, ainda que não o identifiquem como tal.
 
Não posso afirmar se a filosofia neomarxista de Žižek, de uma forma proposital “imita” a religião para, ludibriando os espíritos honestos, atingir seu intento, ou se ele segue simplesmente o fluxo natural da vida humana, a qual tende necessariamente ao espírito e a Deus. O fato é que os crentes do materialismo demostram cada vez mais, à medida que sua filosofia (teologia?) avança, que seu materialismo é na verdade um espiritualismo ao avesso. Uma manifestação genérica da própria existência espiritual humana a qual, em ultima análise, é a própria existência humana de fato, já que não há outra existência humana real, que não a espiritual, como eles próprios vão descobrindo, talvez a contragosto. A máxima de que “todas as estradas levam a Roma” (sublinhe-se, “a Roma”), vai ganhando neste contexto uma profundidade filosófica interessantíssima.
 

No capitulo de introdução do seu livro, “Vivendo no Fim dos Tempos”, (capitulo curiosamente intitulado “A perversidade espiritual do Céu”) Žižek nos relata uma das condições para que, na opinião dele, a jornada emancipatória da humanidade prossiga sua marcha histórica rumo à era messiânica comunista. Descreve o autor:

"O locus communis `E preciso ver para crer!´ deveria ser sempre lido com sua inversão, `E preciso crer para ver!´. Apesar da tentação de contrapor esses pontos de vista – como o dogmatismo da fé cega versus a abertura para o inesperado –, é preciso insistir na verdade da segunda versão: a verdade, ao contrario do conhecimento, é, como um Evento badiouano, algo que só o olhar engajado, o olhar do sujeito que `crê´ consegue enxergar. Tomemos como exemplo o amor: no amor, só o amante vê no objeto de amor aquele X que causa amor, o objeto-paralaxe, portanto a estrutura do amor e a mesma do Evento badiouano, que também só existe para quem se reconhece nele: não existe Evento para o observador objetivo não engajado. Sem essa posição engajada, por mais acuradas que sejam as descrições do estado de coisas, elas não conseguem gerar efeitos emancipatórios; em ultima analise, só tornam mais pesado o fardo da mentira ou, para citar Mao outra vez, `erguem a pedra para larga-la aos próprios pés´.” [1]

Assim, este “crer para ver”, essa atitude genuinamente de fé sobrepujando a razão e a matéria, tornou-se, na filosofia neomarxista de Žižek, a condição para que a ideologia produza os resultados materiais a que se propõe desde o seu início. O Evento emancipatório "somente existe para quem se reconhece nele", assim como na teologia cristã, a salvação só existe para quem se reconhece no Cristo. O esloveno ainda ressalta que "[sem essa fé] por mais acuradas que sejam as descrições do estado de coisas, elas não conseguem gerar efeitos emancipatórios", assim como (ainda no paralelo com cristianismo) um individuo, ainda que profundo conhecedor de toda a teologia cristã, não tendo a fé e não se reconhecendo no Cristo, não conseguirá a salvação genuína.
 
Ao fazer estas constatações, fica claro por que a Igreja Católica sempre considerou o marxismo como anticristão e, eu diria mais, como a religião anticristã por excelência. À medida que a filosofia marxista progride e se ramifica, toma cada vez mais a forma de um anticristianismo em um sentido profundo do termo, tomando muitas vezes formas filosóficas de aparência religiosa e reconhecendo que, a exemplo da salvação cristã, a salvação materialista marxista necessita que seu crente dê um “salto de fé” e se reconheça dentro de eventos que, para os “não crentes”, não possuem nenhum significado transcendente.
 
O filósofo-profeta da religião marxista reitera sua cosmovisão “religiosamente não religiosa” quando compara a luta marxista ao apostolado de São Paulo, escrevendo:
 
"Este livro, portanto, é um livro de luta, segundo a definição surpreendentemente pertinente de luta emancipatória dada por são Paulo: `Pois nosso combate não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados, contra as autoridades, contra os dominadores [kosmokratoras] deste mundo de trevas, contra os espíritos do mal que povoam as regiões celestes´ (Efésios 6,12). Ou, traduzido para a linguagem de hoje: `Nossa luta não é contra indivíduos corruptos reais, mas contra aqueles que estão no poder em geral, contra sua autoridade, contra a ordem global e contra a mistificação ideológica que os sustenta´.” [2]
 
Vemos assim que, além de contradizer os próprios fundamentos materialistas da filosofia marxista, nos quais a matéria define a consciência e suas manifestações, a filosofia marxista chega hoje no ponto em que inverte suas bases originais, depositando na fé, na crença consciente e proposital em um resultado ainda incerto, a condição necessária para a sobrevivência e o prosseguimento do “apostolado” marxista. O próprio Marx ficaria perplexo ao constatar as águas pelas quais sua filosofia passou a navegar ao longo do tempo, posto que ele mesmo escreveu:
 
"Assim, a moral, a religião, a metafísica, e o restante da ideologia, bem como as formas da consciência a elas correspondentes, perdem logo toda a sua aparência de autonomia. Não têm história, não têm desenvolvimento, ao contrário, são os homens que, desenvolvendo sua produção material e suas relações materiais transformam, com a realidade que lhes é própria, seu pensamento e também os produtos do seu pensamento. Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência.” [3]
 
Desta forma, inebriado e imerso em sua própria linha de raciocínio controversa, Žižek (e o próprio marxismo, diga-se de passagem) não percebe a contradição. Se a filosofia materialista de Marx define que diante da realidade material a consciência perde sua autonomia e que “são os homens que, desenvolvendo sua produção material e suas relações materiais transformam, com a realidade que lhes é própria, seu pensamento e também os produtos do seu pensamento” não se pode pensar de forma materialista e ao mesmo tempo defender que a “emancipação humana” depende de “crer para ver”, posto que a crença é genuinamente um “produto do pensamento” e que o próprio materialismo pressupõe que o homem não possui essa autonomia de consciência e de pensamento. Em essência, se a premissa fundamental é a de que a realidade material define o pensamento e seus produtos, não se pode depositar justamente nos produtos do pensamento a condição para se definir a realidade material.
 
Diante disso, podemos supor ao menos dois resultados possíveis. Haverá aqueles que perceberão essas profundas contradições que, ainda que implicitamente, já eram previsíveis desde o germe do marxismo e cujo desenvolvimento de sua filosofia apenas tornou mais evidentes. Estes provavelmente abandonarão a “religião sem cabeça”, a “espiritualidade oca”, “o dogma ao avesso”, e provavelmente reconhecerão que toda filosofia tende ao espirito e não à matéria. Reconhecerão que a consciência humana e o espirito humano são independentes da realidade material e que eles é que podem definir a realidade material.

Haverá, no entanto, aqueles que se recusarão a enxergar essa contradição que a própria filosofia marxista já escancarou sobre si mesma. Estes darão o “salto de fé” em busca da “salvação materialista” a qual o marxismo chama de “emancipação humana”. Estes irão seguir até o fim esse “dogma de ponta cabeça”, o qual eles abraçam com toda força de suas almas, mesmo recusando-se a acreditar que essa alma exista. É, por excelência, e mais do que nunca a religião do anticristo.


Leonardo Henrique Simões Matos
Formado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública (APMBB), Pós-Graduado em Ciências Juridicas (UNICSUL) e cursando a Graduação em Ciências Sociais (USP).


Notas:
[1] ŽIŽEK, Slavoj. Vivendo no Fim dos Tempos. 1ª Edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012, p. 15.
[2] ŽIŽEK, Slavoj. Vivendo no Fim dos Tempos. 1ª Edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012, p. 16.
[3] MARX, Karl. A ideologia Alemã. 2ª Edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2001, p. 19-20.
[4] Publicado originalmente sob o título "A filosofia neomarxista de Žižek ou 'uma religião ao avesso'", em: http://respostadaatlantida.blogspot.com.br/2013/07/a-filosofia-neomarxista-de-zizek-ou-uma.html

 


03/08/2013, 03:30:48


Žižek: uma religião ao avesso
Resposta ao jornal O Estado de S. Paulo

Com a publicação do artigo Verde-galinhismo,no último domingo, dia 04 de agosto de 2013, no suplemento do Estadão, do jornal O Estado de S. Paulo, o Sr. Sérgio Augusto assinou uma declaração do mais absoluto analfabetismo histórico e político. Nas linhas que se seguem, apontaremos alguns equívocos do autor a respeito do Integralismo, da FIB (Frente Integralista Brasileira) e da História Pátria, assim como a incoerência de suas posições políticas.

Em primeiro lugar, o Integralismo sempre pregou, sim, um Estado forte e centralizado (centralizado politicamente, mas não administrativamente), inspirado nas lições do Evangelho, nas tradições cristãs brasileiras e na Doutrina Social da Igreja, autoritário apenas se dermos a tal palavra, como o fez Oliveira Vianna, o sentido de afirmação da Autoridade, pressuposto da Ordem, da Legalidade e da Liberdade, assim como anticomunista, antiliberal e visceralmente, profundamente nacionalista. Contrário ao xenofobismo, tal nacionalismo, definido por Plínio Salgado como “equilibrado e profundo, justo e lúcido”, corresponde ao “justo nacionalismo”, que, na frase do Papa Pio XI, “a reta ordem da caridade cristã não somente não desaprova, mas com regras próprias santifica e vivifica”. Quanto à saudação integralista, não é ela uma cópia da saudação fascista, sendo de inspiração indígena e nela o braço ficando levantado para o alto, na posição vertical, e não inclinado como na saudação romana adotada pelo fascismo italiano. Do mesmo modo, é um absurdo insinuar que seja uma cópia da suástica nacional-socialista ou do fascio o símbolo integralista, a letra grega Sigma maiúscula, escolhida por Leibniz para indicar a soma dos infinitamente pequenos, além de ter sido o símbolo pelo qual os primeiros cristãos gregos indicavam Deus e que servia entre eles de sinal de reconhecimento. Ademais, é igualmente absurdo julgar uma doutrina política por seus símbolos, suas exterioridades. Caso o fizéssemos, teríamos que concluir, por exemplo, que era nacional-socialista a Frente de Ferro social-democrata alemã, ativa entre 1931 e 1933, e que, tendo o nacional-socialismo como seu principal inimigo, adotou exterioridades próximas às daquele movimento.
 
A FIB não é a “vanguarda do atraso”, mas sim a vanguarda da Tradição, entendida, segundo as expressões de António Sardinha, como “continuidade no desenvolvimento”, “permanência na renovação”, ou, segundo Vázquez de Mella, como o “progresso hereditário”, sendo, com efeito, a base de todo progresso estável e verdadeiro. Isto porque, como salienta Arlindo Veiga dos Santos, “o Presente que nega o Passado não terá Futuro”, ou, como sustenta o Cardeal Bergoglio, agora Papa Francisco (I), “nada pode ser construído sobre a destruição indiscriminada do anterior”, de sorte que “não podemos criar algo novo na história se não for a partir dos materiais que a mesma história nos proporciona”. Do mesmo modo, a FIB é revolucionária e tão revolucionária quanto tradicionalista, partindo não da acepção moderna e antitradicional do termo “revolução”, mas sim daquela tradicional, correspondente àquela astronômica, segundo a qual a Revolução vem a ser um retorno ao ponto de partida, uma volta às origens, uma restauração. Esta Revolução restauradora da Tradição, a que podemos denominar Revolução Orgânica, ou Revolução Construtiva, em oposição à revolução utópica e destrutiva do liberalismo e do comunismo, é a Revolução daqueles que levam em conta a realidade concreta, a História e a Tradição e, assim, não semeiam no oceano, como os utópicos revolucionários liberais e comunistas, mas sim na terra fértil.
 
Isto posto, cumpre ressaltar que muitos dos membros da FIB não são monarquistas, reunindo esta organização, com efeito, assim como a antiga AIB (Ação Integralista Brasileira), tanto monárquicos quanto republicanos. E igualmente vale frisar que os membros da FIB não são “neointegralistas”, mas sim integralistas e que o nosso “verde-amarelismo”, entendido como aquele nacionalismo justo, equilibrado, lúcido e profundo de que há pouco falamos, é tão válido hoje quanto na década de 1930. Aliás, quem afirma que esse “verde-amarelismo” “soava arcaico quando a tinta do Manifesto da Anta ainda não havia secado” demonstra desconhecer o contexto histórico dos anos 30, quando o discurso fortemente nacionalista não era apenas o discurso de movimentos cívico-políticos como o Integralismo, o Patrianovismo e A Bandeira ou dos elementos ligados ao governo Vargas, mas também o dos próprios liberais, a exemplo de Armando de Salles Oliveira.
 
Cumpre frisar, ademais, que o Sr. Sérgio Augusto, em seu ódio irracional pelo Integralismo, chegou mesmo a nos comparar a criminosos que “agridem e matam homossexuais”, praticando, assim, o crime de injúria.
 
Ao passo que chama os integralistas de autoritários por estes se levantarem contra a falida democracia liberal, o Sr. Sérgio Augusto tem em seu histórico a defesa de governantes extremamente "democráticos", como Barack Obama, cujo programa de espionagem tem violado a soberania dos povos e os direitos de milhões de pessoas.
 
Faz-se mister sublinhar, ainda, que na Democracia Orgânica postulada pelo Integralismo desde o seu surgimento, em 1932, não são apenas  os sindicatos, mas também as corporações profissionais e demais corporações econômicas, assim como as corporações culturais, administrativas, religiosas e filantrópicas, dentre outras, que devem representar a Sociedade. Insta salientar, ademais, que o modelo de corporativismo integralista não é apenas fundamentalmente distinto daquele estatizante do fascismo italiano como também da demagógica república sindicalista que João Goulart foi acusado de pretender implantar no Brasil e que muitos de seus partidários abertamente defenderam nos conturbados dias de seu governo.
 
Não podemos deixar de destacar a profunda contradição em que incorre o Sr. Sérgio Augusto ao defender o Estado liberal-democrático e condenar o Integralismo por combatê-lo ao mesmo tempo em que se opõe àquilo a que considera uma “satanização” do marxismo, também contrário ao Estado liberal-democrático. Tal contradição pode ser, contudo, apenas exterior, uma vez que o referido articulista pode levar em conta que o individualismo exacerbado do liberalismo é um caminho que desemboca no coletivismo comunista.
 
Não nos é possível, da mesma forma, deixar de registrar outra incoerência do Sr. Sérgio Augusto, qual seja a de considerar ultrapassados os princípios básicos do Integralismo por terem sido estabelecidos há oito décadas, enquanto parece considerar atuais os princípios do liberalismo, que remontam aos séculos XVIII e XIX, e do comunismo, representativos do século XIX. Há que ressaltar, ademais, que os princípios basilares do Integralismo são os mesmo do Cristianismo, sendo, assim, atemporais.
 
Por derradeiro, eu, Victor Emanuel Vilela Barbuy, que em hipótese alguma mereço a honra de ser chamado “Plínio.02”, não me preocupo com os poucos comunistas que participaram das últimas manifestações, das quais foram expulsos sempre que portaram suas bandeiras vermelhas, mas sim com a deletéria influência de que dispõe o credo comunista no Brasil e sei que alguns indivíduos de fato vaiar-me-iam se, em alguma de tais manifestações, falasse expressamente em Integralismo, o que se daria pelo fato de muitos infelizmente ainda o conhecerem apenas pelas mentiras que sobre ele disseram seus adversários, sobretudo os comunistas. Quando, porém, afirmamos nossas ideias e nossos princípios em tais manifestações, sem nos apresentarmos, é certo, como integralistas, ninguém nos vaiou, muito pelo contrário, do mesmo modo que jamais fomos vaiados nos diversos eventos cívicos de que temos participado nos últimos anos, sempre portando símbolos integralistas e distribuindo panfletos integralistas muito bem recebidos por todos.


Victor Emanuel Vilela Barbuy
,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 07de agosto de 2013 - LXXX.

08/08/2013, 14:24:46


Resposta ao jornal O Estado de S. Paulo
Damiano Gullo, in memoriam

No último dia 12 de setembro entregou sua alma a Deus, princípio e fim último da Pessoa Humana, se tornando, assim, mais um soldado da “Milícia do Além”, o nosso companheiro Damiano Gullo, cujo corpo agora jaz na campa de sua família, no Cemitério do Araçá, em São Paulo. Nós, que cremos, como ele cria, na imortalidade do espírito, e que sabemos que foi ele um varão dos mais virtuosos, temos a certeza de que sua alma continua viva e de que gozará, no Paraíso, da Eterna Bem-Aventurança, ao mesmo tempo em que aqui na Terra, no Brasil por ele tão amado, igualmente continuará o nosso companheiro vivo, imortalizado no coração de todos os paladinos de Deus, da Pátria e da Família, conosco marchando por Cristo e pela Nação.

Nascido no município paulista de Bebedouro, o companheiro Damiano Gullo, que contava noventa e quatro anos de idade ao deixar este Mundo, estamos certos de que partindo para a Etérea Morada por Deus reservada aos justos, ingressou ainda bastante jovem, na década de 1930, nas fileiras da Ação Integralista Brasileira (AIB), “mais fascinante grupo da inteligência do País”, na expressão de Gerardo Mello Mourão.[1] Fazendo, assim, parte da “pujante geração integralista” de que nos fala Gumercindo Rocha Dorea,[2] viveu nosso saudoso companheiro, desde então, aquilo a que Miguel Reale denominou “o sonho nacionalista e espiritualista do Integralismo”.[3]
 
Ainda em fins da década de 1930, Damiano Gullo ingressou na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na Capital Bandeirante, ali se formando em 1943. No tempo de estudante, dirigiu o prestigioso jornal acadêmico A Balança, que nós, a exemplo do brasilianista estadunidense John W. Foster Dulles, reputamos “excelente”.[4]
 
Mais tarde, já advogado militante no foro da Capital Paulista, ingressou Damiano Gullo no Partido de Representação Popular (PRP), agremiação política que, sob a chefia de Plínio Salgado, lutava em prol dos ideais eminentemente cristãos, tradicionalistas, patrióticos e nacionalistas do Integralismo, sintetizados no lema “Deus, Pátria e Família”, tríade que, a exemplo de Afonso de Escragnolle Taunay, consideramos “grandiosa como nenhuma outra”.[5] Na década de 1950, colaborou no semanário integralista A Marcha, do Rio de Janeiro, órgão do PRP dirigido por Gumercindo Rocha Dorea, ali publicando belos e significativos artigos, e participou ativamente de diversas atividades do PRP e da Confederação dos Centros Culturais da Juventude (CCCJ), também conhecida como “Movimento Águia-Branca”, que tinha Plínio Salgado como Presidente de Honra e Gumercindo Rocha Dorea como Presidente.
 
Em 1963, Damiano Gullo foi nomeado Secretário do Trabalho do Estado de São Paulo pelo Governador Adhemar de Barros, ocupando tal cargo até o ano seguinte, quando se deu a Revolução de 31 de Março, de que participou ativamente. Neste último ano (1964) foi Delegado Regional do Trabalho em São Paulo. Mais tarde foi Sub-Chefe da Casa Civil do Presidente Humberto de Alencar Castello Branco e, depois, Procurador-Chefe do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Durante décadas chefiou o Departamento Jurídico da Federação dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Estado de São Paulo (PHORESP), de que foi consultor até a morte, e esteve entre os fundadores da Casa de Plínio Salgado, instituição de que era o Presidente de Honra. Foi casado com D. Sílvia Passos Gullo, de quem enviuvou em 2011, e teve com esta uma filha, Carolina Passos Gullo Prado, que, casada com o Sr. Carlos Alberto de Albuquerque Prado, deu ao nosso companheiro dois netos, Guilherme e Marianna Gullo de Albuquerque Prado.
 
Seja esta nossa singela homenagem, em nome da Frente Integralista Brasileira e da Casa de Plínio Salgado, ao companheiro Damiano Gullo, exemplar varão e exemplar sentinela de Deus, da Pátria e da Família. Que o Criador e Sumo Regente do Universo suscite, na atual geração e nas gerações vindouras, homens com qualidades morais e intelectuais semelhantes às deste bravo cruzado de Cristo Rei e do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro e que sejam depositários e continuadores dos ideais pelos quais pelejou ele por toda sua longa existência.
Damiano Gullo: Presente!
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira e 1º Vice-Presidente da Casa de Plínio Salgado.
São Paulo, 17 de setembro de 2013 - LXXX.


Notas:
[1] MOURÃO, Gerardo Mello. Entrevista concedida ao Diário do Nordeste. Disponível em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=414001. Acesso em 15 de setembro de 2013.
[2] Citamos de memória.
[3] REALE, Miguel. Variações a partir de si mesmo. Disponível em: http://www.miguelreale.com.br/. Acesso em 15 de setembro de 2013. Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo, da Capital Paulista, a 17/12/2005.
[4] DULLES, John W. F. A Faculdade de Direito de São Paulo e a resistência anti-Vargas (1938-1945). Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 1984, p. 83.
[5] TAUNAY, Afonso de E. Algumas palavras. In SANTOS, Lúcio José dos. Filosofia, Pedagogia, Religião. São Paulo: Comp. Melhoramentos, 1936, p. 7.

18/09/2013, 01:02:45


Damiano Gullo, in memoriam
Desafio: Aborto

Em debate com a representante feminista Regina Jurkewicz, do autoproclamado “Católicas pelo Direito de Decidir”, o Prof. Hermes Nery, da Comissão em Defesa da Vida da CNBB, reafirma o valor inviolável da vida humana.

O programa “Desafio” da TViG traz semanalmente dois convidados que são estimulados a defender seus pontos de vista sobre um tema polêmico sob o comando de um moderador. No “Desafio” em questão, o tema era aborto.

De um lado o Prof. Hermes, com reconhecido histórico de luta em defesa da vida, como autor da lei municipal que tornaria São Bento do Sapucaí, no interior de São Paulo, a primeira cidade pró-vida do Brasil ao defender a vida desde a concepção até a morte natural, bem como da “Proposta de Projeto de Iniciativa Popular para Emenda à Constituição do Estado de São Paulo, que busca levar a nível estadual a iniciativa aprovada no interior paulista.

Já a organização “Católicas pelo Direito de Decidir”, representada no debate pela Sra. Regina Jurkewickz, tem como objetivo principal eliminar o maior opositor do mundo contra a cultura da morte: a Igreja Católica. A organização busca convencer aos católicos de que o aborto é uma alternativa eticamente válida para as mulheres católicas, desprezando e ridicularizando os ensinamentos fundamentais da Igreja, promovendo agressivamente a contracepção e o aborto.

As atividades desta organização são financiadas com milhões de dólares em recursos provenientes de grupos norte-americanos, como a Fundação Ford [3]. Na América Latina sua agenda é clara:

1) Apoiar a dissenção católica no tema do aborto e os contraceptivos;
2) Proporcionar aos católicos uma “alternativa racional” à doutrina da Igreja;
3) “Educar” sobre os direitos de saúde reprodutiva (aborto e anticoncepção sistemática) na América Latina.

Segundo representantes de movimentos em defesa da vida, as “Católicas pelo Direito de Decidir” não são católicas porque pervertem o sentido da liberdade humana. Ao interpretar os crimes contra a vida como legítimas expressões da liberdade individual, exigindo ou reconhecendo legalmente o direito de matar, se subverte a base dos direitos humanos e se nega o direito à vida.

Assista ao debate na íntegra:


Nova Offensiva


Notas:
[1] Desafio: Aborto. TViG – Notícias, 17 de novembro de 2013. Disponível em: http://tvig.ig.com.br/noticias/desafio-aborto-5237815abb1abd5823000004.html
[2] A verdade sobre as “Católicas pelo Direito a Decidir”. ACI Digital, sem data. Disponível em: http://www.acidigital.com/controversia/direito.htm
[3] Catholics for the Right to Decide (CDD) (Brazil) – Página da Fundação Ford em que um dos repasses declarados à organização chega ao montante de 200 mil dólares. Disponível em: http://www.fordfoundation.org/grants/grantdetails?grantid=114327
 


23/09/2013, 13:13:52


Desafio: Aborto

81 anos do Manifesto de Outubro

81 anos do Manifesto de Outubro
Síntese do Manifesto de Outubro

Eis a síntese do Manifesto de Outubro espalhado por toda a Pátria a 7 de outubro de 1932, sacudindo-a de Norte a Sul, Leste a Oeste, despertando o Brasil para a sua marcha de grandeza e de glória. Esse documento histórico em que predominam a intuição desse Condutor de Homens — Plinio Salgado, a educação nacionalista e a formação espiritualista, é bem um Código de Ética Política, Código de Nacionalidade.

Capitulo 1.º: – Trata da concepção do Universo e do Homem, isto é, da noção precisa da Origem e finalidade do Ser humano. Afirma que a igualdade dos homens deve ser procurada pela hierarquia das virtudes:

Capitulo 2.º: – Procura solucionar os conflitos de classes e a exploração do capitalismo ateu, consagrando o principio democrático da Representação política dos que trabalham através de suas profissões;

Capitulo 3.º: – Proclama o princípio de Autoridade sem a qual a liberdade dos maus, dos traficantes tripudiará sobre o direito dos bons, dos honestos, dos virtuosos;

Capitulo 4.º: – Combate o Cosmopolitismo, a influencia estrangeira e os absurdos preconceitos de raça;

Capitulo 5.º: – Prega a Unidade da Pátria contra o excessivo regionalismo;

Capitulo 6.º: – Combate a confusão ideológica patente nas revoluções sem programas, conspirações sem objetivos doutrinários;

Capitulo 7.º: – Considera a propriedade trabalho acumulado. Defende o direito a propriedade ao trabalhador. Defende as justas reivindicações dos trabalhadores encarando o problema sob o aspecto moral cristão, defende a participação do trabalhador no lucro das empresas;

Capitulo 8.º: – Trata das relações entre a Família e o Estado. A família é considerada a primeira das sociedades humanas, o grupo natural por excelência entretecido por delicados sentimentos e afetos puros. “Tirem a família do Homem e fica o animal”. “Façam dele a peça funcional do Estado, e teremos o autômato infeliz, rebaixado na sua condição humana”;

Capitulo 9.º: – Fala do Municipalismo. Fundamenta-se nas verdades filosóficas e nas realidades sóciolocais que nos apresentam o Município como reunião de pessoas livres e de famílias autônomas;

Capitulo 10.º: – É a síntese nacionalista do Estado Cristão, o resumo da Democracia Orgânica. Nele se traçam os grandes lineamentos da expressão e do prestigio internacional da Pátria.

 

***

 

Eis a Carta Magna do Integralismo em cujos princípios se baseia e se assenta toda sua estrutura política e social.

 

Nota:
O texto foi originalmente publicado pelo Partido de Representação Popular e foi gentilmente cedido pelo arquivo da Casa de Plínio Salgado.


10/10/2013, 10:26:08

Um fantasma ronda o Brasil

Parafraseando o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, podemos dizer que um fantasma ronda o Brasil – o fantasma do Integralismo. Tal espectro vem aterrorizando liberais, anarquistas e, principalmente, comunistas, sobretudo aqueles que têm participado das últimas manifestações ocorridas em todo o País e no meio das quais não passam de uma ínfima minoria, incapaz de erguer suas bandeiras vermelhas sem provocar a repulsa da esmagadora maioria dos manifestantes, composta de autênticos patriotas, nacionalistas e tradicionalistas, conscientes ou não.

As hordas dos inimigos de Deus, da Pátria e da Família temem o Integralismo por saber que este Movimento, a despeito de não contar hoje senão com poucos milhares de adeptos e um número não muito maior de simpatizantes, possui uma Doutrina que, ainda na hora presente, corresponde aos ideais eminentemente espiritualistas, cristãos, tradicionais, patrióticos e nacionalistas de milhões de brasileiros. São estes inúmeros filhos deste vasto Império, soldados de Deus, da Pátria e da Família Tradicional, bandeirantes do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro e de sua Tradição e, como tais, integralistas, ainda que na maior parte das vezes não o saibam, que, plenamente de acordo com a Doutrina do Sigma, têm expulsado das manifestações aqueles que portam símbolos partidários, proclamando que seu partido é a Nação Brasileira.
 
Como todos bem sabem, os adeptos do nefando credo de Karl Marx, falsa religião do ódio, da inveja e da desagregação moral e social, sempre partiram do princípio segundo o qual todo e qualquer meio é justificado por um fim justo, de sorte que, uma vez reputando ser justa a revolução marxista, jamais hesitaram em matar, roubar e mentir para atingir tal revolução. Assim, na hora que passa, temendo o fortalecimento das falanges integralistas, das legiões do Sigma e, mais ainda, a difusão das ideias e princípios do Integralismo, não têm hesitado os membros das hordas vermelhas em caluniar, injuriar, difamar e ameaçar diversos integralistas e em acusar o Movimento Sigmático de se haver infiltrado nas manifestações de que falamos com o intuito de dissolvê-las e de agredir militantes da chamada “esquerda”.
 
Em verdade, os integralistas têm, sim, participado, e ativamente, das referidas manifestações, mas, diversamente do que afirma a sempre mentirosa escória vermelha, de peito aberto e rosto descoberto e lutando não para dissolver as manifestações, mas sim para orientá-las num sentido verdadeiramente orgânico de luta por um Brasil Maior e Melhor, livre dos males do liberalismo, do comunismo e de outras ideologias apátridas e materialistas modernas, e de edificação, no Brasil, de uma autêntica Democracia Integral. E não atacamos os “esquerdistas” senão com ideias e palavras, estando, porém, como é natural, dispostos a reagir proporcionalmente a qualquer agressão física da parte desses agitadores vermelhos, nos valendo, para tanto, do princípio da legítima defesa.
 
Saímos às ruas, os integralistas, nos proclamando contrários ao “mal dos partidarismos egoístas”, denunciado por Plínio Salgado no denominado Manifesto de Outubro, afirmando, como este, que a Pátria Brasileira não pode ser dividida, retalhada pelos partidos políticos, devendo ser “unida e forte, solidamente construída”, de forma a se livrar do domínio da plutocracia apátrida internacional e do comunismo, que, hoje ainda mais do que em 1932, quando o autor de Palavra nova dos tempos novos e de Páginas de combate redigiu o aludido Manifesto, está entrando no corpo pátrio, “como um cancro”. Destarte, sustentamos que os partidos não nos representam, assim como não representam a Nação Brasileira, e que jamais colaboraremos “com nenhuma organização partidária que vise dividir os brasileiros”, repetindo, pois, com o Perpétuo Chefe da Revolução Integralista, “a frase do legendário Osório, quando escrevia dos campos do Paraguai, dizendo que não reconhecia partidos porque eles dividiam a Nação e esta deve estar coesa, na hora do perigo” [1].
 
Felizes e honrados em saber que o fantasma do Integralismo é capaz de assustar tanto as coortes dos inimigos de Deus, da Pátria e da Família, saímos às ruas, ademais, conscientes de que “somos a Revolução em marcha” [2] e de que “marcharemos através do Futuro”, nada havendo “que nos detenha, porque marcham conosco a consciência da Nação e a honra do Brasil” [3]. E, sempre fiéis ao juramento que fizemos de não descansar um só instante enquanto não perecermos ou triunfarmos, posto que conosco perecerá ou triunfará uma Pátria [4], uma Nação, um Império, saímos às ruas pelejando, pugnando por um verdadeiro despertar deste gigante adormecido por nome de Brasil e pela autêntica Primavera Brasileira [5] há tanto ansiada neste magno Império do Ontem e do Amanhã.

 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 22 de julho de 2013-LXXX.
 

Notas:
[1] SALGADO, Plínio. Manifesto de Outubro, artigo quinto. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=75. Acesso em 22 de julho de 2013.
[2] Idem, artigo sexto. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=75. Acesso em 22 de julho de 2013.
[3] Idem, artigo quinto. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=75 .Acesso em 22 de julho de 2013.
[4] Idem, artigo décimo. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=75. Acesso em 22 de julho de 2013.
[5] É curial ressaltar que tal primavera nada tem que ver com o arremedo do Inverno Fundamentalista Sunita erroneamente chamado por muitos de “Primavera Árabe” com que sonham tantos inocentes úteis em nosso País. 

23/07/2013, 20:42:54


Resposta ao portal Último Segundo
Resposta ao portal Último Segundo

O portal Último Segundo, do iG, veiculou, na noite da última quarta-feira, dia 10 de julho, informações equivocadas a respeito da "Marcha da Família com Deus, em defesa da Vida, da Liberdade, da Pátria e da Democracia, contra o comunismo", assim como da Frente Integralista Brasileira (FIB) e do Integralismo.

Em primeiro lugar, nem todos os participantes daquela marcha, que reuniu bem mais de cem manifestantes e em sua maioria jovens, alguns dos quais integralistas, pediam uma intervenção das Forças Armadas no sentido de derrubar o atual (des)governo, intervenção esta que, aliás, no presente contexto, muito dificilmente se daria e, dada a profunda crise do referido (des)governo, do PT e dos demais partidos, sobretudo aqueles da chamada “esquerda”, provavelmente não seria sequer necessária. Ademais, diversamente do que a reportagem afirma, aqueles que pediam uma intervenção militar não desejavam a implantação de uma ditadura, mas sim que as Forças Armadas, visando preservar a lei, a ordem e as instituições, fizessem cair por terra um (des)governo que viola a lei e é incapaz de assegurar a ordem e de defender as instituições, devolvendo o poder aos civis assim que possível.
 
Quanto à Frente Integralista Brasileira, caso partamos dos conceitos modernos de “direita” e “esquerda”, surgidos com a chamada Revolução Francesa, não poderemos considerá-la uma organização de “extrema-direita”, assim como não poderemos afirmar que o foram a Ação Integralista Brasileira, a Associação Brasileira de Cultura, o Partido de Representação Popular e todas as demais associações integralistas criadas no País desde a década de 1930. À luz da concepção integral do Universo e do Homem, aliás, não existem, como bem faz ver Plínio Salgado, nem “esquerdas” nem “direitas”, assim como inexistem “centro”, “meias-direitas” ou “meias-esquerdas”, e, por conseguinte, “extremas-direitas” ou “extremas-esquerdas” [1].
 
A afirmação de que “O integralismo é descrito por historiadores como uma versão brasileira do nazismo” também é falsa, já que mesmo os mais radicais militantes marxistas travestidos de historiadores não afirmam isso, dizendo, no máximo, que é o Integralismo uma versão brasileira do fascismo italiano.
 
Em verdade, porém, o Integralismo não é tão somente um movimento essencialmente brasileiro, mas também difere, em pontos centrais de sua Doutrina, do nacional-socialismo alemão e do fascismo italiano. Diversamente deste último, se opõe o Integralismo ao Estado Totalitário de inspiração hegeliana, assim como ao positivismo jurídico, defendendo o Direito Natural Tradicional, ou Clássico, e um Estado Ético a um só tempo anti-individualista e antitotalitário, Estado este transcendido pela Ética e movido por um ideal Ético, não se podendo confundir com o Estado Totalitário que acabamos de mencionar e que é entendido como fonte única e exclusiva do Direito e da Moral, e, como escreve Miguel Reale, “personificação da própria Ética” [2]. E, diferentemente do nacional-socialismo, o Integralismo sempre foi contrário às teses ditas arianistas, aliás bastante em voga no Brasil ao tempo do surgimento da Ação Integralista Brasileira, proclamando, com efeito, o seu documento inaugural, o denominado Manifesto de Outubro, escrito por Plínio Salgado, que os pequenos e grandes burgueses citadinos do Brasil eram, em regra, cosmopolitas que desconheciam “os pensadores, os escritores, os poetas nacionais” e viviam a “engrandecer tudo o que é de fora, desprezando todas as iniciativas nacionais”, se envergonhando “do caboclo e do negro de nossa terra”, desconhecendo “todas as dificuldades e todos os heroísmos, todos os sofrimentos e todas as aspirações, o sonho, a energia, a coragem do povo brasileiro” e vivendo “a cobri-lo de baldões e de ironias, a amesquinhar as raças de que proviemos” [3]. Foi, ademais, Plínio Salgado, que sempre proclamou que “o problema do mundo é ético e não étnico” [4], autor de diversas denúncias contra o endeusamento do Führer, o racismo, as políticas antissemitas e o crescimento desmedido do poder do Estado na Alemanha hitlerista, estando a mais célebre de tais denúncias na Carta de Natal e Fim de Ano, de 1935 [5]. Além disso, fizeram parte da Ação Integralista Brasileira vários milhares de negros e mesmo muitos judeus.
 
Afirma o referido portal que muitos dos manifestantes defendiam a denominada “cura gay” e se posicionavam contra os “direitos civis dos homossexuais”, ao mesmo tempo em que usavam músicas de Cazuza e Renato Russo, “gays assumidos”, para “embalar o protesto”.
 
Ora, a expressão “cura gay” foi usada pelo chamado “Movimento LGBT” e pela imprensa para etiquetar o Projeto de Decreto Legislativo 234/11, por eles injustamente acusado de sustentar que a homossexualidade seria doença e doença passível de cura, quando, em verdade, apenas sustava o parágrafo único do artigo 3º e o artigo 4º da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99, visando permitir que pessoas que desejassem deixar de sentir atração pelo mesmo sexo e passar a sentir atração pelo sexo oposto se submetessem a tratamentos psicológicos. Aliás, diversos estudos científicos defendem que é possível sim a mudança da chamada orientação sexual por meio de tais terapias, e aqueles que sustentam tal possibilidade não consideram a homossexualidade uma doença, cumprindo destacar que o Dr. Robert Spitzer, principal responsável pela retirada da homossexualidade da lista de doenças da Associação de Psicologia Americana (APA) em 1973, chegou a defender, em trabalho apresentado em 2001, a possibilidade de sucesso de tais terapias, ditas de reorientação sexual.
 
Quanto aos denominados direitos civis, são e devem ser eles os mesmos para todos os cidadãos, independentemente de sua chamada orientação sexual.
 
Por fim, não há incompatibilidade alguma em, por um lado, se opor às práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo, práticas estas sempre fechadas à procriação, à transmissão da vida e, como tais, antinaturais, como já observava Platão, pela voz de O Ateniense, no diálogo As Leis [6], e acreditar que uma pessoa pode, com muito esforço próprio e tratamento psicológico adequado, deixar tais práticas ou até mesmo, em alguns casos, deixar de sentir desejo pelo mesmo sexo, e, por outro lado, tocar músicas de homossexuais assumidos em um protesto, até porque, ao analisar uma afirmação, devemos olhar o que nela foi dito e não quem o disse. Cumpre salientar, contudo, que, justamente pelo que dizem as músicas de Cazuza e Renato Russo ali tocadas, que contêm mensagens anárquicas, nós jamais as tocaríamos em uma manifestação organizada pela Frente Integralista Brasileira.
 
Terminamos esta breve resposta ao portal Último Segundo enfatizando que, diversamente do que afirma o referido portal, a Canção do Exército não contém a frase “Nós somos da pátria guia”, mas sim a frase “Nós somos da Pátria a guarda”, e que o autor da matéria de que ora tratamos, Sr. Ricardo Gualhardo, deveria ou estudar mais o nosso idioma ou a História e a realidade. Isto porque, ao escrever que, “ao contrário do famigerado Comando de Caça aos Comunistas dos anos 60, o novo CCC se intitula Comando de Caça aos Corruptos”, diz ele, pois, que ser comunista é o contrário de ser corrupto, de sorte que ou desconhece a língua pátria, havendo empregado, equivocadamente, a expressão “ao contrário” no sentido de “diferentemente” ou “diversamente”, ou então desconhece o fato de que os países governados por ditaduras comunistas sempre estiveram os mais corruptos do Mundo, do mesmo modo que muitos dos mais notórios corruptos do País, a exemplo de José Dirceu e José Genoíno, são adeptos da ideologia, ou falsa religião, marxista.
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 14 de julho de 2013.
 
 
Notas:
[1] SALGADO, Plínio. “Esquerdas” e “direitas”. In Idem. Palavra Nova dos Tempos Novos. 4ª edição. In Idem. Obras Completas. Vol. 7. 2ª edição. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 249-254. Este texto, de 1936, foi transcrito em O pensamento revolucionário de Plínio Salgado, antologia organizada por Augusta Garcia Rocha Dorea (2ª edição ampliada. São Paulo: Editora Voz do Oeste, 1988, pp. 98-101).
[2] REALE, Miguel. O Estado Moderno: liberalismo, fascismo, integralismo. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1935, p. 177. Como escreve Reale, na mesma página, "só os ignorantes ou os homens de má fé confundem a concepção integralista do Estado com o Estado Hegeliano". Sobre o Estado Ético, ou Estado Integral: SALGADO, Plínio. Estado Totalitário e Estado Integral. In Idem. Madrugada do Espírito. 4ª edição. In Idem. Obras Completas. 2ª edição. Vol. 7. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 443-449 (texto publicado originalmente no jornal A Offensiva, do Rio de Janeiro, a 01 de novembro de 1936).
[3] SALGADO, Plínio. Manifesto de Outubro. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=75. Acesso em 15 de abril de 2013.
[4]Idem. Trechos de uma carta. In Panorama, Ano I, Nº 4 e 5, São Paulo, Abril e Maio de 1936, p. 5. Também disponível em: http://pliniosalgado.blogspot.com/2011/02/trechos-de-uma-carta-plinio-salgado-em.html. Acesso em 12 de julho de 2013.
[5] Idem Carta de Natal e Fim de Ano. In Idem Palavra Nova dos Tempos Novos. 4ª edição. In Idem. Obras Completas. Vol. 7. 2ª edição. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 289-299. Texto originalmente publicado no jornal jornal A Offensiva, do Rio de Janeiro, em fins do ano de 1935.
[6] PLATÃO. As Leis. Livro I, 636. In Idem, As Leis (incluindo Epinonis), 2ª ed. revista, Tradução, notas e introdução de Edson Bini, Prefácio de Dalmo de Abreu Dallari.,Bauru, SP, Edipro, 2010, p. 82.

14/07/2013, 08:28:41

Guerra Interior e Revolução Interior*

Cada Homem, cada Ente Humano vive, dentro de si, uma guerra constante, de cujas silenciosas batalhas diárias se sai vencedor ou derrotado. Esta Guerra Interior só termina, com o triunfo ou a derrota final, no momento em que a Alma, o Espírito Imortal se desprende do corpo já inerte, ainda que existam homens totalmente derrotados desde muito antes de exalar o derradeiro suspiro. São estes os mortos que ainda respiram, os fracos que se deixam levar pela correnteza, os infelizes que, segundo Sêneca, padecem do “pior dos males”, que não é senão o de abandonar “o número dos vivos, antes de morrer” [1].

Aquele que consegue derrotar-se a si mesmo nos árduos combates dessa perene guerra contra o próprio eu obtém para si o maior, o mais nobre e o mais belo dos triunfos, sendo mil vezes mais heroico do que o guerreiro capaz de vencer mil inimigos externos, mas não de triunfar sobre o inimigo que há dentro dele. Do mesmo modo, aquele que se deixa derrotar por si próprio sofre a pior e a mais vil e desonrosa derrota. Isto, aliás, já foi dito em obras como o Baghavad Gita, que reúne preleções atribuídas a Krishna, e o Dhammapada, que, segundo a tradição, teria sido composto por Siddharta Gautama, e foi também afirmado, dentre outros,pelo cretense Clínias de Cnossos, no diálogo As Leis, de Platão, e por Demócrito de Abdera. Este último pondera, com efeito, que “não somente é heróico o vencedor dos inimigos, mas também o triunfador dos próprios desejos” [2] e que “vencer-se a si mesmo é a primeira de todas as vitórias”, ao passo que “ser vencido por si mesmo é a mais torpe e a pior cousa” [3]. Já Clínias, havendo observado, no referido diálogo platônico, que “cada um de nós é seu próprio inimigo” [4], salienta que “a vitória sobre o eu é de todas as vitórias a mais gloriosa e a melhor, e a auto-derrota é de todas as derrotas de pronto a pior e a mais vergonhosa, frases que demonstram que uma guerra contra nós mesmos existe em cada um de nós” [5].
 
A Revolução Interior proposta por Plínio Salgado se configura numa mudança de atitude do Espírito em face dos problemas que lhe são apresentados, numa transmutação integral de valores que, de acordo com o sentido astronômico e tradicional do termo “Revolução”, implica um retorno do Espírito aos princípios da Tradição. Tal Revolução, a que também podemos denominar Revolução do Espírito, muda a totalidade dos conceitos, dando um novo e superior sentido de vida, e, na frase de Plínio Salgado, se traduz, antes de mais nada, na autoimposição de “normas de nobreza tanto na vida particular como na vida pública” [6]. Decisiva vitória do Homem em sua Guerra Interior, sendo, a partir dela, mil vezes mais fácil se combater o inimigo que há dentro dele próprio, consiste tal Revolução Espiritual na base da reedificação do Homem Integral, do Homem Novo que não é senão o Homem Tradicional, ou, se preferir, o autêntico Homem Nobre, que, a partir dela, passa a influir no ambiente que o cerca, fazendo sua parte na obra da Revolução Cultural, que, uma vez vitoriosa, construirá a Sociedade Integral e o Estado Integral, a Nova Sociedade e o Novo Estado que não são senão a Sociedade Tradicional e o Estado Tradicional.
 
Isto posto, faz-se mister sublinhar que a verdadeira Revolução Interior, da qual nasce o Homem Novo, é uma Revolução Permanente, implicando, assim como a Guerra Interior, num combate perene do Ente Humano contra si mesmo, ou do Homem Novo contra o Homem Velho, este portando a tendência ao mal e aquele a se iluminar com a “luz que de si mesmo tira e que é a aspiração ao bem” [7]. Deste modo, podemos dizer que, a partir de seu princípio, passa a Revolução Interior a se confundir com a Guerra Interior, embora esta se inicie já ao nascermos, existindo, com maior ou menor intensidade, dentro de cada Ente Humano, enquanto aquela, “obra de educação”, [8] ou de reeducação do Homem, [9] em que devemos “lutar conosco mesmos, batalhar contra o nosso próprio ser”, nos aperfeiçoando “cada vez mais na prática das virtudes”, [10] se dá apenas no coração daqueles que realmente se dedicam ao estudo e à reflexão acerca da realidade e dos problemas do Universo e do Homem.
 
Conscientes de que o preceito dos tempos que passam não é o lamento sobre o fato de que vivemos num Mundo em ruínas, mas sim a ação, o combate em prol da edificação de uma Nova Civilização Tradicional, de uma Nova Civilização Cristã na verdadeira acepção do termo, e de que esta Nova Civilização somente poderá ser edificada por uma Elite, uma Aristocracia do Espírito, nós outros proclamamos a imperiosa necessidade de nos fazermos, por meio da Guerra e da Revolução Interior, autênticos Homens Nobres, membros daquela Aristocracia Espiritual, dispostos a servir a Deus, à Pátria e à Família e a tudo sacrificar na peleja pelos tradicionais valores consubstanciados nesta trilogia, nobre como nenhuma outra.
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira
 
 
Notas:
[1] SÊNECA, Lúcio Aneu. Da tranqüilidade da alma, V. In Idem. Obras (Consolação a minha mãe Hélvia; Da tranqüilidade da alma; Medéia. Estudo introdutivo e tradução de Giulio Davide Leoni. São Paulo: Atena Editôra, 1955, p. 95.
[2] DEMÓCRITO, fragmento 214, segundo a classificação de Diels. In MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. Volume I. Tradução de Lycurgo Gomes da Motta. 3ª ed. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1971, p. 112.
[3] Idem, fragmento 75, segundo a classificação de Mullach. In MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. Volume I, cit., loc. cit.
[4] PLATÃO. As Leis, Livro I, “d”. In Idem. As Leis (incluindo Epinonis). 2ª ed. revista.Tradução, notas e introdução de Edson Bini. Prefácio de Dalmo de Abreu Dallari. Bauru, SP: Edipro, 2010, p. 69.
[5] Idem. As Leis, Livro I, “e”. In Idem. As Leis (incluindo Epinonis), cit., pp. 69-70.
[6] SALGADO, Plínio. Espírito da burguesia. 3ª ed. In Idem. Obras completas. 2ª ed., vol. 15. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 47.
[7] Idem. O ritmo da História. 3ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol. 16. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 109-110.
[8] Idem. A Doutrina do Sigma. 2ª ed. Rio de Janeiro: Schmidt-editor, 1937, p. 16.
[9] Idem. Reconstrução do Homem. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, s/d, p. 134.
[10] Idem. Discursos. 3ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol. 10. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 433.
 
* Artigo originalmente publicado no informativo Ação!, da Frente Integralista Brasileira (Ano III, nº 9, Edição Nacional, janeiro-abril de 2013, p. 4), e aqui apresentado em versão revista e ampliada.

22/05/2013, 17:33:27

A família Rothschild e a City of London

O Reino Unido é uma velha potência particularmente interessante, tanto pelas suas instituições estranhas quanto pelos fatos históricos que as constituíram. Quando os Romanos fundaram Londinium, no ano de 50 d.C., não teriam condições de imaginar que vinte séculos depois o pequeno e longínquo território às margens do Rio Tâmisa constituiria um dos principais centros financeiros do Século XXI, reunindo em seu território uma particular concentração de instituições financeiras e gigantescos conglomerados internacionais, responsáveis por significativa participação na economia de todo o planeta.

Apesar do crescimento da metrópole, a antiga Londinium, hoje conhecida como The Square Mile, City of London ou simplesmente “The City”, permaneceu com seu território inalterado. Sua constituição é mais antiga que o Parlamento britânico e suas leis possuem artigos que datam do Século XI. Este singular corpo político com apenas sete mil residentes é estranho à metrópole homônima de quinze milhões de habitantes (ver mapa abaixo), e gerido de forma completamente independente: além de legislação única, possui sua própria força policial, sua própria prefeitura e não presta contas à monarquia britânica [1].
 
The City of London Corporation é na verdade uma Cidade-Estado [2], completamente independente do Reino Unido, domicílio de bancos e gananciosas empresas globais que criaram seu próprio território, elegem seus representantes (claro, são as empresas quem votam em uma plutocracia), formulam suas próprias leis e estão isentas das leis fiscais do Reino Unido – as quais estão submetidos todos os escravos britânicos.
 
Mapa do Department for Environment Food and Rural Affairs (DEFRA), onde o território da City (vermelho) pode ser comparado com o da grande Londres (em cinza). [3]
 
Durante o período que abrangeu os Séculos XVIII e XIX, quando emergiram novos e poderosos impérios, os banqueiros instalados na City começavam a ficar famosos por financiar ambos os lados das guerras por supremacia na Europa. É neste período que começa a entrar em cena a figura de Nathan Rothschild, líder do ramo britânico da família Rothschild (estabeleceu-se na City em 1809 [4]) e uma das cabeças mais importantes do cartel dos bancos britânicos, cuja sofisticada rede de inteligência lhe conferia uma assombrosa vantagem sobre as nações que eles estavam dominando lentamente por meio de intrigas que eles mesmos criavam com o propósito de, depois, conceder volumosos empréstimos.
 
***
 
De acordo com Duque de Wellington, em 18 de junho de 1815 era travada a batalha mais demorada e violenta que já vira na vida. Trata-se, evidentemente, da famosa Batalha de Waterloo. No decorrer da batalha, agentes da família Rothschild acompanhavam com atenção a desesperada tentativa de Napoleão Bonaparte em derrotar os exércitos da Sétima Coligação. Infiltrados nos exércitos aliados, tais agentes conseguiram obter as notícias da capitulação de Bonaparte e entregá-las a Nathan Rothschild horas antes que as notícias chegassem a Londres e o próprio governo britânico tivesse acesso ao resultado da batalha [5].
 
Valendo-se do privilégio de informações, os Rothschild arquitetaram o chamado “Golpe da Bolsa de Londres”, em que espalharam o boato de que Napoleão havia vencido a guerra e o Reino Unido saíra derrotado. A Bolsa, que estava em terrível expectativa, aguardando o resultado da batalha, viu o valor de seus papéis despencarem abruptamente.
 
Naquela ocasião, Nathan Rothschild inicia a venda de suas importantes ações – o que reforçou os boatos de que Napoleão de fato teria vencido a batalha. O desespero tomou conta da Bolsa de Londres e em curto espaço de tempo, todos vendiam seus títulos. Agentes disfarçados da família Rothschild simulavam compradores, e pagavam pelas ações uma fração mínima do seu valor real.
 
Em menos de um dia, Nathan Rothschild passou a dominar a Bolsa de Londres, o Banco da Inglaterra e, por conseqüência, a própria City of London. Os Rothschild apoderaram-se da economia britânica por um valor estupidamente ridículo. Tal proeza garantiu posição de poder inigualável no Reino Unido, tanto que, pouco depois, em meados do Século XIX, os Rothschild dominaram todo o sistema bancário europeu.
 
Em “Brasil, Colônia de Banqueiros”, provavelmente o livro mais importante de nossa história econômica, tal episódio é magistralmente narrado por Gustavo Barroso:
 
“Nathan Mayer Rothschild! Este nome está preso a toda engrenagem financeira mundial do começo do século. Seu portador assiste, de longe, a batalha de Waterloo, vê a derrota de Napoleão, corre à costa belga, paga a peso de ouro o barco dum pescador, atravessa a Mancha em pleno temporal, arrebenta até alcançar Londres e surge na Bolsa com a mais tranqüila fisionomia deste mundo. Sorri e começa a vender seus títulos. Todos pensam que deve estar a par de novas terríveis de guerra, pois nada ainda transpirava o fatal encontro de Napoleão com Wellington e Blûcher. Só ele conhecia e de visu. O pânico ganha os portadores de ações, de bônus e de apólices. Baixa pavorosa! Os agentes de Nathan compram tudo por dez reais de mel coado.
 
Mais tarde, chega a notícia da estrondosa vitória e todos aqueles papeis, como é natural, sobem vertiginosamente. Estão na quase totalidade em mãos da casa Rothschild, que realiza um ganho colossal e, à sombra dessa formidável riqueza começa a dominar a Europa. Caíra o império militar de Napoleão, a maior potência militar da época, e nascia o argentário de Rothschild, a maior potência financeira dos novos tempos” [6].
 
Nos anos seguintes, a família Rothschild passou a praticamente administrar a Inglaterra, influenciando as políticas públicas, as finanças e até mesmo a política externa. Em 1875, por exemplo, Lionel Rothschild, considerado o primeiro judeu praticante a entrar no parlamento britânico, foi, com algumas horas de antecedência, capaz de emprestar a considerável cifra de quatro milhões de libras ao governo, permitindo assim que a Grã-Bretanha assumisse o controle do Canal de Suez, chave para o comércio da Europa com o Oriente [7].
 
Agora sob domínio da família Rothschild, a Grã-Bretanha, mais agressiva do que nunca, tornou-se líder indiscutível da Europa. E assim, com os Rothschild controlando a City of London, a Inglaterra foi a primeira das grandes nações a sucumbir completamente às mãos da família fundadora da grande oligarquia financeira que viria a ditar os acontecimentos históricos e a colonizar todo o mundo nos dois séculos seguintes.
 
***
 
Falando em colonizar...
 
A City of London, sob domínio da poderosa família Rothschild, viria a constituir uma pequena elite que determinaria todo o modo de vida do Século XX. Seu peculiar interesse pelo comportamento humano nos últimos cem anos fez de nossa sociedade atual um grande laboratório, onde nossas emoções e instintos primitivos são utilizados dia após dia e acionados como alavancas que nos induzem ao comportamento que lhes for conveniente. A sociedade atual já é um produto dos bilionários institutos de pesquisa a serviço dos banqueiros. Seus institutos de ciência política fornecem “conselhos” aos governantes de todo o planeta. Sua fortuna multiplicar-se-ia, atingindo um valor absurdamente incalculável, e sua presença se estenderia a quase todos os segmentos da sociedade de consumo: dos meios de comunicação aos automóveis e até mesmo ao controle da nossa empresa de maior valor: a Petrobras [8].
 
Não seria audacioso imaginar o porquê em 2010 nosso governo-fantoche, então presidido por Luiz Inácio Lula da Silva, provavelmente aconselhado por algum agente Rothschild, orgulhosamente anunciou ter efetuado a maior capitalização em capital aberto da história da humanidade, onde o valor estratosférico de US$ 72,8 bilhões (o equivalente a R$ 127,4 bilhões [9]) em ações foi negociado na Bovespa (transformando esta na segunda maior bolsa do mundo em ações capitalizadas [10]). Ocorre que, novamente, os Rothschild entraram em cena e adquiriram US$ 70 bilhões, dos US$ 72,8 bilhões que foram negociados, tornando-se, depois do próprio governo brasileiro, o maior acionista da Petrobras.
 
"O presidente se emocionou no discurso e passou a falar até em ajuda divina à Petrobras: 'Acho que Deus foi muito generoso com o povo brasileiro', afirmou Lula."
 
Tal cenário repete-se ainda ao retroceder a nossa história recente, quando no governo-fantoche de Fernando Henrique Cardoso, provavelmente seguindo também a alguma orientação de Rothschild, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) foi entregue “em cerca de metade a testas-de-ferro ‘nacionais’ e a outra metade diretamente a investidores estrangeiros. A coordenadora global desta transação foi a Merril Lynch & Co. ABN AMRO Rothschild: a empresa que fez a avaliação do valor de ‘venda’ e, depois, ela mesma, acabaria por se tornar uma das acionistas (algo não só ilegal, como imoral)” [11].
 
Só para recordar, a CVRD foi doada aos Rothschild no ano de 1997 pela insignificante cifra de US$ 3,3 bilhões: dez anos depois a companhia valia US$ 298 bilhões, tendo superado a Petrobras e a IBM em valor de mercado [12]. A venda da Vale foi ilegal, pois o valor da transação considerou propositalmente apenas a infraestrutura da empresa e não as reservas de minério de ferro em seu poder; caso contrário, o valor de venda (falando hipoteticamente, já que nós nacionalistas sabemos que a privatização dos recursos estratégicos nacionais é inadmissível, pois constitui grave atentado contra a soberania de nossa Pátria) superaria facilmente a casa dos trilhões de dólares.
 
Outros episódios ainda mais antigos dão prova de que a economia do Brasil tem sido comandada pela City of London, sob o controle de Rothschild, desde os primeiros suspiros da Independência. O Império do Brasil, durante o Reinado de D. Pedro II, firmou o seguinte contrato no ano de 1855:
 
"O Cavalheiro Sergio Teixeira de Macedo, Membro do Conselho de Sua Majestade o Imperador do Brasil e Seu Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto à Sua Majestade a Rainha da Grã Bretanha, como representante do Governo Imperial do Brasil, devidamente autorizado pelo mesmo de uma parte, e da outra os Srs. N. M. Rotschild e Filhos, da cidade de Londres, ajustaram as seguintes cláusulas:
 
ARTIGO I
Os Srs. N. M. Rotschild e Filhos operarão como Agentes Financeiros do Governo Brasileiro em Londres e serão exclusivamente empregados dos modos seguintes:
Primeiro: – Para receber todo e qualquer fundo que o Governo Brasileiro possa enviar para este país, afim de pagar dividendos, salários ou quaisquer outras despesas por conta do mesmo Governo em letras de câmbio ouro em barra ou em pó, diamantes, dinheiro ou quaisquer mercadorias.
Segundo: – Para fazer todas as compras na Inglaterra e executar todas as ordens do Governo Imperial, exceptuandose, contudo, aquelas que possam ser confiadas ao seu Ministro em Londres, a quaisquer de seus Cônsules ou ViceCônsules, ou a qualquer funcionário especialmente encarregado desse propósito.
Terceiro: – Para pagar os dividendos das partes da divida brasileira contraída ou a contrair-se em Londres, pagamento esse que já não esteja ou possa ser realizado por contrato de outro modo.
 
ARTIGO II
Por esses serviços os Agentes receberão as seguintes comissões:
Um por cento sobre o preço das mercadorias, navios e outros artigos comprados ou vendidos, não incluindo a corretagem, ficando entendido que os descontos usuais dos fabricantes e negociantes pelo pagamento em caixa serão em beneficio do Governo.
Um quarto por cento sobre a venda de ouro em barras ou em pó, não incluindo a corretagem.
Um quarto por cento sobre a venda de diamantes, não incluindo a corretagem.
Um quarto por cento por aceitar e pagar letras.
Nada pela cobrança e recebimentos do importe de letras.
Nada por qualquer soma recebida de qualquer parte. Não obstante, uma comissão de um quarto por cento, meio por cento ou um por cento sobre as diferentes espécies de pagamento realizados em virtude do presente contrato ou de qualquer outro deve ser escriturada em cada parcela no passivo da conta corrente, não devendo figurar comissão alguma no ativo.
Nada para efetuar seguros, porém ,unicamente o quarto por cento do costume ao pagá-los.
Um e meio por cento sobre o pagamento de dividendos dos empréstimos de que os Agentes não forem contratantes.
Um por cento, como está estipulado no respectivo contrato, sobre o pagamento de dividendos dos empréstimos de que forem contratantes, ficando entendido que o presente contrato não poderá ir de encontro a nenhum outro contrato em vigor. As comissões sobre as quantias entregues a outros contratantes para o pagamento dos dividendos a seu cargo entram na regra geral do quarto por cento de comissão.
Um quarto por cento, não incluindo a corretagem, sobre as quantias empregadas na compra de Bonus de qualquer empréstimo para amortização ou depósito.
 
ARTIGO III
Na conta corrente com o Governo, os Agentes escriturarão os juros no passivo e ativo da mesma, com a diferença, contudo, de um e meio por cento anualmente em favor dos Agentes, pelo seguinte: o Governo pagará juros de um por cento, no mínimo, pela taxa de desconto no banco da Inglaterra e receberá meio por cento menos do que a mesma taxa de desconto no Banco.
 
ARTIGO IV
Os Agentes combinam em adiantar ao Governo Imperial qualquer quantia, desde que não exceda de cem mil libras esterlinas, ficando o Governo obrigado a pagar na expiração do prazo deste contrato as somas que os Agentes assim lhes tenham adiantado.
 
ARTIGO V
O modo de ter a seu cargo as contas com o Governo Imperial, o prazo de sua transmissão ao Ministério da Fazenda e os meios dos Agentes se corresponderem com o Governo Imperial continuarão os mesmos dos Agentes anteriores e serão modificados de acordo com as instruções dadas pelo Ministro do Brasil em Londres, cujas inspeção e determinações sobre todos esses assuntos continuarão a ser como anteriormente, e a quem os Agentes fornecerão qualquer informação que lhes peçam sobre a situação dos negócios.
 
ARTIGO VI
As cláusulas do presente acordo entrarão em vigor no dia 1.° de Julho do corrente ano de 1855 e valerão por três anos a contar dessa data, isto é até 1.° de Julho de 1858.
 
ARTIGO VII
Se, seis meses antes do dia da expiação do prazo do presente acordo, nenhuma das partes tiver declarado à outra a intenção de rescindi-lo, ele continuará em vigor por mais um ano a contar de 1.° de Julho de 1858. Se, seis meses antes de terminar esse ano, a referida declaração não for feita, o mesmo contrato continuará por um ano mais e assim continuamente até ser feita a declaração com a antecedência de seis meses.
Todas as declarações e notificações do Governo aos Agentes podem ser feitas pelo Ministro em Londres.
 
ARTIGO VIII
Ao terminar o contrato de qualquer maneira, os Agentes não deixarão de ser empregados como Agentes até que tenham sido pagos de todas as quantias que lhes forem devidas pelo Governo.
O presente acordo foi assinado em três vias na Cidade de Londres no dia vinte do mês de Junho de 1855. (A.) S. de Macedo, - N. M. Rotschild e Filhos. (Tradução de G. Barroso) [13]
 
O brasão da família Rothschild - e também logotipo do The Rothschild Group.
 
Tais evidências demonstram que Rothschild e as dinastias financeiras a ela coligadas dos dois lados do Atlântico controlam a horda de corruptos que nos governam quase que exclusivamente para os interesses da City há quase duzentos anos!
 
Atualmente, na falsa democracia do liberalismo, controlam o candidato do partido A, do partido B e do partido C, de modo que a escolha do povo seja sempre a mesma: um governante corrupto, apátrida e a serviço dos interesses do capitalismo internacional. Sabendo que o povo tem obrigações maiores, como a novela das nove e as emoções do futebol, ou outra distração que possam empregar para ocultar suas transações ilícitas, fazem apenas substituir um governo-fantoche por outro governo-fantoche.
 
***
 
A complexa engenharia de controle global dos banqueiros internacionais tem por objetivo exercer controle sobre as leis, agências reguladoras, educação, agricultura, as indústrias, os transportes, o setor de construção e também sobre o setor militar, com o objetivo de criar uma moderna sociedade feudal, onde as nações “periféricas” teriam como função apenas o fornecimento de recursos para o primeiro mundo.
 
Economicamente somos escravos – admitamos! Mas, ainda somos livres de espírito, portanto, não aceitemos sem reação a escravidão que nos é imposta por um punhado de banqueiros psicopatas da City e de Wall Street. É dever de todos os brasileiros conscientes reagir contra o capitalismo internacional, buscar construir uma atitude nacionalista saudável, capaz de “insuflar energia aos moços, arrancá-los da descrença, da apatia, do ceticismo, da tristeza em que vivem; ensinar-lhes a lição da coragem, incutindo-lhes a certeza do valor que cada um tem dentro de si, como filho do Brasil e da América” [14]
 
É preciso a autoridade, a força moral e a independência de um movimento legitimamente nacionalista para “Sacudir as fibras da Pátria. Erguê-la da sua depressão, do seu desalento, da sua amargura, para que ela caminhe, dando começo à Nova Civilização, que, pela nossa força, pela nossa audácia, pela nossa fé faremos partir do Brasil, incendiar o nosso continente, e influir mesmo no Mundo. Para isso, combateremos os irônicos, os "blasés", os desiludidos, os descrentes, porque nesta hora juramos não descansar um instante, enquanto não morrermos ou vencermos, porque conosco morrerá ou vencerá uma Pátria” [15].
 
Só assim nos livraremos da agiotagem internacional...
Só assim seremos livres...
Resistir é preciso!
 
 
Eduardo Ferraz
Membro do Conselho Diretivo Nacional e Secretário de Expansão da Frente Integralista Brasileira.
 
 
Notas:
[1] ALLEN, William Ferneley. The Corporation of London: Its Rights and Privileges. Londres, 1858. Disponível em http://www.wattpad.com/9747-the-corporation-of-london-its-rights-and?p=1#.UaBkCNI-YQo. Acesso em 23 de maio de 2013.
[2] A página oficial da City of London Corporation, cujo domínio na internet que, embora travestido de governamental, fornece detalhes das particularidades da City. Disponível em http://www.cityoflondon.gov.uk/. Acesso em 10 de março de 2013.
[3] Mapa do Department for Environment Food and Rural Affairs (DEFRA), onde o território da City (vermelho) pode ser comparado com a grande Londres (em cinza). Disponível em: http://aqma.defra.gov.uk/aqma-details.php?aqma_id=117. Acesso em 24 de maio de 2013.
[4] Victor Gray and Melanie Aspey, "Rothschild, Nathan Mayer (1777–1836)"Oxford Dictionary of National Biography, Oxford University Press, September 2004; online edition, May 2006. Acesso em 21 de maio de 2013.
[5] UK – The Family that bankrolled Europe. BBC, 9 de julho de 1999. Disponível em: http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/389053.stm. Acesso em 23 de maio de 2013.
[6] BARROSO, Gustavo. Brasil, Colônia de Banqueiros (História dos empréstimos de. 1824 a 1934). 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1936, p. 16.
[7] Lionel Rothschild (1808—1879) banker. Oxford Index. Disponível em: http://oxfordindex.oup.com/view/10.1093/oi/authority.20110803100430183. Acesso em 24 de maio de 2013.
[8] Página do The Rothschild Group voltada à América Latina, onde é um pequeno texto introduz aos negócios mais recentes de Rothschild na região. Disponível em: http://www.rothschild.com/latin-america/. Acesso em 24 de maio de 2013.
[9] Lula, euforia no momento mais auspicioso do capitalismo. VEJA, 24 de setembro de 2010. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/economia/lula-euforia-no-momento-mais-auspicioso-do-capitalismo. Acesso em 25 de maio de 2013.
[10] "Capitalização da Petrobras foi a maior da história da humanidade”, diz Lula. R7, 24 de setembro de 2010. Disponível em: http://noticias.r7.com/economia/noticias/capitalizacao-da-petrobras-foi-a-maior-da-historia-da-humanidade-diz-lula-20100924.html. Acesso em 25 de maio de 2013.
[11] SILVEIRA, Marcelo. Brasil – Eterna Colônia de Banqueiros?. Frente Integralista Brasileira, 2007. Disponível em http://www.integralismo.org.br/arquivos/2007/Colonia_de_banqueiros.pdf. Acesso em: 25 de maio de 2013.
[12] Vale do Rio Doce supera Petrobras em valor de mercado. VALOR, 1 de outubro de 2007. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/economia/ultnot/valor/2007/10/01/ult1913u76845.jhtm. Acesso em 24 de maio de 2013.
[13] BARROSO, Gustavo. Brasil, Colônia de Banqueiros (História dos empréstimos de. 1824 a 1934). 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1936, p. 183.
[14] SALGADO, Plínio. Manifesto de Outubro. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=825&ox=2. Acesso em 23 de abril de 2013.
[15] Idem. 

 


27/05/2013, 16:48:17


A família Rothschild e a City of London
Espírito burguês e espírito nobre*

Antes de ser uma classe social, é a burguesia um estado de espírito. É ela, como preleciona Plínio Salgado, “o próprio espírito da avareza e da sensualidade”, hoje presente em todas as classes, e que se traduz, antes de tudo, pela “preocupação exclusiva pelos bens materiais”, que deixam de se constituir em um meio da Pessoa Humana, ordenado ao seu Fim Último, que é Deus, ou a contemplação de Deus na vida eterna, também denominada eterna bem-aventurança, e se transformam em um fim, o mesmo ocorrendo com os cinco sentidos do Homem, tornados fins únicos de todas as suas manifestações e realizações [1]. Tal espírito, a que também podemos denominar burguesismo, mamonismo, ou, ainda, mal burguês, sempre existiu, ainda que seu pleno triunfo tenha se dado apenas entre os fins do século XVIII e albores do século XIX, se fazendo presente, com efeito, em todas as principais civilizações da História, podendo ser aqueles que o encarnam também chamados epicuristas, segundo a denominação dada aos discípulos do hedonista Epicuro nas civilizações grega e romana, ou servidores de Mamon, segundo a terminologia do Evangelho, onde Cristo ensina que não podemos servir a um só tempo a Deus e a Mamon (São Lucas, capítulo XVI, versículo 13).

Tal espírito é, com efeito, o espírito tanto do homem oligárquico quanto do homem democrático e do homem tirânico de que nos fala Platão, pela voz de Sócrates, em A Politeia, ou A República, como o título de tal obra é geralmente traduzido, sendo o homem oligárquico aquele que tem como objetivo máximo o acúmulo de riquezas materiais e que “entronizou em sua alma” o “espírito de ambição e cupidez e o tornou um grande rei”, [2] enquanto o homem democrático, filho deste que, diversamente do pai, que sabe dominar “pela força os desejos que sente dentro de si, se exigem muito gasto e não são lucrativos” [3], busca e se entrega a todos os prazeres, reputando serem iguais e merecerem iguais honras tanto os prazeres que vêm de desejos belos e bons quanto aqueles decorrentes de feios e maus [4]. O homem tirânico, por seu turno, seria filho do homem democrático e ainda mais escravo dos prazeres do que este, ainda mais tiranizado do que este por Eros, que o levaria a praticar todos os tipos de crimes [5]. E é tal espírito, ademais, o espírito do “Homem Pequeno” de que nos fala Confúcio em Os Analectos e que, no entender deste sábio do Principado de Lu, no Império do Meio, “só quer saber de Vantagem” [6] e anseia por suas terras [7], ao passo que seu oposto, o “Homem Nobre”, “almeja a virtude”, assim como a “justiça das punições” [8], e tão somente “quer saber de Dever” [9].
 
Isto posto, cumpre assinalar que o termo mamonismo, por nós outros há pouco empregado, pode ser tomado como sinônimo de burguesismo, ou de espírito burguês, caso compreendido como uma disposição do espírito caracterizada pela ânsia insaciável de lucro e como uma concepção de vida orientada única e exclusivamente aos valores materiais, e também no sentido de poder internacional do dinheiro, de tirania do capital especulativo, de despotismo do ouro, de Internacional Dourada, de potência supranacional e supraestatal que submete ao pesado jugo de sua escravidão, em maior ou menor grau, todos os povos do Orbe Terrestre [10]. Em outras palavras, pode ser o mamonismo tomado no sentido de império despótico e vampiresco das forças do dinheiro e também no sentido de burguesismo, ou seja, de disposição de espírito traduzida na adoração do dinheiro, no culto de Mamon e do Bezerro de Ouro, sendo, neste sentido, marcado, antes de tudo, pela avidez sem limites de enriquecimento material, pela busca do acréscimo ilimitado das riquezas, ou, na frase de Santo Tomás de Aquino, “pela cobiça do lucro, que não conhece limite e tende ao infinito” [11]. Tal expressão do Doutor Angélico define, no entender do Padre Julio Meinvielle [12], e também no nosso, o chamado capitalismo, sistema sócio-econômico essencialmente moderno, antitradicional, que deve ser, como tal, combatido por todos os tradicionalistas autênticos, assim como os gravíssimos danos causados por tal perverso sistema ao tecido social, danos estes que temos o imperioso dever de denunciar, sob pena de com eles compactuar, tendo plena consciência de que, conforme salienta Julius Evola, desenvolveu tal sistema, sob o nefasto signo do liberalismo econômico, ao qual serve o liberalismo político, diversas “formas de pirataria”, bem como de “cínica e antissocial plutocracia” [13].
 
Ambas as formas de mamonismo estão intimamente relacionadas, levando a avidez desmedida de dinheiro, de bens materiais e, como tais, terrenos, assim como a adoração de tais bens, ao robustecimento igualmente sem limites do poderio do execrável império plutocrático que tiraniza e escraviza, em diferenciados graus, a totalidade das nações da Terra.
 
O espírito burguês, ou espírito mamonístico, é o espírito do capitalismo, sistema econômico destruidor de famílias e escravizador de homens e de povos em que o sujeito da Economia é o Capital, cujo acréscimo ilimitado, pela aplicação de pretensas leis econômicas mecânicas, é considerado o objetivo final e único de toda a produção [14], e que, como frisa Vázquez de Mella, em discurso proferido no parlamento espanhol a 23 de abril de 1903, não percebe que o problema não é a produção da riqueza, mas sim sua distribuição equitativa [15]. Tal sistema, que, afastando a instrumentalidade da riqueza material, erigiu-a no lugar de Deus, trocando, como diria Heraldo Barbuy, o Sumo Bem pela “suma riqueza” [16], não é o sistema da propriedade privada e da livre iniciativa, que, com efeito, são naturais, já existindo muito antes de seu surgimento, mas, ao contrário, como faz salientar Gustavo Barroso, um sistema em que indivíduos e grupos econômicos podem açambarcar à vontade propriedades alheias, sendo, pois, “em última análise, um destruidor da propriedade” [17]. Neste mesmo diapasão, pondera Hilaire Belloc que o capitalismo é o sistema que emprega o direito de propriedade “em benefício de uns poucos privilegiados contra um número muito maior de homens que, ainda que livres e cidadãos em [suposta] igualdade de condições, carecem de toda base econômica própria” [18], isto é, o sistema econômico no qual os meios de produção são controlados por uma minoria e a esmagadora maioria dos cidadãos se encontra excluída e despossuída [19].
 
O espírito burguês, reinante no Império de Calibã e de Mamon em que vivemos, é o espírito do Sr. Grandet e das filhas do pai Goriot, de Balzac; do Harpagão de Molière; do Shylock de Shakespeare e do Scrooge de Charles Dickens (antes da visita do fantasma de seu falecido sócio Marley e dos espíritos do Natal Passado, Presente e Futuro). E é o espírito de todos os usurários, dos fariseus que transformaram o Mundo em um vasto mercado governado pelo dinheiro, bem como dos falsos rebeldes que se levantam contra eles e que se nutrem do sentimento de profunda injustiça social gerado pelo sistema capitalista, a exemplo dos adeptos do nefando credo de Karl Marx, o eterno burguês, continuador de Adam Smith e David Ricardo e propugnador do materialismo absoluto, que acreditou como poucos nos mitos burgueses do cientificismo, do tecnicismo e do progresso indefinido, além de tudo haver explicado pelo fator econômico, o que é, com efeito, típico de seu tempo, posto haver sido o século XIX, como anota Carl Schmitt, um século “essencialmente econômico” [20]. Aliás, como observa Plínio Salgado, é absoluta a identidade do marxismo com a filosofia liberal-burguesa predominante em seu tempo [21], assim como com a economia liberal-burguesa, chamada “clássica”, não passando tal sistema, segundo o autor de Vida de Jesus e de Espírito da burguesia, “de um capítulo acrescentado à Economia Burguesa” [22]. Assim, é o comunismo, na frase de José Pedro Galvão de Sousa, “uma das formas do sistema capitalista, baseado na dissociação entre capital e trabalho” [23], sendo impossível, como faz ver Plínio Salgado, combater-se o comunismo sem combater-se também o capitalismo e vice-versa, sendo ambos duas faces de uma mesma cabeça, verso e reverso de uma só medalha ou moeda, duas cabeças de uma só serpente, que não é senão o materialismo [24].
 
Destarte, nós outros não podemos erguer a bandeira do comunismo contra a (des)ordem liberal-burguesa de que ele mesmo deriva e cujo espírito antitradicional encarna até à medula, do mesmo modo que não nos é possível pelejar contra o comunismo invocando os velhos e carcomidos ideais da concepção de Mundo, ou Weltanschauung, liberal-burguesa, que bem podem ser resumidos nos “imortais princípios” da revolução (anti)francesa de 1789, sendo nossa missão, nosso dever, desembainhar a espada da Tradição, pugnando pela destruição da funesta “era liberal-burguesa” e pela restauração da Ordem Tradicional, devidamente adaptada, nos aspectos circunstanciais, à realidade da hora que passa. Para tanto, devemos nós outros, paladinos e arautos da Ordem Tradicional, a única autenticamente orgânica e não utópica, nadar sensatamente contra a corrente, ou, para empregarmos o ditado chinês que deu nome a umas das principais obras de Julius Evola, “cavalgar o tigre” [25], tigre da modernidade materialista e plutocrática, que não pode se lançar contra aquele que o cavalga, aguardando o momento do cansaço do tigre para matá-lo.
 
Neste mesmo sentido, sustenta o autor de Revolta contra o Mundo Moderno que há, a par da burguesia tomada enquanto classe sócio-econômica, a burguesia compreendida enquanto “um mundo intelectual, uma arte, um costume, uma concepção geral da existência”, formados paralelamente à denominada “revolução do Terceiro Estado” e que ora se apresentam como algo em decadência, caduco e vazio de sentido. Em seguida, frisa o autor de Os homens e as ruínas que são extremamente perigosas as “veleidades de reação” que sabem tão somente fazer referência a instituições, ideias e costumes da decadente civilização, ou “era burguesa”. Isto significaria, segundo o pensador romano de origem siciliana, prover de armas os inimigos, sendo que, em seu sentir, “tudo aquilo que, enquanto mentalidade e espírito burguês”, com seu conformismo e “suas preocupações por uma vida pequena e segura, na qual um materialismo fundamental encontra sua compensação na retórica dos grandes discursos humanitários e democráticos” não pode “mais ter senão uma vida artificial, periférica e precária, por mais tenaz que possa ser sua sobrevivência em amplos estratos de muitos países”. Daí sustentarmos, com Evola, que “reagir em nome dos ídolos, do estilo de vida e dos medíocres valores do mundo burguês” implica em perder a batalha logo de entrada [26]. O espírito burguês é o espírito liberal, sendo o liberalismo, sistema essencialmente individualista que afirma a liberdade abstrata e praticamente ilimitada, assassina das liberdades concretas, em todos os campos da vida e da Pessoa Humana, afastando-se, em todos esses campos, das regras ditadas pela Moral e pela Tradição, e que se configura na ideologia por excelência não apenas do capitalismo escravizador, mas de todo o Mundo Moderno, que é, em última análise, o Mundo liberal-burguês.
 
Isto posto, faz-se mister assinalar que assim como, no dizer de Petrarca, pela voz da Razão, no diálogo desta com a Satisfação, que consta da obra Dos remédios da boa e má fortuna, “o verdadeiro nobre não nasce, mas faz-se” [27], o burguês enquanto tal em espírito, que não se confunde necessariamente com o membro da burguesia enquanto classe social, do mesmo modo que o nobre em espírito, que tinha em vista o poeta dos Canzoniere, não se confunde necessariamente com o nobre enquanto membro da classe a que denominamos nobreza, ou seja, enquanto lustre de sangue, o burguês também não nasce tal, mas faz-se pela busca excessiva das riquezas materiais, dos prazeres e da vida cômoda, ou, como diria D. Jerónimo Osório, o chamado “Cícero português”, último bispo de Silves e primeiro bispo do Faro, se referindo ao “vulgo”, à “turba”, a “abastança dos cómodos da vida”, não estimando, segundo ele, ao contrário dos nobres, dos aristocratas, “que deva reputar-se como fito a obtenção de honra e dignidade”, do legítimo “poder e glória” que dão “lustre e nomeada” aos nobres [28].
 
A vida cômoda, ou a sua busca, é uma das principais características do burguês, assim como a covardia física, mental e moral deste ser que Léon Bloy, “o mais radical dos ocidentais insurgidos contra o espírito burguês do século”, na frase de Nikolai Berdiaeff [29], disse ter como traço característico “o medo de qualquer determinação heroica que se manifeste nos outros, assim como nele mesmo” [30], não sendo, ademais, senão “um porco que gostaria de morrer de velhice” [31] e um indivíduo que se envergonha de “tudo aquilo que é belo e nobre” [32].
 
Enfim, o espírito burguês, que se assenhoreou do assim chamado Mundo Moderno, da civilização materialista cujo ocaso vivemos, é um veneno corrosivo, uma doença degenerativa que atinge todos os países do Globo Terrestre e, principalmente, aqueles do Hemisfério Ocidental, transformando os povos em massas amorfas, em turbas inconscientes, e é, ainda, a religião terrena do burguês, amante da vida cômoda e incapaz de acreditar naquilo que transcende os sós elementos puramente materiais. É o espírito, ou categoria ontológica, daqueles que não são capazes de sonhar e que, como tais, já nasceram velhos, conforme sublinha Plínio Salgado [33], que, partindo do princípio de que a idade é um estado de espírito, opõe a juventude perene do Ideal à velhice dos escravos do comodismo e da rotina, dos servos da decrépita ordem liberal-burguesa imperante no carcomido Mundo Moderno, que não é senão, como não cansamos de repetir, o Mundo liberal-burguês por excelência. É, em uma palavra, o espírito dos covardes físicos, mentais e morais que temem tudo aquilo que é grande, belo, nobre e corajoso, daqueles que têm no dinheiro seu Deus e sua Pátria, dos desenraizados desdenhadores do Passado e da Tradição, apegados ao Presente e a suas instituições como a uma tábua de salvação e incapazes de antever o Futuro, inconscientes de que, como faz ver Arlindo Veiga dos Santos, “o Presente que nega o Passado não terá Futuro” [34], assim como “só os sonhadores, só os visionários são senhores do Futuro”, enquanto “os sanchos-panças comem o presente, dormem o presente, morrem o presente”, desaparecendo “sem ter criado as artes, a poesia, as flores, os Impérios” [35].
 
Há que ressaltar, contudo, que os sonhadores de que fala Arlindo Veiga dos Santos são os sonhadores orgânicos, ou idealistas orgânicos, que desejam melhorar o real com base na Tradição e não perverter a realidade com ideias abstratas, quimeras, mitos brotados na cabeça de ideólogos sonhadores de utopias e irrealizáveis no plano real, os sonhadores que, enfim, sonham conscientes de que as instituições políticas devem brotar da Tradição e da História dos povos e que extraem da História uma Tradição sólida e viva, um coeficiente espiritual de edificação moral, social e cívica, um desenvolvimento estável e verdadeiro, transmissor e enriquecedor do patrimônio de pensamento e de costumes herdado de nossos maiores.
 
Isto posto, falemos do espírito nobre, a que também podemos denominar espírito aristocrático e espírito de elite, no sentido autêntico, espiritual e não econômico, deste último termo, correspondendo, do mesmo modo, ao espírito samurai do Japão tradicional e ao “espírito de serviço e de sacrifício”, ao “sentido ascético e militar da vida” de que nos fala José Antonio Primo de Rivera [36]. É este, ademais, o espírito do “Homem Nobre” de que nos fala Confúcio, do “homem superior”, ou “homem de bem”, de que nos fala Cícero [37] e do guardião da Pólis de que nos fala Platão, pela boca de Sócrates, para quem deve ser este um “amante da sabedoria, impetuoso, rápido e forte por natureza” [38], possuindo alma de ouro [39]. Corresponde tal espírito, ainda, em última análise, ao espírito legionário de que nos fala Evola, que o define como “o hábito daquele que soube escolher a vida mais dura”, daquele que “soube combater ainda que sabendo que a batalha era materialmente perdida”, embora moral e espiritualmente vitoriosa desde o início; de quem “soube convalidar as palavras da antiga saga: Fidelidade é mais forte que o fogo” e por meio do qual se “afirmou a ideia tradicional, que é o senso do honor e da vergonha” [40].
 
Assim como a burguesia, a nobreza, antes de ser uma classe social, é um estado de espírito, uma categoria ontológica, uma concepção geral da vida, que sempre existiu e sempre combateu contra o espírito burguês, preponderando sobre este nas sociedades tradicionais e hierárquicas, antes do ocaso do denominado Mundo da Tradição.  É tal espírito caracterizado, antes e acima de tudo, pela busca das virtudes espirituais e cívicas, pela existência voltada sobretudo à acumulação de bens extraterrenos, pela rejeição da vida cômoda e o combate sem trégua em prol dos valores perenes da Tradição, que implica, em nossos dias, em nadar sempre contra a maré de erros da inautêntica civilização materialista a que denominamos Modernidade, ou Mundo Moderno.
 
Segundo D. Jerónimo Osório, o chamado “Cícero português”, já aqui citado e reputado por Francisco Elías de Tejada não apenas “o máximo pensador político dos povos hispânicos” [41], como, ainda, “o supremo pensador hispânico, português e castelhano, de todos os séculos” [42], a nobreza se divide em “nobreza civil” e “nobreza cristã”, a primeira fundada nas virtudes cívicas e a segunda, superior, “nobreza plena e fora de toda a limitação”, estribada na “verdadeira e perfeita virtude eclarificada “por aquele verdadeiro e divino lume da santidade” [43], sendo seus ornamentos, diante da “inconstância das riquezas”, da “fugacidade das horarias e da glória humana”, do “lustre completamente falaz de estirpes e fidalguias”, os únicos “amplos, imortais, divinos”, que não poderão ser estirpados por nenhuma violência, aniquilados com o esquecimento de nenhuma velhice ou extintos por qualquer desastre [44].
 
Isto posto, salientamos que não partimos aqui da divisão que o autor dos Tratados da nobreza civil e cristã faz entre “a virtude estreme” que distingue um homem dotado daquilo a que chamaríamos de espírito nobre, mas proveniente de linhagem plebeia, e a “nobreza congénita que se aprimorou pelo lustre de qualidades adquiridas”, posto que aquele mérito distingue tão somente aquele varão, que pode ser o primeiro de uma linhagem em que, após gerações o imitando em “seu anelo de glória”, principiará a luzir “o lustre da nobreza egrégia”, ao passo que o brilho da nobreza refulge em todos os membros da família” [45], preferindo chamar, como o fazem, dentre outros, Petrarca, nobre a qualquer um que se diferencie do vulgo pela posse das chamadas virtudes cívicas.  Já a nobreza cristã, para empregarmos a expressão de D. Jerónimo Osório, evidentemente pode ser atingida, no entender do autor do Tratado da verdadeira sabedoria, por todos aqueles que “buscam a honra”, “procuram a dignidade”, “demandam a glória”, ocupando-se, para tanto, “no zelo da virtude cristã”, abraçando “ardentemente a genuína virtude, a absoluta liberalidade, a perfeita moderação de ânimo e as restantes virtudes que nos foram prescritas pelo Senhor”, mantendo-se “firmes nesta fortaleza, única que se ajusta à grandeza e à glória deste nome” [46].
 
O espírito nobre é o espírito dos que abraçam humildemente a vida heroica e se fazem homens contra os tempos que passam, tanto quanto os burgueses em espírito se fazem homens em favor, consciente ou inconscientemente, destes mesmos tempos; dos extemporâneos, dos inatuais no sentido dado a este termo por Nietzsche, dos inconformados com os valores mesquinhos do Mundo Moderno, dos corajosos física, mental e moralmente, que se dirigem ao campo de batalha conscientes de que, espiritual e eticamente, o triunfo já lhes pertence e que estão dispostos a tudo sacrificar em prol dos valores tradicionais, nada pedindo em troca, muito menos a compreensão dos burgueses amantes da rotina e da vida cômoda e incapazes de atingir a verdadeira honra e a verdadeira glória; dos inimigos, sim, do espírito burguês e da ordem liberal-burguesa, mas, antes disso, afirmadores do próprio espírito nobre e da Ordem Tradicional. É também o “espírito de Cristo” de que nos fala Plínio Salgado, este “varão justo, santo e sábio igualmente, encarnação viva de seu povo e descobridor bandeirante das essências de sua pátria”, na expressão de Francisco Elías de Tejada, [47] que opõe o espírito essencialmente nobre do Rei dos reis ao espírito burguês, salientando que este último é um espírito de “comodismo, inércia, incapacidade de se elevar a ideais nobilitantes, incompetência para caminhar contra a corrente dos erros e o vendaval da loucura contemporânea” e que o combate contra tal espírito significa, antes de qualquer outra coisa, a autoimposição de “normas de nobreza tanto na vida particular como na vida pública” [48]. Por conseguinte, segundo preleciona o autor de Psicologia da Revolução, nosso combate contra o espírito e o Mundo burguês “deve principiar em nós mesmos”, correspondendo à “revolução interior” [49], sempre pregada por este nobre bandeirante de Deus, da Pátria e da Família, que se fez Chefe do maior movimento tradicionalista e nacionalista da História Pátria, o Integralismo, assim como o principal sistematizador da Doutrina essencialmente cristã, tradicional e brasileira que inspirou tal movimento, reputado por Gerardo Mello Mourão o “mais fascinante grupo da inteligência do País” [50].
 
Inspirado nos ensinamentos de Plínio Salgado sobre a verdadeira Revolução, Gustavo Barroso, segundo principal doutrinador do Integralismo, sustenta, na obra Espírito do século XX, que a “Revolução Interior”, “Revolução Espiritual”, ou “Revolução Integralista”, definida como “mudança de atitude do espírito em face dos problemas que se lhe apresentam, em qualquer ordem moral ou material”, se realiza em “nosso íntimo e somente após essa realização vai modificar o determinismo ambiente, interferindo na sucessão de causas e efeitos, a fim de criar novas causas que deem como resultado novos efeitos”, sendo, por isso, invencível. É uma Revolução que “muda todos os conceitos e dá um novo sentido de vida”, se processando “com ideias e homens cheios dessas ideias, não correndo o perigo de ver à sua frente, no dia da vitória, um deserto de homens e de ideias” [51].
 
No mesmo sentido, preleciona Corneliu Codreanu, máximo líder e doutrinador do Movimento Legionário romeno, também conhecido como Guarda de Ferro, que “o homem novo e a nação renovada pressupõem uma grande revolução espiritual de todo o povo, isto é, uma mudança da orientação espiritual moderna, e uma ofensiva categórica contra essa orientação” [52].
 
Decisiva vitória do Homem em sua Guerra Interior, sendo, a partir dela, mil vezes mais fácil se combater o inimigo que há dentro dele próprio, é a Revolução Interior uma mudança de atitude do Espírito em face dos problemas que lhe são apresentados, uma transmutação integral de valores que, de acordo com o sentido astronômico e tradicional do termo “Revolução”, que nada tem a ver com o deturpado sentido moderno, implica um retorno do Espírito aos princípios da Tradição. Berço do autêntico Homem Novo, tal Revolução é uma Revolução Permanente, um combate perene do Ente Humano contra si mesmo, ou do Homem Novo contra o Homem Velho, este portando a tendência ao mal e aquele a se iluminar, na expressão de Plínio Salgado, com a “luz que de si mesmo tira e que é a aspiração ao bem” [53].
 
Isto posto, vale sublinhar que a Revolução Interior foi preconizada, muito antes de Plínio Salgado, em obras como o Manual de Epicteto, onde este filosofo estoico romano de estirpe grega e natural da Frígia preleciona que “embora não sejas ainda um Sócrates, deves, contudo, viver como alguém que almeja tornar-se um Sócrates”; [54] a Imitação de Cristo, obra atribuída a Tomás de Kempis e em que se afirma que ninguém “peleja com mais vigor do que aquêle que trabalha por vencer a si mesmo”, devendo ser, com efeito, o nosso maior empenho “vencermo-nos a nós mesmos, tornarmo-nos cada dia mais fortes e fazermos algum progresso no bem”, [55] e, é claro, nos Exercícios espirituais para vencer-se a si mesmo e ordenar sua vida sem se deixar levar por nenhuma afeição desordenada, ou, simplesmente, Exercícios espirituais, de Santo Inácio de Loyola [56].
 
Consoante assinala Plínio Salgado, o Ente Humano tem o direito de intervir na marcha da História e quando uma Sociedade está se dissolvendo e um País está na iminência de se desagregar esta intervenção se impõe como um dever [57], razão porque, em nossos dias, neste “mundo de ruínas” de que nos fala Evola, nós outros, antiburgueses sobretudo, como sublinha este, por uma “superior concepção, heroica e aristocrática” da existência humana, temos o imperioso dever de intervir no momento presente, fazendo a nossa parte, por pequena que seja, na luta pelo triunfo do espírito nobre e restauração da Ordem Tradicional, com a consequente derrota do espírito burguês e da ordem burguesa, que só se dará por uma autêntica Revolução, ou, como diria o pensador tradicionalista brasileiro Arlindo Veiga dos Santos, criador e principal doutrinador e líder do Movimento Patrianovista, “verdadeira Revolução, REVOLUÇÃO DA ORDEM, contra os aspectos vários da república ‘moderna’”” [58].
 
A Revolução Interior, que é permanente, sendo, noutras palavras, uma batalha interna sem fim, uma cruzada travada a todo tempo dentro de nós mesmos, é, em última análise, um combate interior perene entre o nobre e o burguês, sendo nosso dever derrotar o burguês que há em cada um de nós, conscientes de que o guerreiro que o vence é cem vezes mais heroico do que aquele que derrota cem inimigos externos, mas não o inimigo interno, o burguês que há dentro dele.
 
Tal Revolução – de acordo, como acabamos de ver, com o significado mais próprio do termo, que não é senão o significado tradicional de tal vocábulo, correspondente àquele astronômico – reconduzirá o Homem e a Sociedade a seu princípio, às bases morais de sua formação, não sendo, ao contrário da revolução moderna, burguesa ou pretensamente proletária, inimiga da Tradição, mas antes restauradora desta, sendo, pois, a única Revolução digna dos nobres, ou aristocratas, em espírito, que não são senão, em última análise aqueles homens que, segundo Evola, “se encontram por assim dizer, de pé entre as ruínas e em meio à dissolução”, mas que, de maneira mais ou menos consciente, pertencem a outro Mundo, que vem a ser o Mundo da Tradição [59].
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira
 
 
Notas:
[1] SALGADO, Plínio. Espírito da burguesia. 3ª ed. In Idem. Obras completas. 2ª ed., vol. XV. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 11-12.
[2] PLATÃO. A República. Livro VIII, Cap. VIII. Trad. de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. rev. técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 1ª ed., 2ª tiragem. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 320.
[3] Idem. Livro VIII, Cap. XII, p. 328.
[4] Idem. Livro VIII, Cap. XII, p. 332.
[5] Idem. Livro IX, Cap. III, p. 352.
[6] CONFÚCIO. Os Analectos. Segundo Rolo, Cap. 4, aforismo 16. Tradução, comentários e notas de Giorgio Sinedino. São Paulo: Editora Unesp, 2012, p. 127.
[7] Idem. Segundo Rolo, Cap. 4, aforismo 11, p. 119.
[8] Idem, loc. cit.
[9] idem. Segundo Rolo, Cap. 4, aforismo 16, p. 127.
[10] Ambos os sentidos de mamonismo aqui analisados foram vistos pelo economista alemão Gottfried Feder, que tratou, particularmente, do segundo, em seu famoso Manifesto para a quebra da servidão do juro do dinheiro (FEDER, Gottfried. Manifiesto para elquebrantamiento de La servidumbre del interes del dinero. In Idem. Manifiesto contra la usura y la servidumbre del interés del dinero. Buenos Aires: Editorial Maxim, 1984, pp. 11-80.
[11] AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica. II.ª parte da II.ª parte, questão 77, artigo 4º, solução. Trad. de Alexandre Corrêa. 1ª ed. Vol. XIV. São Paulo: Livraria Editora Odeon, 1937, p. 294.
[12] MEINVIELLE, Julio. Concepción católica de la Economía (edição virtual). Disponível em:
[13] EVOLA, Julius. Los hombres y las ruinas. Tradução do italiano e estudo preliminar de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1994, p. 59.
[14] Neste sentido, podemos citar, dentre outros, Miguel Reale, que, na obra O capitalismo internacional, de 1935, define capitalismo como “o sistema econômico no qual o sujeito da Economia é o Capital, sendo o acréscimo indefinido deste considerado o objetivo final e único de toda a produção” (REALE, Miguel. O capitalismo internacional. 1ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1935, p. 87), e o Padre Julio Meinvielle, que, em Concepción católica de la Economía, de 1936,  sustenta ser o capitalismo “um sistema econômico que busca o acréscimo ilimitado dos lucros pela aplicação de leis econômicas mecânicas” (MEINVIELLE, Julio. Concepción católica de la Economía, cit.).
[15] VÁZQUEZ DE MELLA, Juan. La cuestión social. Disponível em: http://hispanismo.org/politica-y-sociedad/2839-ante-el-1-de-mayo-textos-del-pensamiento-social-carlista.html. Acesso em 1º de setembro de 2012.
[16] BARBUY, Heraldo. Sumo bem e suma riqueza. Separata do Anuário da Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, da Universidade Católica de São Paulo, 1953, p. 146.
[17] BARROSO. Gustavo. O que o Integralista deve saber. 5ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, S.A, 1937, p. 135.
[18] BELLOC, Hilaire. La crisis de nuestra civilización. Trad. argentina de Carlos MaríaReyles. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1979, p. 154.
[19] Idem. An Essay on the Restoration of Property. Norfolk: HIS Press, 2002
28.
[20] SCHMITT, Carl. O conceito do político - Teoria do partisan. Trad. de Geraldo de Carvalho. 1ª ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2008, p. 91.
[21] SALGADO ,Plínio. Capitalismo e comunismo (1933). In Idem. Madrugada do Espírito. 4ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol. VII. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 404.
[22] Idem, p. 406.
[23] SOUSA, J. P. Galvão de. Capitalismo, socialismo e comunismo. São Paulo: Instituto Cultural do Trabalho, 1965, p. 12.
[24] SALGADO, Plínio. Capitalismo e comunismo (1933). In Idem. Madrugada do Espírito, cit., p. 399.
[25] EVOLA, Julius. Cabalgar el tigre. Trad. argentina de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1999.
[26] Idem. Los hombres y las ruinas. Tradução do italiano e estudo preliminar de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1994, pp. 145-146.
[27] PETRARCA. De remediis utriusque fortunae, Livro I, diálogo 16. Disponível em:http://petrarca.scarian.net/petrarca_de_remediis_utriusque_fortunae.html. Acesso em 03 de setembro de 2012.
[28] OSÓRIO, D. Jerónimo. Tratado da nobreza civil. In Idem. Tratados da nobreza civil e cristã. Tradução, introdução e anotações de A. Guimarães Pinto. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996, p. 87. Texto original em latim.
[29] BERDIAEFF, Nicolas. De l’esprit bourgeois. Tradução francesa de Elisabeth Bellençon. Introdução de Eugène Porret. Paris: Delachaux et Niestlé S. A., p. 43.
[30] BLOY, Léon. Quatre ans de captivité à Cochons-sur-Marne. Vol. II. Paris: Mercure de France, 1935, p. 60.
[31] Idem. L’Invendable. Paris: Mercure de France, 1919, p. 35.
[32] Idem. Exégèse des lieux-communs. Paris: Mercure de France, 1926, p. 195.
[33] SALGADO, Plínio. Código de Ética do Estudante. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=79&vis=. Acesso em 03 de setembro de 2012.
[34] SANTOS, Arlindo Veiga dos. Ideias que marcham no silêncio. São Paulo: Pátria-Nova, 1962, p. 76.
[35] Idem. Totalitários e democráticos na redenção social do Brasil. São Paulo: Pátria-Nova, 1962, p. 23.
[36] PRIMO de Rivera, José Antonio. Discurso de la fundación de la Falange Española. In Idem. Obras completas. Edição cronológica. Recopilação de Agustín delRíoCisneros. Madri: Delegación Nacional de la Sección Feminina de FET y de las JONS, 1954, p. 68.
[37] CÍCERO, Marco Túlio. Tratado dos deveres. Livro I, capítulo X. Tradução de Nestor Silveira Chaves. São Paulo: Edições Cultura Brasileira S/A, s/d, p. 33.
[38] PLATÃO. A República. Livro II, Cap. XVI. Trad. de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. rev. técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 1ª ed., 2ª tiragem. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 73.
[39] Idem. Livro III, Cap. XXI, p. 129.
[40] EVOLA, Julius.Orientamenti. Padova: Edizionidi Ar, 2000, p. 19.
[41] ELÍAS DE TEJADA, Francisco. La Tradición portuguesa: Los Orígenes (1140-1521). Madri: Fundación Francisco Elías de Tejada y Erasmo Pèrcopo y Editorial ACTAS, s.l., 1999, p. 17.
[42] Idem, p. 37.
[43] OSÓRIO, D. Jerónimo. Tratado da nobreza cristã. In Idem. Tratados da nobreza civil e cristã. Tradução, introdução e anotações de A. Guimarães Pinto. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996, p. 136.
[44] Idem, pp. 224-225.
[45] Idem. Tratado da nobreza civil. In Idem. Tratados da nobreza civil e cristã. Tradução, introdução e anotações de A. Guimarães Pinto. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996, p. 114.
[46] Idem. Tratado da nobreza cristã. In Idem. Tratados da nobreza civil e cristã. Tradução, introdução e anotações de A. Guimarães Pinto. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996, p. 224.
[47] ELÍAS DE TEJADA, Francisco. Plínio Salgado na Tradição do Brasil. Trad. de Gerardo Dantas Barreto. In VV.AA. Plínio Salgado: “in memoriam”. Vol. II, cit., p. 70.
[48] SALGADO, Plínio. Espírito da burguesia. 3ª ed. In Idem. Obras completas. 2ª ed., vol. XV. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 47.
[39] Idem, loc. cit.
[50] MOURÃO, Gerardo Mello. Entrevista concedida ao Diário do Nordeste. Disponível em:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=414001. Acesso em 1º de setembro de 2012.
[51] BARROSO, Gustavo. Espírito do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1936, pp. 30-33.
[52] CODREANU, Corneliu Zelea. Manual Del Jefe de la Guardia de Hierro.Tradução para o castelhano de Manuel de la Isla Paulin. 2ªed. Barcelona: EdicionesOjeda, 2004, p. 93. Termos em itálico no original.
[53] SALGADO, Plínio. O ritmo da História. 3ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol. 16. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 109-110.
[54] EPICTETO. Manual. Aforismo L. In Idem. O pensamento de Epicteto. Tradução de Hans Koranyi. Introdução de Elizabeth Carter. São Paulo: Editora Iris, 1959, p. 77.
[55] KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. Livro I, Capítulo III. Tradução do Padre Leonel Franca, S.J.. 3ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio Editora, 1947, p. 15.
[56] LOYOLA, Santo Inácio de. Exercícios espirituais. 11ª ed. São Paulo: Edições Loyola.
[57] Idem. Psicologia da Revolução. 6ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol.7. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p.9.
[58] SANTOS, Arlindo Veiga dos. As raízes históricas do Patrianovismo. São Paulo: Pátria Nova, 1946, p. 18.
[59] EVOLA, Julius. Cabalgar el tigre. Tradução Castelhana de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1999, p. 22.
 
 
 
*Texto que serviu de base a palestra dada no círculo de estudos jurídicos da Escola de Pensamento, em São Paulo, no dia 27 de maio de 2013, e que se constitui em versão revista e ampliada de palestra que, sob o mesmo título, demos no III Encontro Evoliano, na cidade de Curitiba, a 07 de setembro de 2012.

02/06/2013, 12:44:36

A real natureza dos conflitos na Síria

Há já mais de dois anos que terroristas e mercenários islâmicos, apoiados, cada vez mais abertamente, pelas potências imperialistas do Ocidente e seus satélites no Oriente Médio, assim como pelo Estado sionista de Israel, transformaram a antes próspera e pacífica República Árabe da Síria em um campo de batalha, pretendendo derrubar, pela força das armas, o legítimo governo sírio e implantar, em seu lugar, um governo fundamentalista. Cumpre assinalar que tais terroristas e mercenários são, em sua absoluta maioria, estrangeiros, sendo, com efeito, sírios apenas 05% de tais rebeldes, segundo relatório do insuspeito serviço de inteligência alemão, o BND (Bundesnachrichtendienst, ou Serviço Federal de Informações), conforme publicou o jornal Die Welt a 30 de setembro de 2012[1].

Faz-se mister, do mesmo modo, ressaltar que, ao contrário do que diz a grande imprensa ocidental, a mesma que pinta Bashar al-Assad como um tirano sanguinário que extermina o próprio povo, não são os rebeldes “sírios” “heroicos defensores da liberdade e da democracia”, mas sim jihadistas sunitas salafistas e wahabitas que lutam para implantar na Síria um governo fundamentalista regido pela charia e onde as minorias religiosas cristã e xiita alauita seriam duramente perseguidas, como, aliás, já o estão sendo por tais rebeldes. Com efeito, a Frente al-Nusra, organização ligada à al-Qaeda [2] que foi recentemente descrita como “o mais agressivo e bem-sucedido braço da força rebelde” [3], defende abertamente a implantação de um Califado pan-islâmico regido pela charia e que abrangeria a chamada região do Levante, [4] e do movimento rebelde participam diversos outros grupos terroristas, não sendo por acaso que o “Exército Livre da Síria” possui uma brigada que leva o nome de Brigada Osama bin Laden [5].
 
Isto posto, reputamos oportuno frisar que o fato de a grande imprensa dos países do Ocidente heroicizar, santificar ou mesmo endeusar os terroristas e mercenários das hordas insurgentes, omitindo seus verdadeiros ideais e todos os inumeráveis crimes por eles praticados, enquanto demoniza as forças legalistas sírias, somente demonstra o quanto tal imprensa é dominada pela parasitária, plutocrática e farisaica chandala dos adoradores de Mamon e do Bezerro de Ouro, da Internacional Dourada dos usurários da City of London e de Wall Street, escravizadora, em menor ou maior grau, de todos os povos e nações dos quatro cantos do Mundo.
 
Consideramos ser relevante destacar, da mesma forma, que ainda que os rebeldes lutassem por “liberdade” e “democracia” sua luta não seria legítima, posto que o governo sírio não é tirânico, injusto, ilegítimo, contrário ao Bem Comum, de sorte que carece de legitimidade toda e qualquer revolta armada que vise derrubá-lo [6], e, ademais, esta “liberdade” e esta “democracia” tão exaltadas pela grande imprensa não são senão a quimérica, utópica liberdade abstrata e ilimitada do liberalismo, assassina da justa e limitada Liberdade, e a igualmente utópica democracia inorgânica, filha do mesmo liberalismo, totalmente inadequada à Tradição Nacional e à realidade síria e inimiga figadal da autêntica Democracia, que vem a ser a Democracia Orgânica. Tal liberdade e tal democracia levam à anarquia, que, por seu turno, não é senão a antessala da tirania, conforme já o demonstraram, dentre outros, Platão, pela voz de Sócrates, em A Politeia, [7] Santo Tomás de Aquino, no opúsculo Do governo dos príncipes ao Rei de Cipro, [8] e Plínio Salgado, no artigo intitulado Liberdade, caminho da escravidão, publicado no jornal A Razão e transcrito na obra O sofrimento universal, de 1934 [9]. Em uma palavra, caso defendessem os modelos liberais de liberdade e democracia, também mereceriam os insurgentes “sírios” a nossa oposição, não apenas por ser ilegítimo o seu alçamento, mas também por sustentar princípios abstratos, quiméricos e, como tais, altamente daninhos ao tecido social, inconscientes de que, como de maneira assaz corajosa prelecionava o injustamente olvidado Marquês de Maricá na primeira metade do século XIX, centúria liberal-burguesa por excelência, a “ordem social é limitação de liberdade” e a “desordem, liberdade ilimitada” [10], assim como “a maior parte dos males e misérias dos homens provêm, não da falta de liberdade, mas do seu abuso e demasia” [11] e “quando em um povo só se escutam vivas à liberdade, a anarquia está à porta e a tirania pouco distante” [12].
 
Enganados pelas mentiras da grande imprensa controlada pela já aqui mencionada escória dos argentários da Internacional Dourada, muitos são os cristãos que apóiam os terroristas e mercenários estrangeiros contrários ao regime sírio, não sabendo que a luta que se trava em terras sírias não é a luta entre os defensores da liberdade e da democracia, de um lado, e as forças de uma ditadura, ou mesmo tirania, de outro, mas sim a luta entre a Síria, representada por seu legítimo governo, encabeçado por Bashar al-Assad, e a antiSíria, representada pelos supracitados terroristas e mercenários estrangeiros. Do mesmo modo, desconhecem eles o fato de que estes extremistas islâmicos estão perseguindo duramente os cristãos, como vêm denunciando diversos religiosos, muitos dos quais temem mesmo um genocídio dos cristãos sírios. Com efeito, uma nota enviada à Agência Fides de notícias, do Vaticano, em março de 2012, por membros da Igreja Ortodoxa Síria, que reúne cerca de 60% dos cristãos daquele país, radicais islâmicos da “Brigada Faruq”, do “Exército Livre da Síria”, tinham expulsado à força não menos de 90% dos cristãos da cidade de Homs, confiscando suas casas. Segundo as mesmas fontes, os rebeldes da referida brigada, entre os quais havia inúmeros membros de diversos grupos fundamentalistas salafistas e wahabitas e também mercenários líbios e iraquianos, iam de porta em porta pelos bairros de Hamidiya e Bustan al-Diwan, que reuniam praticamente toda a população cristã da cidade, forçando os fiéis cristãos a abandonar seus lares e não lhes dando sequer tempo para recolher seus pertences [13].
 
O Arquimandrita Greco-Católico Melquita Philip Tournyol Clos, que viajou recentemente pela Síria, também falou à Agência Fides sobre o ocorrido em Homs, afirmando que todos os cento e trinta e oito mil cristãos residentes nos dois supracitados bairros daquela cidade foram forçados a fugir para Damasco ou para o Líbano ou a buscar refúgio nos campos próximos daquela urbe, e salientando o fato de que a imprensa ocidental está espalhando desinformações acerca da real natureza da guerra travada na Síria e, assim, tornando mais longo o conflito ali travado entre as forças nacionais e antinacionais [14].
 
Como recentemente disse a jornalistas o Metropolita Hilarion Volokolamsk, da Igreja Ortodoxa Russa, é preocupante a situação na Síria, onde forças radicais islâmicas tentam tomar o poder com o auxílio de potências ocidentais. Onde tais forças “chegam ao poder, as comunidades cristãs se tornam as primeiras vítimas”, completou ele, que também falou na Comissão de Assuntos Sociais e Humanitários da Assembleia Geral da ONU, ali denunciando a perseguição de cristãos não apenas na Síria, mas em diversos países, sob o silêncio ignominioso da grande imprensa ocidental. Fazendo referência ao Iraque, comentou o Metropolita que ali viviam, há dez anos, um milhão e quinhentos mil cristãos, enquanto hoje, depois de muitas perseguições, responsáveis pela morte de milhares deles e pela fuga de muitos mais para outros países, tal número não passa de trezentos e cinquenta mil. Por fim, propôs ele a criação de um mecanismo que previna futura indulgência, como aquela das potências ocidentais, à perseguição dos cristãos [15].
 
Há algumas semanas, rebeldes “sírios”, provavelmente mercenários estrangeiros, atacaram o monastério ortodoxo de Santo Elias, perto de al-Qusair, saqueando o claustro, destruindo o santuário e o campanário e fazendo em pedaços a estátua do Profeta Elias [16].
 
A pior atrocidade perpetrada pelos rebeldes contra os cristãos na Síria foi, contudo, o massacre da aldeia cristã de al-Duvair, próxima à cidade de Homs. Ali, no último dia 27 de maio, os terroristas e mercenários mataram centenas de cristãos, entre homens, mulheres e crianças, havendo o Exército Árabe Sírio chegado muito tarde para salvá-los, ainda que a tempo de enfrentar os terroristas, matando dezenas deles [17]. Segundo a AINA (Assyrian International News Agency), toda a população da aldeia foi massacrada [18]. Entre os mortos estavam vários amigos de um nosso companheiro de ideal do interior de São Paulo, por meio de quem, aliás, fomos primeiro informados a respeito de tal tragédia, seguramente a mais negra página, na Síria, do “inverno fundamentalista” a que a grande imprensa ocidental, escamoteando a verdade, insiste em chamar de “primavera árabe”.
 
Felizmente, porém, graças à tenaz resistência do povo sírio, os terroristas e mercenários rebeldes, mesmo com todo o apoio das potências ocidentais, de seus satélites no Oriente Médio e de Israel, estão sendo vencidos em todas as frentes, estando sua derrota final, ao que tudo indica, já bastante próxima. Com efeito, é Alepo a última importante cidade ainda em seu poder e certamente não por muito tempo, uma vez que o Exército Árabe Sírio já iniciou a chamada operação “Tormenta do Norte” para a libertação daquela urbe [19]. Oxalá após o já iminente triunfo final da Síria sobre a antiSíria e, por conseguinte, o fim, naquele país, do longo pesadelo do “inverno fundamentalista” equivocadamente denominado “primavera árabe”, recupere aquela nação a paz e a prosperidade de que gozava antes da sua injusta invasão pelo inimigo estrangeiro, para o bem e a felicidade de todo o povo sírio.
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 13 de junho de 2013


Notas:
[1] BLUM, William. Syria: The Universe Unraveling. Disponível em: http://www.foreignpolicyjournal.com/2012/11/03/syria-the-universe-unraveling/. Acesso em 06 de junho de 2013. Ver também: http://www.youtube.com/watch?v=XbmczLdvZVY. Acesso em 06 de junho de 2013.
[2] É mister sublinhar que o líder da al-Qaeda no Iraque afirmou expressamente, por rádio, a conexão da Frente al-Nusra com seu grupo terrorista (Agence France-Presse.Qaeda in Iraq confirms Syria’s Nusra is part of network. Disponível em:
[3] IGNATIUS, David. Al-Qaeda affiliate playing larger role in Syria rebellion, in Washington Post, Washington D.C., 30/11/2012. Disponível em: http://www.washingtonpost.com/blogs/post-partisan/post/al-qaeda-affiliate-playing-larger-role-in-syria-rebellion/2012/11/30/203d06f4-3b2e-11e2-9258-ac7c78d5c680_blog.html. Acesso em 06 de junho de 2013.
[4] SPANO, Frank. A Risky Alliance: The Danger of Arming Syrian Rebels. Disponível em: http://www.investigativeproject.org/4020/a-risky-alliance-the-danger-of-arming-syrian. Acesso em 06 de junho de 2013.
[5] WATSON, Paul Joseph. Obama-backed FSA Rebels Name Their Brigade “Osama Bin Laden”: White House openly seeking to arm terrorists in Syria. Disponível em: http://www.infowars.com/obama-backed-fsa-rebels-name-their-brigade-osama-bin-laden/. Acesso em 06 de junho de 2013.
[6] Sobre o direito de revolução contra os governos tirânicos: AQUINO, Santo Tomás de. Do governo dos príncipes ao Rei de Cipro. Cap. VI. In SANTOS, Arlindo Veiga dos (Org. e trad.). Filosofia política de Santo Tomás de Aquino. 3ª ed. melhorada. Prefácio do Prof. Dr. L. Van Acker. São Paulo: José Bushatsky, Editor, 1954, pp. 67-73; CORRÊA, Alexandre. S. Tomás de Aquino e o direito de revolução. In Idem. Ensaios políticos e filosóficos. Prefácio de Ubiratan Macedo. São Paulo: Editora Convívio/EDUSP, 1984, pp.323-328.
[7] PLATÃO. A República. Livro VIII, Cap. XV, 564 a. Trad. de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. rev. técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 1ª ed., 2ª tiragem. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 320. Trad. de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. rev. técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 1ª ed., 2ª tiragem. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 336
[8] AQUINO, Santo Tomás de. Do governo dos príncipes ao Rei de Cipro. Cap. IV, 22. In SANTOS, Arlindo Veiga dos (Org. e trad.). Filosofia política de Santo Tomás de Aquino. 3ª ed. melhorada. Prefácio do Prof. Dr. L. Van Acker. São Paulo: José Bushatsky, Editor, 1954, pp. 56-57.
[9] SALGADO, Plínio. O soffrimento universal. 3ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1936, pp. 185-190.
[10] MARICÁ, Marquês de. Máximas, pensamentos e reflexões. Aforismo 267. Edição revista e prefaciada por Alfredo Gomes. São Paulo: Edições e Publicações Brasil, 1940, p. 31.
[11] Idem. Aforismo 358, p. 39.
[12] Idem. Aforismo 1018, p. 97.
[13] Agenzia Fides. ASIA/SYRIA - Abuse of the opposition forces, "ethnic cleansing" of Christians in Homs, where Jesuits remains. Disponível em: http://www.fides.org/en/news/31228?idnews=31228&lan=eng. Acesso em 06 de junho de 2013.
[14] ASIA/SYRIA - "The desolation of Homs and the war of information ": the words of a greek-catholic Archimandrite. Disponível em: http://www.fides.org/en/news/31658?idnews=31658&lan=eng. Acesso em 07 de junho de 2013.
[16] Radio Voice of Russia. Militants attack St. Elijah monastery in Syria. Disponível em: http://english.ruvr.ru/2013_05_12/Militants-attack-St-Elijah-monastery-in-Syria/. Acesso em 07 de junho de 2013.
[17] HEISER, James. Syrian Rebels Massacre Christian Villa ge. Disponível em: http://www.thenewamerican.com/world-news/asia/item/15562-syrian-rebels-massacre-christian-village. Acesso em 07 de junho de 2013; KELLER, Ryan. U.S. Backed – Obama Supported FSA Rebels Massacre an Entire Christian Village in Syria: Barack Hussein Obama Financially Supporting a Worldwide Christian Genocide of Women and Children. Disponível em: http://shariaunveiled.wordpress.com/2013/05/29/u-s-backed-obama-supported-fsa-syrian-rebels-massacre-an-entire-christian-village/. Acesso em 07 de junho de 2013.
[18] AINA. Armed Rebels Massacre Entire Population of Christian Village in Syria. Disponível em: http://www.aina.org/news/20130529024056.htm. Acesso em 07 de junho de 2013.
[19] Al-Manar. El Ejército Sirio Inicia la Operación “Tormenta del Norte” para la Liberación de Alepo Disponível em: http://www.almanar.com.lb/spanish/adetails.php?eid=34850&cid=23&fromval=1&frid=23&seccatid=67&s1=1#.UbXeIYOT_Vk.facebook. Acesso em 07 de junho de 2013. 

13/06/2013, 17:08:29


A real natureza dos conflitos na Síria

Resposta a uma crise
Por um novo Movimento Constitucionalista!

Neste dia 09 de Julho, a Frente Integralista Brasileira presta merecida homenagem a todos os brasileiros que se levantaram contra a ditadura varguista, em 1932, e particularmente àqueles que tombaram na luta por um Brasil Maior e àqueles que – a exemplo de Miguel Reale e José Loureiro Júnior – praticamente saíram das trincheiras da Revolução Constitucionalista direto para as fileiras do Integralismo, recordando, ainda, que o principal apoiador da Revolução Constitucionalista no Ceará, o Tenente Severino Sombra, fundador e principal líder da Legião Cearense do Trabalho, também foi Integralista. É importante ressaltar, ademais, que a Frente Integralista Brasileira, por meio de seu Conselheiro Paulo Fernando Costa, teve sua influencia no bem-sucedido projeto do Deputado Federal Dr. Talmir (PV-SP) de inscrição dos nomes dos mártires constitucionalistas Mário Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Américo de Camargo Andrade (MMDC) no Livro dos Heróis da Pátria.

Isto posto, a Frente Integralista Brasileira evoca a memória dos mártires, todos eles Integralistas, do Levante de 11 de Maio de 1938, principal reação armada contra a ditadura estadonovista de Vargas até o fim desta, em 1945, e proclama sua adesão ao novo Movimento Constitucionalista que se está formando, pelas razões que passa a expor.
 
Em julho de 1932, milhares e milhares de brasileiros se levantaram, como um só um Homem, contra a ditadura que governava despoticamente o Brasil e que rasgara a Constituição de 1891.
 
Hoje, passados setenta e nove anos, uma ditadura muito mais terrível oprime o Brasil e esta ditadura não só rasgou a Constituição de 1988 como está fazendo todo o possível para rasgar a Constituição Tradicional, Natural, Orgânica e Histórico-Social da Nação Brasileira, isto é, a Constituição não escrita formada pelo tesouro das tradições que herdamos de nossos antepassados e que temos o dever de transmitir, aprimorado e engrandecido, a nossos descendentes.
 
Havendo sido violadas as duas Constituições de que falamos e, além delas, o próprio Direito Natural, foi também destruído o Estado de Direito.
 
O princípio central da concepção totalitária do Estado sempre residiu na ideia segundo a qual o Estado é o criador da Moral e do Direito. Esta é a nítida posição do (des)governo “brasileiro”, que defende que o Estado deve criar uma nova Moral e um novo Direito, que nada mais são que a antimoral e o antidireito, tendo o objetivo claro e insofismável de destruir os valores cristãos do povo brasileiro.
 
Estamos conscientes, pois, de que a Constituição escrita do Brasil foi rasgada, da mesma forma que esta sendo rasgada, pouco a pouco, a sua Constituição não escrita, e que estão sendo desrespeitados todos os princípios do Direito Natural, Direito este que reside em um critério objetivo de Justiça, o qual decorre da existência do justo por natureza e deve orientar todas as normas estabelecidas pelo Estado. E estamos conscientes, ainda, de que o Estado de Direito caiu por terra e está sendo substituído por um Estado Totalitário que pretende impor, de cima para baixo, uma antimoral e um antidireito, assim como uma nova Constituição escrita e mesmo uma nova Constituição não escrita para o Brasil, ambas essencialmente antinaturais e contrárias às tradições do nosso povo.
 
Assim, proclamamos a imperiosa necessidade de criação de um novo Movimento Constitucionalista, que lute por uma Constituição realista, clara e enxuta, que seja o espelho do Brasil Profundo e de suas mais lídimas tradições, assim como pela instauração, em nosso País, de um Estado de Direito que não seja apenas um Estado de Legalidade, mas também um Estado de Justiça. Somente assim poderemos ter, um dia, uma verdadeira Democracia, uma Democracia Orgânica, uma Democracia que confira autenticidade à representação política, por meio da atuação dos Grupos Sociais Naturais junto ao Estado, de maneira que nos sintamos efetivamente representados, participemos das tarefas do Estado e vivenciemos, de fato, a Justiça Social. Levantemo-nos, pois, como um só Homem, em nome do verdadeiro Estado de Direito e da verdadeira Democracia! Moralmente, a vitória já nos pertence e no plano político é de nosso triunfo que depende a salvação do Brasil Profundo, Verdadeiro e Autêntico! Conosco caminham todos aqueles que tombaram sonhando um Brasil Maior!
 
Pelo Bem do Brasil!  
Anauê!
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 09 de Julho de 2011-LXXVIII.

09/07/2013, 08:00:15


Frente Integralista Brasileira por um novo Movimento Constitucionalista!

Frente Integralista Brasileira por um novo Movimento Constitucionalista!

FIB-MG: Avanço em Minas Gerais marca aniversário do Manifesto
12 de Outubro

No último dia 07 de Outubro, celebramos nós outros os quatrocentos e quarenta e dois anos da vitória cristã na Batalha de Lepanto, que salvou a Europa e pôs fim à expansão do Império Otomano no Mediterrâneo, assim como o octogésimo primeiro aniversário do Manifesto de Outubro, documento histórico e Carta Magna do Integralismo, cuja mensagem essencialmente cristã e brasileira rapidamente se espalhou por todo o território nacional, constituindo a Doutrina do maior movimento social renovador de toda a História Pátria.

Hoje, dia 12 de Outubro, nós outros, legionários de Deus, da Pátria e da Família, diante da Cruz de Cristo, do auriverde Pendão Nacional e da bandeira azul e branca do Sigma, havendo realizado esta memorável reunião em honra ao Manifesto de Outubro, celebramos, agora, o Dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, do mesmo modo que o Dia da Hispanidade, o Dia da América, o Dia das Crianças e o octogésimo segundo aniversário do Monumento ao Cristo Redentor do Corcovado e da solene consagração do Brasil a Cristo Rei e Redentor.
 
Foi, segundo reza a tradição, há exatos duzentos e noventa e quatro anos, aos doze dias do mês de outubro do ano da graça de 1717, que, nas águas do rio Paraíba do Sul, no atual Município de Aparecida, tradicional e popularmente conhecido como “Aparecida do Norte” e por esse tempo pertencente à Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, na então Capitania de São Paulo e das Minas do Ouro, humildes pescadores encontraram a enegrecida imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal, heroica e cruzada Nação de que nasceu a nossa igualmente heroica e cruzada Nação. Hoje, todos os autênticos brasileiros, quer se considerem ou não católicos, devem evocar, com o máximo respeito, a figura de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira deste grande Império do ontem e do amanhã ao lado do injustamente olvidado São Pedro de Alcântara.
 
Foi também a 12 de Outubro que Cristóvão Colombo chegou a este magno Continente que tantos filhos e frutos deu à Cristandade, sendo nesta data celebrado, em todo o Mundo Hispânico, ao qual pertence o Brasil, assim como Portugal e todo o Mundo Lusíada, o Dia da Hispanidade, também chamado Dia da Raça, tomado este último termo em seu sentido espiritual e cultural. É assim, pois, que nós outros, descendentes em sangue e espírito ou apenas em espírito dos portugueses, daquela “gente fortissima de Espanha" de que nos fala Luís Vaz de Camões,[1] defendendo, como António Sardinha, “a unidade cultural e social do elevado destino que Portugal e Castela nobremente conseguiram no Universo, dilatando com a Fé e o Império o mesmo ideal superior da civilização”,[2] celebramos o Dia da Hispanidade, lamentavelmente tão pouco evocado em nossa América Lusíada. E, como luso-americanos, e, enquanto tais, filhos da América, não podemos deixar de celebrar o dia deste imenso Continente.
 
Quanto ao Dia das Crianças, o despimos do caráter comercial que este adquiriu, assim como do caráter, que igualmente adquiriu, em nosso País, de substituição ao Dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, substituição esta orquestrada pelas forças anticristãs, antitradicionais e antinacionais controladas pelos adoradores de Mamon e do Bezerro de Ouro, e, assim, lembrando que tal dia foi instituído com intenções legítimas pelo Presidente Arthur Bernardes, católico devoto e praticante e exemplar patriota e nacionalista, homenageamos todas as crianças brasileiras, representantes do porvir da Nação, rogando a Deus que suscite entre elas futuros soldados de Cristo Rei e da Terra de Santa Cruz.
 
No dia 12 de outubro foi inaugurado no Rio de Janeiro o monumento ao Cristo Redentor. Construído em concreto armado e revestido por um mosaico de pedra-sabão, foi um marco na história da engenharia civil brasileira. O desenho do monumento é do pintor Carlos Oswald.
 
Por fim, mas não menos importante, recordemos o octogésimo segundo aniversário da estátua do Cristo Redentor do Corcovado e da solene consagração do Brasil a Cristo Rei e Redentor, realizada pelo Cardeal Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, por ocasião da inauguração daquele monumento. E fechemos esta breve apresentação transcrevendo a fórmula de consagração de nossa Terra de Santa Cruz a Cristo Rei e Redentor, composta pela Madre Maria José de Jesus, priora do Convento de Santa Tereza, a pedido de Dom Leme, e, em seguida, uma breve invocação de Plínio Salgado a Cristo Rei, que vem a ser a peroração da conferência intitulada Primeiro, Cristo! e por ele proferida em 28 de outubro de 1945 no Liceu Camões, em Lisboa, a convite da Acção Católica portuguesa e na presença de Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal-Patriarca de Lisboa.
 
Senhor Jesus, Redentor nosso, verdadeiro Deus
E verdadeiro Homem, que Sois para o mundo
A única fonte de luz, de paz, de progresso e de felicidade,
E Salvador que nos remistes com o sacrifício da Vossa vida,
Eis a Vossos pés representado o Brasil, a Terra de Santa Cruz,
Que se consagra solenemente a Vosso Coração sacratíssimo
E Vos reconhece, para sempre, por seu único Rei e Senhor.
 
Vós, que esculpistes no céu brasileiro a Vossa cruz,
De onde jamais poderá ser apagada,
Aceitai e abençoai essa imagem que será entre nós
O símbolo de Vossa Fé de Rei de nosso espírito,
De Vossa dor de Rei de nossos corações.
Oh! Reinai, Senhor Jesus, reinai sobre nossa Pátria
Queremos que o Brasil viva e prospere sob os Vossos olhares, Queremos que o nosso povo seja sempre iluminado
Pela verdade de vosso Evangelho.
 
Reinai, ó Cristo Rei, reinai, ó Cristo Redentor!
 
Ser brasileiro seja crer em Jesus Cristo, amar a Jesus Cristo!
E esta sagrada imagem seja o símbolo de Vosso domínio,
De Vosso amparo, de Vossa predileção, de Vossa bênção,
Que paira sobre o Brasil e sobre os brasileiros,
Como Senhor dos que, tendo sido Vossos na terra,
Vossos serão eternamente no céu.
 
Amém.[3]
 
 
Por Cristo-Rei
 
Seja, pois, a exaltação da realeza de Cristo, o coroamento destas palavras. Eu a proclamo, do fundo da minha pequenez, com o ardor de um soldado. E como soldado vos convido ó homens do meu tempo, a aclamarmos o Cristo-Rei, por cujo Reino devemos ir à luta, uma luta diferente, porque não seremos portadores de morte, mas de vida; nem de aflições, mas de consolações, nem de crueza, mas de bondade.
E vós – ó Jesus, a quem tanto amamos, e que estais tão abandonado pelas nações no século dos horrores, como vos prefigurou na tábua apocalíptica o pintor neerlandês [Van Aeken, o Bosch] – recebei o nosso preito de soldados fiéis, e socorrei-nos em nossas fraquezas, para que possamos cumprir quanto desejamos, no empenho de vos bem servir; pois incapazes somos nós sem vossa Graça, mas se não faltardes com Ela, ainda que hajamos de cair muitas vezes, outras tantos nos levantaremos, de sorte que, nas horas perigosas, nas horas decisivas e, principalmente, na hora extrema, por vós, sempre por vós, estaremos de pé![4]
 
Por Cristo Rei e Redentor e pela Nação!
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 12 de Outubro de 2013- LXXXI.
 
 
* Palavras proferidas no encerramento da reunião do núcleo paulistano da Frente Integralista Brasileira (FIB) de 12 de outubro de 2013, realizada em homenagem ao Manifesto de Outubro. 
 
Notas:
[1] CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas, Canto I, estrofe XXXI.
[2] SARDINHA, António. À lareira de Castela. Lisboa: Edições Gama, 1943, pp. 12-13.
[3] In PIO XI. Carta Encíclica Quas Primas. Tradução de Renato Romano. Belo Horizonte: Edições Cristo Rei, 2011, p. 53 (edição comemorativa dos 80 anos de inauguração do Cristo Redentor e da consagração do Brasil a Cristo Rei e Redentor). A fórmula de consagração do Brasil a Cristo Rei e Redentor foi transcrita nesta obra do jornal Folha da Manhã, de São Paulo, de 13 de outubro de 1931.
[4] SALGADO, Plínio. Primeiro, Cristo!. 4ª ed. (em verdade 5ª). São Paulo/Brasília: Editora Voz do Oeste/Instituto Nacional do Livro, 1979, pp. 26-27.
 

 


16/10/2013, 11:12:37


12 de Outubro

Nota de esclarecimento aos portais BBC Brasil, Último Segundo – iG e Terra
Alberto Hoffmann, in memoriam

Faleceu, na cidade de Porto Alegre-RS, no último dia 09 de janeiro, aos noventa e três anos de idade, o nosso ínclito companheiro Alberto Hoffmann, que foi e é, sem dúvida alguma, um dos mais notáveis vultos não apenas da denominada segunda geração integralista, mas de todo o Integralismo, assim como um dos mais ilustres expoentes da comunidade teuto-brasileira e um dos mais virtuosos, honrados e íntegros políticos patrícios.

Foi no Município de Ijuí, no interior rio-grandense, que, aos trinta dias do mês de novembro do ano de 1920, nasceu este grande homem público gaúcho e brasileiro, que tão alto ergueu o auriverde Pavilhão Nacional e a bandeira azul e branca do Sigma. Filho primogênito de Henrique Luiz Hoffmann e de Maria Magdalena Bohn Hoffmann, Alberto herdou de seus antepassados oriundos da Alemanha todos os valores que, no dizer de Jorge Wolfgang Globig, Presidente da Federação dos Centros de Cultura Alemã no Brasil (FECAB), já falecido, “caracterizam os teuto-brasileiros”, a saber, o amor à Pátria e à Família, a grande dedicação ao trabalho e ao estudo e a profunda religiosidade [1].

Cresceu, assim como os irmãos Ervino, Edgar e Léo, também já falecidos,  na Fazenda Frutífera Ijuiense, fundada pelo pai e ainda hoje pertencente a seus descendentes, atualmente sob a denominação de Floricultura Hoffmann. Fez o curso primário na escola municipal do travessão Linha Dois, em Ijuí, se recordando, com muita emoção, até o fim de sua longa existência, da primeira professora, D. Dinorah Klever. Mais tarde estudou dois anos no Colégio Santo Alberto, dirigido pelos padres palotinos e situado na localidade de Serra Cadeado, hoje Município de Augusto Pestana. Em 1935 começou a cursar, como aluno interno, o Ginásio Cristo Redentor, dos irmãos maristas, na Municipalidade de Cruz Alta. Nos anos de 1937 e 1938, estudou em Lageado, na Escola Técnica de Comércio, também dirigida pelos irmãos maristas e na qual, em dezembro de 1938, se formou guarda-livros, profissão que depois passou a se denominar contador.
 
Posteriormente, na Capital Gaúcha, aproveitando a lei de habilitação dos economistas, realizou exame de provisionamento oral e escrito e, aprovado, recebeu o diploma de economista em 1959.
 
Em 1939, começou a trabalhar na agência de Ijuí do Banco Pfeiffer de Lageada, depois sucedido pelo Banco Industrial e Comercial do Sul e pelo Banco Sul-Brasileiro. Mais tarde, trabalhou no Banco da Província e em uma indústria local, do mesmo modo que, dentro de suas possibilidades de tempo, colaborou com o pai na Fazenda Frutífera Ijuiense.
 
Casou-se, aos 14 de fevereiro de 1942, com Adelina Rieger, com quem teve quatro filhos: Ana Maria, engenheira química, casada com o também engenheiro químico Wilson Bussacos; Ademar, engenheiro metalúrgico, casado com a professora Ana Maria Mattioli Leite, natural de Minas Gerais; Alice, odontologista, casada com o médico Hélio Paulo Nunes; Anneliese, médica, casada com o também médico Antônio Carlos Kruel Pütten.
 
Nos onze anos em que, após se haver formado guarda-livros, residiu em Ijuí, cidade de que é, inegavelmente, o filho mais ilustre, Alberto Hoffmann participou ativamente, como observou Hugo Hammes, da vida social, econômica e política de sua cidade natal, havendo sido, dentre outras coisas, Secretário da Associação Comercial local e Presidente da Sociedade Ginástica Ijuí [2].
 
Após o ocaso do denominado Estado Novo, Alberto Hoffmann, que desde a mais tenra idade se interessara pela vida política e que estava firmemente decidido a nela ingressar, leu os programas dos diferentes partidos políticos e consultou amigos. Durante a passagem, por Ijuí, do Dr. Wolfram Metzler, ouviu ele o discurso deste grande médico, antigo membro da Ação Integralista Brasileira (AIB) e um dos principais líderes do Partido de Representação Popular (PRP) no Rio Grande do Sul. Havia lido e apreciado alguns livros de Plínio Salgado, principal doutrinador do Integralismo e Presidente do PRP, que adotara esta doutrina essencialmente cristã e brasileira, assim como a Carta de Princípios de tal agremiação política, escrita pelo autor de Vida de Jesus e de Psicologia da Revolução. Assim, ingressou no PRP, “cujo programa e doutrina”, na expressão de Hugo Hammes, “melhor se coadunavam com o seu pensamento e seus ideais” [3].
 
A Carta de Princípios do PRP tem, como salientou Hammes, os seguintes princípios básicos: “Deus, valor supremo, e subordinação da política aos preceitos espirituais; amparo à família; intangibilidade e liberdade da pessoa humana; consagração do regime democrático representativo [4], direito de propriedade, com o seu uso subordinado ao bem comum; independência e soberania do Brasil; dignidade do trabalho; fortalecimento do grupo profissional; defesa do municipalismo” [5].
 
No mês de fevereiro de 1947, o diretório municipal do PRP de Ijuí escolheu Alberto Hoffmann como candidato a Prefeito, tendo João Carlos Azambuja como vice. Não foi eleito por pouco, perdendo para Joaquim Porto Vilanova por uma pequena margem de votos.
 
Em 1950, foi eleito Deputado Estadual pelo PRP, havendo obtido, em seu município natal, “uma votação consagradora”, e, na região e no restante do Rio Grande do Sul, se beneficiado por haver feito “dobradinha” com Wolfram Metzler, grande defensor dos agricultores da região colonial e que foi candidato a Deputado Federal, havendo sido igualmente eleito. Em Santo Cristo, então distrito de Santa Rosa e hoje município autônomo, Metzler e Hoffmann alcançaram mais de 60% dos votos para a Câmara Federal e a Assembleia Legislativa, respectivamente [6].
 
Hoffmann tomou posse como Deputado Estadual a 15 de março de 1951, tendo como companheiros de bancada do PRP os deputados Nestor Pereira, Helmuth Closs e Guido Mondin. Este último, que foi, além de político e industrial, um consagrado pintor e escritor, tornou-se um grande amigo de Hoffmann e retratou, em uma de suas pinturas, a propriedade rural de Luiz Henrique Hoffmann, pai de Alberto, havendo, ainda, dedicado ao amigo, correligionário e companheiro de ideais o poema Mate lavado, que, escrito em Brasília, fala com saudades do interior do Rio Grande do Sul e de seus costumes e tradições [7].

Sr. Alberto Hoffmann.

Em sua vida pública, como escreveu Hammes, Hoffmann frequentemente se serviu do rádio para a propagação das ideias e dos ideais que defendia. No tempo em que residiu em Ijuí, chegou a ter, com a colaboração de Ney Alberto Castro, um programa semanal na Rádio Santo Ângelo, do município gaúcho que leva este nome. Mais tarde, em Porto Alegre, assessorado por companheiros de ideal e pelo jornalista Segundo Brasileiro Reis, foi o responsável pelo programa Palestra com o Rio Grande, na Rádio Farroupilha. Em tal programa radiofônico, que permaneceu no ar por doze anos e contou com o valioso apoio do empresário Egon Renner, Hoffmann, além de expor o seu pensamento e os princípios da Doutrina Integralista e de transmitir as notícias do Partido de Representação Popular, prestava sempre contas de sua atividade parlamentar e de secretário de Estado [8].
 
Alberto Hoffmann exerceu, ao todo, três mandatos de Deputado Estadual: de 1951 a 1955; de 1955 a 1959 e de 1963 a 1967. Ocupou, inclusive, a presidência da Assembleia Legislativa gaúcha, entre 20 de abril de 1957 e 21 de abril de 1958, imprimindo dinâmico ritmo à administração e contando com o reconhecimento de seus pares e da comunidade rio-grandense [9]. Na qualidade de Presidente da Assembleia Legislativa, assumiu, interinamente, o cargo de Governador do Rio Grande do Sul [10], de 29 de maio a 08 de junho de 1957 e de 09 a 16 de dezembro do mesmo ano. Foi, ainda, Deputado Federal pelo Rio Grande do Sul por cinco mandatos: de 1959 a 1963; de 1967 a 1971; de 1971 a 1975; de 1975 a 1979 e de 1979 a 1983.
 
Interrompeu Hoffmann suas atividades parlamentares em três oportunidades, a fim de exercer cargos no chamado Poder Executivo rio-grandense, a saber, aqueles de Secretário da Agricultura (1959-1961), no governo de Leonel Brizola; Secretário da Economia (1964), no segundo governo de Ildo Meneghetti, e de Secretário do Interior, Desenvolvimento e Obras Públicas (1980 a 1982), no governo de José Augusto Amaral de Souza.
 
Por nomeação do Presidente da República, General João Baptista Figueiredo, após prévia aprovação do Senado, assumiu Hoffmann as funções de Ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) aos 18 de maio de 1983. Entre as suas mais relevantes iniciativas como Ministro do TCU, podemos sublinhar a instituição de mecanismos para diminuir a burocracia na distribuição de recursos do Fundo de Participação dos Municípios e do Fundo de Participação dos Estados. Graças a ele, com efeito, o pagamento das contas passou a ocorrer no mesmo dia, por intermédio do Banco do Brasil, na totalidade do território nacional.
 
Foi Vice-Presidente do Tribunal de Contas da União em 1986 e 1987, cabendo-lhe, em 1989, o honroso cargo de Presidente de tal instituição, cargo este que deixou “consagrado”, na expressão do jornalista João Emílio Falcão, do Correio Braziliense. Segundo este, a administração de Hoffmann foi marcada pela presença cada vez maior do TCU na vida pública nacional, verificado no noticiário, e que se deveu ao fato de corresponder aos anseios da Sociedade pela moralização dos costumes [11].   
 
Em 1982, contando com a indicação de convencionais liderados pelo Senador Tarso Dutra, Alberto Hoffmann foi candidato ao Senado da República pelo Partido Democrático Social (PDS), sucessor da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), agremiação a que se filiara em 1966, após a extinção de todos os partidos políticos até então existentes e o início do bipartidarismo, com a ARENA, defensora dos ideais do Movimento Revolucionário de 31 de Março de 1964, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), que reunia os opositores do regime instalado pelo referido movimento cívico-político-militar. Teve como suplente a Professora Colorinda Sordi e como companheiro de sublegenda o Dr. Carlos Alberto Chiarelli, advogado e professor universitário. A soma de votos deu a cadeira do Senado a Chiarelli. Em 1990, já aposentado como Ministro do Tribunal de Contas da União, Hoffmann, na condição de primeiro suplente diplomado pela Justiça Eleitoral, tornou-se Senador, em razão de Chiarelli haver sido guindado ao cargo de Ministro da Educação e Cultura pelo Presidente da República, Fernando Collor de Mello, deixando vaga a cadeira na Câmara Alta.
 
Senador entre 19 de abril de 1990 e 04 de dezembro do mesmo ano, destacou-se Hoffmann, antes e acima de tudo, pela defesa do Município, pugnando pela valorização das comunas brasileiras e pela maior participação destas na receita da União.
 
Conforme assinalou Nelson Oscar de Souza, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e professor universitário, foi Alberto Hoffmann um homem público que cultuou valores, valores estes colhidos “no convívio de uma Família cristã do interior gaúcho”, e que cresceu dia a dia, pelo trabalho, havendo a Pátria recolhido “os frutos de sua dedicação e de seus sacrifícios”. Em Deus, “fonte de todos os valores”, ainda na expressão do professor e magistrado rio-grandense, soube Hoffmann sempre confiar, Nele havendo, com efeito, sempre ancorado “o seu trabalho e a sua fé” [12].
 
“Personalidade marcante”, foi Hoffmann, no dizer de Arlindo Mallmann, ex-Presidente da FECAB (Federação dos Centros de Cultura Alemã no Brasil), “um homem público identificado com a sua comunidade”, assim como um “líder inconteste” no Rio Grande do Sul, “principalmente das populações de ascendência alemã”. Ainda nas palavras de Mallmann, testemunha dos esforços de Hoffmann em prol do municipalismo, tomou este “medidas concretas, transformadas em lei, em prol do fortalecimento da célula mater da nação” [13].
 
“Líder municipalista”, Hoffmann assumiu, desde o princípio de sua vida pública, na expressão de Hugo Hammes, “a bandeira do municipalismo”, uma das diretrizes fundamentais do Partido de Representação Popular (PRP) [14], assim como de toda a Doutrina Integralista. Poucos foram, em verdade, os homens públicos patrícios que fizeram tanto pelo bem dos municípios quanto Hoffmann, tanto no Rio Grande do Sul, como Deputado Estadual e, depois, Secretário do Interior, Desenvolvimento e Obras Públicas, quanto no Brasil como um todo, como Deputado Federal, Ministro do Tribunal de Contas da União e Senador.
 
Consoante salientou Antônio Pires, ex-Prefeito de Bagé pelo PRP e ex-Presidente da SUDESUL (Superintendência de Desenvolvimento da Região Sul), foi Hoffmann “um patrimônio pessoal e político de primeira grandeza”, movido por um “permanente otimismo realista, jamais feito de passividade, mas de serena firmeza na ação” e cuja “longa e fecunda vida pública” foi “indesviável da dignidade humana e da constante observância do bem comum, em efetivo amor à família, dedicação à pátria e temor a Deus” [15].
 
Hoffmann, que, em sua atuação parlamentar e política, sempre procurou “inspiração no exemplo e no legado desse eminente rio-grandense” que foi Wolfram Metzler [16], sempre considerou que “o único e grande objetivo a perseguir deve ser a grandeza da nação brasileira e o bem-estar de seu povo como um todo” [17].
 
Não podemos encerrar a presente homenagem a Alberto Hoffmann sem assinalar que foi este um dos fundadores da Associação Cívico-Cultural Minuano, de que foi também Presidente, e também um dos criadores do Centro de Documentação sobre a Ação Integralista Brasileira e o Partido de Representação Popular (CD-AIB/PRP), que igualmente presidiu.
 
A Associação Cívico-Cultural Minuano foi fundada a 15 de setembro de 1957, tendo como objetivo a promoção de atividades cívicas, culturais e recreativas. Sua sede foi, desde o início, colocada à disposição do PRP, logo se havendo tal associação tornado uma espécie de fundação daquela agremiação política [18]. Tal atitude visava resguardar o patrimônio do PRP, tendo em vista que, por serem os partidos políticos instituições de direito público, seus bens passam para o domínio da União quando são extintos,  como ocorrera em 1937, quando Getúlio Vargas implantara a ditadura do Estado Novo, fechando todas as agremiações partidárias então existentes, e ocorreria 1965, com o Ato Institucional nº 2, de 27 de outubro, que igualmente dissolveria todos os partidos políticos. Como assinalaram Hugo Hammes [19] e Alice Campos Moreira [20], o Partido de Representação Popular do Rio Grande do Sul foi, graças à Associação Cívico-Cultural Minuano, o único que conseguiu preservar seu acervo, transferido para a associação, que também contava com considerável acervo da antiga Ação Integralista Brasileira. Após o fechamento do PRP, a Associação Cívico-Cultural Minuano realizou promoções culturais diversas, servindo, ainda, como ponto de encontro dos antigos membros do Partido de Representação Popular e de alguns ex-membros da Ação Integralista Brasileira.
 
Em 1995 foi criado, na sede da Associação Cívico-Cultural Minuano, o Centro de Documentação sobre a Ação Integralista Brasileira e o Partido de Representação Popular, entidade de caráter apolítico, voltada à conservação da documentação, assim como à organização e disponibilização desta para a consulta pública. Em maio de 2010, a Associação Cívico-Cultural Minuano doou o Centro de Documentação sobre a Ação Integralista Brasileira e o Partido de Representação Popular ao DELFOS – Espaço de Documentação e Memória Cultural, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Composto por várias dezenas de milhares de documentos como livros, jornais, revistas, boletins, cartas, recortes de jornal, fotografias e CDs contendo depoimentos de diversos políticos de variadas tendências, o referido Centro de Documentação, maior acervo documental de história política de todo o Rio Grande do Sul, passou a ser chamado, por razões técnicas, Acervo Documental AIB/PRP.
 
Encerremos esta pequena homenagem a Alberto Hoffmann. Dotado de inata vocação ao Bem Comum Nacional, movido pelo sentimento do dever público e pelo desejo de bem servir o Brasil, colocando os legítimos interesses da Nação e o cumprimento das obrigações cívicas acima dos interesses de ordem pessoal, absorvido, em uma palavra, pelas preocupações do patriotismo, do nacionalismo construtivo e do serviço público, conta-se o mais ilustre dos filhos de Ijuí na lista dos homens de mil do Integralismo, que não fazem, de forma alguma, má figura diante dos homens de mil do Império de que nos falou Oliveira Vianna [21]. Certos de que no outro Mundo encontrará ele a verdadeira e plena felicidade, impossível de ser alcançada nesta vida terrena, mas lamentando sua partida para o Além em virtude de com ela ter ficado o Brasil mais pobre, rogamos a Deus, princípio, fim e medida de todas as coisas, que suscite, na atual geração e nas gerações vindouras, homens da estirpe deste grande ijuiense, rio-grandense e brasileiro.
 
Por Cristo e pela Nação!
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 07 de março de 2014-LXXXI.
 
 

Notas:
[1] O teuto-brasileiro, in Hugo HAMMES, Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, página não numerada.
[2] Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, p. 31.
[3] Idem, p. 36.
[4] Cumpre sublinhar que o regime democrático representativo sustentado pelo Integralismo e pelo PRP corresponde à Democracia Orgânica, sendo muito diverso do regime liberal pretensamente democrático e representativo.
[5] Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, p. 36.
[6] Idem, p. 42.
[7] A aludida pintura de Guido Mondin foi reproduzida na obra Hoffmann: Êxito e coerência, de Hugo Hammes, já aqui citada, e na qual foi, ademais, transcrito o poema Mate lavado.
[8] Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, p. 44.
[9] Idem, p. 55.
[10] Não havia ainda sido criado, então, o cargo de Vice-Governador, de sorte que era o Presidente da Assembleia Legislativa quem assumia o governo, interinamente, em caso de vacância do Governador.
[11] Herança de Hoffmann, in Hugo HAMMES, Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, pp. 73-75. O trecho citado se encontra à página 74.
[12] Culto aos valores, in Hugo HAMMES, Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, p. 176.
[13] Líder inconteste, in Hugo HAMMES, Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, p. 78.
[14] Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, p. 79.
[15] Otimismo realista, in Hugo HAMMES, Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, p. 98.
[16] Cf. Alberto HOFFMANN, Lembrando Wolfram Metzler, in Hugo HAMMES, Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, pp. 110-111. O trecho aqui citado se encontra à página 110.
[17] Idem, Carta dirigida aos correligionários e amigos quando se preparava a transformação da ARENA em PDS, in Hugo HAMMES, Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, pp. 38-41. O trecho aqui citado se encontra à página 39.
[18] Cf. Alice T. Campos MOREIRA, DELFOS, um espaço construído pela pesquisa, in Letras de Hoje, v. 45, n. 4, Porto Alegre, out./dez. de 2010, pp. 5-10. O trecho aqui referido se encontra à página 7.
[19] Hoffmann: Êxito e coerência, Porto Alegre, EST, 2006, p. 172.
[20] DELFOS, um espaço construído pela pesquisa, in Letras de Hoje, v. 45, n. 4, Porto Alegre, out./dez. de 2010, p. 7.
[21] Instituições políticas brasileiras, Primeiro volume, Fundamentos sociais do Estado (Direito Público e Cultura), 2ª edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1955, pp. 379-404. 


09/03/2014, 11:16:58


Alberto Hoffmann, in memoriam
Nacionalismo no Mundo: Alberto Buela e a teoria do dissenso

Em novembro de 2013 tive o privilégio de conhecer pessoalmente Alberto Buela durante a participação dele em um congresso em Curitiba, ocasião em que foi lançado no Brasil o seu livro “Hispano-América contra o Ocidente” pela editora Austral. Estava assistindo a conferência quando levei um susto: terminada a palestra, ele diz que gostaria de perguntar à plateia qual o legado do grande nacionalista brasileiro Plínio Salgado nos dias de hoje. Desajeitadamente eu tentei improvisar algo. Mas a pergunta foi uma deixa para abordá-lo no intervalo das apresentações. Durante as conversas nos próximos dias – ele estava de férias e iria passou mais alguns dias na cidade, o que me permitiu ciceroneá-lo pelo litoral do Paraná e apresentá-lo ao substancioso prato típico da região, o barreado – descobri que esse admirável professor de Filosofia da Universidade de Buenos Aires com doutorado em Sorbonne conhecia muito mais a respeito da contribuição de Plínio Salgado ao pensamento brasileiro do que a imensa maioria dos nossos compatriotas.

Esse prolífico autor – mais de vinte livros e dezenas de artigos – realizou incursões em outras áreas além da Filosofia, como a Metapolítica, tendo fundado e dirigido entre 1994 e 1999 a revista Disenso, primeira revista ibero-americana voltada para essa temática. Em seus livros e artigos sobre o tema, esse argentino com fortes raízes no peronismo condena a subserviência das elites ibero-americanas aos interesses anglo-americanos com a mesma ênfase com que condena o comunismo. Para ele, apenas uma maior aproximação dos povos dos países da Ibero-América com as suas próprias tradições e raízes poderá nos poupar de uma globalização imposta com brutalidade crescente pelas elites financeiras de Wall Street e da City of London
 
Espero que esta breve entrevista ajude os companheiros integralistas a conhecerem melhor este autor argentino que vê na consolidação dos laços entre os dois grandes povos irmãos da América Ibérica, brasileiros e argentinos, o pilar para o surgimento do que nós integralistas poderíamos chamar de Quarta Humanidade.
 
Boa Leitura!

***

Don Alberto, poderia começar explicando aos brasileiros em que consiste a sua teoria do dissenso?
 
Frente à ideologia do consenso, encorajada a partir do poder nas nossas sociedades periféricas e dependentes dos poderes estrangeiros, propomos o dissenso, entendido como “outro sentido” em relação ao politicamente correto e ao pensamento único. Dissentir por dissentir não tem nenhum sentido, mas dissentir com propostas alternativas é a melhor e mais eficaz maneira de exercer a liberdade de pensamento.
 
O dissenso é o que permite criar una crítica concreta, porque está apoiado nos fatos, na sociedade de consumo. O dissenso supõe uma ancoragem na realidade, pois essa dissensão ocorre não de acordo com tal ou qual utopia, mas de acordo com os fatos concretos que provocam a nossa desconformidade. Defendemos a educação no dissenso como uma contribuição significativa aos tão propalados direitos humanos. A base da liberdade de expressão se encontra na criação do dissenso, como aplicação ao debate e à controvérsia.
 
Por sua vez, o exercício do dissenso supõe um método que temos estudado em vários dos nossos livros, como “Ensaios de Dissenso”, “Pensamento de Ruptura”, “Dilemas do nosso Tempo” e outros.
 
Os passos do dissenso como método, didaticamente expostos são:
 
Primeira etapa: o método como propedêutica
 
1-   A preferência por nós mesmos (parte-se de um ato valorativo);
2-    Genius loci (desde onde);
3-   As tradições vivas dos nossos povos (as tradições vivas, não as mortas)
 
Segunda etapa: A projeção do homem em direção ao homem, o mundo e os seus problemas,
 
1 – a indagação pelo outro e pelos outros (homem-mundo)
2 – a dissensão (os problemas)
3 – a superação do dissenso: em busca da construção do nosso próprio relato.
 
No seu livro “Hispano-América contra o Ocidente”, o senhor afirma que um dos fatores que explica porque a civilização e o homem ibero-americanos são diferentes dos ocidentais e da sua atual civilização, é que os europeus que chegaram a América eram ainda medievais e, por tanto, anteriores à “Revolução Mundial”. Em que consistiu esta “Revolução Mundial” e quais as suas consequências até os dias atuais?
 
Falo de Revolução Mundial no mesmo sentido em que o fizeram Christopher Dawson, Hilaire Belloc, Eric Voegelin, Julio Meinvielle, Walter Schubart - no Brasil quem o fez foi Tristão de Athayde (1893-1983) - e tantos outros pensadores não conformistas. A Revolução Mundial começa com a Reforma e a instauração do primado da consciência, continua com a Revolução Francesa e a substituição da filosofia pela ideologia, segue com a Revolução Bolchevique e seus cem milhões de mortos em setenta anos e termina hoje com o Totalitarismo Democrático e a sua ideia de globalização, onde todas as culturas são intercambiáveis para a construção de um monstruoso one world.
 
O Sr. Alberto Buela, durante evento do Movimento Social Republicano (MSR), na Espanha.
 
Em sua obra o senhor afirma que o homem Ibero-americano é uma síntese entre o europeu católico e medieval e o indígena telúrico. Entretanto, este processo não é uma simples mistura, de maneira que o resultante desta síntese (o homem ibero-americano) é mais do que a simples soma de seus componentes (europeu e indígena). Poderia nos contar um pouco mais a respeito desta síntese? Quais são as principais características desse homem surgido no continente americano?
 
Bolívar dizia que não era “nem tão espanhol e nem tão índio” e o mesmo podemos dizer de nós mesmos “nem tão espanhóis ou portugueses e nem tão índios”. É por isso que nós constituímos o verdadeiro e genuíno povo originário da América. Essa originalidade e característica tão própria se expressa nos nossos arquétipos nacionais: o “cholo” na Bolívia e Peru, o “montubio” no Equador, o “huaso” no Chile, o “gaucho” na Argentina, o “llanero” na Colômbia e Venezuela, o “charro” para o México, o “ladino” na Guatemala, o “borinqueño” para Porto Rico e São Domingos, etc. No caso do Brasil, que é um continente, possui vários arquétipos, no sul o gaúcho, no nordeste o sertanejo, no sudeste o caboclo, e vários outros.
 
Nós somos uma cultura de síntese porque convergem em nós várias culturas. Os antropólogos norte-americanos falam em multiculturalismo para referir-se aos povos ibero-americanos, o que é um erro, porque nós somos, verdadeiramente, um interculturalismo.
 
O senhor escreveu a respeito da importância dos grandes espaços existentes na América na formação do caráter do homem ibero-americano, distinto do europeu que tem relativamente pouco espaço disponível para a sua civilização. Como a grandiosidade da paisagem americana nos ajudou a ser o que somos hoje?
 
O imenso, o ilimitado, aquilo que o filósofo pré-socrático Anaximandro denominou “to ápeiron”, marcou para sempre o caráter do homem sul- americano, sobretudo no Brasil e na Argentina. “O pampa, disse Drieu la Rochelle viajando com Jorge Luís Borges, é uma vertigem horizontal” e o sertão “sempre uma impressionante lonjura”.
 
O fato de não ver os limites fez dele um homem naturaliter livre. A solidão da imensidão fez dele um individualista, não da maneira liberal, mas um individualista fraternal, que sempre se conduziu no trato com o outro tendo como referência a ideia de hospitalidade.
 
Enquanto os espanhóis e portugueses fizeram a opção por uma colonização integrando os povos nativos da América, os ingleses optaram por exterminar os indígenas do novo continente e substituí-la por uma população branca, anglo-saxã e protestante. Como estas diferentes maneiras de colonizar influenciaram o caráter dos povos das duas Américas? É isso que provoca a eterna vontade dos americanos do norte de submeter todo o mundo ao “american way of life”?
 
Se fosse verdade que o mundo conhecido, desde o surgimento da escrita, passou por quatro éons, que são os grandes períodos de tempo em que podemos dividir as principais linhas da história, podemos dizer que o homem americano do norte encarna o éon prometeico e o ibero-americano o éon gótico-barroco. O primeiro dirige o seu olhar para a dominação da terra e o segundo o seu olhar para as alturas, que tampouco possuem limites. O homem prometeico é o arrogante titã que se rebelou contra os deuses, o astuto usufrutuário da natureza, por meio do uso do fogo. O homem gótico-barroco nas vastas planícies, sem obstáculos, percebe sua pequenez e impotência. Olha o sublime em silêncio e o atrai. Não vai contra o divino, mas se coloca a seu serviço.
 
Hoje vemos que na Europa talvez alguns países estejam começando a despertar, como vemos pelas expressivas votações de partidos nacionalistas em diversos países. Mas na Ibero-América até agora não vimos nada parecido com isso. Como o senhor vê a situação atual para os nacionalistas do continente? E o futuro? Um despertar ainda é possível? Como escapar da tirania da globalização?
 
O único nacionalismo possível e viável na Ibero-América é o nacionalismo continental do qual nos falaram, entre outros, o chileno Joaquín Edward Bello, Juan Perón, Plínio Salgado, o boliviano Carlos Montenegro, etc.
 
Temos que nos libertar de uma vez e para todo o sempre do nacionalismo “de países”, do nacionalismo paroquial, do nacionalismo chauvinista e passar ao nacionalismo da Pátria Grande da qual nos falou don Manuel Ugarte.
 
Porque nós temos que constituir o “grande espaço sul-americano”, um espaço, além disso, autocentrado que tenha autonomia e autarquia próprias, sem nenhuma dependência estrangeira. Sem ir mais longe, imaginamos uma moeda comum entre o Brasil e a Argentina, um Banco Central comum, uma bolsa comercial e uma aduana em comum. Isso sozinho comoveria o mundo, ao menos o mundo financeiro, comercial e empresário. 
 
Nós na América do Sul temos um território comum e contínuo de quase 18 milhões de quilômetros quadrados, o dobro da Europa e o dobro dos Estados Unidos, somos cerca de 420 milhões de habitantes e temos impressionantes 50.000 quilômetros de vias navegáveis. Pode imaginar semelhante poderio conduzido de maneira autocentrada? Mudaríamos as regras do jogo mundial ou ao menos nos transformaríamos em jogadores importantes nas grandes ligas da política internacional.
 
Como filósofo, o que o senhor acha do estado atual do pensamento ibero-americano? Temos hoje una produção intelectual ibero-americana ou todas as universidades e centros de pesquisa estão nas mãos dos cipaios do liberalismo e do marxismo?
 
Por dever de ofício nós conhecemos todo o panorama da filosofia na Ibero-América país por país e tínhamos uma informação atualizada quando editamos a revista de filosofia e metapolítica Disenso (1994-2000). Atualmente nossa informação é muito mais pobre. De maneira que vamos falar com algum temor de estarmos equivocados.
 
A filosofia na Ibero-América tem milhares de professores que em geral lecionam utilizando manuais que vem da Europa. Há algumas centenas de pesquisadores, que em geral são especialistas no mínimo, em pesquisas que não conduzem a nenhum lado e que, praticamente, não servem para nada. Há também alguns mestres de filosofia, aqueles grandes professores que conseguem mostrar as grandes linhas das ideias em jogo e, finalmente, alguns poucos e contados filósofos que exercem e executam um pensamento especulativo, ou seja, um pensamento que é speculum, espelho, do que é a realidade, da nossa realidade.
 
Deixamos ex professo de lado os milhares de “analfabetos loquazes” que são todos aqueles que falam de filosofia sem saber do que estão falando (magos, astrólogos, curandeiros, esotéricos, jornalistas, orientalistas, locutores, políticos, et alii).
 
Brasil teve mestres como don Miguel Reale e teve filósofos como Vicente Ferreira. Hoje conheço um bom filósofo como Nilo Reis de Feira de Santana. Argentina teve mestres como Coriolano Alberini e filósofos como Nimio de Anquín. Hoje tem filósofos como Silvio Maresca. Venezuela teve filósofos como Maiz Vallenilla. México teve Gómez Robledo ou José Vasconcelos, Perú teve Alberto Wagner de Reyna, com certeza o maior filósofo sul-americano da segunda metade do século XX. Colômbia teve mestres como Danilo Díaz Vélez e um grande filósofo como Gómez Dávila. Inclusive o Uruguai teve um mestre de filosofia como Juan Llambías de Azevedo.
 
Todos estes filósofos ibero-americanos, para além da sua filiação política, têm um tema em comum: a nossa identidade e o sentido da Nossa América.
 
O marxismo não tem nem teve filósofos, apenas ideólogos, isto é, pessoas que usam as ideias em função dos interesses de um grupo ou classe social. Na América do Sul o marxismo penetrou nos quadros da Igreja a partir do diálogo de católicos e marxistas, no qual os católicos foram usados como carne de canhão na luta por uma libertação, na qual sempre faltou o povo, que estava à margem desta deformidade teórica. A filosofia da libertação, de matiz marxista, ficou somente na enunciação de um programa sem desenvolver nenhuma tese própria ou duradoura na filosofia.
 
Buela fotografado durante uma entrevista em Madrid, em Novembro de 2008.
 
Atualmente há uma grande discussão nos movimentos nacionalistas da Europa e da Ibero-América a respeito do bolivarianismo venezuelano e o seu “socialismo do século XXI”. Para alguns, o chavismo seria uma proposta nacionalista de Terceira (ou Quarta) Via. Para outros, o regime venezuelano é uma variação mais ou menos disfarçada do velho comunismo cubano, com muito discurso e nenhuma substancia. Qual a sua opinião a respeito deste tema?
 
O movimento chavista da Venezuela é para nós uma grande desilusão intelectual e um fracasso político. Uma grande desilusão intelectual porque acreditávamos no “bolivarianismo”, pois para nós o apelo a Bolívar tem um enorme significado. É um fracasso político porque com a morte de Chávez caiu o que ele havia feito de bom. Hoje o regime venezuelano, no descalabro mais angustiante, não beneficia nem mesmo os cubanos. Nós estivemos na Venezuela duas vezes e com o comandante Chávez três (duas na Argentina e uma em Caracas). Lembro que comentei com ele a proposta de Correa, secretário-geral da CGT de Cuba, de criar um partido único, que esse seria o abraço de urso para a Venezuela. As coisas vão de mal a pior na pátria de Bolívar e é porque, como dizia Aristóteles em Protréptico, “a falta de formação (paideia) combinada com o poder, engendra o desatino”.
 
Temos visto muitas declarações de boas intenções por parte dos presidentes do Mercosul – principalmente das presidentes do Brasil e da Argentina – e muito pouco de efetivo no processo de integração da Ibero-América. O senhor acredita que ainda podemos esperar algo positivo do Mercosul ou devemos buscar outro modelo para fortalecer as relações entre os nossos países?
 
O Mercosul não tem sido outra coisa além de uma aliança comercial entre as burguesias de Buenos Aires e São Paulo. Só isso.  
 
Uma integração entre Brasil e Argentina tem que começar pelo que temos em comum: ver o inimigo no imperialismo anglo/norte-americano. E tudo o que venhamos a fazer deve girar em torno dessa premissa. 1) Consolidar mecanismos de defesa comum (produção para a defesa). 2) Uso exclusivo do portunhol como língua comum, eliminando ou modificando os termos que nos confundam. 3) Equivalência universitária, jurídica, comercial, civil e penal. 4) moeda, Banco Central, bolsa e aduana comuns.
 
Não há nenhuma possibilidade de integração sul-americana real e efetiva sem uma integração prévia entre Argentina e Brasil. Convocar Suriname e Guiana para uma possível integração sul-americana é convocar Holanda e Inglaterra, o que não faz sentido politicamente. 
 
Depois de ler o seu livro “Hispano-América contra o Ocidente”, recentemente traduzido para o português, me pareceu que há muitos pontos convergentes entre o pensamento do senhor e do fundador do integralismo brasileiro, Plínio Salgado. Qual a sua opinião a respeito da obra de Salgado? Pode-se dizer que os senhores pertencem à mesma linha de pensamento quando defendem a visão de que os países da Ibero-América são o resultado de uma cultura de síntese? Gostaria de enviar uma mensagem para os militantes integralistas?
 
Plínio Salgado foi um homem excepcional que superou o seu tempo e os seus meios. Sua proposta de uma Revolução Integralista se apoia na doutrina social da Igreja, na recuperação da identidade nacional, na crítica ao capitalismo internacional “para opulentar os cofres de Wall Street e da City”, segundo as suas palavras. Propõe uma sã e criteriosa reforma agrária e uma terceira posição para além do liberalismo e do marxismo. A união entre tradição e ciência. A integração da Nossa América: “Temos de reatar o fio da política bolivariana, iniciando, porém, a campanha por um esforço no sentido de uma unidade sentimental, cultural e econômica”. Em fim, tem um ar de proximidade com o peronismo.
 
Plínio Salgado é, ademais de político, um pensador político de raiz católica tradicional e ele o demonstra não apenas em suas ideias mas também nos autores católicos citados em todas as suas obras: monsenhor Fulton Sheen, Louis Saleron, Oliveira Viana, Michele Federico Sciacca, Leo Gabriel, Nicolás Berdiaev e tantos outros. E nesse sentido a sua definição de Estado coincide totalmente com a visão católica de todos esses pensadores: “Não podemos conceber um Estado que, sendo parte, absorva o todo: o todo que é a Nação”. Como vemos, a acusação de totalitarismo que se faz contra Salgado é totalmente falsa. O que ele propõe é: “Os governos fortes, mantenedores das liberdades públicas e disciplinadores das liberdades privadas que atentam contra as públicas.”
 
Aqueles que fazem parte do pensamento único e que fazem parte do politicamente correto demonizaram-no, principalmente no Brasil. Diante de tais falsidades e mentiras, o melhor é guardar silêncio e trabalhar no que ele trabalhava. Por exemplo, a recuperação da tradição tupi-guarani inserida no mundo criollo, no mundo gaúcho e caboclo que abarca os três estados do sul do Brasil. Se me lembro bem, Salgado tinha um palavra de ordem: Anauê, que na língua tupi quer dizer: “você é meu irmão”.  
 
Por tudo isso, gostaria de deixar uma mensagem aos atuais militantes dessa corrente política: O Integralismo brasileiro é uma Revolução Inconclusa que vocês têm que concluir, tem de realizar.
 

Alexandre Villacian

Um dos dirigentes do núcleo de Curitiba (PR), Alexandre é também coordenador da Secretaria de Relações Internacionais da Frente Integralista Brasileira.


Notas:
[1] Para quem desejar conhecer melhor a teoria do Disenso, basta acessar a página disenso.info


14/03/2014, 16:13:16


Nacionalismo no Mundo: Alberto Buela e o Disenso
Gustavo Barroso, nazista?

Como todos bem sabem, muito têm crescido, nos últimos anos, em nosso País, as hordas dos defensores do liberalismo, sobretudo em sua face econômica. Muitos destes fanáticos adeptos da falsa religião liberal, em geral sectários da chamada “Escola Austríaca” de Economia e cultuadores de pensadores anticristãos como Ludwig von Mises e Ayn Rand, têm atacado duramente o Integralismo, alguns deles havendo acusado o escritor, historiador, folclorista e doutrinador integralista Gustavo Barroso de ser nazista e antissemita, compreendendo o antissemitismo como sendo a aversão racial ao judeu. Esta última acusação já foi feita, com efeito, mesmo pelo principal ídolo “brasileiro” destas hostes liberais, o jornalista e astrólogo Olavo de Carvalho [1], que, aliás, não é apenas um crítico ferrenho do Integralismo, Movimento cuja Doutrina e História demonstra desconhecer quase por completo, como também da própria Doutrina Social da Igreja, principal fonte de inspiração deste, a que injustamente acusa de favorecer o socialismo [2].

Em verdade, porém, Gustavo Barroso jamais foi um nacional-socialista, do mesmo modo que jamais foi um antissemita no sentido acima aludido, havendo, aliás, condenado veementemente certos aspectos fundamentais da doutrina da suástica, em particular a visão desta a respeito da denominada questão racial. Com efeito, na obra Judaísmo, maçonaria e comunismo, de 1937, o autor de Espírito do século XX afirmou que os integralistas “não somos racistas”, combatendo o que chamou o “‘racismo judaico’ em nome da ausência de racismo brasileiro”, do mesmo modo que assinalou que havia “graves defeitos no racismo germânico” [3]. Segundo ele, pois, a luta contra os judeus não podia provir, no Brasil, “dum sentimento racista, porque o brasileiro é eminentemente contrário a qualquer racismo”, mas sim do “sentido exatamente antirracista” do brasileiro [4].
 
Destarte, não podemos dizer, de forma alguma, que as críticas de Barroso aos judeus foram inspiradas por preconceito racial. Donde concordarmos com Sérgio de Vasconcellos [5] e com o liberal e, por conseguinte, insuspeito Francisco Martins de Souza [6], quando estes sustentam que o autor de História secreta do Brasil jamais defendeu um antijudaísmo de cunho racial, mas sim de caráter político e econômico, como o próprio historiador e doutrinador integralista ressaltou, aliás, em página da obra Brasil, colônia de banqueiros [7], de 1934.
 
 

 
Gustavo Barroso em 1923, ano de sua posse na Academia Brasileira de Letras. A invulgar genialidade de Barroso, identificada desde cedo, o colocava, ainda moço, entre os grandes de sua época; sua profícua obra literária superou a marca dos cem títulos e, quando de sua morte, o qualificou na restrita galeria dos imortais da Pátria!
 
 
Em resposta a Armando Sales de Oliveira, que, em sua opinião, quisera se referir ao Integralismo ao falar, em um de seus discursos, em “regime totalitário”, salientou Gustavo Barroso, na obra A Sinagoga Paulista, de 1937, que a concepção de Estado Integralista de Plínio Salgado nada tem de totalitária, sendo completamente “original”, consultando “a realidade brasileira” e “formando uma democracia orgânica e não um Estado absorvente”. Em seguida, havendo observado que a concepção de Estado do Integralismo “é profundamente tomista, profundamente cristã” [8], citou uma passagem da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, em que este prelecionou que “a diversidade das cidades (Estados) provém da diversidade dos fins ou das maneiras diferentes de atingir o mesmo fim” e que “os homens constituem vidas comuns diversas e, por conseguinte, cidades diversas” (“diversas republicas”) [9]. Isto posto, assim escreveu o autor de O Quarto Império:
 
"Nazismo, Fascismo, Integralismo são cidades muito diferentes, diversas republicas. Todos querem, organizando os respectivos nacionalismos, 'vencer a anarquia', como diz o Sr. Armando, mas cada um tem sua doutrina própria e obedece a realidades humanas diferentes, que só os ignorantes ou os de má-fé negam ou escondem [8]".
 
 
Em O Integralismo e o Mundo, obra de 1936 na qual tratou dos principais movimentos nacionalistas então existentes em todo o Orbe Terrestre, asseverou Barroso que, dentre todos esses movimentos, “o Integralismo Brasileiro é o que contém maior dose de espiritualidade e um corpo de doutrina mais perfeito”, afirmando “mais fortemente o primado do espírito” do que o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão e “mais alto” se elevando, “doutrinariamente, para as verdades Eternas” [11]. Pouco adiante, havendo ressaltado que “diferenças profundas” separam o Integralismo do fascismo e do nacional-socialismo, aduziu o autor de O Integralismo em marcha que “o Estado nazista” é pagão e baseado “na pureza da raça ariana, no exclusivismo racial”, ao passo que “o Estado Integralista”, alicerçado “na tradição da unidade da pátria e do espírito de brasilidade”, é “profundamente cristão” e “combate os racismos, os exclusivismos raciais” [12].

Poderíamos transcrever aqui diversas outras citações de Gustavo Barroso, que, assim como as precedentes, demonstram que jamais foi ele um adepto do nacional-socialismo. Reputamos, contudo, já terem sido suficientes aquelas por nós apresentadas para demonstrar cabalmente que só um completo ignorante ou alguém movido pela mais absoluta má-fé pode afirmar que Barroso foi um soldado da doutrina da suástica. Assim, damos por encerrado o presente artigo.

 
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 20 de março de 2014 - LXXXI.


Notas:
 
[1] Tal acusação foi feita pelo autor de Astrologia e Religião na aula de seu curso de Filosofia de 31 de agosto de 2013.
[2] Capitalismo e Cristianismo. Disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/textos/capitalismoecristianismo.htm. Acesso em 27 de março de 2014.
[3] Judaísmo, maçonaria e comunismo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1937, p. 128.
[4] Idem, p. 10.
[5] Gustavo Barroso, racista? Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=30. Acesso em 16 de março de 2014.
[6] Raízes teóricas do corporativismo brasileiro, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1999, p. 49.
[7] Brasil, colônia de banqueiros, 2ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1934, p. 71.
[8] A Sinagoga Paulista, 3ª edição, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1937, p. 176.
[9] Apud Gustavo BARROSO, A Sinagoga Paulista, 3ª edição, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1937, p. 176.
[10] A Sinagoga Paulista, 3ª edição, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1937, p. 176.
[11] O Integralismo e o Mundo, 1ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1936, pp. 15-16.
[12] Idem, p. 17.

21/03/2014, 21:34:27

A Revolução de 31 de Março e o General Olympio Mourão Filho

Neste dia 31 de Março, os autênticos patriotas e nacionalistas brasileiros celebramos mais um aniversário do Levante Libertador, do Movimento Redentor, do Alçamento Nacional, enfim, da augusta Revolução que se constituiu, como observou Goffredo Telles Junior,  na sublevação do Brasil Profundo, Verdadeiro e Autêntico, em plena consonância com os mais entranhados anseios da Nação [1]. Tais anseios foram bem expressos, com efeito, nas diversas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, dentre as quais aquela ocorrida em São Paulo a 19 de Março de 1964, reunindo cerca de quinhentas mil pessoas, foi, sem dúvida alguma, a mais importante.

Nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, o povo brasileiro, em nome de Deus, da Pátria, da Família, das tradições nacionais e das liberdades legítimas, concretas, ordenadas, limitadas pela Moral e pelo Direito Positivo, mostrou seu total repúdio ao (des)governo corrupto, demagógico e incompetente de João Goulart, que se aliara abertamente às forças subversivas, cujo confessado intento era transformar o Brasil em uma ditadura comunista nos moldes de Cuba, da China e da União Soviética. Foi o clamor popular manifestado em tais Marchas que levou os líderes militares a se decidirem no sentido de pôr cobro ao clima de desordem e instabilidade então reinante no País e estimulado pelo próprio Presidente da República. Atenderam eles, com efeito, aos apelos vindos de todos os segmentos da Sociedade Brasileira, realizando a Revolução Salvadora, que, aliás, se fez de acordo com a própria Constituição Federal de 1946, então em vigor, que, no artigo 177, afirma que as Forças Armadas da Nação se destinam a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a Lei e a Ordem.
 
A Revolução de 31 de Março de 1964 não foi, pois, como bem enfatizou Aristóteles Drummond, “nem uma quartelada nem um golpe, mas um amplo movimento político-social de salvação nacional”, que irmanou militares e civis [2]. Foi ela, ademais, como ressaltamos algures [3], uma Revolução tanto no sentido de resistência a um governo injusto, ilegítimo, contrário ao Bem Comum, quanto nos sentidos de Renovação e de Restauração da Ordem, ou, como diria Plínio Salgado, de retorno ao “equilíbrio perdido” [4].
 
Consoante igualmente já salientamos [5], consideramos ser a Revolução de 1964 merecedora de nosso integral apoio e reconhecemos os méritos dos governos que se proclamaram seus continuadores, embora também reconheçamos os não poucos erros destes. E, ademais, lutamos por uma Revolução muito maior e mais profunda, que efetivamente transforme o Estado Nacional Brasileiro, consolide a segurança do País, conforme toda a Ordem Jurídica Positiva às novas exigências impostas pela realidade nacional e internacional, bem como às tradições nacionais e aos princípios do Direito Natural, e implante, no Brasil, um regime em que o Povo seja efetivamente representado, isto é, uma Democracia Orgânica, ou Democracia Integral. Tal Democracia, conforme igualmente sublinhamos, deverá realizar um autêntico Estado Ético de Justiça, ético não por ser a própria encarnação da Ética, mas sim por ser inspirado na Ética, que lhe é anterior e superior, e movido por um ideal ético, e de Justiça não por ser o criador da Justiça, que igualmente lhe é precedente e superior, mas por se pautar nas regras da Justiça e se mover por um ideal de Justiça.
 
Feitas estas breves considerações a respeito da Revolução de 1964, façamos uma breve homenagem ao General Olympio Mourão Filho, que, como reconheceu, sem falsa modéstia, no prefácio de suas Memórias, teve como “verdadeiro e principal papel” aquele de haver “articulado o movimento [revolucionário] em todo o país e depois ter começado a Revolução em Minas”. Como igualmente salientou este bravo militar brasileiro, caso não o tivesse feito, a Revolução “não teria sido jamais começada” [6].
 
“Um militar ilustre, um patriota sincero, um homem que dedicou sua vida ao amor pelo Brasil e ao objetivo de sustentar as nossas tradições cristãs, as tradições da nacionalidade”. Assim se referiu Plínio Salgado a Olympio Mourão Filho, na homenagem póstuma que lhe prestou na Câmara dos Deputados, durante a sessão de 10 de junho de 1972 [7]. Não temos melhores palavras para nos referir a esse bravo soldado de Deus e da Pátria, sentinela, sempre alerta, do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro que é Olympio Mourão Filho, herói nacional comparável a Caxias, Osório, Barroso, Tamandaré, Saldanha da Gama, Plácido de Castro e poucos mais.
 
Nascido em 1900 na cidade de Diamantina, Minas Gerais, Olympio Mourão Filho se formou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, em 1921. Em 1924, quando servia no 14º Batalhão de Caçadores, sediado em Florianópolis, Santa Catarina, participou, em São Paulo, dos combates contra as forças revolucionárias do General Isidoro Dias Lopes. Em 1930, já capitão, aderiu ao movimento que depôs o Presidente Washington Luís. Dois anos mais tarde, após haver lutado contra as forças constitucionalistas de São Paulo, ingressou na Ação Integralista Brasileira (AIB). Foi o primeiro Chefe do Estado Maior da Milícia Integralista e em 1937 ingressou na Câmara dos Quatrocentos, órgão consultivo da Chefia Nacional da AIB. Em 1935, publicou a obra Do liberalismo ao Integralismo, na qual defendeu a substituição da liberal-democracia, “sistema absolutamente falido”, por uma Democracia Integral, ou “Integral-Democracia” [8], bem como a substituição da ordem econômica liberal, alheia às regras da Moral e geradora de injustiças sociais, por uma ordem econômica sujeita à Moral e promotora da autêntica Justiça Social [9].
 
Durante a Segunda Guerra Mundial, Mourão Filho, já tenente-coronel, lutou na Frente Expedicionária Brasileira, ao lado de muitos outros integralistas. Em 1956, alcançou o generalato. E, a 31 de Março de 1964, quando exercia o comando da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria do I Exército, sediados em Juiz de Fora, Minas Gerais, deu inicio à Revolução, rompendo corajosamente a marcha, no dizer de Plínio Salgado, “com a sua disposição de sempre defender as tradições cristãs da Pátria brasileira, de lutar pela verdadeira democracia e de restaurar a hierarquia e a disciplina nas Forças Armadas” [10].
 
Após entrar, vitorioso, no Rio de Janeiro, manifestou o General Olympio Mourão Filho, na expressão de Plínio Salgado, seu “espírito desambicioso, de grande nobreza, de desapego”, provando que “sempre lutou pela Pátria, pelo Exército, pela ordem, pela disciplina, pela democracia, pela liberdade dos brasileiros, mas nunca lutou por seu interesse pessoal”. Na madrugada de 1º de abril, Plínio Salgado, que também se encontrava no Rio de Janeiro, igualmente trabalhando em prol da Revolução, procurou Mourão e soube que ele se tinha apresentado ao Ministro da Guerra e em seguida se retirado para o seu apartamento. Correu então o autor de Vida de Jesus e de Espírito da burguesia ao encontro de Mourão, perguntando o que havia com ele e este lhe respondeu: “Fiz a Revolução para o Brasil e não para mim”. Em seguida, confidenciou ao Chefe Nacional Integralista que no mês de maio cairia na compulsória e este lhe disse que não cairia, pois o Congresso Nacional o promoveria. Imediatamente seguiu Plínio para Brasília, onde incumbiu o Deputado Antônio Sílvio Cunha Bueno de colher as assinaturas de projeto destinado a promover Olympio Mourão Filho a General-de-Exército por grandes serviços prestados à Pátria. Assim, graças a Plínio Salgado, foi Mourão promovido a General-de-Exército, assumindo o comando do IV Exército, no Recife. Depois seguiu para o Rio de Janeiro, como Ministro do Supremo Tribunal Militar, cargo no qual muito se distinguiu e em que se aposentou. Nos últimos anos de sua vida, dedicou-se ao estudo dos problemas brasileiros [11].
 
Encerramos esta singela homenagem ao General Olympio Mourão Filho salientando que este intimorato guerreiro de Deus, da Pátria e da Família, magno herói da Nacionalidade Brasileira, continua vivo, não apenas em sua morada eterna, mas também na História de nossa Pátria e nos corações de todos os verdadeiros patriotas e nacionalistas brasileiros e que seu exemplo frutificará nas gerações vindouras para o bem, o engrandecimento e a glória deste grande Império por nome de Brasil!
Por Cristo e pela Nação!
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 31 de Março de 2014 - LXXXI.
 
 
Notas:
[1] A Democracia e o Brasil: uma Doutrina para a Revolução de Março, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1965, Nota preliminar.
[2] A Revolução de 64, in A Revolução Conservadora: testemunho e análise, Rio de Janeiro, Topbooks, 1991, pp. 21-23. O trecho aqui citado se encontra à página 21. Texto originalmente publicado no jornal Estado de São Paulo a 26 de março de 1989.
[3] Homenagem à Revolução de 31 de Março de 1964. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=149. Acesso em 31 de Março de 2014.
[4] Exposição em torno do Projeto de Lei Agrária, o problema da terra e a valorização do Homem (na sessão da Câmara dos Deputados de 29 de abril de 1963), in Discursos parlamentares, Seleção e introdução de Gumercindo Rocha Dorea (Perfis parlamentares, 18), Brasília, Câmara dos Deputados, 1982, p. 613.
[5] Homenagem à Revolução de 31 de Março de 1964, cit.
[6] Memórias: a verdade de um revolucionário, 3ª edição, Porto Alegre, L&PM Editores, 1978, p. 15.
[7] Olympio Mourão Filho, in Discursos parlamentares, Seleção e introdução de Gumercindo Rocha Dorea (Perfis parlamentares, 18), Brasília, Câmara dos Deputados, 1982, p. 784.
[8] Do liberalismo ao Integralismo, Prefácio de Gustavo Barroso, Rio de Janeiro, Schmidt-Editor, 1935, p. 181.
[9] Idem, p. 76.
[10] Olympio Mourão Filho, in Discursos parlamentares, Seleção e introdução de Gumercindo Rocha Dorea (Perfis parlamentares, 18), Brasília, Câmara dos Deputados, 1982, p. 791.
[11] Idem, p. 792.

31/03/2014, 07:55:09


Os Integralistas na Hora Presente

Os Integralistas na Hora Presente

Os Integralistas na Hora Presente

General Olympio Mourão Filho
Venezuela em Crise: os protestos na perspectiva venezuelana

O líder estudantil venezuelano que utiliza o pseudônimo de Andrés della Chiesa é um antigo amigo da Frente Integralista Brasileira, tendo colaborado conosco em uma entrevista em 2013. Por viver em um país dominado por um regime híbrido de comunismo com populismo de esquerda, o jovem militante não pode utilizar o seu verdadeiro nome para não atrair a indesejável atenção dos agentes venezuelanos e cubanos que vasculham a rede para identificar e prender – ou coisa pior – os líderes do movimento dissidente que tomaram as ruas da Venezuela. Esta grande nação irmã do Brasil tem passado por momentos difíceis desde que o polêmico Hugo Chávez elegeu-se Presidente em 1998, situação que apenas se agravou com o seu sucessor, o caricato Nicolás Maduro. Atualmente, a Venezuela vive um momento crucial, com a feroz repressão do regime às manifestações estudantis que exigem mudanças na política governamental e a cassação ou mesmo a prisão de políticos oposicionistas. Estaria a Venezuela à beira da guerra civil? Ou se encaminhando para a radicalização do regime e a instauração de uma ditadura no modelo cubano (com a participação ativa de agentes do regime castrista)? São essas indagações que Andrés della Chiesa procura esclarecer aqui.

 

***

 

FIB / Relações Internacionais (FIB/RI) - Após um mês de duros combates de rua entre opositores do governo “bolivariano” – principalmente estudantes – e forças policiais e milicianos pró-regime, qual a situação hoje? Esse tempo lutando nas ruas e os 37 mortos fortaleceram a determinação de grande parte da população em derrubar o governo? Ou a repressão e o cansaço podem terminar desmobilizando uma fração significativa dos manifestantes?

Andrés della Chiesa (AC) - Essa é uma das grandes incógnitas atuais. Um protesto generalizado, que poderia ter esmaecido há muito tempo, logrou manter-se no tempo graças a uma série seguida de erros políticos cometidos pelo governo. Estou falando, evidentemente, da repressão militar e policial, da utilização de grupos armados pelo governo em seus ataques aos estudantes, dos mais de 70 casos de tortura denunciados pelo Fórum Penal Venezuelano, de dezenas de mortos e de centenas de feridos. Sem saber, ou talvez consciente da romântica decadência que antecede a queda das grandes tiranias, o governo tem nos dado diariamente razões diárias para continuar nas ruas. Esse não tem sido o problema. Quando falo das incógnitas me refiro, certamente, à finalidade das manifestações. Aí está a grande pergunta. Até onde vamos com tudo isso? Qual o objetivo fundamental do protesto? E, sobretudo, atingido ese objetivo, o que vem depois?

Não sei se essa noticia chegou aos brasileiros, mas é necessário que saibam que, em sua maioria, os protestos foram autoconvocados. Os partidos não tiveram relação com os protestos. Nós nos desentendemos com os partidos e os pusemos de lado. Por isso as críticas constantes de movimentos e organizações de esquerda a nível mundial, acusando-nos, em um discurso requentado, de títeres servis da “direita internacional”.
 
O certo é que o desentendimento com as estruturas partidárias, que é um fato verdadeiramente transcendental e positivo, não poderia deixar de ter consequências imediatas. Uma delas, e mais importante, é a falta de conteúdo e a ausência de propósito. Evidentemente, queremos mudar a Venezuela, mas temos usado um discurso altamente interativo. Queremos liberdade, mas o que é liberdade? Liberdade em relação a que? De Maduro e a sua camarilha? Do comunismo em geral? De todos os políticos corruptos e colaboracionistas? Eu tenho um posicionamento claro. Na Venezuela é necessária uma mudança total no paradigma político. O objetivo a ser traçado não pode ser outro que não seja a queda do governo e o julgamento dos seus dirigentes criminosos. Após isso, uma Junta. Os poderes dessa Junta não são de grande importância. O que é necessário é a formulação de uma Constituinte que permita a recuperação da autonomia dos Poderes Públicos. Pensem: de que serve uma nova liderança se as estruturas corruptas do poder forem mantidas?
 
Outro elemento, que a meu ver é fundamental, é o desacordo ABSOLUTO com qualquer pessoa que haja exercido cargos públicos no governo atual. Mas essas exigências devem ser feitas pelo movimento no seu contexto. E esse é o dificílimo trabalho que temos pela frente. Nos colocarmos de acordo, compreender que os líderes autoimpostos ou, em todo caso, aqueles promovidos pelos meios de comunicação, são perigosíssimos hoje e sempre.
 
A determinação é um valor fundamental e isso na Venezuela não tem faltado. Mas de nada nos serve sem um ideal ou fundamento teórico ao qual nos aferrarmos. A menos que, ao longo dos dias, esse aspecto mude para a direção que indiquei, os protestos estarão condenados a uma morte lenta, paulatina, esmaecendo lentamente.

FIB/RI - A coalizão opositora MUD e Henrique Capriles, o eterno candidato à Presidência da Venezuela pela oposição, tiveram uma participação bastante discreta – para não dizer omissa – durante as manifestações, de certa maneira até mesmo endossando o argumento de Maduro de que os protestos não seriam uma alternativa viável para forçar a mudança de regime. Você acredita que isso possa ter enfraquecido o apoio popular a Capriles e à MUD? Um novo movimento político opositor independente dos velhos partidos poderá surgir do clamor das ruas?
 
AC - Esse tema é delicado. Não creio que seja uma questão a ser conjecturada e sim um fato tangível e legítimo. Consideremos, primeiro, que Capriles Radonski se suicidou políticamente após as eleições de 2013. Não por haver sido derrotado, mas por haver denunciado uma fraude eleitoral e logo apaziguado o protesto que ele mesmo incentivou. Ou seja, quem concebe que um dirigente possa fazer dois discursos absolutamente opostos em um período tão curto de tempo? Isso depende de uma dupla moral e de um cinismo extraordinário. Me parece que essa manobra, certamente muito tosca, fez com que ele perdesse legitimidade. Some-se a isso a capitalização do discurso combatente, manobra audaz de Leopoldo López, quem conseguiu firmar-se como um genuíno contendor no futuro político venezuelano após a sua perseguição e posterior encarceramento.
 
Há uma frase de Ramón J. Velásquez, ex presidente venezuelano e historiador, que é bastante correta, segundo a qual na Venezuela os políticos são forjados na prisão. Mais do que uma proposta romântica, é um método de ascensão verificável. “O heróico personagem que sacrifica a sua liberdade em prol da verdade e da justiça”. Em um país personalista como o nosso, estaríamos falando de um negócio. Engenharia social da modernidade: dirigentes políticos na medida das pretensões dos seus eleitores. Se você pensar bem, continuamos sendo o mesmo povo esotérico e supersticioso do princípio do século XX. Ficamos fascinados quando nos iludem.
 
Acredito que essas palavras refletem a minha postura. Há um movimento político opositor independente, mas que ele tenha surgido do clamor popular ou dos movimentos auto-convocados, não creio. Seria necessário que surgisse, certamente. Eu seria o primeiro a colaborar. Mas me preocupa, sinceramente, a maneira como somos capazes de entregar o nosso destino por uma simples “mudança cosmética” do governo.
 
O que eu estou dizendo é que o venezuelano não se preocupa com as condições estruturais do Estado. Se amanhã um político qualquer ascende como novo líder da nação e não realiza uma transformação orgánica do aparelho estatal, as condições tiránicas e despóticas se manteriam.

Guarda Nacional Bolivariana e opositores do governo de Nicolas Maduro se enfrentam durante manifestação no distrito de Chacao, região leste Caracas. Imagem: Donaire/EFE
 
FIB/RI - Segundo alguns analistas, até o momento as manifestações têm permanecido basicamente como uma expressão da insatisfação das classes médias venezuelanas, havendo apenas uma tímida participação de pessoas provenientes das camadas populares. De acordo com esses mesmos analistas, a situação deverá se tornar mais complicada para o governo nos próximos meses ou anos, quando a economia venezuelana entrar em colapso e o governo não conseguir manter a sua ampla rede assistencialista junto aos pobres. Somente então, com a adesão das camadas populares, as manifestações poderiam derrubar o governo. Você concorda com essa análise? Acha que a situação social venezuelana necessita realmente se deteriorar ainda mais para que o governo caia? As classes populares estão se mantendo majoritariamente apáticas aos protestos?
 
AC - Aqui há muitas vertentes que seria interessante tratar e vou tentar ser o mais enfático possível para não tergiversar. Vale a pena discutir este tema com detalhe.
 
Em primeiro lugar, não sou adepto dessa visão evidentemente materialista da sociedade segundo a qual devemos dividir os partidários e os oponentes de um governo, que está fundamentado ideologicamente, a partir de uma diferenciação econômica e social. Há elementos muito claros aos quais podemos recorrer. Preste atenção como, na Argentina, a maioria dos eleitores e militantes do Partido Operário – de tendência trotskista – são de classe média alta. A esquerda mais radical, se é que há uma forma de descrevê-la, não conseguiu o apoio das massas populares, dos trabalhadores. Estes são essencialmente, anacronicamente, peronistas. Por essa razão, o discurso da maioria dos partidos que ostentaram o poder desde 1983 em diante vai por esse caminho, mesmo que não se pareçam em nada com a mensagem de Juan Perón. Na Venezuela tampouco é possível analisar a situação com métodos tão simplistas. Muitos empresários e membros da sociedade que poderíamos considerar como pertencentes à classe alta, poderosa, são o produto das práticas do Estado. Cada governo cria a sua própria elite econômica. Considerar que o discurso ou a prática marxista é, na verdade, uma resposta violenta frente a uma construção social classista é pecar pela ingenuidade. Sua própria dialética é classista! A ditadura do proletariado. No nosso caso, a tristemente famosa ”boliburguesía[1].
 
Agora, outro feito importante que não pode ser esquecido: o governo chavista, e agora madurista, se apropriou de uma política benéfica em curto prazo: o clientelismo. O problema do clientelismo é que não é sustentável ao longo do tempo e eventualmente começam a ser vistas as costuras. Na Venezuela souberam aproveitar do petróleo, que parecia ser uma fonte inesgotável de divisas, mas não funciona assim. O pensamento demagógico soube construir junto ao eleitorado uma situação de dependência e somou a isso um aparato propagandístico eficiente, que colocou na cabeça da população que, se cair o governo, estes benefícios gratuitos e um sem número de subvenções seriam erradicados. Aí há um problema.
 
Considero que, efetivamente, o clientelismo não faz bem a ninguém. Na Venezuela não há cultura do trabalho e o que se necessita é de uma mudança de esquemas mentais. Note-se que 90% do que consumimos é importado. Que outra evidência é necessária para demonstrar o irrefutável?

Aproveito a oportunidade para derrubar alguns mitos. A educação pública e gratuita existe, no meu país, desde 1880, com a assinatura do decreto 27 por parte de Antonio Guzmán Blanco. Nesse momento, a garantia se dá nas idades compreendidas entre 7 e 14 anos. Ou seja, a escola primária e uma parte do que hoje seria o ciclo secundário. Um ano depois foi fundado o Ministério da Instrução Pública e a expansão da matricula estudantil inicia um crescimento sustentável. Por outro lado, em 1940 o então ministro da Educação Nacional promulga a Lei da Reforma Educacional, na qual se evidenciava o caráter público e gratuito das instituições oficiais. Se falarmos de Educação Superior, será para dizermos que instituições autônomas como a Universidade Central da Venezuela ou a Universidade dos Andes são públicas e gratuitas há décadas. A criação de uma entidade como a “Universidade Bolivariana” não faz senão refletir um erro sugerido por Uslar Pietri em 1948: a crença errônea de que universidade é qualquer edifício que se outorgue tal nome. Falso: o que ocorre é que medimos tudo em termos quantitativos e não qualitativos.

Acrescentaria também que a existência de planos como Bairro Adentro, PDVAL ou Mercal, são a evidência mais tangível da ruína dos sistemas hospitalares e alimentares. Simplesmente possuem um caráter marginalizador. Mas, voltando à premissa do clientelismo, parece que alguns se contentam com migalhas.
 
Dito isso, posso voltar ao tema que nos compete e que acaba sendo mais simples de resumir.
 
Os protestos não são a denúncia única e geral de uma classe média urbanizada. Ainda que, certamente, sempre é a classe média que sofre as dificuldades mais terríveis da crise econômica. O mal-estar social se concentra nela. Em quem mais? As classes altas podem suportar esses males econômicos, que em pouco ou nada os aflige. Os mais necessitados conhecem a miséria em primeira mão e possuem certas condições de adaptação por costume que não existe na classe média.  
 
Entretanto, por vezes a mesma realidade é suficiente para deixar de lado os preconceitos. Tem ocorrido manifestações em Petare, Catia e el Valle. Regiões com baixos recursos, com índices de criminalidade altíssimos e onde trabalham muitos criminosos pagos pelo governo. Faz algumas semanas ocorreu uma manifestação, sem dúvida humilde, no bairro 23 de Enero, bastião do “Coletivo Tupamaros”.
 
O que eu quero expor com isso é que as pessoas necessitam aprender a diferenciar, porque o afã generalizador termina por frivolizar. E dessa maneira não se pode avaliar a situação de maneira imparcial. Esta não é uma crise dos venezuelanos privilegiados porque não conseguem papel higiênico ou porque aumentaram as passagens para Miami. Todo aquele que acredite nisso é um ignorante. É uma denúncia legítima. Quando a turba vai matá-lo não perguntam para você o quanto ganha ou em quem votou. Quando você se entrega à interessante aventura de conseguir alimentos, tampouco existe uma valoração desse tipo. Ao chavismo/madurismo convém simplificar o inimigo, assim é mais fácil atacá-lo. Mas o problema é mais complexo e mais profundo. 
 
Sobre se eu creio que é necessária a adesão maciça dos bairros ou classes populares para derrubar o governo... Parece-me que com muito menos é possível. Uma massa crítica pode não ser necessária. Sou dos que acreditam que é sempre uma elite condutora que decide os destinos de uma nação.

FIB/RI - Para muitos a piora na situação venezuelana ocorreu após a morte de Chávez, em março de 2013. Segundo essa perspectiva, a culpa pela grave crise econômica e de segurança pública na Venezuela não seria do chavismo e sim da inabilidade e incompetência pessoal do Maduro. Podemos dizer que o governo atual é ainda pior do que o de Chávez? A grave crise pela qual passa a Venezuela é principalmente fruto do “bolivarianismo” ou da incompetência de Maduro?
 
AC - Essa é uma estratégia que a mim, pessoalmente, me deixa muito indignado. Mas não é a primeira vez que se utiliza. É típico da esquerda histórica culpar os outros pelos seus erros. Se o problema é ideológico, acontece que o governo aplicou mal os princípios de Marx. Se o problema está ligado com a relação entre o Estado e o indivíduo e somamos a isso que essa relação se tornou repressiva e hostil, é porque eram fascistas, jamais comunistas. Estes são uns santos. Se a circunstância é típica de um momento temporal, manifesta-se em sujeitos particulares. Neste caso, Maduro.
 
Vamos direto ao ponto. Os problemas da Venezuela vêm se arrastando por décadas. O chavismo é a conseqüência de abusos sustentados por um sistema partidocrático envelhecido. Aquele, por sua vez, aprofundou os problemas da Venezuela. Maduro é um dirigente muito incompetente, isso é óbvio, mas Chávez levou o país para o abismo de forma premeditada. Se tivéssemos que julgar ambos pelo mesmo crime, Chávez teria o agravante da traição. Não foi Maduro quem entregou o país a Cuba, não foi Maduro quem armou os coletivos, não foi Maduro quem deixou que o crime corresse solto nas nossas ruas, não foi Maduro quem iniciou a repressão ou o revanchismo político, tampouco foi Maduro quem dividiu o país com um discurso hostil e agressivo para dividir e polarizar a população até o ponto insustentável que vivemos hoje. Foi Chávez quem fez tudo isso. Maduro tem muito que aprender com ele.
 
É uma pena que ele já não esteja entre nós. Ele deixou muitas dívidas pendentes com o povo venezuelano.

FIB/RI - Em 2002 as Forças Armadas venezuelanas participaram ativamente da revolução fracassada contra Chávez. Entretanto, desta vez os militares não se manifestaram a respeito dos protestos contra o governo. O que mudou de 2002 para agora? Há alguma chance dos militares venezuelanos apoiarem uma revolução nacional contra o chavismo ou foram cooptados pelo governo?
 
AC - Lembre-se de uma coisa. Em pouquíssimas ocasiões da história nacional um governo foi tão favorável aos militares como o de Hugo Chávez Frías. Estenda-se isso a Nicolas Maduro. O que acontece é que houve uma excelente compreensão da arquitetura política nacional. Aqui é necessário ter a aprovação das Forças Armadas para poder levar adiante um projeto político.
 
O Partido Ação Democrática foi o primeiro a entender isso, e sem o desenvolvimento paulatino de interesses dentro das instituições militares, nunca teriam podido derrotar o general Pérez Jiménez. Ironicamente, alguém que os apoiou treze anos antes, quando derrubaram o governo civil de don Rómulo Gallegos.
 
Se prestar atenção, há algo muito interessante após cada eleição na Venezuela; uma vez que o Conselho Nacional Eleitoral anuncia o vencedor irreversível, uma comissão das Forças Armadas referenda as palavras da Justiça Eleitoral. Não é curioso? Que peso pode ter a palavra do estamento militar quando tudo já está dito por quem supostamente detém o verdadeiro poder? Na Venezuela as coisas funcionam assim, o que nos dá muito que pensar.
 
Sobre a possibilidade de uma “revolução nacional” contra o chavismo, teríamos que ver... A História dá muitas voltas e general não define exército.

Manifestantes antigoverno usam escudos improvisados como proteção durante confrontos com a Guarda Nacional Bolivariana. Imagem: Jorge Silva/Reuters
 
FIB/RI - Juan Carlos Hidalgo, analista de Políticas Públicas da América Latina no Centro para la Libertad y Prosperidad Global do Cato Institute, afirmou em uma recente entrevista que: “A maior ameaça para Maduro não é a oposição na rua, mas o próprio chavismo. Recordemos que o chavismo é uma união de facções que já foi descrita como um ninho de lacraus. Não se entendem mas mantêm-se juntos para continuar a lucrar com a grande corrupção que existe em redor das receitas petrolíferas.”. Você está de acordo com essa afirmação de que a maior ameaça ao governo de Maduro poderá ser a divisão existente entre os chavistas e não a oposição ou os protestos?
 
AC - A idéia não é nova. Vem sendo discutida há algum tempo e readquiriu importância após a morte de Hugo Chávez. Este último, um militar, mas também um personagem com um discurso fortemente ideológico, soube aglomerar tanto os apaixonados empedernidos como membros do setor castrense, pouco dados a sensibilidades. Evidentemente, as fraturas dentro do chavismo existem. Não há porque negá-las. Mas duvido que seja um fator de ruptura, pois não creio que possam ser tão inconscientes.
 
Muitos costumam falar do poder de um homem como Diosdado Cabello, presidente da Assembléia Nacional. Mas para mim ele sempre me pareceu um grande leitor de Maquiavel. Para ele é mais conveniente estar na sombra, mover fios, manter a sua cota de poder. Não sei o quanto é importante para ele o protagonismo, que já tem de sobra e não por boas razões.
 
O que posso assegurar é que, tal como ocorre com toda proposta messiânica, o governo perdeu um sem número de eleitores comprometidos. A razão é simples: votavam em Chávez, não no Socialismo do Século XXI. O projeto político que atualmente governa a Venezuela não é algo que possa sustentar-se através do tempo, a menos que a “oposição” política permita essa situação para seguir havendo uma aparência democrática.
 
Fui testemunha de tanta complacência e colaboracionismo nos últimos anos que não me surpreenderia.

FIB/RI - Sabe-se que os subsídios petrolíferos fornecidos pela Venezuela são cruciais para a economia cubana e, portanto, para a manutenção do regime comunista em Cuba. Qual tem sido o papel dos cubanos na repressão às manifestações na Venezuela? No caso dos protestos recrudescerem, é possível que os cubanos passem a ter um papel mais ativo na repressão? Acredita que a situação possa evoluir até o ponto em que o povo venezuelano tenha que lutar em uma guerra de libertação contra uma Cuba convertida em potência colonial na Venezuela?
 
AC - Cuba passou por diferentes processos de transição. Diria também que por três crises importantes. A primeira, após o bloqueio econômico realizado pelos Estados Unidos. A segunda, após a queda da União Soviética, defensora internacional das suas práticas absolutistas. A terceira está sendo vivida hoje em dia, e é a possibilidade de perder a máquina de fazer dinheiro que é a Venezuela.
 
Eles colocaram os olhos em nossa terra desde sempre. Nos anos 60, certamente, nos invadiram. Chegaram inclusive a treinar um grupo de traidores nacionais, que hoje fazem a vida na oposição, para atacar o governo e a população – por meio do “dano colateral”. Era a época do foquismo, da guerrilha rural e urbana. A invasão de Machurucuto coloca um ponto final na situação. Uma simples declaração de guerra que foi respondida de forma eficiente pelo grupo de comandos Caçadores. O que tento mostrar é que se há algo que os partidários do regime de Castro souberam cultivar é a paciência. Não se renderão tão facilmente.
 
Há denúncias, fui testemunha de um par delas, de soldados cubanos disfarçados de Guardas Nacionais ou de civis, reprimindo os protestos. Os que foram seqüestrar, porque se tratava de um seqüestro, o general Vivas Perdomo, eram cubanos. Além disso, são muito ostensivos nesse sentido. Eles não se importam que saibamos. Têm sotaque muito forte e qualquer um pode perceber. Entretanto, há pessoas que se preocupam mais porque “O Império” ou “A CIA” praticam a ingerência na Venezuela, quando há evidências tangíveis da presença estrangeira no país, colaborando ativamente com o governo e nos atacando sem maiores delongas.
 
Não sei você, mas eu creio que, como dizem na Espanha, ou todos mouros, ou todos cristãos.

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, cumprimenta os simpatizantes de seu governo durante um comício com os agricultores, em Caracas. Imagem: Tomas Bravo/Reuters
 
FIB/RI - Vergonhosamente, os governos da América Latina têm se mantido alheios à situação na Venezuela – incluindo a presidente do Brasil, Dilma Roussef. Como isso está repercutindo entre os manifestantes? Existe a percepção de que o posicionamento dos governos esquerdistas não representa a opinião majoritária entre a população?
 
AC - Essa pergunta é retórica. Ambos sabemos a resposta.
 
Parece que os governos somente são autoritários e o terrorismo de Estado somente existe quando não corresponde à própria postura política. Costa e Silva era, sim, uma assassino, mas acontece que os 37 mortos que nós tivemos ainda por cima são nossa culpa. O governo não teve nada a ver com a situação. O mesmo acontece na Argentina, Chile ou Paraguai. Stroessner, Pinochet e Videla são execráveis, mas a nós que parta um raio.  
 
Há uma dupla moral muito repugnante em tudo isso e as pessoas deveriam fazer eco dessa situação.
 
Não sei quem poderia sentir-se representado por quem ostenta um discurso que pouco ou nada tem a ver com o seu acionamento. Por acaso porque um governo diz possuir um discurso “social” ele reflete, necessariamente, os problemas e as complexidades do seu país?
 
Pouco me importa o que tenham para dizer os presidentes da América e do mundo. Estou mais preocupado com o que pensam os seus cidadãos. Eu os convidaria a vir à Venezuela para ver se decidem de uma vez a quem apoiam: se os estudantes, comerciantes, trabalhadores, profissionais e demais moradores, os que temos de conviver com a miséria e o submundo, ou o governo, que por acaso possui o monopólio legítimo da violência.

Decisões, decisões...


Alexandre Villacian
Um dos dirigentes do núcleo de Curitiba (PR), Alexandre é também coordenador da Secretaria de Relações Internacionais da Frente Integralista Brasileira. 

 

Notas:
[1] Boliburguesía é um neologismo venezuelano fundindo as palavras “bolivariano” e “burguesia” e é utilizada para definir os partidários do chavismo que enriqueceram graças à proximidade com o regime.


14/04/2014, 13:07:16


Protestos na Venezuela: uma análise completa
Nota de esclarecimento aos portais BBC Brasil, iG e Terra

Foi publicada, nos portais BBC Brasil, Último Segundo - iG, e Terra, uma reportagem sobre a Fazenda Cruzeiro do Sul, originalmente publicada, em inglês, no portal da agência de notícias britânica British Broadcasting Corporation (BBC).

Tal reportagem reproduz graves inverdades históricas a respeito do Integralismo e da Ação Integralista Brasileira (AIB), afirmando, com efeito, que esta se constituiu em uma “organização de extrema direita simpatizante do Nazismo”. Em verdade, porém, Plínio Salgado, Chefe Nacional da AIB, assim como de todo o Movimento Integralista, jamais aceitou os conceitos modernos de “esquerda” e “direita”, surgidos com a chamada Revolução Francesa, afirmando que tais conceitos não existem para aqueles que possuem uma visão integral da Sociedade, do Mundo e das nações [1], e foi, ademais, o primeiro grande pensador brasileiro e hispano-americano a denunciar o racismo e o totalitarismo nacional-socialista, assim como o culto à personalidade do Führer, na célebre Carta de Natal e Fim de Ano, de 1935 [2], e também em outros escritos. No artigo Nacional-Socialismo e Cristianismo Social, dado à estampa em 14 de fevereiro de 1936 no jornal integralista A Offensiva, do Rio de Janeiro, assim escreveu, com efeito, Plínio Salgado:

No caso da Alemanha, não tenho dúvida (pelo que tenho lido nos livros nazistas, notadamente no livro de Hitler – Minha Luta – e pelo que tenho deduzido das medidas e iniciativas governamentais), que o governo hitlerista está, sem dúvida alguma, infringindo as mais sagradas leis naturais e humanas e dando lugar a que católicos, ciosos do livre arbítrio e da intangibilidade do homem e de sua família, se rebelem contra o Estado. (...) O ascetismo, a mística, (...) a super-humanização do tipo do Fuehrer, a sua divinização ao ponto de o considerarem, os mais exaltados, a encarnação de Odin, exprime um artificialismo político que foge de toda a base e equilíbrio da razão humana. Nós, os integralistas, que somos coisa absolutamente diferente do nazismo e do fascismo, não nos cansamos de dizer que o nosso fundamento é cristão [3].
 
Como assinalou a própria reportagem, o Integralismo sempre pregou a união de todas as raças, partindo do pressuposto de que, como ressaltou Plínio Salgado, “o problema do mundo é ético e não étnico” [4]. Ademais, a Ação Integralista Brasileira reuniu, em suas fileiras, milhares de negros, dentre os quais podemos destacar João Cândido, o famoso “Almirante Negro”, assim como o ativista negro, teatrólogo, escritor e artista plástico  Abdias do Nascimento, o sociólogo Guerreiro Ramos, o escritor e militante negro Sebastião Rodrigues Alves e o advogado, professor de Direito e escritor Dario de Bittencourt, membro da Academia Sul-Riograndense de Letras e primeiro Chefe Provincial da Ação Integralista Brasileira no Rio Grande do Sul. Cumpre salientar, ainda, que sempre foram excelentes as relações entre a Ação Integralista Brasileira e a Frente Negra Brasileira (FNB), maior movimento negro da História do Brasil e de toda a América Hispânica, que teve como principal líder Arlindo Veiga dos Santos, também Chefe Geral da Ação Imperial Patrianovista Brasileira (AIPB). O jornal da FNB, intitulado A voz da raça, chegou, aliás, a ter como epígrafe o lema “Deus, Pátria, Raça e Família”, inspirado no lema Integralista “Deus, Pátria e Família”.
 
Diversamente, porém, do que afirmou a reportagem ora em apreço, não eram muitos os integralistas que, apesar da posição antirracista da AIB, sustentavam um antissemitismo de cunho racial. Aliás, se havia tais casos, eram eles poucos e isolados. Com efeito, como sublinhou o liberal e, como tal, insuspeito Francisco Martins de Souza, em Raízes teóricas do corporativismo brasileiro, mesmo Gustavo Barroso, o mais antijudaico dos doutrinadores integralistas, jamais foi adepto de um antijudaísmo de fundo racial [5]. Na obra Judaísmo, Maçonaria e Comunismo, o autor de O Quarto Império (Gustavo Barroso), havendo proclamado suas convicções antirracistas e criticado o racismo nacional-socialista, asseverou que seu antijudaísmo era justamente uma resposta ao “racismo judaico” [6], e, no livro A sinagoga paulista, chegou a convidar o advogado e político Abraão Ribeiro, segundo ele judeu, a ingressar na Ação Integralista Brasileira, seguindo o exemplo do filho [7].
 
Isto posto, cumpre assinalar que, diversamente do que afirma a reportagem, o Integralismo não foi, ou melhor, não é um movimento de cunho fascista, ao menos que se chame fascista, como muitos o fizeram na década de 1930, a todos os movimentos cívico-políticos espiritualistas, tradicionalistas e nacionalistas. Isto porque o Integralismo, ao contrário da posição oficial do Fascismo italiano, se inspira no Tomismo [8] e não no idealismo hegeliano e condena o Estado Totalitário [9], assim como sustenta o Direito Natural Tradicional, ou Clássico [10]. A seguinte crítica de Gustavo Barroso ao governador de São Paulo, Armando Sales de Oliveira, responde, com efeito, a todos aqueles que afirmam que o Integralismo é fascista com base em suas exterioridades ou mesmo em elementos isolados de sua Doutrina:
 
Este [Armando Sales de Oliveira] confunde Estado Integral com Estado Totalitário. Ele julga que Fascismo e Integralismo vêm dar no mesmo. Ambos têm camisas. Ora, se têm camisas parecidas, são iguais. Os fundamentos doutrinários, as concepções filosóficas, as arquiteturas sociais, políticas e econômicas, dissemelhantes e até contrários, às vezes, esses não interessam a quem faz programas de superficialidades [11].
 
Antes de encerrar a presente nota, reputamos ser oportuno ressaltar que o fato de o símbolo da Fazenda Cruzeiro do Sul haver sido a suástica não significa que os seus proprietários fossem simpatizantes do Nacional-Socialismo, uma vez que a suástica é um símbolo tradicional, presente, com pequenas variações, em diversas culturas, do México ao Japão, sendo, ademais, muito comum seu uso em todo o Ocidente até a II Guerra Mundial. Salientamos, ainda, que julgamos que Osvaldo Rocha Miranda é inocente das acusações que lhe têm sido imputadas, frisando, ademais, que a redução de pessoas a condição análoga à escravidão é totalmente contrária aos princípios do Integralismo, bem sintetizados, no que se refere à concepção laboral, na Carta Integralista do Trabalho, escrita por Gustavo Barroso [12].

 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 11 de fevereiro de 2014 - LXXXI.
 
 
Notas:
[1] “Esquerdas” e “direitas”, in Palavra nova dos tempos novos (1936), 4ª edição, in Obras completas, volume 7, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1957, pp. 249-254. O trecho aqui citado se encontra à página 249.
[2] Carta de Natal e Fim de Ano (1935), in O Integralismo perante a Nação (1946), in Obras Completas, volume 9, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1959, pp. 139-149. Texto também disponível na obra Madrugada do Espírito (1946), 4ª edição, in Obras completas, volume 7, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1957, pp. 429-436.
[3] Apud Jayme Ferreira da SILVA, A verdade sobre o Integralismo, 2ª edição, São Paulo, Edições GRD, 1996, pp. 29-30.
[4] Trechos de uma carta. In Panorama, Ano I, Nº 4 e 5, abril e Maio de 1936, p. 5. Também disponívelem: http://pliniosalgado.blogspot.com/2011/02/trechos-de-uma-carta-plinio-salgado-em.html. Acesso em 28 de setembro de 2011.
[5] Raízes teóricas do corporativismo brasileiro, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1999, p. 49.
[6] Judaísmo, Maçonaria e Comunismo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1937, p. 128.
[7] A Sinagoga Paulista, 3ª edição, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1937, p. 69.
[8] Cf. Gustavo BARROSO, Comunismo, Cristianismo e Corporativismo, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1938, p. 98.
[9] Cf. Plínio SALGADO, Estado Totalitário e Estado Integral (1936), in Madrugada do Espírito, in Obras completas, volume 7, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1957, pp. 443-449.
[10] Cf. Plínio SALGADO, O que é o Integralismo (1933), in Obras Completas, volume 9, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1959, p. 77.
[11] A Sinagoga Paulista, 3ª edição, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1937, p. 98.

[12] Carta Integralista do Trabalho, in Integralismo e Catolicismo, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1937, pp. 281-286.


11/02/2014, 21:26:04

Eleições 2014: Comunicado prévio à Orientação Eleitoral

Na sua atual fase organizacional, o Integralismo, não se manifestou como entidade partidária, adotando por enquanto juridicamente a personalidade de sociedade civil. Todavia, sendo um movimento cívico, político e social, não pode omitir-se face às próximas eleições, obrigando-se moralmente a Orientar o Voto dos Integralistas.

Doutrinariamente sabe-se que no futuro Estado Integralista o Voto não será obrigatório. Todavia, historicamente, o Movimento Integralista jamais fez sua a campanha anarquista pelo voto nulo, pelo contrário, as diversas Organizações de que se revestiu o Integralismo sempre estimularam a participação dos Integralistas na Política Nacional, quer como Candidatos (Os primeiros lançados em São Paulo e no Ceará, já em 1933), quer como Eleitores. Assim, mantendo a linha de coerência histórica, a Frente Integralista Brasileira, não poderia ter uma posição diferente daquela que o nosso Movimento vem seguindo nos mais de 80 anos de sua existência.
 
Entretanto, realistas que somos, os Integralistas, não podemos deixar de reconhecer que a cada Eleição, o nível dos políticos profissionais vai se degradando por tal forma que, aquele velho expediente de votar no “menos pior” tornou-se quase impossível, pois, não há “menos pior”, todos são PÉSSIMOS. Trata-se de uma lastimável realidade concreta.
 
De qualquer forma solicitamos aos Companheiros de todo o Brasil que examinem os Candidatos de seus respectivos Estados (Senadores, Deputados Federais e Estaduais, Governadores) à luz da Doutrina do Integralismo, identificando aqueles que poderão merecer o Sufrágio dos Integralistas. Feita tal análise, comuniquem o resultado à Direção Nacional da F.I.B. que, se for aprovada, terá então acolhida na “Orientação Eleitoral”. Insistimos que o estudo de tais Candidatos deve ser feito à luz do Ideal Integralista, e não de um anticomunismo rasteiro que só serve para levar água ao moinho liberal e a consolidação da escravização de nosso País ao Poder Econômico Mundial. Não é porque um apátrida se diz anticomunista que vá merecer o Voto dos Camisas Verdes. Quanto à Candidatura Presidencial, a deliberação caberá ao Presidente e demais Hierarcas Nacionais da FIB, decisão esta que se fará conhecida quer pela já mencionada Orientação Eleitoral, quer através de um Comunicado Oficial especial.
 
Aguardaremos os conscienciosos informes dos Companheiros para que possamos elaborar uma “Orientação Eleitoral” digna da influência que já estamos exercendo na hodierna Vida Política Nacional, para desespero histérico dos comunistas e pavor da burguesia podre.
 
Pelo Bem do Brasil!
Anauê!
 
Sérgio de Vasconcellos
Secretário Nacional de Doutrina e Estudos
São Paulo, 25 de Janeiro de 2014.
Ano IX da Frente Integralista Brasileira
Ano LXXXI da Era Integralista

03/02/2014, 02:42:16

A Luz Ausente

Alguma coisa está ausente do mundo. Sim: o mundo esta separado de al­guma coisa. Há na sua tormenta, na agitação dos dias presentes, essa vaga inquietação indefinível, esse mal-estar que não se compreende bem. Referve no complexo universal o limbo de todos os desejos e as tendências de todas as exaltações. Uma super-excitação nervosa passa como calafrio sobre a superfície da Terra.

E não se sabe ao certo se a Humanidade vive num crepúsculo, na indecisão das formas e das cores, na confusão de todos os aspectos, da hora melancólica do anoitecer; ou se já nestes anseios frementes vibra o anuncio de novas au­roras.
 
No fundo de todas as angustias das Nacionalidades e das massas populares, o que é fora de dúvida é que se percebe um desequilíbrio, em tentativas supremas para uma recomposição de ritmos e de harmonias.
 
De que mal sofre o Mundo?
 
 * * *
 
Para se compreender as surdas re­voltas das multidões: para se penetrar na psicologia agitada dos governos; pa­ra se surpreender o lineamento preponderante de uma literatura de confusão, de uma filosofia de perplexidade, de uma política de desconfiança, de uma atitu­de de recíprocos rancores; para se pro­curar a incógnita do mundo contemporâ­neo, – não temos mais do que examinar o caso particular de cada um de nós, ou dos que nos rodeiam.
 
Então, logramos descobrir algo que nos esclarece o entendimento, como que uma suave mão guia o nosso raciocínio através das sombras. E o mistério da hora presente revela-se no mistério de cada drama pessoal.
 
O mundo esta morrendo pela ausên­cia do “espírito”.
 
Ausência do “espírito”...
 
Como é fácil e, ao mesmo tempo, difícil compreender o que seja o “espírito”. É preciso ter uma noção integral da pró­pria criatura humana. E a Humanidade de hoje perdeu completamente o senso da personalidade, o sentido das proporções e dos limites, a percepção da harmonia das formas, a intuição dos equilíbrios exa­ctos, o sentimento das euforias perfeitas.
 
Como definir a alma, se todos se esqueceram dela, completamente, numa civilização em que só se cultivou a matéria? Como entendê-la, se ela fala uma lingua­gem tão diversa do idioma falado por criaturas que fizeram da vaidade, da exibição, dos egoísmos mais torpes e dos orgulhos mais imbecis, toda a razão da sua vida?
 
Por que sofrem os povos todos os terrores recíprocos, nos dias que correm? Por que se agitam as classes, na luta tremenda? Por que se miram desconfia­das, as autoridades nacionais? Por que se aumentam os efetivos das polícias secretas? Por que se multiplicam tantos crimes? Por que estampam os jornais tantos escândalos? Por que se odeia tanto, se agride tanto, se luta diariamente uma batalha soturna, trágica, sob as aparên­cias das maneiras corteses?
 
O mal cresceu e assombrou as Nações. Multiplicam-se as perversidades. Os fracos são esmagados pelos fortes. A vio­lência é a lei geral, como é a lei par­ticular.
 
* * *
 
Basta olhar para a sociedade atual, exibicionista, fútil e preocupada exclu­sivamente com as coisas materiais. Essa sociedade sem delicadeza moral, sem capacidade de renúncia, sem finura, sem altitude; essa sociedade estandardizada, jo­guete nas mãos dos exploradores e escravizadores internacionais; ela revela-nos todo um sentido deprimente de civilização desmoralizadora, em que decai, dia a dia, a dignidade da criatura humana.
 
Escrava de todos os instintos; fa­minta de todos os prazeres; submetida a todos os caprichos e exigências da moda, – a sociedadecontemporânea vive a vida exclusiva dos impulsos, que são tão impetuosos ao ponto de desconhecerem todas as leis dos deveres, que são as eternas leis do Espírito.
 
Tal o que sucedeu nos fins do Impé­rio Romano, as preocupações do corpo do­minam, hoje, completamente, as preocupa­ções da Alma. E, como era lógico, em vez de lucrar com isso o corpo, ele deprime-se, deforma-se, perde a eurritmia sagrada que procede das geometrias mara­vilhosas do Espírito.
 
O corpo perdeu o prestigio; tornou-se a coisa vulgar, miserável, sem digni­dade e sem beleza, artificioso nas suas expressões, incapaz de despertar o encanto das épocas de pudor e de recato. Li­vre do império da consciência, cata-ven­to de todas as irreflexões, entregou-se a todos os vícios, sob a capa de todas as liberdades.
 
E, quando se julgou livre, estava escravo. Essa escravização despertou em coro as vaidades sem freio. As vaidades açularam os egoísmos. Os egoísmos destruíram todas as estruturas dos deveres morais. E, destruídas as estruturas des­ses deveres, tivemos uma Humanidade re­baixada, cujos aspectos, na sociedade moderna, atingem os níveis inferiores das mais torpes animalidades.
 
* * *
 
Uma luta sem tréguas desencadeou-se sobre a Terra. Luta da criança contra os pais e mestres. Luta da mulher a procura de uma ridícula emancipação que a torna mais escrava, mais miserável, mais deslocada do centro de interesses da Espécie e da própria Sociedade. Luta dos empregados e patrões. Luta na concorrência comercial desenfreada. Luta dos partidos políticos. Luta de interesses inconfessáveis, em todos os setores da atividade social. Luta dos orgulhos e susceptibilidades. Luta dos ódios implacáveis. Luta das desconfianças recípro­cas. Luta das insubordinações e das rebeliões. Luta das insatisfações da matéria.
 
Essa tremenda batalha, que se sur­preende no recesso dos lares, no reces­so dos estabelecimentos comerciais, no interior dos quartéis, das repartições públicas, das escolas, e que se generaliza desde o armazém da esquina ao grande “trust”, e desde o drama passional dos arrebaldes, com suicídios e homicídios, até a tragédia dos conflitos monstros das mazorcas e levantes, – essa tremen­da batalha vai refletir-se na vida in­ternacional, e já não há possibilidade de se evitarem as guerras, as situações tensas entre os governos, a confusão universal e os terrores recíprocos das
Nacionalidades.
 
* * *
 
Alguma coisa está ausente do mundo.
 
Uma treva desceu sobre o gênero humano...
 
Que remédio poderemos dar para que estas trevas se transformem na rutila aurora dos tempos novos?
 
Como poderemos invocar a Luz-Ausente?
 
* * *
 
É preciso clamar pelo retorno do Espírito.
 
Que ele ilumine todas as coisas materiais. Que desça no desamparo da hora que passa. É a luz que desertou do mun­do. Ou ela volta, ou nos lançamos na ruína e no apodrecimento.
 
Que Deus faça baixar sobre nos a Luz-Ausente...
 
 
Plínio Salgado
In Memoriam (1895 — 1975). Político, escritor, jornalista, psicólogo e filósofo brasileiro que fundou e liderou a Ação Integralista Brasileira (AIB); chefe perpétuo do movimento integralista.
 
 
Nota:
[1] Artigo extraído do informativo Província da Guanabara: SALGADO, Plínio. A Luz Ausente. Província da Guanabara, Rio de Janeiro, Nº 5, pg. 4, maio de 1952.

19/10/2013, 12:43:52


A Luz Ausente
125 anos de Gustavo Barroso

Em 29 de dezembro, a Frente Integralista Brasileira (FIB), herdeira do legado da gloriosa Ação Integralista Brasileira (AIB), lembra os 125 anos do nascimento do grande literato e acadêmico Gustavo Barroso, que, ao lado do Chefe Nacional Plínio Salgado (1895-1975) e do filósofo e jurista Miguel Reale (1910 – 2006), formou na década de 1930 a célebre tríade dos principais teóricos e líderes do Integralismo.

“Acostumei-me a achar-lhe nas contradições, tão de Fortaleza na simplicidade comunicativa, João do Norte, tão grandioso na ambição de ser o que imaginava – um tanto de gigante e de criança”. - Pedro Calmon, “Memórias”.
 
“Apertei-lhe respeitosamente a mão, passei-lhe o olhar guloso pela galeria, vi no chão, apoiados à parede, quatro retratos à óleo, subi correndo a livraria, achei um volume de medalhas heráldicas, e desci, apressado. Informava ao diretor que os quadros eram evidentemente do espólio da imperatriz Leopoldina. Nada menos do que Metternich, o imperador Franz I, os reis de Espanha e de Inglaterra, Fernando VII, goiesco, Jorge IV, primoroso! Barroso iluminou-se com a descoberta; ordenou que fossem suspensos na sala do I Reinado; e travou comigo (graça que devi àqueles ilustres personagens) a amizade que nos uniu até o fim”.
 
As palavras são de Pedro Calmon (1902-1985), um dos maiores historiadores brasileiros, retiradas de suas Memórias – Editora Nova Fronteira, 1995; tinha 23 anos de idade quando, recomendado por Miguel Calmon, fora nomeado 3° oficial interino do Museu Histórico Nacional. Denota a narrativa o profundo respeito do jovem por seu superior, Gustavo Barroso, fundador e diretor da instituição, inaugurada em 1922, no Rio de Janeiro. Era já Barroso, por esse tempo, notório intelectual: “A popularidade bafejara cedo Gustavo Barroso. Tinha memória invejável, cultura enciclopédica, resolutas disposições de atividade. Nas sessões solenes ou nos bailes oficiais, destacava-se como o brasileiro mais condecorado”.
 
De fato, a invulgar genialidade de Barroso, identificada desde cedo, o colocava, ainda moço, entre os grandes de sua época; sua profícua obra literária superou a marca dos cem títulos e, quando de sua morte, o qualificou na restrita galeria dos imortais da Pátria!

 
As secas
 
Seguindo ainda Pedro Calmon: “Tinha talento – multiplicado em dezenas de livros – e a vistosa presença de um homem forte, belo na mocidade, olhos claros traindo a origem alemã (do avô Dodt), cabeça cearense, alma patriótica; adivinhávamo-lhe a tendência para a grandeza, a ênfase, o espetáculo”.
 
Grandeza expressa até no nome: Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha Barroso. Nascido a 29 de dezembro de 1888, em Fortaleza, Ceará, terra massacrada pelas secas, três das quais ficaram famosas e lembradas pela gente cearense como as “dos dois setes, dois três oitos, dos dois zeros”, em referência às secas de 1877, 1888 e 1900, que castigaram fortemente a terra e o povo do Ceará.
 
Em carta destinada à pesquisadora decana cearense Maria da Conceição Souza, escrita no Rio, em 25 de março de 1958, Barroso relembrara o passado de menino quando, em companhia do pai, coronel Antônio Filino Barroso, percorria as áreas afetadas pela seca: “Em 1898, tinha eu dez anos e vi a primeira seca. Indo com meu pai à tarde ao nosso sítio do Benfica, encontramos os cajueiros pejados de redes sujas de retirantes. Ele pegou-me da mão e, com os olhos rasos de água, me disse: ‘Meu filho, nunca pensei depois de 1877 ver mais estas cenas!’ Elas continuaram tempo além. Quando terá fim o doloroso martírio de nossa gente? Os governos se sucedem e os paliativos também. O que um Epitácio quer fazer, um Bernardes destrói. Duro destino contra o qual temos de erguer o peito no desafio de sempre: desgraça pouca é tiquinho! Ou bobagem...”
 
Se pelo lado materno Barroso tinha antepassados de raça germânica, pelo lado paterno possuía ascendentes brasileiros “da gema”, como se expressara na dedicatória de uma de suas maiores obras, Brasil, Colônia de Banqueiros, de 1934. Sangue alemão na nobreza do caráter, sangue brasileiro no espírito fortificado! Orgulhoso do berço nordestino, costumava utilizar o pseudônimo João do Norte. Na primeira fase de sua produção literária, valorizou o folclore e o regionalismo. Terra de Sol, de 1912 – seu primeiro livro - e Praias e Várzeas, de 1915, são verdadeiras joias da literatura regional brasileira, valendo do grande folclorista Luiz da Câmara Cascudo, o seguinte comentário: “Foi um mestre incontestável do folclore brasileiro, valorizando-o em fase em que ninguém percebia interesse e valia, enriquecendo-o com livros de notável erudição, divulgando os confrontos temáticos que revelavam a universalidade e velhice do que se julgava local e apenas pitoresco no momento. Um estilo ágil e claro, de discreta elegância vocabular, trazia uma força de comunicabilidade admirável”.
 
 
 
1º Edição de “Terra do Sol” (1912), obra inaugural de Gustavo Barroso (João do Norte)
 
 
A formação
 
Gustavo Barroso foi educado no Liceu do Ceará até o ano de 1906 - em 1940, o livro Liceu do Ceará comporia o segundo volume de sua trilogia de memórias, iniciada com Coração de Menino (1939) e concluída com Consulado da China (1941). Em 1907, Barroso, cursou a Faculdade de Direito de Fortaleza, formando-se em 1909. Em 1910, ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, onde colou grau de bacharel em ciências jurídicas e sociais em 1911.
 
A partir de então, passa a desenvolver intensa atividade cultural e política: Redator do Jornal do Ceará (1908-1909); Redator do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro (1913-1919); Secretário Geral da Comissão de Defesa da Borracha, no Rio de Janeiro (1913); Secretário de Estado do Interior e Justiça do Ceará (1914).
 
Em 1915 é eleito Deputado Federal pelo Estado do Ceará, cargo que exerce até 1918. “Celebrizou-se pelo projeto que mudou o 1º de Cavalaria na Guarda de Honra, capacetes austríacos com o penacho ao vento, o uniforme do tempo de D. Pedro I”, registra Pedro Calmon.
 
Em 1919, com o fim da I Guerra Mundial, integra como secretário a delegação brasileira na Conferência da Paz em Versalhes.
 
 
                                             
 
Os Dragões da Independência, unidade militar do Exército Brasileiro, ligada ao Regimento de Cavalaria. Criada a partir de projeto de lei de 1917, de autoria do então Deputado Federal Gustavo Barroso. As fardas foram confeccionadas a partir dos modelos das fardas oficiais da Imperial Guarda de Honra, que pertenciam ao Museu Histórico Nacional.
 
 
Museu Histórico Nacional
 
Entra o ano de 1922. Concedera então o presidente Epitácio Pessoa, no último ano de seu mandato, amplos poderes a Gustavo Barroso para a criação do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, em comemoração ao Centenário da Independência. Herman Lima, em Poeira do Tempo – Rio, 1967 -, diz que “o Museu é o imenso retrato de sua fé; o escrínio das relíquias de um Brasil diferente. Entre-se nesse palácio de antiqualhas... Tudo ali é um florilégio da História Pátria... Diretor, fundador, animador dessa casa de pura brasilidade, há 37 anos Gustavo Barroso lhe dispensava a solicitude do lavrador, cuidando religiosamente do seu campo. Edificou-a com a dedicação de todos os dias; defendeu-a com zelo, até a bravura, de um alcaide antigo, que tivesse a seu cargo a torre senhorial. Defendeu-a principalmente da incompreensão, da hostilidade, da indiferença; e de tal sorte que nem a indiferença, nem a hostilidade, nem a incompreensão, conseguiram arrebatar-lhe as chaves do seu castelo ideal”.
 
                                             
 
Museu Histórico Nacional, criado em 1922 pelo presidente Epitácio Pessoa e dirigido por Gustavo Barroso de sua fundação até 1959.
 
 
Academia Brasileira de Letras
 
Em 08 de agosto de 1923, com apenas 35 anos, Gustavo Barroso - então Diretor do Museu Histórico Nacional - é eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número 19, em sucessão ao Dr. Silvério Gomes Pimenta; cinco anos depois já ocupava a Secretaria Geral da instituição e, em 1931, finalmente, assumia a presidência da casa, posição que voltaria a ocupar no biênio 1949/1950.
                                                      
 
Gustavo Barroso em 1923, ano de sua posse na Academia Brasileira de Letras.
 
 
O segundo do Sigma
 
“A voz do Chefe anunciou que diríamos uma palavra nova ao mundo. Nenhum integralista duvida que o que o Chefe diz se realiza; mas nenhum integralista pensou que isso se realizasse tão depressa. Antes de conquistarmos o poder, de pormos em prática as nossas ideias, de tornarmos o Brasil a Grande Potência que sonhamos, eminentes figuras da intelectualidade uruguaia reconhecem que somos já um impulso criador, um dínamo que espalhará um vasto movimento integralista nos demais países do nosso continente. Essa glória será a recompensa de Plínio Salgado, impulso criador desse impulso criador!”.
 
E Gustavo Barroso ouviu a voz, o chamado do Chefe Nacional, anunciando a “Boa Nova”; tornou-se integralista!
 
A cultura invulgar, a alta intelectualidade, a forte personalidade, a oratória vibrante, logo o colocaram em elevada posição dentro do movimento. Era o segundo do Sigma. Acima dele, somente o “Chefe”, como sempre se dirigia a Plínio Salgado.
 
Comandava as milícias integralistas, que chegaram a reunir em suas fileiras 100.000 homens!
 
Foram anos gloriosos. Ao lado do autor de Psicologia da Revolução, percorreu o país em intensa campanha doutrinária: o Integralismo arrebatava as massas.
 
Durante o período em que envergou a camisa-verde, intensificou sua produção literária, desta vez voltada à pregação do novo ideal. Escreveu, nesse tempo: O Integralismo em marcha; O que o Integralista deve saber; O Integralismo de norte a sul; A Palavra e o Pensamento Integralista; Brasil, Colônia de Banqueiros; Judaísmo, Maçonaria e Comunismo; História Secreta do Brasil (obra em três volumes), etc.
                                        
 
 
Gustavo Barroso, chefe nacional das milícias integralistas.
 
 
Estado novo, novos rumos
 
Em 1937, com a instituição do Estado Novo pelo presidente Getúlio Vargas, o fechamento da Ação Integralista Brasileira (AIB) e o exílio de Plínio Salgado em Portugal (1939), Gustavo Barroso volta-se novamente às atividades culturais. Representante do Brasil nas comemorações dos Centenários de Portugal (1940); representante do Brasil no Congresso Íbero-Americano de Berlim (1940).
 
Em 1948, passa a colaborar com a revista O Cruzeiro, responsável pela seção de História do Brasil, escrevendo até 1958, sendo substituído pelo amigo Pedro Calmon.
 
                          
 
 
Praça Gustavo Barroso, em Fortaleza, bairro Jacarecanga
 
 
Últimos dias
 
Citamos novamente a carta escrita em 1958, endereçada à conterrânea decana Maria da Conceição Souza, na qual segreda Barroso: “Ultimamente não tenho passado muito bem de saúde. A máquina que completa 70 anos de uso diário está com os parafusos afrouxando. Ouve-se já um grilinho de vez em quando, como nos automóveis que caminharam muito tempo por estradas ruins. As de minha vida nem sempre foram suaves. Atacou-me, de súbito, a doença do Eisenhower (que honra!), rebelde ileíte, inflamação do íleo, da qual, apesar de rigorosa dieta e tratamento adequados, ainda não me livrei de todo”.
 
Pelas palavras de Pedro Calmon, “o pai chegara aos 102 anos. Tinha o mesmo corpo cheio, a mesma saúde alegre. Dizia-se mordido pelo ‘bico de papagaio’, que lhe picava as vértebras. Era o câncer”.
 
Residia nessa época no Rio de Janeiro. Realmente, eram já 70 anos de lutas e vitórias; viveria só mais um. Aos 3 de dezembro de 1959, falecia. O Brasil perdia um de seus maiores filhos, João do Norte, bravo combatente, nobre brasileiro, Barroso, filho imortal da Pátria.
 
           
Luiz Gonçalves Alonso Ferreira
Professor de História, Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Santos (cadeira 189, Plínio Salgado), Diretor-Administrativo da Sociedade Museu do Mar e Membro da Frente Integralista Brasileira (FIB).
 
 
* Artigo publicado originalmente no boletim informativo A Pátria (janeiro/fevereiro de 2000), revisado em 2013 para a publicação no portal da FIB.

 


29/12/2013, 19:39:56


Gustavo Barroso Chapéu
2014: mais um ano de lutas

Integralistas! Soldados de Deus e da Pátria, homens novos deste grande Império do porvir! Bandeirantes de Cristo Rei e da Nação Brasileira! Filhos e filhas de nossa amada Terra de Santa Cruz! Escutai estas singelas palavras!

Por motivos alheios à nossa vontade, não pudemos vos dirigir a palavra por ocasião do Santo Natal, quando celebramos, com toda a Cristandade, mais um aniversário da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo a este Mundo. Assim, invocando as bênçãos do Divino Mestre, nascido para trazer ao Homem a Luz Verdadeira, lhe ensinando o Caminho do Paraíso e lhe ofertando a Eterna Bem-Aventurança, nos dirigimos a vós neste dia 1º de janeiro do ano de 2014.
 
Em 2013, o nosso Brasil, lamentavelmente, se desviou um pouco mais de sua vocação e de suas raízes cristãs, assim como dos preceitos da Lei Divina e da Lei Natural, enroscando-se ainda mais do que antes nas teias nefandas do materialismo, se fazendo, assim, mais do que nunca, súdito do Império de Mamon e do Bezerro de Ouro.
 
Nós, os integralistas, porém, permanecemos de pé, marchando e lutando, no seio da escuridão materialista, em prol de um Brasil Maior e Melhor, reconduzido às bases morais de seu nascimento e de sua formação. E entre os liberais em ascensão, de um lado, e os comunistas, socialistas e pseudo-nacionalistas e/ou pseudo-tradicionalistas, de outro, erguemos bem alto a bandeira azul e branca do Sigma e o facho de nossa Doutrina essencialmente cristã e brasileira, indiferentes aos ataques da “direita” e da “esquerda”. Estes não foram poucos, uns nos acusando de “esquerdistas”, “esquerdopatas”, “socialistas”, “coletivistas”, “estatistas”, “totalitários” e “estatólatras”, outros de “direitistas”, “retrógrados” e “reacionários”, e ainda muitos, de ambos os grupos, de “fascistas” e “nazistas”. Houve, inclusive, liberais que, a exemplo do ex-“esquerdista” Bolívar Lamounier, afirmaram que a “esquerda” brasileira é herdeira do Integralismo, assim como muitos “esquerdistas” que associaram a “nova direita” “liberal-conservadora” “brasileira” à Doutrina do Sigma. Tais ataques, porém, só nos fazem mais fortes e provam o quanto estão vivos o nosso Movimento e a nossa Doutrina e o quão verdadeira é a nossa afirmação recente de que “um fantasma ronda o Brasil – o fantasma do Integralismo”, que assombra liberais, comunistas e outros inimigos do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro.
 
O ano que se inicia promete ser, infelizmente, mais um ano de decadência para o Brasil em todos os planos, sobretudo naquele moral, e de fortalecimento, no campo cultural, da falsa oposição liberal ao (des)governo “brasileiro” e ao pensamento “esquerdista” ainda dominante em nosso País. Mas nós, os integralistas, não esmoreceremos e continuaremos fazendo nossa parte na obra de edificação de um Brasil Maior e, assim, prosseguiremos em nossa marcha e em nossa peleja por Deus, pela Pátria, pela Família e por todos os demais valores tradicionais sintetizados nesta tríade, nobre e elevada como nenhuma outra. E, sob as bênçãos de Cristo Rei, por cujo Reino lutamos, e dispostos, como sempre, a dar, se preciso, nossas vidas pelo Brasil e suas tradições, sem nada pedir em troca, ergueremos, ainda mais alto, ao lado do auri-verde Pendão Nacional, a bandeira azul e branca do Sigma, assim como a chama de nossos ideais cristãos, patrióticos e nacionalistas. 
 
Por Cristo e pela Nação!
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista.
São Paulo, 01 de janeiro de 2014 - LXXXI.

01/01/2014, 18:01:00


2014: mais um ano de luta
José Paulo Perretti, in memoriam

Faleceu no último dia 03 de janeiro, nesta cidade de São Paulo, o Professor José Paulo de Oliveira Perretti, em decorrência de grave broncopneumonia, que se somou à insuficiência renal crônica de que há anos padecia. Membro da Casa de Plínio Salgado e profundo admirador da Doutrina e do Movimento Integralista, o Professor Perretti frequentou, enquanto o permitiu sua saúde havia anos abalada, as reuniões da Frente Integralista Brasileira (FIB) no núcleo da Capital Paulista.

Nascido em São Paulo no dia 15 de março de 1926, o Professor Perretti estudou no Colégio Rio Branco, onde foi aluno, dentre outros, do Professor Heraldo Barbuy, a quem muito admirou por toda a vida e que o influenciou em seu pensamento patriótico, nacionalista e tradicionalista. Mais tarde, frequentou as reuniões da Ação Imperial Patrianovista Brasileira (AIPB) nos últimos anos de atuação deste movimento cívico-político de cunho tradicionalista, chegando mesmo a conviver bastante com seu líder, o Professor Arlindo Veiga dos Santos. Embora jamais se tenha filiado a nenhuma agremiação política, foi eleitor e simpatizante do Partido de Representação Popular (PRP), que, presidido por Plínio Salgado, levou adiante os ideais eminentemente cristãos e brasileiros do Integralismo entre meados da década de 1940 e 1965, quando todos os partidos políticos até então existentes foram extintos pelo Ato Institucional Número Dois (AI-2).
 
Formado em Engenharia Elétrica pela Faculdade Politétcnica da Universidade de São Paulo (USP), o Professor Perretti trabalhou em tal ramo da Engenharia e também o ensinou, na mesma instituição de ensino em que se formara. Casado com Maria Apparecida Milani Perretti, de quem era viúvo, teve com esta uma única filha, Maria Bernadete Dieckelmann (nascida Milani Perretti), ora residente na Alemanha.
 
O Professor Perretti entregou seu espírito a Deus, Nosso Senhor, Princípio e Fim de todas as coisas, na esperança de gozar a vida eterna no Divino Reino, com um belo sorriso nos lábios. Pouco antes de partir desta vida, de deixar a prisão que é a existência do ente humano neste plano, verdadeiro “vale de lágrimas”, teve ele a fortuna de receber a indulgência plenária do Padre Jonas dos Santos Lisboa, da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. Assim, estamos certos de que nosso saudoso amigo e companheiro de ideais, um dos mais virtuosos varões que tivemos a honra e a ventura de conhecer, deixou esta vida para entrar no Paraíso.
           
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 08 de janeiro de 2014 - LXXXI.

08/01/2014, 17:18:14

Plínio Salgado, arauto e apóstolo de Cristianismo e de Brasilidade

Pensador profundo, escritor brilhante, jornalista e orador de amplos recursos e insigne doutrinador tradicionalista, patriótico, nacionalista e democrático na acepção cristã, autêntica, orgânica e integral do termo, Plínio Salgado é, sem sombra de dúvida, um dos mais eminentes e, ao mesmo tempo, olvidados e injustiçados homens de pensamento e de ação patrícios. Criador do movimento de renovação moral e social a que denominamos Integralismo e arauto de um Brasil Novo e Maior, foi ele, no dizer do ínclito pensador e escritor tradicionalista português Hipólito Raposo, “o mais eloquente intérprete da Brasilidade” [1]. No mesmo sentido, Francisco Elías de Tejada y Spínola, maior pensador espanhol do tradicionalismo político e do Direito Natural Clássico do século XX, salientou que Plínio Salgado, “profeta incandescente e sublime de seu povo”, “encarnação viva do Brasil melhor” [2], foi o primeiro a efetivamente compreender a Tradição Brasileira, sendo, pois, o “descobridor bandeirante das essências de sua pátria” [3].

Nascido a 22 de janeiro de 1895, na bucólica cidadezinha montanhesa de São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira, divisa entre as províncias de São Paulo e Minas Gerais, Plínio era filho do Coronel Francisco das Chagas Esteves Salgado, farmacêutico e chefe político da região, e de D. Ana Francisca Rennó Cortez, professora normalista formada em São Paulo no último ano do Império.

O Coronel Francisco das Chagas, homem profundamente patriota e nacionalista na acepção sadia, equilibrada econstrutiva do vocábulo, tinha o costume de reunir os filhos à noite para lhes narrar os feitos de Felipe Camarão, de Henrique Dias, do General Osório, do Duque de Caxias, dos almirantes Barroso e Tamandaré e de outros vultos da História Pátria, lhes incutindo, assim, o amor ao Brasil e a suas tradições históricas.
 
Pouco mais tarde, D. Ana Francisca, que então já ensinara o filho a rezar e também lhe incutira o temor a Deus e lhe narrara histórias bíblicas, principiou a lhe dar lições de História do Brasil, Geografia, Aritmética e Francês.
 
Em 1907, Plínio, que havia iniciado os estudos secundários no Externato São José, dirigido pelo Prof. José Calazans Nogueira, seguiu para Pouso Alegre, Minas Gerais, onde estudou humanidades no tradicional Ginásio Diocesano São José, em que também estudavam Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida e Teodoro Quartim Barbosa, com os quais o futuro autor da Vida de Jesus firmou uma grande amizade que se estenderia por toda a vida.
 
O falecimento do pai, no ano de 1911, forçou Plínio a abandonar os estudos e a retornar a São Bento a fim de cuidar da mãe e dos irmãos menores.
 
D. Ana Francisca, que ainda lecionava em sua escola isolada para meninas, que funcionava nos fundos de sua residência, transformou outro cômodo da casa em sala de aula, abrindo uma escola para meninos e confiando-a ao jovem Plínio.
 
Pouco mais tarde, o futuro autor de Psicologia da Revolução principiou a trabalhar como agrimensor e topógrafo judicial. Em seguida, obteve o cargo de inspetor escolar no Município e, em virtude de se haver habilitado para requerer em juízo e promover o andamento dos feitos, foi nomeado solicitador, exercendo a função de advogado quando não havia advogados.
 
Por esse tempo, fundou, com o primo Joaquim Rennó Ferreira, o semanário Correio de São Bento, primeiro periódico da cidadezinha serrana.
 
Na mocidade, leu autores como Spencer, Comte, Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Büchner, Haeckel, Lamarck, Gustave Le Bon, Jhering, William James e Ingenieros, ao mesmo tempo em que se aprofundava no conhecimento de nossa Literatura, bem como das literaturas portuguesa, francesa, espanhola, italiana, inglesa, alemã erussa.
 
No ano de 1918, Plínio, que já tivera trabalhos publicados na Revista do Brasil e no Correio Paulistano e coordenara, em 1915, a publicação do Almanaque de São Bento, casou-se com Maria Amélia Pereira.
 
Por esse tempo, era ele a figura central da cidadezinha de São Bento do Sapucaí, sendo diretor do jornal local, secretário do Tiro de Guerra, presidente do clube de futebol, orador do Gabinete de Leitura, diretor do externato e do grupo dramático e agrimensor.
 
Ainda em 1918, enquanto se convalescia da gripe espanhola, que o atingira, Plínio leu o livro Farias Brito e a reação espiritualista, de Almeida Magalhães e, em seguida, as obras do próprio Farias Brito e de Jackson de Figueiredo, abandonando, assim, o materialismo e retornando ao espiritualismo cristão, ao mesmo tempo em que, preocupado com a questão nacional, lia autores como Alberto Torres e Euclides da Cunha.
 
Em 1919, Plínio perdeu a esposa quinze dias depois de esta dar à luz Maria Amélia, única filha do casal, e teve publicado o seu primeiro livro, o volume de versos parnasianos Tabor, elogiado pela Revista do Brasil, cujo proprietário era então Monteiro Lobato, e de que consta o célebre soneto Canção das Águias.
 
Nesse mesmo ano, Plínio Salgado, que tempos antes fundara, ao lado do Dr. Gama Rodrigues, o Partido Municipalista, primeira agremiação política do País a defender o Municipalismo, deixou São Bento do Sapucaí em virtude de problemas políticos, seguindo para a Capital Paulista.
 
Em fevereiro de 1922, quando já era redator do Correio Paulistano, participou ativamente da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo.
 
No ano de 1926, publicou O estrangeiro, que é, cronologicamente, o primeiro romance social em prosa modernista da Literatura Brasileira. Como ressaltaria Menotti Del Picchia, o romance de estreia de Plínio Salgado “confirmou-se como um marco renovador do romance brasileiro”, abrindo “a série das grandes obras que, num radioso renascimento de um sadio nacionalismo, escachoaram do Norte tendo na vanguarda a já histórica Bagaceira de José Américo de Almeida”[4]. Este último escreveu a Plínio, com efeito, uma carta em que afirmou que depois de haver lido O estrangeiro considerara esta obra o primeiro romance do modernismo e resolvera reescrever totalmente o seu livro A bagaceira, que seria publicado em 1928 [5].
 
O estrangeiro teve um sucesso verdadeiramente extraordinário. A primeira edição se esgotou em menos de vinte dias e o burburinho que se fez em torno da obra na imprensa nacional foi algo realmente notável. Mas Plínio ignoraria tudo o quanto então se publicava a respeito dele e de sua revolucionária obra, não fosse por seu amigo Fernando Callage, que colecionava todos os artigos, uma vez que, naquela ocasião, em São Bento do Sapucaí, falecia a mãe do autor de O estrangeiro, que, estando já à beira da morte, tomou o livro do filho nas mãos, projetando lê-lo mais tarde, quando estivesse melhor, o que infelizmente não ocorreu.
 
Considerado por Wilson Martins a maior realização romanesca da década de 1920, ao lado de O esperado, também de Plínio Salgado [6], e classificado por Rachel de Queiroz como “o primeiro romance modernista” [7], O estrangeiro, que seria considerado pelo autor o seu primeiro Manifesto Integralista [8], fez do futuro criador da Ação Integralista Brasileira um escritor nacionalmente consagrado, tanto pelo público quanto pela crítica.
 
Dentre os diversos críticos literários e escritores de escol que elogiaram O estrangeiro na imprensa, nos meses seguintes à sua publicação, podemos citar Agripino Grieco, Afrânio Peixoto, Tasso da Silveira, Augusto Frederico Schmidt, Cassiano Ricardo, Nuto Sant’Anna, José Américo de Almeida, Jackson de Figueiredo, Tristão de Athayde e Monteiro Lobato. Este último dedicou ao romance um artigo intitulado Forças novas e publicado no jornal A manhã, do Rio de Janeiro, a 19 de setembro de 1926.
 
No referido artigo, o autor de Cidades mortas e de O presidente negro, havendo reconhecido que, naquela obra, “Plínio Salgado consegue o milagre de abarcar todo o fenômeno paulista, o mais complexo do Brasil, talvez um dos mais complexos do mundo, metendo-o num quadro panorâmico de pintor impressionista”, observou que “todo o livro é uma inaudita riqueza de novidades bárbaras, sem metro, sem verniz, sem lixa acadêmica – só força, a força pura, ainda não enfiada em fios de cobre, das grandes cataratas brutas”. E terminou afirmando que “Plínio Salgado é uma força nova com a qual o país tem que contar” [9].
 
Em O estrangeiro e nos dois romances sociais em prosa modernista que se lhe seguiram e que com ele compõem as denominadas Crônicas da vida brasileira (O esperado, de 1931, e O cavaleiro de Itararé, de 1933), Plínio Salgado se revela o genial cronista, intérprete de uma época de dúvidas e de incertezas que, sob o signo dos mais sadios e edificadores ideais cristãos, patrióticos e nacionalistas e absolutamente livre das questões da forma e do estilo, revela-se arguto espectador e profundo conhecedor de todas as correntes de opinião e de todos os dramas dos diferentes segmentos da Sociedade Brasileira. Revela-se, ademais, dotado de formidável capacidade de compreender e amar todos os antagonismos, assim como de alma para efetivamente sentir, sofrer e expressar, sem temor ao uso da palavra, todos os complexos estados de espírito nacionais [10]. Nenhuma frase pode, com efeito, defini-lo melhor do que aquela em que afirma, no início de sua obra Despertemos a Nação: “O drama de meu povo apoderou-se de mim” [11].
 
Os anos seguintes à publicação de O estrangeiro foram fecundos na vida de Plínio, que colaborava em diferentes jornais e revistas e era figura central dos grupos modernistas verde-amarelista e da Anta, bem como de diversos outros grupos, na meditação sobre a realidade e os problemas nacionais. Assim, dedicou-se, com Alarico Silveira e Raul Bopp, ao estudo da língua tupi e da etnografia nacional, ao mesmo tempo em que, ao lado de Cândido Motta Filho, Fernando Callage, Plínio Mello e outros, estudava Alberto Torres, Euclides da Cunha, Tavares Bastos, Oliveira Vianna, Calógeras, Oliveira Lima e outros autores que estudaram nossa terra e nosso Homem. Ao mesmo tempo, com Augusto Frederico Schmidt e outros, dedicou-se ao estudo da obra de Farias Brito, Jackson de Figueiredo e outros pensadores espiritualistas. E, por fim, com Mário Pedrosa, Araújo Lima, Plínio Mello e outros, estudou o marxismo, lendo a obra de Marx, Lênin, Trótski, Plekhanov, Riazanov e outros socialistas e considerando válidas suas críticas ao capitalismo, mas não as supostas soluções por eles apresentadas.
 
Em 1928, Plínio Salgado foi eleito Deputado Estadual pelo Partido Republicano Paulista (PRP), entrando pelo 2º turno e sendo o candidato mais votado. Foi sufragado não apenas por seu partido, mas pela totalidade das forças eleitorais do 3º Distrito, incluindo o Partido Democrático, de oposição, o Partido Independente, de Gama Rodrigues edissidências locais que se coligaram para elegê-lo [12].
 
Pensador profundo, escritor brilhante, jornalista e orador de amplos recursos e insigne doutrinador tradicionalista, patriótico, nacionalista e democrático [...], Plínio Salgado é, sem sombra de dúvida, um dos mais eminentes e, ao mesmo tempo, olvidados e injustiçados homens de pensamento e de ação patrícios.
 
Isto posto, cumpre ressaltar que toda a atuação de Plínio Salgado, no PRP, obedecia ao firme propósito de criar uma corrente renovadora dentro daquele partido.
 
Em julho de 1929, o autor de O estrangeiro e de Literatura e política tomou posse na Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira de número seis, cujo patrono é Couto de Magalhães e para a qual fora eleito à revelia, como então se usava naquela instituição.
 
Em 1930, Plínio Salgado viajou para o velho mundo, acompanhando o jovem Joaquim Carlos Egydio de Souza Aranha, percorrendo catorze países do Oriente Médio e da Europa. Na Palestina, conheceu os lugares que tão bem haveria de descrever em sua Vida de Jesus, obra que atingiria várias edições em diferentes países e idiomas e receberia entusiásticos elogios de notáveis pensadores, escritores, críticos e autoridades religiosas do Brasil e da Europa, e também no livro O Oriente, dado à estampa em 1931. Em Roma, encontrou-se com Mussolini e com o Senador Giovanni Gentile, filósofo e ex-Ministro da Instrução Pública, e este, que coordenava os trabalhos da Enciclopédia Italiana, pediu a Plínio que completasse o verbete dedicado ao Brasil, o que ele fez em uma madrugada, com o auxílio de Mário Graciotti, Manoel Gomes e Joaquim Carlos Egydio de Souza Aranha. Em Paris, concluiu o romance O esperado, publicado no ano seguinte, e redigiu um manifesto que meses mais tarde se tornaria o Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo.
 
Em julho de 1931 foi lançado, na Capital Bandeirante, o primeiro exemplar do jornal nacionalista A Razão, que tinha Alfredo Egydio de Souza Aranha como proprietário e Plínio Salgado como redator-chefe e revolucionou a imprensa do País, tendo como colaboradores intelectuais do quilate de Tristão de Athayde, Sobral Pinto, San Tiago Dantas, Mário Graciotti, Paulo Setúbal, João Carlos Fairbanks, Alpínolo Lopes Casali, Silveira Peixoto, Nuto e Leopoldo Sant’Anna e, é claro, Plínio Salgado. Este era autor do artigo diário de abertura daquele matutino, a célebre Nota Política, em que era analisada a situação do País, pondo-se em evidência pensadores até então relativamente esquecidos, como Farias Brito, Alberto Torres, Euclides da Cunha, Oliveira Lima, Joaquim Nabuco e Eduardo Prado e rememorando-se fatos do Império e da República.
 
Foi na Nota Política, transcrita por Herbert Parentes Fortes no jornal Era Nova, da Bahia, e também reproduzida em jornais do Ceará, que Plínio revelou, na expressão de Virgínio Santa Rosa, o sociólogo que vivia embuçado no romancista, sendo saudado por Tristão de Athayde como a maior revelação do ano [13].
 
Também em 1931, foi lançado o Manifesto da Legião Revolucionária, elogiado por intelectuais da estatura de um Oliveira Vianna, um Tristão de Athayde, um Azevedo Amaral, um Octavio de Faria e um Humberto de Campos, dentre outros.
 
A 12 de março do ano seguinte, Plínio fundou oficialmente, na Sala de Armas do Clube Português, em São Paulo, a Sociedade de Estudos Políticos, que reuniria dezenas de intelectuais preocupados em dar um novo rumo ao Brasil, reconduzindo-o às bases morais de sua formação.
 
A 07 de outubro daquele ano de 1932, Plínio divulgou o Manifesto que redigira em maio e cujo anteprojeto fora aprovado em junho pela Sociedade de Estudos Políticos, não havendo sido divulgado então por conta da Revolução Constitucionalista ora já iminente.
 
Manifesto de Outubro, que assim passou a ser denominado em virtude de haver sido divulgado em tal mês, marcou o surgimento oficial do Integralismo e da Ação Integralista Brasileira. Inspirado, antes e acima de tudo, nos ensinamentos perenes do Evangelho, na Doutrina Social da Igreja e nas lições de grandes pensadores espiritualistas, patrióticos e nacionalistas pátrios, tal documento trata, ainda que de maneira resumida, de todos os princípios básicos da Doutrina Integralista, posteriormente aprofundados em outros manifestos, livros, artigos e discursos de Plínio Salgado e de outros doutrinadores integralistas.
 
A mensagem essencialmente cristã e brasileira do Manifesto de Outubro espalhou-se rapidamente por todo o País. Em pouco tempo, a Ação Integralista Brasileira (AIB) já reunia centenas de milhares de membros e outros tantos simpatizantes em todo o País, constituindo o primeiro “movimento de massas” e o primeiro partido de âmbito nacional desde o fim do Império, reunindo, ainda, diversos intelectuais ilustres, que constituíam, na expressão de Miguel Reale, “o que havia de mais fino na intelectualidade da época” [14], formando, ainda, no dizer de Gerardo Mello Mourão, o “mais fascinante grupo da inteligência do País” [15]. .
 
O presente artigo não se propõe a analisar o Integralismo, tão augusta quanto deturpada Doutrina que se constituiu na glória e na cruz de Plínio Salgado, “pensador ilustre que arrebatava multidões na mocidade e serenava a ânsia dos intelectuais com o ouro da sua pena” [16] e cuja “rota pelo sigma”, na frase de Manoel Vítor, “nada mais era que a projeção da sua mesma personalidade em busca de Deus para dá-lo aos homens”, sendo “a Família e a Pátria” os “degraus por onde andou semeando rosas que lhe trouxeram o paradoxal perfume dos espinhos” [17].
 
Exilado involuntariamente em Portugal pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, Plínio Salgado lá permaneceu, juntamente com D. Carmela Patti Salgado, sua segunda esposa, de 1939 até 1946.
 
Na Pátria de que nasceu sua Pátria, o autor de Psicologia da Revolução estudou profundamente o pensamento tradicionalista português e espanhol, proferiu algumas de suas mais belas conferências, escreveu as suas mais pujantes obras religiosas e foi reconhecido pela intelectualidade católica como um dos maiores pensadores católicos de todos os tempos e um verdadeiro apóstolo brasileiro [18].
 
Foi em Portugal, ademais, que Plínio terminou sua obra prima, a Vida de Jesus, que o Padre Leonel Franca qualificou de “joia de uma literatura” [19] e que é inegavelmente um clássico da Literatura Universal e uma das obras máximas da Cristologia.
 
De volta ao Brasil em 1946, Plínio ingressou no Partido de Representação Popular (PRP), que havia sido fundado no ano anterior por ex-membros da Ação Integralista Brasileira, pugnando pelos mesmos ideais cristãos, patrióticos e nacionalistas que esta, extinta por Vargas, juntamente com as demais agremiações políticas, em fins de 1937. Por este partido, do qual se tornou presidente, foi o autor de Espírito da burguesia e de Mensagem às pedras do deserto candidato às eleições presidenciais de 1955, e se elegeu Deputado Federal em 1956, 1960 e 1964. Exerceu outros dois mandatos na Câmara, eleito pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), até deixar definitivamente a política, em 1974. Faleceu um ano depois, na Cidade de São Paulo, sendo sepultado no Cemitério do Morumbi.
 
Como Deputado Federal, integrou sempre a Comissão de Educação, onde produziu inúmeros pareceres, e apresentou projetos como os de Reforma Agrária e de criação do Fundo Nacional para a Reforma Agrária, ambos de 1963, e o da Emenda Constitucional n. 609, que criaria a Câmara Orgânica, consagrando o princípio democrático da representação política dos trabalhadores de acordo com suas categorias profissionais.
 
Não podemos encerrar o presente artigo sem recordar que, em 1934, nas páginas de A Voz do Oeste, poema épico em prosa que retrata a epopeia bandeirante, Plínio previu e preparou a edificação de Brasília, como reconheceu Juscelino Kubitschek em carta ao autor de O esperado em que afirmou:
 
“Lendo o livro [13 anos em Brasília, de Plínio Salgado], ocorreu-me imediatamente outro de ferrenho adversário nosso, El Imperialismo d’El Brasil e que me foi oferecido pelo nosso comum amigo, Guimarães Rosa.
 
O publicista boliviano percebeu num relance a significação de Brasília, pressentida desde o século XVIII e preparada pelo grito que você, meu caro Plínio, deu conclamando todos para a marcha rumo Oeste” [18].
 
Tantos anos de calúnias, de incompreensões e de silêncio não conseguiram apagar o brilho de Plínio Salgado, que fulgirá sempre, magna estrela da constelação do pensamento pátrio, luciluzente joia da rica coroa que representa a autêntica inteligência nacional, farol magnífico a guiar a nau dos verdadeiros tradicionalistas, patriotas e nacionalistas brasileiros pelos tenebrosos mares do Império de Calibã, que é o Império da Matéria, rumo ao porto seguro do Império de Ariel, o qual não é outro senão o Império do Espírito.
 
Mais genial, pujante e vigoroso intérprete da Tradição Nacional e do Espírito do Povo brasileiro, viverá, imortal, em sua obra notabilíssima e sempre atual, em que defende a restauração do Primado do Espírito e da Tradição, a recristianização integral do Brasil e a instauração de um Estado Ético Orgânico e de uma Democracia Integral. Em uma palavra, o nome de Plínio Salgado perpetuar-se-á, conforme previu Juscelino Kubitschek, “como um símbolo iluminando o futuro” [21].
 
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira
 
 
NOTAS:
[1] RAPOSO, Hipólito, in VV.AA. Plínio Salgado: “in memoriam”, Vol. II. São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 189.
[2] ELÍAS DE TEJADA Y SPÍNOLA, Francisco.  Plínio Salgado na tradição do Brasil, in VV.AA. Plínio Salgado: “in memoriam”, Vol. II, cit., p. 47.
[3] Idem, p. 70.
[4] PICCHIA, Menotti Del. Plínio Salgado, o fraterno amigo, in VV.AA. Plínio Salgado: “in memoriam”, Vol. I. São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985, p. 45.
[5] Cf. RODRIGUES, Rodrigo. O Pensamento Nacionalista no Modernismo Brasileiro. São Paulo: EditorAção, 2005, p. 35.
[6] MARTINS, Wilson. O modernismo. 4ª ed. São Paulo: Editora Cultrix, 1973, p. 251. Cumpre ressaltar que Wilson Martins cometeu um pequeno equívoco ao considerar o romance O esperado, escrito quase que integralmente em 1930 e publicado no ano seguinte, como uma obra da década de 1920.
[7] QUEIROZ, Rachel de. In A Hebraica, São Paulo, julho de 1995, p. 33.
[8] SALGADO, Plínio. Despertemos a Nação. 3ª ed. In Obras Completas. 1ª ed., vol. X. São Paulo: Editora das Américas, 1955, p. 9.
[9] MONTEIRO LOBATO. Forças novas. In Diversos. Plínio Salgado: “in memoriam”, vol. I, cit., pp. 112-113.
[10] BARBUY, Victor Emanuel Vilela. Oitenta anos de “O estrangeiro”. In Linguagem Viva, ano XVIII, nº 214, junho de 2007.
[11] SALGADO, Plínio. Despertemos a Nação, cit., loc. cit.
[12] LOUREIRO, Maria Amélia Salgado. Plínio Salgado, meu pai. São Paulo: Edições GRD, 2001, p. 154.
[13] ROSA, Virgínio Santa. A personalidade de Plínio Salgado. In Diversos. Plínio Salgado. 4ª ed. São Paulo: Edição da Revista Panorama, 1937, p. 73.
[14] REALE, Miguel. Entrevista concedida ao Jornal da USP.  Disponível em: http://espacoculturalmiguelreale.blogspot.com/2007/08/entrevista-concedida-pelo-prof-reale-ao.html. Acesso em 08/08/2008.
[15] MOURÃO, Gerardo Mello. Entrevista concedida ao Diário do Nordeste. Disponível em:
[16] Cf. VITOR, Manoel, Plínio Salgado, pensador ilustre, in in  VV.AA. Plínio Salgado: “In memoriam”, Vol. I., cit., p. 41.
[17] Idem, p. 42.
[18] Sobre as atividades realizadas por Plínio Salgado durante o exílio em Portugal, bem como sobre o reconhecimento que ali recebeu dos mais altos vultos do pensamento católico lusitano:  DOREA, Augusta Garcia R. Plínio Salgado, um apóstolo brasileiro em terras de Portugal e Espanha. São Paulo: Edições GRD, 1999.
[19] FRANCA SJ, Padre Leonel. Carta a Plínio Salgado. In SALGADO, Plínio. Vida de Jesus. 22ª ed. São Paulo: Voz do Oeste, 1985, pp. IX/XI.
[20] KUBITSCHEK, Juscelino. Carta a Plínio Salgado, in VV.AA. Plínio Salgado: “In memoriam”, Vol. I., cit., p. 223.
[21] Idem. Carta a D. Carmela Patti Salgado, in  VV.AA. Plínio Salgado: “In memoriam”, Vol. I., cit., p. 225.


* O presente trabalho se constitui em versão revista e ampliada de nosso artigo Plínio Salgado, arauto e apóstolo de Cristianismo e de Brasilidade, publicado no jornal O Lince (Nova fase, ano 4, nº 31, Aparecida-SP, jan/fev. de 2010, pp. 16-18).


22/01/2014, 14:14:13


Plínio Salgado, arauto e apóstolo de Cristianismo e de Brasilidade
O economicismo e o marxismo difuso

Um dos traços principais do marxismo difuso que predomina na mentalidade contemporânea  é o economicismo. O  economicismo parte da premissa de que os fatores econômicos são os fatores decisivos, os mais importantes e fundamentais para a vida individual e social.  É a crença infundada no primado do econômico, na transformação deste fator na chave explicativa única de todos os acontecimentos da vida humana. Desse modo, todas as demais atividades e valores que escapam ao império da lógica econômica são considerados como secundários, acessórios e até mesmo supérfluos.

Na sociedade brasileira e na cultura ocidental, essa mentalidade se expressa de múltiplas e variadas maneiras. Ao folhearmos os jornais, ao assistirmos as reportagens jornalísticas na televisão ou ao irmos a uma festa ou encontro social qualquer podemos perceber que boa parte dos assuntos e questões levantadas referem-se a assuntos e temas relacionados com a economia, as finanças e outros afins que dizem respeito aos aspectos materiais e crematísticos da existência.
 
O domínio do fator econômico também se manifesta nos debates políticos eleitorais e nas plataformas e agendas programáticas dos diversos partidos. O debate político é na atualidade, sobretudo, uma discussão em torno de questões econômicas e administrativas. A preocupação com as escolhas do Ministro da Economia e do presidente do Banco Central são vistas como as mais decisivas para os destinos da nação. Tudo se reduz a problemas econômicos.
 
O economicismo reinante estimula o pragmatismo e o utilitarismo, seus irmãos siameses. Assim sendo, valoriza-se sobremaneira as atividades que são úteis, que têm um impacto imediato e que possibilitem uma aplicação prática. Produtividade, rendimento, prosperidade, sucesso, eficiência e eficácia transmutam-se em palavras mágicas e sagradas, os novos mantras de uma civilização quantitativa que glorifica de maneira hipertrófica o progresso material, tecnológico e industrial.
 
Vale lembrar que os agentes do domínio economicista desdenham do ócio, da contemplação, da vida intelectual. Por conseqüência, o bem-estar material, a busca a qualquer custo do prazer, da segurança, da proteção e da comodidade acabam por atrofiar e corroer as capacidades mais elevadas do espírito humano. Os interesses superiores e mais altos que transcendem a esfera da existência meramente material são deixados de lado. Conforme alertara o filósofo Marcel de Corte, conseqüência inevitável deste processo é a negação da inteligência especulativa que repousa na contemplação da verdade e no conhecimento da realidade. Nas sociedades modernas o primado da ação veio substituir a primazia da contemplação, presente nas sociedades tradicionais. Esta tendência atinge seu clímax e alcança o posto de verdade absoluta quando legitimada e justificada intelectualmente por Karl Marx em sua famosa máxima de que os filósofos se limitaram a interpretar o mundo, sendo agora necessário transformá-lo. Sobre isto Marcel de Corte afirma:
 
O marxismo é o ponto de convergência desse vasto movimento pelo qual o homem se desvia, [...] da atividade contemplativa do espírito dirigida no sentido da verdade de seu progresso moral para o bem, passando a dedicar-se sem limites apenas à atividade técnica, laboriosa e transformadora do mundo, que então lhe resta.

Por seu turno, os valores tradicionais da honra, da franqueza, da autenticidade, da nobreza de caráter, do heroísmo e do sacrifício são esquecidos. Espraia-se o espírito do sibaratismo, do exibicionismo narcisista e da avareza que fecha o espírito humano à dimensão da transcendência. Esta existência inautêntica, empobrecida, é magistralmente descrita por Balzac em uma passagem luminosa de seu romance Eugénie Grandet:
 
Os avarentos não acreditam em vida futura; para eles, o presente é tudo. Essa reflexão lança uma luz horrível sobre a época atual, quando, mais que em qualquer outra, o dinheiro domina leis, política e costumes. Instituições, livros, homens e doutrinas, tudo conspira para minar a crença numa vida futura sobre a qual o edifício social se apóia há mil e oitocentos anos. Hoje em dia o sepulcro é uma transição pouco temida. O futuro, que nos esperava além do réquiem, foi transposto para o presente. Chegar por todos os meios ao paraíso terreno do luxo e dos gozos da vaidade, petrificar o coração e macerar o corpo para obter posses passageiras, tal como, antes, se sofria o martírio da vida para obter bens eternos, esse é o pensamento geral! Pensamento, aliás, escrito em toda parte, até nas leis, que perguntam ao legislador: “Como pagas?” em vez de dizer: “Como pensas?”. Quando essa doutrina tiver passado da burguesia ao povo, que será do país?

O avaro de Balzac é homem preso à imanência, é o homem moderno que perdeu o senso da eternidade. É um homúnculo robotizado, desprovido da sensibilidade para perceber valores mais elevados. Este tipo humano não é negado pela antropologia marxista, pelo contrário.
 
O homo-oeconomicus do marxismo –  homo-faber -, reduzido à  condição de trabalhador e produtor de bens materiais,  é uma concepção antropológica que barbariza e desfigura a natureza humana. Ademais, uniformiza e padroniza os indivíduos convertendo-os em meras peças descartáveis. Subordina e rebaixa a pessoa humana aos imperativos tecnocráticos e coletivistas.
 
Neste cenário cultural as figuras hieráticas dos santos, dos sábios, dos ascetas e dos homens de pensamento, ou seja, dos tipos humanos dedicados às atividades reflexivas e espirituais são apenas sombras longínquas de um passado remoto já quase esquecido.
 
Busca-se o bem-estar bovino, o ganho, a satisfação e o prazer acima de tudo. Anestesiado pela abundância material e por um ativismo desenfreado, o homem moderno esquece que os verdadeiros problemas da existência humana não são de ordem material. Os reais dramas humanos são de origem espiritual e moral. Dessa maneira, a prosperidade material e o sucesso econômico não são garantias de uma vida pessoal íntegra, virtuosa e dotada de um sentido superior. Pelo contrário, a expansão desmedida das atividades unicamente técnicas, práticas e econômicas, privadas de qualquer subordinação a fins superiores, pode conduzir a um desmantelamento do homem e amputá-lo de sua natureza propriamente intelectual, consciente e volitiva, de acordo com Marcel de Corte.
 
Importa sublinhar que a ideologia materialista, dominante na modernidade, é levada às últimas conseqüências com a concepção marxista da história. O marxismo não representa uma antítese à forma mentis que prevalece em nossa época. Pelo contrário, é a culminação, o ponto máximo,  a apoteose deste estado de espírito.
 
A primazia do ponto de vista econômico no mundo moderno já é uma crença comum. Ela espalhou-se de modo sutil por todo o tecido social conformando modos de pensar, sentir e agir. Tornou-se um hábito quase mecânico e inconsciente que afeta praticamente a todos. Essa ideologia transfigura o econômico de um simples meio para viver e satisfazer as necessidades materiais do homem no fim e sentido último da existência. Ao absolutizar, a dimensão econômica e material deforma a estrutura complexa da realidade e faz o homem esquecer-se de uma das lições basilares dos evangelhos: “não só de pão vive o homem”.
 

Cesar Ranquetat Júnior
Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor de Ciências Humanas na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)/Campus Itaqui
 

Nota:
[1] Texto gentilmente cedido pelo autor para publicação no Portal Nacional e publicado originalmente na Revista Vila Nova. Disponível em: http://revistavilanova.com/o-economicismo-e-o-marxismo-difuso/


27/01/2014, 15:09:39


O economicismo e o marxismo difuso
Homenagem aos mártires do 11 de maio

Neste 11 de Maio completam-se 76 anos do levante Integralista contra a ditadura. Como acontece todos os anos, Integralistas de todo o Brasil encontram-se novamente diante do Mausoléu Integralista, no Rio de Janeiro, para homenagear os nossos bravos companheiros de ideal que deram suas vidas pela liberdade da nação: os heróis do 11 de Maio de 1938, únicos a se insurgirem de armas nas mãos contra o totalitarismo nazi-fascista implantado a 10 de novembro de 1937, com a outorga da Constituição do Estado Novo, pelo ditador Getúlio Vargas, de triste memória, que culminou em um período de arbitrariedades com a subtração dos direitos políticos e sociais da nação.

Quando da inauguração deste belíssimo monumento erguido em 11 de maio de 1974, Plínio Salgado, saudoso Chefe Nacional do Integralismo, impossibilitado de comparecer, reconhecendo sua importância na história do movimento do Sigma ,por manter vivas as lembranças desse momento histórico, enviou uma consagradora mensagem, desconhecida por muitos, exposta abaixo:
 
“A maior homenagem, entretanto, que prestamos a nossos mortos é a de prosseguirmos na difusão de nossa Doutrina, acima das competições políticas, convencidos de que a Filosofia Integralista constitui a salvação dos povos e a garantia da sobrevivência do nosso querido Brasil. Assim procedendo, seremos dignos e teremos o direito de erguer o braço diante deste Mausoléu, bradando com a mesma fé de ontem e a mesma fé de hoje e de amanhã: Anauê! Anauê! Anauê!” (Plínio Salgado).
 
Ao contrario do que se pode imaginar o Mausoléu foi criado durante o Estado Novo, em um período de tortura, prisões arbitrarias e perseguições, através de placas contrabandeadas para dentro do Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, por uma atitude corajosa de Integralistas que não se mantiveram omissos nos “tempos das catacumbas”. Um dos responsáveis pela homenagem foram os saudosos camisas-verdes Antônio Brêtas e Manoel de Paula Lopes, alcançando o estado atual, com a construção do monumento definitivo, erguido em 1973, por iniciativa do General Jaime Ferreira da Silva, que aglutinou outros veteranos da Acção Integralista Brasileira – AIB (1932-1937) e do Partido de Representação Popular – PRP (1945-1965) para realização da homenagem.
 
 
 
A historiografia oficial se engana em imputar aos camisas-verdes que participaram desta ação revolucionaria o desejo de levar a óbito o então mandatário da nação, ao contrario do que se afirma o objetivo dos Integralistas presentes era confinar Vargas, e sua família, para que se pudesse fazer uma transição pacifica com o objetivo da volta do Estado Democrático de Direito, com o regresso da Constituição de 1934, expurgada pelo Estado Novo e a realização das eleições presidências marcadas para 1938, na qual Plínio Salgado era o candidato da Acção Integralista Brasileira.
 
Ao todo os diversos jovens que tiveram suas vidas ceifadas pela defesa da democracia, vitimas de seu vibrante amor pelo Brasil, seus nomes encontram-se eternizados neste imponente monumento em sua homenagem, presentes e reverenciados nos corações de todos os camisas-verdes, nossas humildes homenagens aonde lembramos o dia de hoje, através do ritual Integralista, com a chamada nominal de cada Integralista assassinado após tombarem entrincheirados ao resistirem acreditando em uma pátria livre. Saudamos e reverenciamos esses heróis que jamais haveremos de esquecer.  

 
Guilherme Jorge Figueira

 
Notas:
[1] Jornal Renovação Nacional, s/d, s/n.
[2] LOUREIRO, Maria Amélia Salgado. Plínio Salgado, meu pai. 1° ed. São Paulo – SP: editora GRD, ano 2001.
[3] SALGADO, Plínio. O Integralismo na vida brasileira. In Enciclopédia do Integralismo, vol. I. Rio de Janeiro: Edições GRD/Livraria Clássica Brasileira, s/d.

09/05/2014, 23:59:12


Cento e vinte anos de Plínio Salgado

Cento e vinte anos de Plínio Salgado

Fidel Castro está morto!
130 anos de Heitor Villa-Lobos

Há exatos cento e trinta anos, na Rua Ipiranga, no bairro de Laranjeiras, na cidade do Rio de Janeiro, no Império do Brasil, nasceu o Maestro Heitor Villa-Lobos, maior compositor erudito da Terra de Santa Cruz e das Américas do século XX e um dos grandes gênios da Música Universal. É ao som das envolventes melodias, transbordantes de beleza, de vida e de Brasilidade de Villa-Lobos que escrevemos estas linhas sobre este magno intérprete da Alma Nacional, que transpôs para sua Música as vozes do nosso povo, dos nossos rios, dos nossos mares, das nossas cachoeiras, da nossa fauna e da nossa flora.

Arnaldo Magalhães de Giacomo poeticamente descreveu, no dealbar de seu livro Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, o dia de fim de verão em que veio ao Mundo este ilustre Mestre da nossa Música como um dia de céu límpido, azul e luminoso, embalado por sons como o ciciar das cigarras nas mangueiras dos quintais do tranquilo bairro de Laranjeiras, o farfalhar das folhas das numerosas árvores desta bucólica área do então Município Neutro, o chilrear dos pássaros, o cantar próximo dum seresteiro que passou pela calçada e o cantar longínquo dum velho realejo. Enquanto, porém, fora da casa em que nasceu o menino prosseguia esta sinfonia de sons, dentro dela reinava o silêncio, pois todos temiam que o recém-nascido, frágil e prematuro, pudesse não resistir e qualquer barulho poderia apressar esse possível fim. O menino, contudo, era forte e havia de viver, tendo uma vida repleta de glórias e de belezas, e não seria médico, como queria sua mãe, D. Noêmia Monteiro Villa-Lobos, mas sim um compositor, “instrumento de Deus na criação da Beleza”.[1]

Batizado no dia 17 de janeiro do ano de 1889, na Igreja de São José, Heitor Villa-Lobos sempre se declarou católico e compôs diversas peças de Música Sacra, dentre as quais as mais célebres são, sem sombra de dúvida, a Missa de São Sebastião, de 1937, e o Magnificat-Aleluia, de 1958.

O amor do travesso menino Tuhu, primeiro apelido de Heitor Villa-Lobos, pela Música, brotou desde cedo em sua alma e vem do avô materno, o compositor e pianista Antônio José dos Santos Monteiro, autor de diversas quadrilhas, valsas, polcas e modinhas, cuja Quadrilha das moças fizera verdadeiro furor na Corte dos dias do crepúsculo do Império, e vem, mais ainda, do pai, Raul da Silveira Villa-Lobos. Este, além de professor, diplomado pelo Conselho Superior de Instrução Pública como habilitado a lecionar todas as matérias do curso de preparatórios, oficial da Biblioteca Nacional, autor de livros de História, Geografia e Astronomia e tradutor de obras de diferentes campos do saber, pintor, sócio honorário do Instituto dos Bacharéis em Letras e colaborador de diversos jornais e revistas, era também musicista, tocando violoncelo, fagote e clarinete e tendo sido agraciado pela Imperatriz Teresa Cristina com uma medalha de ouro, havendo, ainda, fundado o Clube Sinfônico.

Tendo notado a vocação do filho para a Música, o Professor Raul Villa-Lobos mandou adaptar um espigão a uma viola, criando, assim, um violoncelo apropriado ao tamanho do menino, instrumento que deu ao então futuro compositor quando este contava cerca de cinco anos de idade, havendo, em seguida, ensinado a criança a tocá-lo.

Quando o menino Tuhu tinha seis anos de idade, teve que se mudar, com a família, para o interior do Estado do Rio de Janeiro e, depois, para Minas Gerais, onde viveu por algum tempo, nas cidades de Bicas e Cataguases.

A saída da família Villa-Lobos do Rio de Janeiro se deu porque Raul Villa-Lobos temia sofrer perseguições políticas do autoritário governo do Marechal Floriano, que atacara duramente em diversos artigos na imprensa, como o faria também nos livros A Revolta da Armada, de 6 de setembro de 1893 (1894) e A Revolução Federalista do Rio Grande do Sul: documentos e comentários (1897), ambos assinados com o pseudônimo de Epaminondas Villalba.

Menino da então Capital Federal, Heitor Villa-Lobos ficou fascinado com as modas de viola e os violeiros que as tocavam, bardos caboclos a que amaria até o fim de seus dias sobre a Terra,[2] como fontes de Música e da mais pura e nobre Poesia,[3] cujas melodias ecoariam em toda a obra do Mestre das Bachianas Brasileiras (1930-1945), dos Choros (1920-1929) e das suítes do Descobrimento do Brasil (1937) e sobretudo em composições como Cascavel (1917), Solidão (Solitude) (cerca de 1920) e Viola quebrada (1919-1929), tendo a última letra de Mário de Andrade e sendo a penúltima uma versão musicada do poema de mesmo nome de Rui Ribeiro Couto.

De volta ao Rio de Janeiro, o menino Heitor, ouvindo sua tia Zizinha executar, ao piano, com muito talento, o Cravo bem temperado, de Johann-Sebastian Bach, ficava a imaginar se na profunda e suave melodia do mestre alemão não havia algo que evocava a singela e doce beleza das modas de viola[4] que ouvira nos sertões mineiros, tocadas pelos menestréis caipiras, e cujas melodias guardara no fundo da alma. A Música de Bach, que amaria entranhadamente por toda a vida, muito influenciou a obra do magno compositor patrício e nomeadamente as suas geniais Bachianas Brasileiras, que até no nome homenageiam o compositor de Leipzig.

Em 1899, o Professor Raul Villa-Lobos, que, diga-se de passagem, era um homem muito pródigo, faleceu, aos trinta e nove anos de idade, vitimado pela varíola, deixando a família na pobreza.

Na alvorada do século XX, Villa-Lobos, que já compusera algumas músicas, tornou-se um grande “chorão” e seresteiro e passou a dar aulas particulares de violão e a tocar em teatros, bares, hotéis e cabarés para ganhar a vida, enquanto, por gosto, passava as noites a tocar choros e a fazer serestas em companhia de outros “chorões” e seresteiros do Rio daquele tempo. Nesta época, também tocou violoncelo na Igreja de Nossa Senhora da Penha, no bairro carioca de Jacarepaguá, acompanhando o coro daquela igreja, regido por D. Carolina Marcondes do Amaral.

Em 1905, com dinheiro obtido com a venda daquilo que restara da biblioteca do pai, Villa-Lobos viajou para o Espírito Santo e, em seguida, para o Nordeste Brasileiro, principiando a realizar o seu sonho de conhecer todo o Brasil, bem como o seu Folclore e a sua Tradição.

Depois de alguns meses no Nordeste, Villa-Lobos retornou ao Rio, ali reiniciando suas composições e voltando a tocar em teatros, bares e cabarés. A ânsia de conhecer todo o Brasil, contudo, logo o levou a viajar novamente, desta vez para o Sul do País.

Em 1908, o jovem compositor, que retornara ao Rio de Janeiro no ano anterior, atingiu não apenas a maioridade civil, ao completar vinte e um anos de idade, como também a maioridade artística, ao escrever os Cantos sertanejos, primeira obra resultante de suas brasílicas andanças,[5] que Carlos Marinho de Paula Barros chamaria de “bandeiras musicais”.[6]

Por essa mesma época, o compositor iniciou o curso de Harmonia do Instituto Nacional de Música, ministrado pelo Professor Frederico Nascimento. A rigidez e o convencionalismo imperantes no Instituto foram decisivos para que o então futuro grande renovador da nossa Música logo deixasse as aulas daquela tradicional instituição.

Pouco depois, Villa-Lobos partiu em novas viagens, desta vez pelo interior de São Paulo e por Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, ouvindo modinhas, cantos do Divino e de São Gonçalo, xácaras e outras músicas de raiz do Brasil Caboclo.

Em 1910, Villa-Lobos se engajou, no Rio de Janeiro, como violoncelista da orquestra de uma companhia de opereta que deveria seguir em turnê pelo Nordeste e por parte do Norte Brasileiro. As dificuldades financeiras, contudo, levaram a companhia à dissolução, que se deu quando esta se encontrava na cidade do Recife, em Pernambuco.

Villa-Lobos, porém, estava decidido a conhecer a região amazônica e, assim, seguiu sozinho até Fortaleza, no Ceará, e de lá até Belém, no Pará, de onde voltou a Fortaleza, dali retornando à região Norte pouco depois, em companhia dum músico, pianista e saxofonista, por nome de Donizetti. O autor dos Cantos sertanejos percorreu, ao lado de Donizetti, grande parte da Amazônia, tendo chegado com este até Manaus, que, então conhecida como a Paris das Selvas, vivia o apogeu do chamado ciclo da borracha, e depois até o Acre, onde o então jovem compositor contraiu malária, tendo, todavia, resistido bem a esta terrível doença em razão do quinino que ingeriu.

Como nas demais incursões que realizou pelo interior deste vasto Império do Brasil, Villa-Lobos recolheu, na Amazônia, inúmeros temas folclóricos, muitos dos quais posteriormente reunidos em seu monumental Guia Prático, organizado nas décadas de 1930 e 1940.

No Estado do Amazonas, Villa-Lobos, que então já tivera diversas namoradas e até noivas, enamorou-se duma bela moça inglesa, em cuja companhia resolveu seguir para os Estados Unidos da América. Ao chegar, no entanto, à ilha de Barbados, no Caribe, o vapor que os transportava desde Belém e que seguia para a pátria de Teddy Roosevelt teve de encostar para realizar alguns reparos. Uma vez na ilha, conhecido centro de jogatina, o compositor brasileiro e sua namorada inglesa acabaram perdendo na mesa de jogo todo o pouco dinheiro que possuíam, de modo que, a fim de custear a estadia no hotel em que tinham se hospedado, tiveram que tocar nos bares e cabarés da ilha caribenha, havendo ele tocado violoncelo e ela, piano. Ainda em Barbados, esfriou o amor dos dois musicistas, de sorte que a moça dali seguiu sozinha para a América do Norte e o compositor voltou para Belém.[7]

Foi na ilha de Barbados que Villa-Lobos teve a inspiração necessária para iniciar a composição das suas Danças africanas, concluídas em 1919.

De volta ao Rio de Janeiro, onde muitos o julgavam morto, tendo D. Noêmia chegado a encomendar uma Missa pela sua alma, o compositor patrício escreveu, naquele ano de 1912, as óperas em um ato Aglaia e Elisa, por ele fundidas, no ano seguinte, numa ópera em quatro atos a que deu o nome de Izaht.

Ainda em 1912, Villa-Lobos, que agora tocava violoncelo, durante o dia, na Confeitaria Colombo e, à noite, no restaurante Assírio, no edifício do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, conheceu a pianista e professora de piano Lucília Guimarães, irmã do escritor Luís Guimarães, tendo os dois se casado em 12 de novembro do ano seguinte.

Em janeiro de 1915, na cidade fluminense de Nova Friburgo, deu-se o primeiro concerto de músicas de Villa-Lobos, em que o compositor tomou parte como violoncelista e sua esposa, como pianista.

A 31 de julho do mesmo ano, Villa-Lobos, que dera mais dois concertos com composições suas em Nova Friburgo, teve o seu primeiro concerto no Rio de Janeiro, mais precisamente no Teatro São Pedro, atual Teatro João Caetano, sob o patrocínio da Sociedade de Concertos Sinfônicos e a regência do Maestro Francisco Braga.

Ainda em 1915, mais precisamente aos 13 de novembro, Villa-Lobos deu, no salão do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, o seu primeiro concerto como maestro, regendo diversas composições de sua autoria.

Em 1918, o célebre pianista judeu-polonês Arthur Rubinstein, de passagem pelo Rio, vindo de Buenos Aires, ouviu, no Cine Odeon, a orquestra deste, de que então fazia parte, como violoncelista, o compositor Villa-Lobos, executar uma de suas Danças africanas.[8] Finda a exibição do filme, o pianista foi cumprimentar o compositor, sobre cuja Música, aliás, já ouvira grandes elogios desde que chegara ao Brasil, e manifestou o desejo que tinha de conhecer mais profundamente a obra do jovem Maestro brasileiro. Villa-Lobos, porém, disse a Rubinstein que, como virtuose que era, não podia compreender sua Música. Convencendo-se, porém, de que o famoso pianista realmente queria conhecer sua Música e de que poderia realmente apreciá-la, Villa-Lobos logo mudou de atitude em relação a ele e já no dia seguinte, pela manhã, visitou-o no Palace Hotel, onde estava hospedado. E visitou-o em companhia dum grupo de músicos, apresentando, então, a Rubinstein, no quarto de hotel em que este dormira, as suas principais composições. Estas maravilharam o celebrado pianista, que, a partir de então, tornou-se um dos maiores admiradores e divulgadores de Villa-Lobos e de sua Música, contribuindo como poucos para difundi-la fora das fronteiras do Brasil.

Isto posto, cumpre ressaltar que, anos mais tarde, declarou Rubinstein a Vasco Mariz que Villa-Lobos era, em seu sentir, o mais notável músico de toda a América.[9]

Em 1922, a convite de Ronald de Carvalho e de Graça Aranha, Villa-Lobos participou da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, nela tendo regido várias de suas composições e havendo sido, por mais de uma vez, vaiado, o que se deu tanto em razão de uma parte da plateia não ser capaz de compreender a grandeza da sua Música quanto por ter-se apresentado no palco de casaca e chinelos, o que, em verdade, ocorreu em virtude de se encontrar, então, com um dos pés machucado. As vaias, porém, não incomodaram o Maestro, que, com efeito, até se divertiu com elas, que, ademais, amplamente comentadas dentro e fora dos jornais, até promoveram a sua Música, sobretudo na Capital Paulista.

Ainda em 1922, Villa-Lobos apresentou, perante o Rei Alberto, da Bélgica, então em visita ao Brasil, as suas Sinfonias número 3 (Da Guerra) e 4 (Da Vitória).[10]

No ano seguinte, Villa-Lobos realizou sua primeira viagem à Europa, fixando-se em Paris, cidade em que logo conquistou notória popularidade,[11] compôs diversas músicas, e, em 1924, viu Rubinstein executar a sua Prole do bebê e Vera Janacopulos cantar, em português, os seus Epigramas irônicos e sentimentais, versões musicadas de alguns dos poemas da obra do mesmo nome de Ronald de Carvalho.

Entre 1923 e 1930, o Maestro Villa-Lobos viveu a maior parte do tempo em Paris,[12] onde, pela força do invulgar talento e da incontestável genialidade, marcou seu lugar entre os maiores compositores daquele tempo. Fez, porém, nesse período, diversas viagens ao Brasil, realizando, em São Paulo, uma série de concertos, patrocinados por D. Olívia Guedes Penteado, tendo, então, a oportunidade de dar as primeiras audições, em nossa Pátria, não apenas de muitas composições suas, mas também de diversas obras de grandes compositores franceses, incluindo o Bolero, de Maurice Ravel.[13]

Como frisou Vasco Mariz, o período em que Villa-Lobos viveu em Paris foi um período de muito intensa  e inspirada produção, em que o compositor escreveu, além da maior parte da longa série dos Choros, iniciada no Brasil, em 1920, com o Choro nº 1, dedicado ao compositor Ernesto Nazareth, as Cirandas, o Rude poema, Momo precoce, as Serestas e o Noneto.[14]

Considerados por muitos a sua mais notável contribuição para a chamada Música Moderna,[15] os Choros são, no dizer de Arnaldo Magalhães de Giacomo, “uma forma de música toda especial em que Villa-Lobos procurou fundir suas impressões brasileiras”. Neles se sente, ainda na expressão do autor de Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, “a paisagem da Pátria, a voz dos pássaros, lembranças de serenatas e valsinhas suburbanas, ritmos do carnaval carioca, a voz trêmula do violão, dolências de cantigas africanas”. Ademais, o índio constantemente se faz presente na referida obra, em temas que o compositor colheu nas próprias selvas, enquanto líricas expressões de modinhas populares pátrias aparecem de quando em quando, dando à melodia dos choros a espontânea ingenuidade do povo do Brasil Profundo.[16]

Em 1926, Villa-Lobos viajou à Argentina, onde realizou três festivais sinfônicos para a Asociación Wagneriana, de Buenos Aires, e, retornando à Europa, promoveu, no ano seguinte, diversas audições de suas inspiradas obras e regeu orquestras em Londres, Amsterdam, Viena, Berlim, Bruxelas, Liège, Madri, Lyon, Amiens, Poitiers, Barcelona e Lisboa.[17] Ainda em 1927, tornou-se Professor de Composição do Conservatório Internacional de Paris, onde foi colega, dentre outros, de Maurice Ravel, Manuel de Falla, Florent Schmitt, Alfredo Casella e Arthur Rubinstein.

Em 1930, Villa-Lobos voltou ao Brasil, a convite de D. Olívia Guedes Penteado, que patrocinou mais uma série de concertos do Maestro e compositor em São Paulo.

Antes, contudo, de seguir para a Capital Bandeirante, Villa organizou uma audição de obras suas no Recife, mais precisamente no tradicional Teatro Santa Isabel, e passou alguns dias no Rio de Janeiro, matando as saudades da terra natal.[18]

Durante o período em que permaneceu em São Paulo, o Maestro Villa-Lobos, negativamente impressionado com o descaso com que a Música era então tratada nas escolas brasileiras, apresentou, em casa de D. Olívia Guedes Penteado, ao Dr. Júlio Prestes, Presidente do Estado de São Paulo e candidato à Presidência da República pelo Partido Republicano Paulista (PRP), um memorando em que esboçou um valioso plano de educação musical das nossas crianças. O Dr. Júlio Prestes prometeu dar integral apoio àquele plano, que também foi apresentado à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, caso fosse eleito Presidente da República.   

 O Dr. Júlio Prestes se elegeu à Presidência da República, mas não pôde assumi-la em razão do triunfo da chamada Revolução de 1930, encabeçada pelas forças da denominada Aliança Liberal. Assim, Villa-Lobos, desalentado, resolveu voltar à Europa. Já se preparava o genial  Maestro e compositor patrício para seguir para o Velho Continente, quando recebeu a visita de um oficial graduado, que o convidou a comparecer ao Palácio dos Campos Elíseos a fim de debater com o Tenente João Alberto Lins de Barros,  então Interventor do Estado de São Paulo, o seu plano de educação musical. O Interventor de São Paulo e o musicista entraram em entendimento e este último desistiu de retornar a Paris, passando a se dedicar com grande afinco à realização de seu projeto.[19]

Assim, com o apoio de João Alberto, Villa-Lobos, este “bandeirante da música”, na expressão de Francisco Pereira da Silva,[20] realizou uma verdadeira bandeira artística por diversos municípios do Estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, em que teve por companheiros o pianista e Maestro Sousa Lima, a pianista Antonieta Rudge e a cantora Nair Duarte Nunes.

Durante esta sua bandeira artística por parte do interior do nosso País, além de dar concertos, Villa-Lobos, reacendendo seu espírito altamente combativo, fez inúmeras conferências violentíssimas, em que, dentre outras coisas, atacou duramente o futebol, que, em seu entender, fazia a inteligência humana se desviar da cabeça para os pés.[21]

Em 1932, após dois anos de ingentes esforços em prol da educação musical nas escolas paulistas, Villa-Lobos voltou para o Rio de Janeiro para dirigir a Superintendência de Educação Musical e Artística, recém-criado órgão da Prefeitura do então Distrito Federal. A partir de então, realizou o Maestro, na Capital do País, intensa propaganda de educação popular por meio de grandes concentrações orfeônicas, conferências e artigos publicados nos maiores jornais cariocas.[22]

Ainda em 1930, quando se encontrava em São Paulo, Villa-Lobos iniciou a composição da sua obra-prima, as Bachianas Brasileiras, terminando ainda em tal ano a Bachiana Brasileira nº 1, escrita para os concertos do Maestro Burle Marx no Rio de Janeiro, e a Bachiana Brasileira nº 2, que é, sem dúvida alguma, a mais célebre de todas as Bachianas, bem como, em nosso sentir, a mais bela dentre todas essas verdadeiras joias da nossa Música. Composta por Prelúdio (O Canto do Capadócio), Ária (O Canto da nossa Terra), Dança (Lembrança do Sertão) e Tocata (O trenzinho do caipira), esta última Bachiana foi tocada pela primeira vez no VI Festival Internacional de Música Contemporânea da Bienal de Arte de Veneza, em 1938, sob regência do Maestro Alfredo Casella.

A série das nove Bachianas Brasileiras, concluída em 1945, é um conjunto de obras inspiradas na atmosfera musical de Bach, considerado pelo compositor pátrio como um manancial folclórico universal,[23] e, sobretudo, na alma musical da Nação Brasileira,[24] nela tendo Villa-Lobos realizado a perfeita união entre Bach e o Brasil Profundo.

Em 1933 foi criada, no Rio de Janeiro, a Orquestra Villa-Lobos e, no ano seguinte, o Maestro regeu, também no Rio, o seu bailado Jurupari (Choro nº 10), espetáculo que seria repetido em 1935, na Sala Pleyel, em Paris. Em julho de 1934, foi ao Recife, onde presidiu um concurso de bandas e orfeões militares, organizado em sua homenagem.

No ano de 1935, Villa-Lobos viajou novamente à Argentina, onde fora contratado para reger três concertos no Teatro Colón, em Buenos Aires. Estando na capital argentina por ocasião da visita de Getúlio Vargas àquele país, regeu também, na noite de gala que então houve no Teatro Colón, aos 25 de maio daquele ano, o seu bailado Uirapuru, composto em 1917. Ainda antes de volver ao Brasil, organizou o Maestro, na Asociación Wagneriana, um concerto de música de câmara.

Em 1936, a convite do governo da Tchecoslováquia, Villa-Lobos seguiu, no dirigível alemão Zeppelin LZ 129 Hindenburg, até a Europa, onde deveria tomar parte no Congresso de Educação Musical de Praga, representando o Brasil. Em razão duma avaria nos motores, porém, o Zeppelin se atrasou um pouco, de modo que o Maestro chegou a Praga somente depois do término  do referido Congresso. Este fato, porém, não impediu o assinalado musicista de dar uma conferência e um espetáculo na bela capital tchecoslovaca, espetáculo este que fez enorme sucesso e no qual, com uma cantora local e um pequeno orfeão infantil, executou sua Alegria de Viver, cantada no idioma de Camões.[25]

 Após representar o Brasil em Praga, Villa-Lobos seguiu para Viena, onde, a convite da Academia de Música da capital austríaca, foi membro do júri do Concurso Internacional de Canto e Piano, e, em seguida, fez uma conferência na Legação do Brasil na antiga capital do Sacro Império Romano-Germânico e do Império Austro-Húngaro.

De volta ao Brasil, Villa-Lobos, unindo-se às celebrações do centenário de Carlos Gomes, regeu, no dia 27 de outubro daquele ano de 1936, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o oratório Colombo, do magno compositor campineiro. Auxiliado por Salvatore Ruberti, Villa-Lobos, maior compositor do Brasil e das Américas do século XX, transformou em ópera o referido oratório, uma das obras-primas do maior compositor do Brasil e das Américas do século XIX, escrevendo, para aquela apresentação, um interlúdio rigorosamente no estilo da obra do gênio de Campinas.[26]

Em 1937, Villa-Lobos, que, no ano anterior, contra a vontade de sua mãe, D. Noêmia, trocara a esposa Lucília por Arminda Neves d’Almeida, tornou-se membro honorário da prestigiosa Academia de Santa Cecília, em Roma, e, em nosso País, estreou o filme Descobrimento do Brasil, de Humberto Mauro, tendo como trilha sonora as suítes de mesmo nome do compositor das Bachianas Brasileiras.

 Dois anos mais tarde, o compositor brasileiro escreveu, em prosa, uma Oração a Santa Cecília, padroeira da Música, lida por César Ladeira no programa radiofônico A Hora do Brasil do dia 22 de novembro (Dia da Música e dos Músicos) daquele ano de 1939.

Em 1940, Villa-Lobos chefiou a Embaixada Artística Brasileira, que seguiu para Montevidéu, no Uruguai, e regeu, no estádio do Club de Regatas Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, um coro de quarenta mil estudantes, numa demonstração de canto orfeônico. No ano seguinte, numa nova demonstração de canto orfeônico no estádio do Vasco da Gama, sob a regência de Villa-Lobos, o cantor Sílvio Caldas cantou Gondoleiro do amor, versão musicada do poema de Castro Alves, acompanhado por trinta mil vozes de estudantes.

No ano de 1942, Villa-Lobos foi eleito membro da Sociedade dos Homens de Letras e foi criado, no Rio de Janeiro, sob a direção do compositor, o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, que em 1967 passaria a se chamar Instituto Villa-Lobos.

Em 1944, o Maestro, que, no ano anterior, recebera o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Nova Iorque, dirigiu uma série de concertos sinfônicos na Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, e foi eleito membro correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, da Argentina. Ainda no ano de 1944, realizou uma excursão artística ao Chile e, em seguida, iniciou uma longa turnê pelos Estados Unidos da América.

De volta ao Brasil em 1945, fundou, neste mesmo ano, a Academia Brasileira de Música, de que foi o primeiro presidente. No ano seguinte, recebeu o Prêmio de Música, concedido pelo Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura.

Em 1948, já sofrendo do câncer que o vitimaria onze anos mais tarde, o Maestro Villa-Lobos submeteu-se a delicada cirurgia no Memorial Hospital de Nova Iorque.

No ano seguinte, reiniciou suas turnês artísticas por muitas das principais cidades da Europa e da América, que se estenderiam até o ano de sua morte.

Em 1952, tornou-se membro correspondente do Instituto de França e, três anos mais tarde, Oficial da Ordem Nacional da Legião de Honra, também da França.

Em 1957, ano em que completou setenta anos de idade, dirigiu um concerto com a Filarmônica de Nova Iorque e o jornal The New York Times lhe dedicou um editorial. Depois regeu, na BBC de Londres, a Orquestra Filarmônica da capital inglesa, e, no Brasil, foi homenageado com a Semana Villa-Lobos, realizada em São Paulo, tendo sido, na mesma ocasião, agraciado com o título de Cidadão Paulistano.

Em abril de 1959, o Maestro Villa-Lobos regeu, em Trieste, na Itália, o último de seus concertos europeus e, em julho do mesmo ano, na cidade de Big Mountain, perto de Nova Iorque, regeu aquele que não foi apenas o seu último concerto nos Estados Unidos da América, como também o derradeiro de todos os concertos por ele regidos ao longo da vida terrena. De volta à Pátria, recebeu, no dia 14 de julho, durante as celebrações do cinquentenário do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a Medalha Carlos Gomes, tendo sido, pouco depois, internado no Hospital dos Estrangeiros, onde permaneceu por alguns meses, recebendo, nesse período, algumas visitas ilustres, como aquelas do compositor argentino Alberto Ginastera, do escritor francês André Malraux e do Presidente Juscelino Kubitschek. No dia 7 de setembro, assistiu, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, ao seu último concerto, no qual o Maestro Edoardo Guarnieri regeu o seu Magnificat-Aleluia, composto no ano anterior.

No dia 17 de novembro, não suportando o agravamento da doença, faleceu o Maestro Heitor Villa-Lobos em sua residência.  Seu corpo foi velado no Salão Nobre do Palácio da Cultura e sepultado, no dia seguinte, no Cemitério de São João Batista.

Como bem observou, porém, Arnaldo Magalhães de Giacomo, em seu Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, continua vivo o genial criador das Bachianas Brasileiras e sua Música se eleva pelos quatro cantos da nossa amada Terra Brasileira, enquanto seu nome está gravado no coração do nosso povo.[27]

Plínio Salgado, em seu pequeno porém magnífico Compêndio de Instrução Moral e Cívica, sabiamente elencou Villa-Lobos, assim como os também compositores Carlos Gomes e Alberto Nepomuceno, por ele reputados, com justiça, os três grandes gênios da nossa Música, entre os heróis da Pátria Brasileira.[28]

Em seu monumental Dicionário do Folclore Brasileiro, observou Luís da Câmara Cascudo que Villa-Lobos é “um dos mais eminentes compositores de universal projeção contemporânea”. Em seguida, salientou que a sua prodigiosa imaginação, a surpreendente originalidade das suas soluções técnicas, a envolvente e sempre nova beleza da sua melodia, a inesgotável riqueza dos recursos de expressão, o soberano domínio em qualquer dos gêneros musicais, a graça, a natural e irradiante simpatia da figura do mestre, dele fizeram uma “personalidade invulgar e rara presença na legitimidade de gênio incontestável”. Ainda no dizer de Câmara Cascudo, a obra de Villa-Lobos, “vasta e soberba de solidez e força sugestiva, mantém o sabor musical acentuadamente brasileiro”, particularmente do Folclore Nacional, “fonte predileta da inspiração magistral”, valorizando bailados indígenas, rondas infantis, danças e cantos afro-brasileiros, modinhas e choros dos nossos seresteiros do campo e da cidade, “numa elevação de ritmos da tradição e aproveitamento dos efeitos instrumentais populares”.[29]

Ainda como bem destacou o ilustre autor de Vaqueiros e cantadores e máximo estudioso do nosso Folclore (Câmara Cascudo), o interesse, o devotamento, a alegria do convívio humano para com todas as legítimas manifestações da Cultura Pátria, “integram Villa-Lobos como uma das égides naturais na campanha de pesquisa e estudo do folclore nacional”.[30]

Assim, Villa-Lobos, “bandeirante do século XX”, na expressão de Carlos de Paula Barros,[31] e “bandeirante da música”, no dizer de Francisco Pereira da Silva,[32] foi, de fato, um Bandeirante, um Bandeirante do Brasil Profundo e da sua Tradição, que descobriu o inesgotável veio de ouro das essências do Folclore Pátrio.

Encerremos estas linhas. Como restou dito, o Maestro Heitor Villa-Lobos, maior compositor erudito do Brasil e das Américas do século XX e um dos grandes gênios da Música Universal, muito engrandeceu esta nossa Terra de Santa Cruz com sua obra magistral, que, como aquela de Carlos Gomes, já faz parte da própria Identidade Nacional. Rogamos a Deus, Criador e Imperador do Universo, que suscite, na atual e nas próximas gerações, homens e mulheres que amem o nosso Brasil tanto quanto Villa-Lobos o amou e que tenham ao menos uma fração do ímpar poder criador deste grande filho deste vasto Império da Terra de Santa Cruz/Brasil.

 

Por Cristo e pela Nação!

Victor Emanuel Vilela Barbuy,

São Paulo, 5 de março de 2017-LXXXIV.

 


NOTAS:

 

[1] Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, 5ª edição, revista, Ilustrações de Oswaldo Storni, São Paulo, Edições Melhoramentos, 1968, pp. 9-11.

 [2] Cf. Francisco Pereira da SILVA, Villa-Lobos (Coleção A vida dos grandes brasileiros – 10), Volume supervisionado por Américo Jacobina Lacombe, São Paulo, Editora Três, 2001, p. 43.

 [3] Cf. Arnaldo Magalhães de GIACOMO, Villa-Lobos: Alma sonora do Brasil, cit., p. 17.

 [4] Idem, p. 19.

 [5] Cf. Vasco MARIZ, Heitor Villa-Lobos, Rio de Janeiro, Serviço de Publicações do Ministério das Relações Exteriores, 1949, p. 36; Francisco Pereira da SILVA, Villa-Lobos, cit., p. 63.

 [6] O romance de Villa-Lobos, Rio de Janeiro, Editora A Noite, 1951, p. 33.

 [7] Cf. Francisco Pereira da SILVA, Villa-Lobos, cit., p. 66.

 [8] Cf. Vasco MARIZ, Heitor Villa-Lobos, cit., p. 44.

 [9] Idem, p. 45.