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O economicismo e o marxismo difuso

Um dos traços principais do marxismo difuso que predomina na mentalidade contemporânea  é o economicismo. O  economicismo parte da premissa de que os fatores econômicos são os fatores decisivos, os mais importantes e fundamentais para a vida individual e social.  É a crença infundada no primado do econômico, na transformação deste fator na chave explicativa única de todos os acontecimentos da vida humana. Desse modo, todas as demais atividades e valores que escapam ao império da lógica econômica são considerados como secundários, acessórios e até mesmo supérfluos.

Na sociedade brasileira e na cultura ocidental, essa mentalidade se expressa de múltiplas e variadas maneiras. Ao folhearmos os jornais, ao assistirmos as reportagens jornalísticas na televisão ou ao irmos a uma festa ou encontro social qualquer podemos perceber que boa parte dos assuntos e questões levantadas referem-se a assuntos e temas relacionados com a economia, as finanças e outros afins que dizem respeito aos aspectos materiais e crematísticos da existência.
 
O domínio do fator econômico também se manifesta nos debates políticos eleitorais e nas plataformas e agendas programáticas dos diversos partidos. O debate político é na atualidade, sobretudo, uma discussão em torno de questões econômicas e administrativas. A preocupação com as escolhas do Ministro da Economia e do presidente do Banco Central são vistas como as mais decisivas para os destinos da nação. Tudo se reduz a problemas econômicos.
 
O economicismo reinante estimula o pragmatismo e o utilitarismo, seus irmãos siameses. Assim sendo, valoriza-se sobremaneira as atividades que são úteis, que têm um impacto imediato e que possibilitem uma aplicação prática. Produtividade, rendimento, prosperidade, sucesso, eficiência e eficácia transmutam-se em palavras mágicas e sagradas, os novos mantras de uma civilização quantitativa que glorifica de maneira hipertrófica o progresso material, tecnológico e industrial.
 
Vale lembrar que os agentes do domínio economicista desdenham do ócio, da contemplação, da vida intelectual. Por conseqüência, o bem-estar material, a busca a qualquer custo do prazer, da segurança, da proteção e da comodidade acabam por atrofiar e corroer as capacidades mais elevadas do espírito humano. Os interesses superiores e mais altos que transcendem a esfera da existência meramente material são deixados de lado. Conforme alertara o filósofo Marcel de Corte, conseqüência inevitável deste processo é a negação da inteligência especulativa que repousa na contemplação da verdade e no conhecimento da realidade. Nas sociedades modernas o primado da ação veio substituir a primazia da contemplação, presente nas sociedades tradicionais. Esta tendência atinge seu clímax e alcança o posto de verdade absoluta quando legitimada e justificada intelectualmente por Karl Marx em sua famosa máxima de que os filósofos se limitaram a interpretar o mundo, sendo agora necessário transformá-lo. Sobre isto Marcel de Corte afirma:
 
O marxismo é o ponto de convergência desse vasto movimento pelo qual o homem se desvia, [...] da atividade contemplativa do espírito dirigida no sentido da verdade de seu progresso moral para o bem, passando a dedicar-se sem limites apenas à atividade técnica, laboriosa e transformadora do mundo, que então lhe resta.

Por seu turno, os valores tradicionais da honra, da franqueza, da autenticidade, da nobreza de caráter, do heroísmo e do sacrifício são esquecidos. Espraia-se o espírito do sibaratismo, do exibicionismo narcisista e da avareza que fecha o espírito humano à dimensão da transcendência. Esta existência inautêntica, empobrecida, é magistralmente descrita por Balzac em uma passagem luminosa de seu romance Eugénie Grandet:
 
Os avarentos não acreditam em vida futura; para eles, o presente é tudo. Essa reflexão lança uma luz horrível sobre a época atual, quando, mais que em qualquer outra, o dinheiro domina leis, política e costumes. Instituições, livros, homens e doutrinas, tudo conspira para minar a crença numa vida futura sobre a qual o edifício social se apóia há mil e oitocentos anos. Hoje em dia o sepulcro é uma transição pouco temida. O futuro, que nos esperava além do réquiem, foi transposto para o presente. Chegar por todos os meios ao paraíso terreno do luxo e dos gozos da vaidade, petrificar o coração e macerar o corpo para obter posses passageiras, tal como, antes, se sofria o martírio da vida para obter bens eternos, esse é o pensamento geral! Pensamento, aliás, escrito em toda parte, até nas leis, que perguntam ao legislador: “Como pagas?” em vez de dizer: “Como pensas?”. Quando essa doutrina tiver passado da burguesia ao povo, que será do país?

O avaro de Balzac é homem preso à imanência, é o homem moderno que perdeu o senso da eternidade. É um homúnculo robotizado, desprovido da sensibilidade para perceber valores mais elevados. Este tipo humano não é negado pela antropologia marxista, pelo contrário.
 
O homo-oeconomicus do marxismo –  homo-faber -, reduzido à  condição de trabalhador e produtor de bens materiais,  é uma concepção antropológica que barbariza e desfigura a natureza humana. Ademais, uniformiza e padroniza os indivíduos convertendo-os em meras peças descartáveis. Subordina e rebaixa a pessoa humana aos imperativos tecnocráticos e coletivistas.
 
Neste cenário cultural as figuras hieráticas dos santos, dos sábios, dos ascetas e dos homens de pensamento, ou seja, dos tipos humanos dedicados às atividades reflexivas e espirituais são apenas sombras longínquas de um passado remoto já quase esquecido.
 
Busca-se o bem-estar bovino, o ganho, a satisfação e o prazer acima de tudo. Anestesiado pela abundância material e por um ativismo desenfreado, o homem moderno esquece que os verdadeiros problemas da existência humana não são de ordem material. Os reais dramas humanos são de origem espiritual e moral. Dessa maneira, a prosperidade material e o sucesso econômico não são garantias de uma vida pessoal íntegra, virtuosa e dotada de um sentido superior. Pelo contrário, a expansão desmedida das atividades unicamente técnicas, práticas e econômicas, privadas de qualquer subordinação a fins superiores, pode conduzir a um desmantelamento do homem e amputá-lo de sua natureza propriamente intelectual, consciente e volitiva, de acordo com Marcel de Corte.
 
Importa sublinhar que a ideologia materialista, dominante na modernidade, é levada às últimas conseqüências com a concepção marxista da história. O marxismo não representa uma antítese à forma mentis que prevalece em nossa época. Pelo contrário, é a culminação, o ponto máximo,  a apoteose deste estado de espírito.
 
A primazia do ponto de vista econômico no mundo moderno já é uma crença comum. Ela espalhou-se de modo sutil por todo o tecido social conformando modos de pensar, sentir e agir. Tornou-se um hábito quase mecânico e inconsciente que afeta praticamente a todos. Essa ideologia transfigura o econômico de um simples meio para viver e satisfazer as necessidades materiais do homem no fim e sentido último da existência. Ao absolutizar, a dimensão econômica e material deforma a estrutura complexa da realidade e faz o homem esquecer-se de uma das lições basilares dos evangelhos: “não só de pão vive o homem”.
 

Cesar Ranquetat Júnior
Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor de Ciências Humanas na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)/Campus Itaqui
 

Nota:
[1] Texto gentilmente cedido pelo autor para publicação no Portal Nacional e publicado originalmente na Revista Vila Nova. Disponível em: http://revistavilanova.com/o-economicismo-e-o-marxismo-difuso/


27/01/2014, 15:09:39



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